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O que os dados nos revelam sobre o espaço transformado em lugar-pra ticado?

Ao analisarmos os usos sociais, isto é, as formas de apropriação dos espaços da Praça Anhangava, percebemos dificuldades por parte dos moradores do entorno dessa praça. Isso se deve pelo fato de haver um muro ao redor do espaço destinado ao lazer comunitário de- nominado ‘condomínio’, o que interfere no trânsito de pessoas e veículos nesse local, que em tese, deveria ser público. Essa praça, localizada no ‘condomínio’, possui as janelas das casas voltadas para ela, com vários muros de fundos de quintal voltados para a praça, o que ao mesmo tempo que aumenta a sensação de segurança, também inibi a espontaneidade/li- berdade no uso da praça. Existem ainda câmeras de vigilância instaladas em diversos locais da praça, além de vigilantes que circulam pelo local diariamente com motocicletas. Consi- derando que estamos diante de um espaço público, esse controle torna o espaço privado e os usuários que a frequentam passam a ser compreendidos como “invasores”.

Além desse cenário, junto à quadra de futebol, existe uma placa fixada, na qual consta o telefone de contato direto com uma Unidade da Política Militar (PM). Alguns frequen- tadores da praça comentaram que, caso algum usuário ou morador constate a presença de pessoas utilizando drogas lícitas e ilícitas ou com ‘aparência suspeita', basta entrar em con- tato com a PM que brevemente uma viatura vai ao local abordar os sujeitos identificados. Esse conjunto de elementos geram na praça um incomodo silêncio vigilante, sendo possível constatar que os usuários do espaço, quando conversam entre si, o fazem em tom nitidamente mais baixo. Nos sons ao redor da praça praticamente não se escutam vozes de pessoas. quando isso ocorre em grande parte são crianças. Entretanto estas, quando brin- cam no local, fazem-no em tom de voz aparentemente controlado. é possível ouvir sons de pássaros, de aviões e carros que transitam pela BR 277, próxima da região.

As formas de uso dos mobiliários parecem-nos menos criativas e espontâneas se com- parados com a Praça do Bosque e apresentado na Nota de Rodapé 12, em nossas observa- ções as brincadeiras desenvolvidas pelas crianças nos diferentes espaços eram pré-determinadas, ou seja, elas não extrapolavam as possibilidades que os brinquedos pre- sentes na praça permitem. Percebemos, em alguns momentos, que grupos de crianças op-

tavam, por exemplo, a jogar futebol no quintal de uma residência localizada em frente à praça, num espaço de aproximadamente 10m², ao invés de fazê-lo nos espaços amplos ou quadra esportiva disponíveis. As canchas de futebol de areia e de vôlei de areia estão cons- tantemente sem uso.

As características acima descritas ocorrem, possivelmente, por se tratar de uma área com características ‘privadas’. Apesar do gerenciamento da praça e do loteamento não ser de função exclusiva dos órgãos de governo, é possível constatar aquilo que Carmona (2010) denomina como over-management, isto é, um excesso de gerenciamento e de controle do espaço público em questão com forte tendência a torná-lo excludente. Neste caso, o geren- ciamento não se dá por parte do Estado, mas pelos próprios moradores que por meio de uma Associação de Moradores constituíram um regulamento para o chamado ‘condomínio’. As câmeras de vigilância instaladas na praça, a empresa de vigilância contratada e as porta- rias de acesso ao loteamento são exemplos dos chamados Hard Controls (Carmona, 2010).

quando algumas pessoas que frequentam a praça (moradores e visitantes) foram in- terrogadas, percebe-se nos discursos que o fator decisivo que as levam a frequentá-la é a se- gurança. Um senhor de aproximadamente 40 anos de idade afirmou que frequenta a praça semanalmente, ou no mínimo quinzenalmente, trazendo sua filha (de 8 anos de idade) jun- tamente com amigos e amigas. O mesmo sujeito relata que opta pela Praça Anhangava por se tratar de um lugar seguro, que dificulta o acesso das pessoas que vivem do outro lado. Percebe-se no discurso de várias pessoas o estigma de 'lugar perigoso' frequentado por pes- soas 'violentas' ou 'mal intencionadas' atribuído à região e aos moradores do outro lado do muro, fora do espaço cercado por muros. Trata-se do medo e da consequente rejeição de conviver num mesmo espaço público. Justamente aquilo que Caldeira (2000) discute ao abordar a função dos chamados ‘enclaves fortificados’. Ao mesmo tempo que oferecem uma suposta segurança, produzem ou reforçam o medo e a segregação no espaço urbano.

