Os moradores do bairro Guajuviras são um exemplo de luta, de organização e de determinação. Sua busca incansável pela concretização do direito à moradia serve de exemplo pra sociedade como um todo. Os ocupantes, que na calada da noite de 17 de abril de 1988, arriscaram-se para buscar a tão sonhada casa própria, foram os responsáveis pelo movimento social mais famoso de Canoas e também por levar o nome da Cidade aos grandes centros urbanos, pois, afinal, a ocupação deste Conjunto Habitacional é considerada uma das maiores da Região Sul do Brasil.
Mas, após a pretensão atendida, a mobilização social inicial se dissipou. Houve a criação de mais de quarenta entidades representativas (PENNA, 1998, p. 44). A mobilização se fragmentou, e o que os folhetos iniciais da ocupação diziam a respeito da união já não existe mais. Dessa forma o coletivo se individualizou, o eu supera o nós e a luta fica cada dia mais difícil.
Na busca de melhores condições de vida, a população do Guajuviras tem se preocupado com o básico, e neste básico a educação não está presente. Depois da conquista da água, da luz, da coleta de lixo, do transporte coletivo, as chamas da luta abrandaram, viraram pequenas brasas, quase se apagando. Não houve passeatas motivadas pela falta de vagas, nem assembléias na beira do barranco pela falta de escolas; a educação não é tão importante quanto o teto pra se abrigar do frio!
Muitas são as características dos movimentos sociais: alguns implicam solidariedade; outros, conflitos; mas nem só de solidariedade ou conflitos devem constituir-se esses movimentos. Seu interior é rico de ações e de fenômenos capazes de agregar indivíduos em
razão de um único ideal, mesmo que a motivação de cada um seja diversa. Nas sociedades complexas, as intervenções não são apenas nos grupos sociais, mas vão até o indivíduo, que passa a ser início e fim da ação.
As sociedades complexas exigem participação e necessitam de elevada identificação, isto é, exigem um investimento adequado de recursos motivacionais e simbólicos por parte dos indivíduos que a compõem (MELUCCI, 2001, p. 72).
A busca pelo acesso à educação inicialmente é algo individualizado, mas sua obtenção, ou não, tem reflexos em toda a sociedade. É pelo acesso à educação que muitas mudanças sociais ocorrem. É preciso que haja um sentimento de pertença para que se possa lutar junto, mesmo que o resultado seja favorável inicialmente apenas na individualidade. A atualidade exige do indivíduo uma identificação com a sociedade à qual pertence. Por sua complexidade, a sociedade obriga a uma participação maior de seus agentes:
Nas sociedades contemporâneas, a definição das necessidades constitui uma destas áreas problemáticas, que se concentra em torno de dois pólos: de um lado, assiste- se a um apelo à natureza; de outro, afirma-se uma imagem hipersocializada das necessidades. Naturalidade e hipersocialização são representações polares que permitem colocar facilmente em posição intermediária numerosos modelos simbólicos presentes na cultura pós-industrial (MELUCCI, 2001, p. 74).
A homogeneidade dos conjuntos dos movimentos sociais dá-se por meio das redes internas de comunicação. Elas funcionam fortalecendo a solidariedade no grupo, sem que se perca a individualidade. As formas existentes de pequenas redes servem para manter os membros do movimento informados, identificados com a causa e motivados. Um segundo momento é onde o movimento torna-se visível, mostrando seu potencial e sua mudança. Neste segundo momento se dá a agregação, e é nela que se tornam necessárias as trocas afetivas, comunicativas e solidárias entre os membros, não apenas um objetivo comum.
A agregação tem caráter cultural e se situa no terreno da produção simbólica na vida quotidiana. Existe um inter-relacionamento crescente entre os problemas da identidade individual e a ação coletiva; a solidariedade do grupo não está separada da busca pessoal e das necessidades afetivas e comunicacionais dos membros, na sua existência quotidiana (MELUCCI, 2001, p. 97).
Os movimentos sociais vêm funcionando como uma consciência social coletiva, mostrando as mazelas da sociedade e chamando a todos para pensar e achar soluções para elas. A denúncia é um dos papéis dos movimentos sociais. A juventude surge como um espelho desta sociedade; os jovens podem apresentar-se como atores de conflito, pois falam a
língua do possível, querem decidir por si próprios, mesmo lutando pelos direitos de todos os demais. Os jovens não aceitam mais a palavra descolada da emoção e deparam-se com a formalidade das palavras do sistema governamental (MELUCCI, 2001, p. 102-103).
O ator coletivo é uma realidade composta, resultado de uma construção do grupo. Esse grupo acaba por desenvolver uma identidade coletiva que corresponde a uma definição construída e negociada pela ativação das relações sociais entre os atores, comportando sempre uma margem de negociabilidade das razões e dos modos de viver em conjunto.
