CAPÍTULO IV – UMA MEMÓRIA PARA O HORA DA NOTÍCIA
4.1 O QUE DIZEM OS SCRIPTS?
A proposta do capítulo é analisar o jornalismo produzido e veiculado pela TV Cultura em meados da década de 1970, através do telejornal Hora da Notícia, tendo como referência central a busca por sua dimensão pública, tanto no que se refere ao produto veiculado quanto às evidências que ele denota acerca de seu processo de produção. Mediante as entrevistas realizadas com os profissionais que integraram a equipe, costuramos os pontos em comuns entre eles, que nos permitiram traçar uma memória do Hora da Notícia e desencadear a identificação das características do jornalismo da emissora pública em uma época marcada por ingerências governamentais.
Após dar voz a esses personagens, os caminhos da investigação são orientados no sentido de encontrar outras marcas da identidade do telejornal de outrora, nosso objeto de pesquisa. Para isso, são analisados alguns scripts do período, gentilmente disponibilizados pelo Instituto Vladimir Herzog, na ocasião em que também foi realizada a entrevista com o diretor executivo Ivo Herzog, no dia 08 de agosto de 2014.
Essa etapa integra a parte empírica do trabalho, que inclui a análise de conteúdo. À luz dos conceitos de Bardin (2011, p. 31), entendemos o estudo como um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Não se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos; ou, com maior rigor, um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações. Como apontado pelo autor, realizar este tipo de análise é:
“tornar-se desconfiado” relativamente aos pressupostos, lutar contra a evidência do saber subjetivo, destruir a intuição em proveito do “construído”, rejeitar a tentação da sociologia ingênua, que acredita poder apreender intuitivamente as significações dos protagonistas sociais, mas que somente atinge a projeção da sua própria subjetividade. Esta atitude de “vigilância crítica” exige o rodeio metodológico e o emprego de “técnicas de ruptura” e afigura-se tanto mais útil para o especialista das ciências humanas, quanto mais ele tenha sempre uma impressão de familiaridade face ao seu objeto de análise (Bardin, 2011, p. 28).
Sob esses preceitos, pretende-se, neste capítulo, apresentar os resultados encontrados que nos permitam apontar outras características do telejornal, aproximando essas evidências à nossa indagação inicial, que caracteriza nosso problema de pesquisa: em que medida as características do HN se aproximam do fazer jornalístico na TV Cultura na contemporaneidade?
O corpus da pesquisa compreende a análise de scripts referentes há dez edições seguidas do programa, veiculadas entre os dias 11 e 20 de setembro de 1975, ou seja, a segunda quinzena do mês. Foram 137 matérias encontradas, totalizando 301 páginas analisadas. O material foi disponibilizado em um DVD contendo os arquivos em formato de imagem dos scripts (jpg), redigidos na época por máquinas de datilografia. Nos arquivos, ainda é possível observar rasuras, correções e considerações escritas à mão pelo editor do telejornal. A leitura prévia foi capaz de suscitar uma importante consideração: Vlado interferia diretamente nos scripts, trocando termos que considerava impróprios, buscando sentenças mais claras e compreensíveis.
Com o material em mãos, foi elaborada uma ficha de avaliação para embasar as análises, dispondo das quatro vertentes pretendidas: tema/ fontes/ formatos/ origem de produção. Para categorizar as notícias encontradas nos scripts, cada item foi subdivido em categorias de análise.
Os temas foram categorizados em: política, justiça, segurança pública, educação, saúde, habitação, transporte, cultura/ comportamento, cotidiano, esporte, economia, serviço, assistência social, meio ambiente, internacional. Na segunda vertente, relacionada às fontes, têm-se as seguintes categorias: populares, entidade representativa de classe, governo, sociedade civil, especialista, atleta, órgão público, iniciativa privada, judiciário, igreja, agência de notícia e temas não identificados. Na terceira proposição, categorizamos os formatos em VT’s, nota coberta, nota ao vivo, entrevista, comentário e notícia no estúdio. E, por fim, e não menos importante, classificamos a origem de produção entre as matérias produzidas pela própria equipe da TV Cultura, as oriundas de agências (na maioria não identificadas) e outras produções externas à emissora, nas quais não eram mencionadas a origem.
Em relação ao formato, percebe-se que não há muitas distinções em relação aos demais telejornais da época. Nos documentos, verificou-se a atuação de três apresentadores:
Irineu Guerrini Júnior, Dárcio Arruda e Fabio Peres, sendo que apenas dois ocupavam a bancada do HN diariamente.
O telejornal era composto por dois blocos. Inicialmente os apresentadores, que não eram jornalistas, mas profissionais que aparentavam certa credibilidade ao transmitir as notícias, liam as duas chamadas, o que correspondia à escalada do HN.
É importante salientar que no script do dia 17 de setembro de 1975 foram encontradas apenas 17 páginas, o equivalente ao primeiro bloco do programa. A partir da última notícia apresentada deste dia, Fabio Peres anuncia o segundo tempo do jogo de futebol entre Palmeiras e Atlético Paranaense. Acredita-se que, ou o tempo do telejornal foi reduzido devido ao jogo ou há páginas faltantes neste script.
Outro achado permitido pela leitura prévia dos scripts nos possibilitou a observação da inscrição “Pausinhas”, escrita à mão por Vladimir Herzog. Nestes casos, percebe-se que a palavra é inserida como forma de proporcionar uma respiração durante a leitura do apresentador em casos em que as frases são mais longas. Outra verificação recorrente diz respeito às “Deixas”, presentes entre a fala do apresentador e a inserção do videoteipe que entrava logo em seguida, uma forma de minimizar erros na ocasião em que o vídeo terminava e a câmera voltava para o estúdio.
A partir dessas observações iniciais, partimos aprofundando cada tema analisado segundo as categorias propostas, apresentando resultados quali-quantitativos obtidos mediante a análise de conteúdo.