Em contrapartida, embora todo esse regramento contribua para oferecer maior sen- sação de segurança, pode elevar os níveis de desconfiança dos moradores e usuários. Jacobs (2003) afirma que “a segurança das ruas é mais eficaz, mais informal e envolve menos traços de hostilidade e desconfiança exatamente quando as pessoas as utilizam e usufruem espon- taneamente e estão menos conscientes, de que estão policiando [e sendo policiadas]” (p.37, grifos nossos).

O muro que delimita o condomínio acaba segregando as pessoas, na medida em que, além da sua dimensão física, sua presença simbólica inibe a entrada dos moradores ‘do outro lado’ do muro, desestimulando o uso da praça Anhangava e a possibilidade de convívio com outras pessoas.

Podemos afirmar que esse condomínio, onde localiza-se a praça Anhangava, se carac- teriza como um ‘enclave fortificado’ (Caldeira, 2000). Tais enclaves criam fronteiras fixas e espaços de acesso restrito e controlado, o que acaba por impedir que o espaço público cumpra com sua função socializadora. A vida cotidiana na cidade de muros reforça valores como incivilidade, intolerância e discriminação.

quando o acesso a certas áreas é negado para algumas pessoas e quando grupos di- ferentes não interagem no espaço público, as referências e ideais de abertura, igual-

dade e liberdade como princípios da vida social não são mais possíveis (Caldeira, 2000, p. 340)

No mesmo sentido Gomes (2002, p. 188) afirma que esses ambientes homogêneos e isolados, as chamadas ‘ilhas utópicas’, “recusam a diferença, a liberdade de entrada, a possi- bilidade do encontro com o diverso, a construção de uma verdadeira individualidade dentro de uma coletividade variada e múltipla”.

Tal cenário parece corroborar também com o conceito de agorafobia10urbana discu-

tido por Borja e Muxí (2000). Em grande medida os condomínios fechados se tornaram respostas aos problemas de insegurança das grandes cidades.

Até esse momento apresentamos as características e as formas de uso da Praça Anhan- gava. Procurando dar continuidade à análise comparativa que nos propomos realizar, tra- zemos agora elementos que compõe a Praça do Bosque.

No que diz respeito às formas de uso e apropriação dos espaços da Praça do Bosque, trata-se de um espaço público que convida a permanência e ao convívio no local. Em vários dias da semana, em horários distintos, ocorrem encontros de pessoas que notadamente fazem parte do ‘pedaço’11. Percebe-se também, devido a sua posição geográfica, que a praça

é utilizada como espaço de passagem.

As janelas das casas e instituições localizadas ao redor da praça não estão voltadas para ela, ou são distantes da mesma. Isso parece corroborar com as atitudes mais espontâneas e criativas percebidas nos sujeitos que frequentam o local12, tanto no que diz respeito as formas

de usos dos mobiliários disponíveis, quanto para realização do lazer desviante (Rojek, 2000), que se caracteriza por atitudes que acabam transgredindo a lei e os princípios morais que regem uma sociedade, como por exemplo, o consumo de drogas ilícitas. é possível notar uma atitude de preocupação e controle mútuo entre os usuários da praça. A quantidade e heterogeneidade de pessoas, bem como formas de uso e apropriação são muito maiores e di- versas se compradas com a outra praça. Sob uma aparente desordem, existe uma ordem sur- preendente que garante a manutenção de uma sensação de segurança e de ‘liberdade’.

