4 ATIVISMO E EMPODERAMENTO NO CINEMA
4.1 Que empoderamento é esse?
Berth (2018) discute em seu livro O que é empoderamento? que a palavra
empowerment (empoderamento, em português) significa “um processo de conquista de
liberdade e poder para fazer o que quer ou controlar o que acontece com você”, e explica que o sociólogo Rappaport (1977) cunhou o termo como “dar poder ou capacitar certos grupos minoritários para que eles pudessem ter autonomia” (BERTH, 2018, p. 19).
Segundo esse sociólogo, o “empoderamento é um processo pelo qual indivíduos, comunidades e organizações obtêm controle sobre suas vidas”, e esse processo “[…] não é apenas um constructo psicológico individual, é também organizacional, político, sociológico, econômico e espiritual” (RAPPAPORT, 1987, p. 130)
No livro Black Empowerment: Social Work in oppressed communities,162 Barbara
Bryant Solomon (1976) argumenta que o conceito de “empoderamento” está ligado ao de
“poder”, que se relaciona com ode “glória”. Essa relação em determinado momento tem uma
conotação religiosa, contudo, para a autora o conceito de “poder/glória” é sinônimo de
“honra, fama e orgulho”, e estes são aspectos contrários dos regularmente associados aos
grupos que não têm poder, compostos pelos grupos raciais minoritários; no caso do Brasil e Estados Unidos, é a população negra (SOLOMON, 1976, p. 9). Ainda segundo a autora,
[…] empoderamento refere-se ao desenvolvimento de um sistema de apoio efetivo para aqueles que foram impedidos de atingir objetivos individuais ou coletivos devido à gravidade ou complexidade da discriminação que sofreram (SOLOMON, 1976, p. 22)
Assim sendo, podemos considerar que as premissas do conceito de empoderamento surgem a partir desses dois teóricos, e esse “dar/ter poder” ocorre pelo ato de se “auto capacitar” ao mesmo tempo que se “capacita” o grupo pertencente para alcançar uma “autonomia” de escolhas, bem como orgulho do que venha a se tornar. E é importante frisar que o processo de empoderamento é concomitantemente individual e coletivo.
Para Berth (2018), o “[…] conceito de empoderamento é instrumento de emancipação
política e social […]” (BERTH, 2018, p. 14), o qual “[…] não visa retirar poder de um para
dar a outro a ponto de se inverter os polos de opressão, mas sim, uma postura de enfrentamento da opressão para eliminação da situação injusta e equalização de existências e sociedade” (BERTH, 2018, p. 16).
Em concordância com Solomon (1974), Rappaport (1987) e Berth (2018), considero que se empoderar é um “ganho de poder”, um processo de emancipação político-social que acarreta ter controle sobre escolhas, bem como acerca do que fazer. Isto posto, considero que o “empoderamento” passa pela capacitação, pelo controle dos códigos de acesso a determinados setores/níveis da sociedade.
Exemplificando isso, para “empoderar-se”, seja no âmbito individual ou coletivo, penso que são necessárias ações para dominar alguns códigos de poder da sociedade, tais como a escrita e a leitura da língua portuguesa, uma vez que ela é a base para o acesso a outras formas de linguagem e sentidos que influenciam nosso imaginário social, tais como a tecnologia, a literatura, o cinema, dentre outros.
Desta forma, o empoderamento é um caminho que grupos marginalizados e minoritários no que se refere a representatividade têm para tentar diminuir as desvantagens que lhes acometem, e ter acesso aos privilégios que lhes são negados. No caso desta tese, me refiro em especial à população negra. Concordo com Berth (2018) quando a autora argumenta que “[…] pensar em empoderamento é pensar em práticas e discursos contestatórios” (BERTH, 2018, p. 56), ou seja, pensar em estratégias que contraponham representações e práticas que silenciam esses grupos, ou quando a palavra é proferida, essa não é validada, mas colocada em dúvida.
Nesse sentido, Kilomba (2010) aponta que “[…] falar, torna-se assim praticamente impossível, dado que quando falamos, nosso discurso é frequentemente interpretado como
uma versão dúbia da realidade, não imperativa o suficiente para ser falada, tampouco ouvida” (KILOMBA, 2010, p. 177). Sendo assim, uma indagação sobre o processo de empoderamento é necessária: que empoderamento é esse?
Quando esses grupos marginalizados rompem o silêncio imposto, adquirindo o direito da fala, o poder de discursar – não apenas sobre as violências sofridas, mas também acerca de suas práticas culturais, seus modos de ver, conceber e analisar a sociedade –, lhes é imposto o jugo da desconfiança, do descrédito, da não validação de seus discursos. Em determinados casos a fala não é entendida como proveniente da razão, mas sim da emoção, tendo como consequência a infantilização desse ser falante. Diante disso, concordo com Gonzales (1984) quando ela argumenta que “[…] temos sido falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos)” (GONZALES, 1984, p. 225).
