Capítulo 3: Os frequentadores do templo Hare Krishna em Lisboa
3.1. O que é "ser devoto" de Krishna?
"Eu fiquei praticando a consciência de Krishna [no início] assim meio sem rumo. Como eu não tinha acesso aos devotos, o que eu lia no livro, eu tentava começar a praticar. Prabuphada dizia que tinha que ser vegetariano, mas eu tinha 14 anos, não sabia me alimentar direito e passava a maior fome. Nunca cheguei a ficar anêmico, mas era difícil. (...) Eu fiquei sendo vegetariano, tentando seguir os princípios, lendo, mais ou menos uns 4 ou 5 anos até ver pela primeira vez os devotos, quando eu tinha 17/18 anos e eles me convidaram para conhecer o templo. A primeira visão dos devotos [que tenho é], eu entrei e vi o Ishana fazendo o bhajan, tocando harmônio. Eu sentei, fiquei olhando... sinceramente, [tive] aquela sensação de que, pô, eu não vou mais embora, vou ficar aqui, fico tranquilo aqui. (...)Um devoto me convidou pra eu ficar no templo um final de semana pra conhecer [a prática], participar dos programas. Eu cheguei, prestei reverência na sala do templo, quando eu saí, dei de cara com Gurudeva [Paramgati, dirigente do templo de Lisboa]. Eu tava com uma malinha, ele me perguntou se eu vinha morar no templo, eu falei: "não, eu só vim passar um final de semana", ele perguntou: "Ue, por que é que não vem morar no templo?", eu falei " tô meio em maya, acho que não dá pra morar no templo agora não", [e ele responde:] "não esquenta não, vem que Krishna faz os teus arranjos tranquilo!". (...) Então eu resolvi ficar no templo. (...) Eu peguei minhas coisas e fui pra lá. "Vim pra cá pra fazer um teste". Fiquei fazendo um teste 16 anos. Eu fiquei 16 anos morando no templo!" (Sidney, em entrevista em maio de 2014)
Ao fundar a ISKCON, Prabhuphada enunciou os sete princípios que deveriam ser seguidos por todos que desejavam ser devotos, que estão disponível no site da ISKCON Lisboa (http://www.iskcon-lisboa.com/):
71
"(1) Divulgar sistematicamente conhecimento espiritual à sociedade em geral, e educar a todos nas técnicas da vida espiritual de forma a parar com o desequilíbrio de valores na vida e alcançar a verdadeira unidade e paz no mundo;
(2) Propagar a consciência de Krishna - Deus - como está revelado nas grandes escrituras da Índia, o Bhagavad Gita e o Srimad Bagavatam;
(3) Unir os membros da Associação entre si e mais perto de Krishna, a entidade primordial, de modo a desenvolver a ideia entre os membros e a humanidade em geral, que cada alma é parte integrante da qualidade de Deus;
(4) Ensinar e encorajar o movimento de sankirtana, canto congregacional do Santo Nome de Deus, como descrito nos ensinamentos do Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu;
(5) Erigir para os membros da Associação e para a humanidade em geral um lugar sagrado de actividades transcendentais dedicado à personalidade de Krishna;
(6) Manter os membros unidos com o objetivo de ensinar um modo de vida mais simples e natural;
(7) Tendo em vista o cumprimento dos objetivos supramencionados, publicar e distribuir panfletos, revistas, livros e outros textos".
O comportamento e rotina rígidos exigidos por Praphuphada levaram um estilo de vida muito diferente do que os adeptos ou candidatos a devoto viviam anteriormente. Algumas das exigências incluíam: acordar às quatro horas da manhã todos os dias; manter uma dieta vegetariana; cantar intensamente o maha mantra diariamente em grupo e nas ruas; não se intoxicar (sendo o café pela cafeína já uma intoxicação); não ter relações sexuais por prazer, somente com o objetivo de procriar; e não participar de jogos de azar, como a loteria. Os devotos já não seguem hoje em dia algumas destas regras, muitos não acordam às quatro horas da manhã e têm relações sexuais quando em um relacionamento afetivo estável; além de alguns admitirem tomar cerveja sem álcool. As adaptações às regras também vão de acordo com as exigências do momento para que a angariação de devotos seja possível. Neste sentido o
72
Movimento Hare Krishna, mesmo que raramente assuma oficialmente, já aceita muitos comportamentos que nos anos 60/70 não eram permitidos na prática espiritual.
Devotos no Gaura Purnima, no templo em Lisboa, em março de 2014. Foto da autora.
Seguindo os ensinamento do Bhagavad Gita, os devotos acreditam que o verdadeiro self (a alma) é eterno, mas devido à ignorância da contaminação material, a alma é forçada a assumir outro corpo por meio da reincarnação (Daner 1976:33). Quando uma pessoa morre, imediatamente assume outro corpo e renasce (samsara), esquecendo completamente sua vida passada e identificando-se com o presente corpo (ibid.). Esta identificação com o corpo seria falsa e temporária, devendo a pessoa perceber o seu real papel, nomeadamente servir à Krishna (Ibid.). É desta forma que poderá ser liberado do ciclo de nascimento, vida e morte, seguindo para a vida eterna (ibid.). Os colaboradores da pesquisa constantemente mencionavam que "o Bavagad Gita diz que na medida que você se rende a mim [Krishna], eu me manifesto em você".
O serviço à Krishna é chamado bhakti, considerado pelos devotos de Krishna o objetivo de todas as religiões, filosofias e da própria vida. É através de bhakti que um indivíduo consegue liberar-se de maya (o véu da ilusão), para desenvolver seu relacionamento (rasa) com Deus. Os praticantes de bhakti são chamados bhakta.