As formas de uso e apropriação da referida praça conferem a si um caráter de ‘lugar’, conforme a definição de Tuan (2013), pois observam-se diferentes maneiras, com sentidos e significados próprios, que a comunidade confere ao referido espaço público.

Durante a semana a apropriação ocorre predominantemente com as crianças utili- 10Para Borja y Muxi (2000, p.25) “la agorafobia urbana es una ‘enfermedad’ producida por la degra-

ción o la desaparición de los espacios públicos integradores y protectores a la vez que abiertos para todos”.

11Para Magnani (2002, p.20), o pedaço “supõe uma referência espacial, a presença regular de seus

membros e um código de reconhecimento e comunicação entre eles”.

12As crianças fazem usos diversificados dos equipamentos. Por exemplo, ao se apropriarem do es-

corregador, desciam de cabeça para baixo, viravam cambalhota segurando no ferro que sustenta o escorregador, ao invés de escorregarem subiam, desciam dois de cada vez; quando brincavam na gangorra, além da forma convencional, subiam de um lado e desciam do outro, muitas vezes esse brinquedo servia, também, como ponto de encontro entre as senhoras. Mesmo com a padronização dos brinquedos que constituem o playground, em nossas observações tivemos a possibilidade de perceber que principalmente as crianças procuram ressignificar esses espaços, extrapolando sua apropriação, que a princípio parece pré-determinada.

zando o parquinho, com a presença de adultos ‘cuidando’ delas enquanto brincam. As pes- soas que se responsabilizam pelas crianças normalmente ficam sentadas nos bancos da praça, feitos com troncos de árvores, permanecendo por mais tempo no local. Podemos afirmar que se esses bancos fossem qualificados, a permanência poderia ser maior ou ainda permi- tiria outras formas de apropriação. Para Gehl (2013) a existência de bons locais para se sen- tar oportuniza o uso de numerosas atividades nos espaços públicos.

Outro mobiliário utilizado, e ressignificado em distintos períodos do dia são os equi- pamentos para práticas corporais. Em alguns períodos são os adultos que os utilizam se- guindo a proposta original de uso deste equipamento. Em outros momentos são as crianças que se apropriam do mesmo equipamento, fazendo deste um lugar de brincadeiras.

Essa Praça no período de dezembro de 2014 a junho de 2016 recebeu quatro eventos, realizados por ações locais, onde circulavam pela praça mais de 500 pessoas, em grande parte moradores do entorno. Tanto a comunidade, o poder público e outras instituições foram convidados a contribuir com o processo de reconversão da praça. De acordo com Borja & Muxí (2000) tal processo procura qualificar os espaços públicos, dentre eles ruas e praças “(...) por meio de ajardinamento, novos mobiliários, iluminação, equipamentos sociocultu- rais, que se convertem em verdadeiros espaços públicos de uso coletivo(...)” (p. 43).

Na praça do bosque a reconversão ocorreu pela recuperação de uma pista de cami- nhada, com a retirada de uma casa abandonada, além do plantio de árvores e mudas de flo- res. Distintas atividades recreativas foram planejadas para crianças, jovens e adultos, com a orientação de estudantes bolsistas do curso de Educação Física da Universidade Federal do Paraná - UFPR, membros do Geplec. A proposta foi possibilitar que a comunidade tivesse, no tempo de lazer, um leque mais diversificado de opções de uso da praça, gerando maior interesse em permanecer e se apropriar desse espaço público de lazer.

Considerações finais

Foi possível perceber que o cotidiano é compartilhado por regras formuladas e refor- muladas localmente, sendo o lugar, por essência, responsável pelas experiências vivenciadas de forma significativa por meio da solidariedade, espontaneidade, criatividade existente principalmente na praça do Bosque e pela ludicidade proporcionada às diversas manifes- tações. De acordo com a representante da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, “a união que os moradores locais demonstraram na reconquista da praça pública onde acontecem as atividades recreativas, é reproduzida nas demais oportunidades de realizar uma melhoria na comunidade”.