O conhecimento é um recurso fundamental para novos atores conflituais, seja porque, em torno dele, são desencadeados conflitos importantes, seja porque o conhecimento é a condição para revelar a natureza real das relações sociais ao elevado conteúdo simbólico, próprios das sociedades complexas, por trás da aparência que os aparatos dominantes tendem a impor à vida coletiva (MELUCCI, 2001, p. 142).
O conhecimento é o caminho para a solução das demandas sociais que assolam nosso dia-a-dia. Como se pode exigir algo sobre o qual não se tem conhecimento? A ciência de que o acesso à educação é um direito fundamental público e subjetivo, ou seja, que qualquer um do povo pode exigi-lo do Estado, é o primeiro passo para que estas listagens de excedentes não mais existam. Só conseguimos faz valer um direito quando temos o sentimento de que este nos pertence; pois só saímos para a batalha por algo que nos pertence e que consideramos valioso.
Assim deve ser o sentimento da sociedade em relação ao acesso à educação. Devemos sentir como sendo algo intrínseco a nós, que pertence às nossas entranhas, que nos foi legado de uma luta ferrenha de pessoas comprometidas com o verdadeiro desenvolvimento da sociedade. Herdamos bem tão valioso; devemos lutar por ele. E essa luta não deve ser somente daqueles que não tem acesso ao seu quinhão, mas de todos que já o usufruíram e se deparam com outros que não o alcançam.
Não se pode mais conviver com a apatia de um povo constituído de luta. Sabemos que o Estado é um gigante surdo muitas vezes; mas a Justiça deve fazer-se ouvir. Sabe-se que são tortuosos os caminhos para a extinção de excedentes nas escolas fundamentais, principalmente nos anos iniciais. Nem por isso se deve desistir da caminhada.
Os dados aqui levantados, em especial os relativos à escola “X”, não são suficientes para que sejam de forma alguma retiradas conclusões sobre “acesso” à escola em Geral. Mas nos despertam para a problemática das dificuldades da efetivação do direito de acesso e do desconhecimento da população de seus direitos fundamentais. Tais dados nos apontam as pedras no caminho da concretização de um dever tão precioso do Estado, que é garantir a
escolarização a todos que ela procuram. Nos apresentando casos concretos do não cumprimento dessa função do Poder Público.
É preciso que se dê a toda população principalmente conhecimento de que o acesso à educação é um direito fundamental público e subjetivo, pertencente a toda sociedade brasileira, independente de classe social, de ser morador de uma ocupação, ou de uma sub- invasão ou de um bairro mais antigo ou nobre. Deve-se fazer valer o artigo 5º. da Carta Magna de nosso País, que reza:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, a igualdade, à segurança e à propriedade.
Além de se ter conhecimento do direito, é fundamental saber os caminhos necessários a se percorrer para que ele seja satisfeito. Não basta ter o local aonde chegar; é preciso ter o caminho que se precisa percorrer. Os direitos não foram criados para ficarem guardados dentro dos livros, mas sim para dar voz ao povo e para fazer desta sociedade um lugar justo e saudável para se viver. Não basta conhecê-los; é fundamental também saber como provocá- los, para que atendam à sua finalidade e possamos então dizer que estamos a caminho de uma humanidade verdadeiramente fraterna.
5. REFLEXÕES FINAIS
VIDA
“Já perdoei erros quase imperdoáveis, tentei substituir pessoas insubstituíveis e esquecer pessoas inesquecíveis. Já fiz coisas por impulso, já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar, mas também decepcionei alguém. Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia, já fiz amigos eternos
já amei e fui amado, mas também já fui rejeitado. Já fui amado e não soube amar. Já gritei e pulei de tanta felicidade, já vivi de amor e fiz juras eternas, mas "quebrei a cara" muitas vezes! Já chorei ouvindo música e vendo fotos. Já liguei só pra escutar uma voz. Já me apaixonei por um sorriso.
Já pensei que fosse morrer de tanta saudade e... ...tive medo de perder alguém especial
(e acabei perdendo)! Mas sobrevivi! E ainda vivo!
Não passo pela vida...
e você também não deveria passar. Viva!!! Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e
A VIDA É MUITO para ser insignificante" Chaplin
Os caminhos percorridos para a concepção desta pesquisa foram árduos e tortuosos. Falar de direitos fundamentais, muito defendidos verbal e doutrinariamente, mas pouco difundidos verdadeiramente não foi tarefa fácil. Afinal, nada na vida é tarefa fácil, pois não queremos nada insignificante.
