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O que o Direito brasileiro tem feito em prol do reconhecimento de direitos

Capítulo 5 – COMO O DIREITO SE POSICIONA DIANTE DESSE NOVO

5.7 O que o Direito brasileiro tem feito em prol do reconhecimento de direitos

A ex-Prefeita do Município de São Paulo, Marta Suplicy, quando ainda exercia a função legislativa de Deputada Federal, apresentou o Projeto de Lei nº 1.151/95137, visando disciplinar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Já naquela época a ex-Deputada ponderava que não se podia mais negar a existência de tais relacionamentos, e, no Brasil assim como em outros países, era necessário banir de vez a exclusão de pessoas em razão da sua orientação sexual e garantir seus direitos de cidadania138.

O texto do referido Projeto traz dispositivos que regulamentam a matéria patrimonial garantindo, inclusive, o direito de proposição de ação de alimentos por parte de um dos ex- conviventes. Apesar de ter sofrido algumas alterações, caso aprovado, ficaria assegurado aos parceiros homossexuais o registro civil da parceria de pessoas do mesmo sexo, assim como a lavratura desse registro no Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais.

Ressalte-se que esse mesmo direito registral não está previsto quando se trata de união estável entre o homem e a mulher. Nessas uniões, admite-se que os companheiros celebrem contrato escrito, não exigindo a lei forma especial (art. 1.725 do Código Civil).

O Relator do referido Projeto na Comissão Especial foi o Deputado Roberto Jefferson apresentando à Comissão Especial um Substitutivo139, atualmente em discussão na Câmara dos Deputados.

O Substitutivo do projeto adotado pela Comissão Especial em 10 de dezembro de 1996 mudou um pouco a redação originária, mas o conteúdo permanece o mesmo, exceto quanto ao fato de prestigiar tanto as parcerias hetero como a homossexual.

137 Anexo 1.

138 AZEVEDO, Álvaro Villaça. União entre pessoas do mesmo sexo. In: Anais do II Congresso Brasileiro de Direito de Família, Coord. Rodrigo da Cunha Pereira, Belo Horizonte, IBDFAM, 2000, p. 150.

Enquanto o Projeto de Lei apresentado pela então Deputada Federal Marta Suplicy almejava disciplinar a união civil entre os parceiros homoafetivos, o Substitutivo ao Projeto apresentado pelo Deputado Roberto Jefferson tem como escopo regular a parceria civil registrada entre os parceiros homossexuais, devendo tal parceria se constituir mediante escritura pública e constar em livro próprio no Registro de Pessoas Naturais (art. 2º).

O referido Substitutivo atende a todas as pessoas de mesmo sexo, que fazem ou não sexo entre si, que tenham ou não um relacionamento afetivo, mas que desejam garantir-se mutuamente. Entretanto, considera nulo de pleno direito o contrato de parceria civil registrada realizado com mais de uma pessoa (art. 7º).

Em 2001, Roberto Jefferson apresentou o Projeto de Lei nº 5.252140, que disciplina o Pacto de Solidariedade entre as pessoas, visando, entre outras coisas a proteção dos direitos à propriedade e à sucessão. Tal Projeto é quase uma transcrição quanto às finalidades do Substitutivo ao Projeto de Lei 1.151, exceto que fica evidente na sua leitura que objetiva deixar de lado a referência a pessoas do mesmo sexo, pois menciona apenas “pessoas”, e assim sendo, não impede que duas pessoas homossexuais ou não celebrem o referido Pacto de Solidariedade.

Segundo Taísa Ribeiro Fernandes141, o Projeto de Marta Suplicy citado e seu Substitutivo tratam de direitos da maior importância, não agredindo a família, nem a sociedade, nem alguma religião. É uma proposta que prestigia o amor, a solidariedade, e não o ódio, a intransigência.

Tal projeto recebeu algumas críticas. Apesar da coragem da ex-Deputada, fica claro que apenas assegurar o registro civil e sua lavratura no livro competente não bastaria para se reconhecer a existência da relação homoafetiva. Álvaro Villaça Azevedo até admite o registro da união, entretanto, para ele seria salutar a criação de um novo estado civil, pois aí teríamos

140 Anexo 3.

o estado civil de solteiro, de casado, de divorciado, de separado judicialmente e o estado de convivente ou companheiro, em relação à união estável seja homo ou heterossexual142.

Assim como tem acontecido com os julgados do seu Tribunal de Justiça, o Estado do Rio Grande do Sul se antecipou aos demais ao editar a Lei Estadual nº 11.872, de 19 de dezembro de 2002143, que dispõe sobre a promoção e reconhecimento da liberdade de orientação, prática, manifestação, identidade, preferência sexual e dá outras providências no sentido de proteção aos homossexuais.

A citada Lei considera discriminação e ato atentatório à dignidade da pessoa humana qualquer violência, seja intimidadora ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica fundada na orientação, práticas, manifestação, identidade, preferências sexuais, desde que exercidas dentro dos limites da liberdade de cada um (art. 2º, I).

Veda ainda a proibição de ingresso ou permanência em recinto público ou privado (inciso II), a prática de atendimento diferenciado (inciso III), tratamento diferenciado em pensões, motéis, hotéis e similares (inciso IV) ou na locação ou aquisição de bens móveis ou imóveis (inciso V), tratamento diferenciado por parte do empregador (inciso VI), a restrição a livre expressão e manifestação da afetividade da pessoa em locais públicos ou privados (inciso VII) ou quando permitidas aos demais cidadãos (inciso VIII) e discriminação em qualquer sistema de seleção, recrutamento ou promoção funcional, desenvolvido no interior da Administração Pública Estadual direta ou indireta (inciso IX).

Como se vê, tal legislação abrange toda e qualquer espécie de restrição que possa existir com relação ao cidadão em virtude de sua orientação sexual. Num país que ainda insiste em não reconhecer direitos aos parceiros do mesmo sexo, vale ressaltar que o Estado gaúcho deu um passo à frente em relação aos demais, primeiro ao editar referida legislação e

142 AZEVEDO, Álvaro Villaça. União entre pessoas do mesmo sexo. In: Anais do II Congresso Brasileiro de Direito de Família, Coord. Rodrigo da Cunha Pereira, Belo Horizonte, IBDFAM, 2000, p. 153.

depois ao fazer constar no seu artigo 9º a previsão de advertência e pagamento de multa para seus infratores.

Para que a população desse Estado tivesse conhecimento da dita lei, ficou previsto no art. 12 que o Poder Público disponibilizaria cópia da mesma para que fossem afixadas em estabelecimentos de fácil leitura pelo público em geral. Ou seja, com tal atitude evitou que qualquer pessoa da sociedade alegasse seu desconhecimento em caso de transgressão às regras ali contidas.

Com certeza, fica notório que o legislador rio-grandense-do-sul, além de reconhecer direitos aos homossexuais daquele e de outros estados que ali se encontrassem, vedou ainda a prática de qualquer tipo de ato discriminatório contra essas minorias.

Devemos esclarecer que outros Estados da Federação também possuem alguma legislação vedando a discriminação por motivo de orientação sexual. Dentre eles podemos citar: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Piauí, Santa Catarina, Alagoas, Bahia, Pará e Paraíba. Entretanto, o Estado do Rio Grande do Sul é o que possui a legislação mais abrangente.

As uniões homoafetivas ainda não receberam tratamento legislativo no Brasil, embora estejam tramitando o Substitutivo ao Projeto de Lei 1.151/95, que disciplina a Parceria Civil Registrada entre pessoas do mesmo sexo e o Projeto 5.252/01, que disciplina o Pacto de Solidariedade entre as pessoas.