Mesmo com os problemas sociais observados no bairro, existe vida com crianças brin- cando nas ruas ou praças, adultos permanecendo, passeando, conversando, procurando fazer desse espaço um lugar singular. A qualidade de infraestruturas, serviços e espaços pú- blicos contribuem para que as pessoas realmente sintam-se pertencentes ao lugar em que vivem.

A partir da diversidade das relações humanas que se estabelecem no cotidiano da praça do Bosque, onde a comunidade confere sentido e significado a este espaço público, fazendo

deste um lugar, é que a praça apresenta formas mais variadas de uso e de apropriação. Apesar de observarmos que alguns espaços públicos acabam sendo reduzidos com a construção das cidades de muros e de enclaves fortificados, como no caso da praça Anhan- gava, acreditamos que é possível construir outra realidade, pois as ruas, as praças, os parques ainda permitem as interações locais e os intercâmbios públicos. As cidades de muros ao invés de fortalecerem a cidadania, acabam contribuindo para sua corrosão e consequente- mente para o seu recuo.

Ressaltamos que o planejamento do espaço público requer compromisso do Estado e sobretudo a participação cidadã ao longo de todo processo de concepção, produção e ges- tão. Dispor de espaços e equipamentos públicos perto de onde se vive é condição de cida- dania. Assim, concordamos com Borja e Muxí (2000), que se a centralidade, mobilidade e acesso não forem universais, a cidade não será democrática.

As pessoas precisam de espaços de lazer que superem a visão de enclave fortificado, que sejam tolerantes com as diferenças sociais, que possibilitem encontros anônimos (Cal- deira, 2000). Esse espaço enquanto categoria analítica torna-se um instrumento interpre- tativo de fundamental importância para a compreensão da realidade e para o avanço no processo de urbanização.

A partir dessa visão, é possível afirmar que as praças são espaços marcantes no desen- volvimento das cidades, com função e morfologia atreladas aos processos de formação po- lítica, social e econômica. é justamente na integração entre morfologia, estética e apropriação que a praça deveria constituir-se como um locus privilegiado da cidade (Cal- deira, 2007).

Esse cenário corrobora com o percurso histórico de constituição da cidade de Curi- tiba, especialmente no que se refere ao bairro Uberaba, local em que se desenvolve a pes- quisa. Por esse motivo o estudo das praças nesse bairro, dos conceitos para seu projeto, de seus equipamentos e mobiliários e de suas formas de uso e apropriação no tempo de lazer torna-se de grande relevância, na tentativa de melhor compreender a importância desses espaços públicos como facilitadores de encontros no cotidiano dos moradores, pois é aí que se efetivam as diferentes experiências de lazer.

Entretanto, percebe-se que suas diferentes características e configurações podem in- fluenciar as formas de uso e apropriação, como acessibilidade, conservação, segurança, ser- viços oferecidos e outras. Analisar em que medida os espaços públicos, em especial as praças, contribuem para a qualidade de vida das pessoas nas cidades é um desafio que tem sido posto em diversos campos de estudo, especialmente no âmbito das ciências sociais.

O foco central do presente artigo foi a análise do espaço (praça) vivido e percebido socialmente. Assim, acreditamos que a dinâmica das formas de uso e apropriação no tempo e espaço de lazer possa contribuir para que, do ponto de vista do planejamento urbano, seja garantido o direito ao lazer, como previsto no artigo 6º da Constituição Federal (Brasil, 1988), no artigo 2º do Estatuto da Cidade (Brasil, 2002) e também o direito à cidade (Le- febvre, 2001).

Ademais, é necessário considerar as distintas vivências e experiências que ocorrem nesses espaços. Para Tuan (2013, p.18), “a experiência implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência”. Portanto, a experiência se efetiva quando se atua sobre o espaço

público e se cria a partir dele, novas experiências, sendo preciso resistir e aventurar-se no desconhecido, no incerto, ou seja, experienciar é superar as dificuldades, vencendo o medo e praticando o espaço para transformá-lo em lugar com sentido e significado. Resistir!

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