Logo, entendo que o processo de empoderamento não pode ser resumido ao ato de conseguir o direito/poder de fala, mas também passa pelo direito/poder de ser ouvido, compreendido e ter sua fala, além de reconhecida e escutada, legitimada. E para que isso aconteça, dentre outras ações é necessário, importante e urgente discutir os motivos pelos quais os discursos desses grupos não são reconhecidos como legítimos.
Uma dessas causas são as desigualdades históricas da sociedade brasileira, que podem ser observadas com o uso do conceito de branquitude. Entendo branquitude como Schucman (2012), isto é,
[…] uma posição em que sujeitos que ocupam esta posição foram sistematicamente privilegiados no que diz respeito ao acesso a recursos materiais e simbólicos, gerados inicialmente pelo colonialismo e pelo imperialismo, e que se mantêm e são preservados na contemporaneidade (SCHUCMAN, 2012, p. 23).
Além disso, concordo com Schucman (2012) quando ela também argumenta que
[…] podemos pensar a branquitude como um dispositivo que produz desigualdades profundas entre brancos e não brancos no Brasil, em nossos valores estéticos e em outras condições cotidianas de vida, em que os sujeitos brancos exercem posições de poder sem tomar consciência deste habitus racista que perpassa toda a nossa sociedade (SCHUCMAN, 2012, p. 29).
Por conseguinte, considero que esse “dispositivo” age no Brasil e nos Estados Unidos, nos diversos setores dessas sociedades, em diferentes momentos e de maneiras também distintas, com vários sentidos e com múltiplas finalidades, sendo uma delas a de invalidar discursos enunciados por sujeitos que não fazem parte desse grupo racial (branco) que
desfruta dos privilégios oriundos do “dispositivo” da branquitude. Assim como Schucman (2012), entendo que “[…] a branquitude se refere a um lugar de poder, de vantagem sistêmica nas sociedades estruturadas pela dominação racial. Este lugar é, na maioria das vezes, ocupado por sujeitos considerados brancos” (SCHUCMAN, 2012, p. 102).
É esse “lugar de poder” que possibilita uma “vantagem sistêmica”, o que ocasiona uma hierarquização dos conhecimentos produzidos. Assim, a epistemologia que surge fora desse lócus não recebe a mesma validação dos saberes provenientes deste. Nessa perspectiva, Ribeiro (2017) indica que
[…] reconhecendo a equação: quem possui privilégio social possui o privilégio epistêmico, uma vez que o modelo valorizado e universal de ciência é branco. A consequência dessa hierarquização legitimou como superior a explicação epistemológica eurocêntrica conferindo ao pensamento moderno ocidental a exclusividade do que seria conhecimento válido, estruturando-o como dominante e, assim, inviabilizando outras experiências do conhecimento (RIBEIRO, 2017, p. 26- 27).
Destarte, é possível dizer que essa “[…] equação: quem possui o privilégio social possui o privilégio epistêmico” (Ribeiro, 2017, p. 26) seja um dos grandes obstáculos no processo de empoderamento dos grupos marginalizados, visto que ambas as sociedades analisadas, ainda pautadas pelo racismo que sustenta o “dispositivo” da branquitude, utilizam a seguinte estrutura para distinguir o que é e o que não é conhecimento. De acordo com essa equação:
Humanidade = Racionalidade = Epistemologia reconhecida e legitimada
Não Humanidade = Irracionalidade = Instinto/Emoção = Não produz epistemologia
Minha intenção aqui não é dizer que a estrutura citada é a única resposta para a deslegitimação do discurso enunciado pelo sujeito negro, mas tomá-la como ponto de partida para refletir sobre os motivos pelos quais a fala pronunciada por esse sujeito, quando ouvida, nem sempre é reconhecida, reverberada, em suma, legitimada, uma vez que ela é vinculada ao irracional. Isso pelo falo de ainda vigorar no imaginário social representações que associam o negro e a negra ao não humano, ao lugar de fala aquém ou abaixo da condição de humanidade, portanto, dentre inúmeros significados, aquele que fala, mas não produz ciência.
No entanto, é importante considerar o empoderamento de negros e negras como uma afronta a essa estrutura, um caminho que possibilite que a palavra dita seja ouvida,
compreendida e reconhecida como verdadeira. Porém é necessário que esse empoderamento seja simultaneamente individual e coletivo, dado que
[…] o empoderamento um fator resultante da junção de indivíduos que se reconstroem e desconstroem em um processo contínuo que culmina em empoderamento prático da coletividade, tendo como resposta as transformações sociais que serão desfrutadas por todos e todas. Em outras palavras, se o empoderamento no seu sentido mais genuíno visa a estrada para a contraposição fortalecida ao sistema dominante, a movimentação de indivíduos rumo ao empoderamento é bem-vinda, desde que não se desconecte de sua razão coletiva de ser (BERTH, 2018, p. 42).