73
Diferentemente de Araújo (2006), que acredita que um devoto é aquele iniciado oficialmente na prática, meu trabalho de campo demonstrou uma maior flexibilidade em quem é considerado devoto. Basta frequentar o templo por um tempo determinado, em média é de seis meses, e participar das atividades, para que os devotos iniciados passem a aceitar o visitante como um novo devoto ou como potencial devoto e, dessa forma, passam a ter uma atitude mais inclusiva, propondo a estes "potenciais devotos" atividades de "serviço à Krishna". Tais atividades consistem em funções desde ajudar na cozinha, servir a comida, organizar o altar, cuidar das flores e até mesmo tocar um instrumento. Neste sentido, durante o tempo em que participei das atividades do templo como musicista, na perspectiva dos devotos, estava a fazer "serviço para Krishna" e por isso era uma "devota". O meu "serviço" certamente facilitou o meu diálogo e interação no templo com os devotos, como relato ao longo da tese.
Antes da iniciação, no primeiro ano praticando [cantar o maha mantra], eu ainda fumava, bebia... Mas também eu não tinha nenhuma pressão psicológica, eu desfrutava mesmo de fumar, sabe? Pegava lá o malboro e... [faz pose de fumador], como eu gostava daquilo, do ritual, era mais o ritual do que propriamente a nicotina. (...) Teve um dia que acendi um malboro e... [tosse] "por que eu tô fazendo isso?", peguei amassei e joguei fora, entende? (...) Então, foi um ano depois que eu comecei a fazer tudo como tem que ser, ne? (...) E ai parei de fumar. Mas não é que parei de fumar e fico assim "ai que vontade", não foi artificial, foi uma coisa muito natural. Um efeito natural do cantar dos mantras é que te traz um gosto superior, então não é que eu deixei de sentir gosto, e fico rejeitando e fico negando, não, meu prazer se refinou, entende? Às vezes pra um porco é muito prazeroso comer lixo e você, dá um cheese cake, ele não vai querer comer, porque ele vai sentir muito mais prazer em comer lixo. Os gostos vão se refinando, ne? Então eu deixei de achar graça em engolir poluição, então... agora vou ter que parar de beber, porque se eu tomar um copo de cerveja vou ter vontade de fumar. Ah e o café? Então vou comprar café descafeinado, cevada, café de saco... e ai foi refinando, ne? Mas uma coisa assim.... foi exatamente um ano. Um ano e a coisa se manifestou. Parte da gente, é auto-realização individual. (Rodrigo, entrevista em 1 de março de 2013)
Para um devoto receber a "primeira iniciação" é preciso ter escolhido um guru (mestre espiritual) e este aceitá-lo como discípulo. A partir desde momento o bhakta deve serví-lo e passar a cantar a japamala pelo menos 16 voltas por dia. Para a primeira iniciação é preciso frequentar assiduamente um curso, em que ao final, será realizado um teste oral e escrito elaborado pelos líderes do templo. A partir da cerimônia de iniciação, passam a responder por
74
um novo nome em sânscrito escolhido pelo guru e a pronunciação do mantra pelo agora devoto adquire maior potência por estar sacralizado (Araújo 1006:173). O novo nome, conhecido como "nome espiritual" é escolhido a partir dos personagens presentes nos livros sagrados védicos. A escolha é feita de acordo com a associação que o guru faz entre a personalidade do devoto e da personagem.
"Eu gosto mais do nome espiritual, me identifico mais, pois como você falou quando pensa no Rio de Janeiro pensa como passado? Me chamar de Rodrigo me lembra uma coisa que não sou hoje, o que o Rodrigo fazia. Lógico que pra pegar um visa pra Índia tem que ser, ne? Mas é uma coisa automática, ne? Eu uso como se você usasse um passe de metro? Vai lá pum passou e acabou. Não é aquela coisa que me identifico, uso por necessidade, me identifico muito mais com meu nome devocional do que com Rodrigo (Rodrigo, entrevista em 1 de março de 2013).
Após dois anos seguindo rigorosamente o serviço devocional, caso o devoto tenha desejo de tornar-se brâmane, passará por uma segunda iniciação, quando recebe de seu guru um mantra com letra secreta chamado "gayatri", que deve recitar três vezes ao dia (ibid.:175). Ao brâmane é permitido oficiar cerimônias e assumir importantes cargos administrativos na ISKCON.
A última e terceira iniciação destina-se a tornar o devoto um sannyasis. Um sannyasi faz um voto celibatário, renuncia aos bens materiais e dedica-se exclusivamente à pregação da Consciência de Krishna. É a roupa utilizada pelos sannyasis, de cor laranja, a imagem mais comumente associada aos devotos. O sannyasi recebe o título de Swami ou Goswami, podendo
tornar-se guru53.
O guru torna-se um orientador para a vida e é também responsável por algumas das movimentações entre países de seus discípulos, já que estes demonstram necessidade de conviver com seu guru periodicamente. Um guru pode morar em Espanha, mas ter discípulos no Brasil, em Portugal, na Índia e nos Estados Unidos, por exemplo. Neste sentido a relação de países de um guru irá influenciar os países por onde os devotos irão passar. Este foi o caso da temporada de Gustavo em França, de Romulo em Portugal e de Cintia no Brasil. Também foi o
53
75
caso do primeiro devoto português que conheci casado com uma brasileira que conheceu durante a temporada que passou com seu guru no Brasil.