Poder aliar os conhecimentos acadêmicos na área do Direito aos meus conhecimentos profissionais na área da educação se revelou uma experiência prazerosa, mas ao mesmo tempo estarrecedora. E, diga-se de passagem, que não é qualquer tipo de educação que se está
falando. Refere-se aqui da educação de periferia, com parcos recursos, tanto das escolas, quanto de seus sujeitos.
Nesta ótica então, iniciei apresentando a evolução histórica e jurídica do direito à educação no ordenamento brasileiro. Neste ponto então foi possível constatar que há mais de meio século já se defendia, o direito de acesso à educação para todos. O jurista Pontes de Miranda, nos idos anos 30, já o defendia ferrenhamente. Para ele, dizer que se ofertará escolas públicas, sem que sejam em número suficiente para todas população não passava de um engodo, pois onde não existissem vagas suficientes certamente ficariam indivíduos fora do atendimento escolar.
Pontes de Miranda ressaltava ainda a existência de dois campos de direitos, os simplesmente declarados, que são difíceis de serem atendidos e os subjetivos, estes então passíveis de serem acionados. Por muito tempo o direito de acesso à educação figurou no rol do primeiro tipo elencado pelo jurista, pois era apenas declarado, o que acabava impedindo que se cobrasse do Estado a sua efetivação. O envolvimento de Pontes de Miranda no campo do direito de acesso à educação era tamanho que ele declarava que poderia se proporcionar tudo à população, mas se fosse negado a educação seria como se não tivesse se dado nada.
A Carta Magna de 1988 então ouve o clamor do jurista e concede ao direito de acesso à educação o caráter de direito público subjetivo. Essa característica permite que qualquer cidadão exija do Poder Público o acesso ao ensino público e gratuito. Dessa forma passam a existir remédios jurídicos aplicáveis no caso da impossibilidade de acesso causada pelo Estado. Surge então a possibilidade de se valer do mandado de injunção, do mandado de segurança e do habeas-data.
Mas, mesmo assim, ainda temos um grande entrave em nossa sociedade para que tais instrumentos sejam efetivamente utilizados e passem à gerar resultados, a falta de conhecimento por parte da grande massa da população de seus direitos e dos caminhos que se deve percorrer para garanti-los.
Garantir a universalização do acesso à educação seria promover a cidadania, seria tirar as vendas dos olhos do povo. Quando o indivíduo passa a exercer a sua soberania passa a exercer sua cidadania, sendo assim passa a ser sujeito de direitos, podendo assim exigir do estado o cumprimento dos direitos elencados na legislação. O acesso à educação é um desses direitos inafiançáveis em nossa legislação brasileira. Portanto tem que ser plenamente efetivado.
Trazendo essa norma constitucional para um terreno mais próximo chegamos ao Município de Canoas. Pertencente à Região Metropolitana de Porto Alegre, possuindo o
segundo maior PIB do estado do Rio Grande do Sul, sendo desta forma uma cidade economicamente bastante desenvolvida. Mas dentro de sua trajetória histórica, é palco de fato não muito comum nas grandes cidades brasileiras, uma grande ocupação urbana.
Este Município, cortado por uma Rodovia Federal, a BR 116, foi cenário de uma das maiores ocupações da Região Sul do Brasil, senão a maior. Ação que transformou o Conjunto Habitacional Hildo Meneguetti em Guajuviras. Bairro famoso em todo Estado, hoje muito mais pela violência que o assola, do que pela histórica ocupação.
Os sujeitos dessa ocupação lutaram bravamente, de forma organizada estruturada para que seu direito de moradia, dever do Estado como defendiam e divulgavam, fosse atendido. Buscaram formas de ter moradias mais dignas, com os serviços básicos necessários atendidos, como água, luz, esgoto e transporte coletivo. Suas ações deram margem para que outras pessoas também viessem à procura de um teto para viver, e começaram as sub-invasões. Essas por sua vez, até hoje com estrutura precária.
Mas após ter atendidas as necessidades básicas elencadas inicialmente, toda a organização e a estrutura do movimento inicial se desarticularam. Passaram a existir várias representações dentro do conjunto, o que terminou com a força inicial, que era baseada na união. As lutas por melhorias cessaram, e as poucas vozes que se escutam são em função de problemas individualizados.
Neste contexto se teve um grande crescimento populacional, aliado à falta de estrutura básica, haja vista que as sub-invasões se proliferam dia-a-dia. Além disso, a renda dessas famílias é bastante baixa, criando assim um cinturão de pobreza nesta região.