Portanto, considero importante o empoderamento de modo individual, contudo,
entendo que esse empoderamento possa ter fragilidades, visto que o sujeito pode se sentir
isolado dentro de seu grupo, ao mesmo tempo que não consiga ultrapassar certas barreiras em virtude de ser visto e reconhecido não apenas como homem negro ou mulher negra, mas como
um sujeito negro pertencente a um grupo étnico-racial marginalizado.163 Nesse sentido, Berth
(2018) nos oferece o seguinte exemplo:
[…] pensemos em um rapaz negro, brasileiro, que teve seus talentos reconhecidos e passou a ser absorvido nos meios de privilégio do topo de nossa pirâmide social. Embora ele esteja economicamente em mobilidade social ascendente e saia do lugar de subalternidade reservado para sua coletividade, a marca expressada pela sua negritude não permitirá que o vínculo social e permanente com a sua coletividade seja rompido. Enquanto essa comunidade não se empodera, ele continua em constante fragilidade social e exposto às violências que atingem sua coletividade, como o genocídio, por exemplo. Seria preciso estabelecer a necessidade de avaliar e articular diversas dimensões de trabalho rumo a aplicação da Teoria do Empoderamento como instrumento de emancipação e erradicação das estruturas que oprimem (BERTH, 2018, p. 43-44).
Desse modo, entendo que não há possibilidade de romper a estrutura mencionada anteriormente, que deslegitima nossos discursos, apenas com um empoderamento de caráter individual. É de fundamental importância que sejam criados meios para que aconteça um empoderamento coletivo, no qual a coletividade também possa romper as múltiplas e diferentes “prisões” (lugares comuns) em que são colocadas pelas práticas do racismo, da branquitude e de outras opressões que resultam em empecilhos para atrapalhar e impedir que grupos conquistem autonomia ou reconhecimento e livre escolha sobre seus destinos.
Outro motivo que nos faz acreditar que o empoderamento coletivo tem possibilidades de transpor essa estrutura é fato de que, em determinados casos,
Indivíduos negros que são erroneamente avaliados como empoderados, tendo como critério a afirmação da estética negra, podem trazer a banalização das lutas antirracismo, pois reproduzirão e expressarão equívocos racistas que lhes foram ensinados e internalizados durante toda uma vida, tornando-se caricatura nas mãos da branquitude atenta a essas fragilidades da questão racial (BERTH, 2018, p. 108).
Berth (2018) ainda argumenta que “[…] é fundamental que enxerguemos a estética como um dos pilares do processo de empoderamento. Veja bem, um dos pilares, não mais nem menos importante” (BERTH, 2018, p. 107). Concordo com a autora, pois a ruptura com a estética considerada bela e modelo a ser seguido é muito importante, todavia, o processo de “empoderar-se” exige mais do que uma transformação de estética, requer uma mudança de pensamento, de comportamento, que também passa pelo reconhecer-se enquanto sujeito oprimido. Nas palavras dessa autora, é “[…] uma movimentação interna de tomada de consciência ou do despertar de diversas potencialidades que definirão estratégias de enfrentamento das práticas do sistema de dominação machista e racista” (BERTH, 2018, p. 17).
Diante disso, penso que não há uma resposta fechada para a nossa pergunta (Que empoderamento é esse?), dado que o processo de “empoderar-se” é diverso e múltiplo e a movimentação interna tem diferentes ritmos, ações e estratégias subjetivas e coletivas. Contudo, penso que é possível conjecturar um eixo de referência para refletir sobre esse processo. E pelo fato de entender que o empoderamento tem que ser da ordem do coletivo e considerando-o não apenas como um conceito, mas também uma prática, quero neste momento projetar uma nova possibilidade de compreensão do ato de “empoderar-se” na esfera do coletivo.
Trata-se de uma junção dos conceitos de empoderamento, debatidos até agora, e o de
ubuntu, sendo este último de origem africana, com vários significados semelhantes que
partem da premissa de Humanidade (RAMOSE, 2002). O sentido que considero mais apropriado para estabelecer um diálogo com o conceito/prática de empoderamento é “Eu sou porque nós somos”. De acordo com o filósofo Renato Nogueira (2012, p. 150), “[…] ubuntu significa que só posso ser feliz se as pessoas ao meu redor também estão felizes”. Desta forma, eu só posso realmente me sentir empoderado, com autonomia sobre minhas escolhas, a partir do momento em que minha coletividade também obtiver autonomia sobre seus caminhos.
Assim, ubuntu é “[…] afirmação da igualdade contra o privilégio, da multiplicidade contra a uniformidade, do respeito contra o preconceito, da inclusão contra a exclusão e da criação de meios que assegurem ‘humanidade’ para os muitos de uma coletividade […]”
(NASCIMENTO, 2014, p. 2). Portanto, penso que “empoderar-se” é se emancipar em todos os sentidos e níveis, mas tendo como sustentação a filosofia do ubuntu, uma vez que será esse alicerce o responsável pelo processo de empoderamento não ficar restrito ao indivíduo e, por conseguinte, se expandir para o coletivo, afinal, ubuntu na região da República Democrática do Congo significa “Eu só existo porque nós existimos” (MALOMAD, 2014 apud NASCIMENTO, 2014, p. 2). Desta maneira, eu me empodero quando estamos empoderados.