Nesta perspectiva de crescimento populacional, podemos vislumbrar que dentre esses moradores muitos são crianças em idade escolar. A ocupação inicial já completou 23 anos, e durante todo esse período nenhuma escola nova foi construída, somente aquelas previstas no projeto inicial do conjunto que contaria com 5.974 unidades habitacionais. Número esse, já há muito tempo superado, pois o número de 26 mil habitantes já está defasado em função das freqüentes sub-ocupações.
Dessa forma, poderíamos nos questionar: há escolas para todos? A resposta se obteve, com base na análise do ano de 2007, e esta foi que realmente não há acesso à educação a todos. A rede municipal de ensino de Canoas teve no ano de 2007 um total de 1317 (mil trezentos e dezessete) alunos excedentes. Destes, 457 somente no 1º. Ano do ensino fundamental, o que representa em torno de 35 % (trinta e cinco por cento) do total de excedentes. Levando-se em conta que a matrícula no primeiro ano do ensino fundamental
representa o acesso à educação, estes demandantes tiveram sua pretensão de acesso à escola negada.
Para focar de forma mais precisa a pesquisa, se elegeu a escola “X”do bairro Guajuviras como caso a ser estudado. Isso se deu em razão de ser a instituição com o maior número de excedentes e de estar localizada neste bairro. Somente nesta escola foram 71 alunos excedentes de 1º ano e 170 de 2º ano. Buscou-se então a identificação dos alunos da listagem de 1º ano, haja vista que a negativa de acesso dessa fase configura a não efetivação do direito público subjetivo de acesso à educação.
A listagem era composta por 43 meninos e 28 meninas, todos preenchendo o requisito idade para a obtenção da matrícula. Do montante foi possível verificar que 7 meninos e 7 meninas efetivamente ficaram fora da escola em 2007. Vindo a ter sua pretensão atendida somente no ano seguinte.
Neste momento, nos cabe uma reflexão: essas crianças que ficaram sem ter um de seus direitos fundamentais inalienáveis atendidos são fruto de uma comunidade que se formou com base na luta por outro direito fundamental, o de moradia. É possível então dizer que a mola propulsora do movimento inicial se quebrou e que esta comunidade atualmente tem muito pouco daquela que existiu no tempo da ocupação.
Estas famílias que têm seus direitos subjugados não podem continuar a ver isto como algo normal. Todas estas crianças tiveram um direito fundamental violado, sua posição de cidadão de direito foi negada. E isto não é somente um problema destas pessoas, deve ser encarado como um problema da sociedade como um todo. É necessário que se busque o direito de todos, mesmo que na pessoa de um que não o teve contemplado.
Quando um sujeito de direito tem essa sua principal característica debelada está na verdade se infringindo o direito de todos os cidadãos. Os direitos fundamentais têm que se apresentar como uma luta diária de todos os membros da sociedade. É imprescindível que se dissemine o conhecimento e os caminhos que se deve percorrer para que todos os direitos elencados na Carta Magna saiam da letra fria da lei e entrem como realidade nas casas de toda a população.
A grande maioria das pessoas ainda são as mesmas. Criam seus filhos e os filhos de seus filhos sob o teto ocupado na calada da noite. Mas hoje se silenciam e mantém seus rebentos em casa, na espera do ano seguinte, para quem sabe então merecer o “favor” do Estado de realizar a matricula na escola. Falta conhecimento de seus direitos, mas no tempo da ocupação também faltava, falta saber qual o caminho a se percorrer pra efetivar o direito, mas naquela época também eram poucos os que sabiam.
Essa comunidade perdeu o que de mais valioso um povo pode ter, o espírito de luta, de seguir em frente, sem esmorecer. Agora cabe então à escola, sim à escola, resgatar esses sentimentos. A instituição educacional não é somente o lugar onde se recebe a educação formal, na grande maioria das vezes esta é na verdade uma conseqüência de tudo que se pode vivenciar dentro deste espaço. A escola é uma janela para o Mundo, e cabe a ela então restaurar o desejo de olhar o Mundo através de si e depois de vê-lo querer conhecê-lo, pular a janela e finalmente vivê-lo de forma digna e solidária.
Há momentos que as palavras calam nossa voz e dão sons ao nosso coração. Assim deve ser a vida, sensível, respeitosa, humana, generosa, significativa. Quando tivermos o verdadeiro entendimento do que seja a educação, quando as escolas descobrirem que seu principal objetivo não é transmitir conhecimento, mas ajudar cada um de seus alunos a construir os significados fundamentais para suas vidas, certamente conseguiremos dar outro valor ao viver.
Tendo em vista, que a vida é o maior bem que possuímos, se formos capazes de significá-la e re-significá-la para sermos mais felizes, teremos então nossos objetivos atingidos e nossa realidade transformada.
REFERÊNCIAS
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