Como efetivamente o pensamento de Spinoza, pode ajudar a pensar uma relação viva entre Corpo e Literatura? As obras e textos de Spinoza, principalmente a sua Ética, visam ao exercício livre do corpo, da mente e da razão, uma Ética que estabelece um olhar sobre as paixões e ações do corpo, afirma a necessidade do mundo – tudo o que existe é necessário por si ou pela sua causa –, recusa o livre-arbítrio da vontade, qualquer finalidade, recusa qualquer transcendência. Que pode esse pensamento ajudar a pensar uma Ética que fundamentalmente possa ser um modo-de-conhecer potente de existir e de pensar? Assim, um modo-de-conhecer que implica em produzir um corpo/mente, uma criação cognitiva de si e de mundo em que esse modo-de- conhecer ligue o Ser Essencial das coisas com o nosso próprio Ser Essencial numa produção Ética. Esse modo-de-conhecer, então, passa operar uma cognição aquém e além de um mero enriquecimento de saber em termos conteudistas, mas uma cognição que se torna um conhecer mais potente e que empresta a tudo do mundo uma expressão-produção ética de vida. Um desejo: acompanhar, então, esses elementos fundamentais pensados por Spinoza para com eles seguir pensar Corpo e Literatura como uma ressonância e principalmente como um disparador na constituição de um modo-de-conhecer que potencialize um modo mais potente de existir e de pensar, enfim, um modo-de-conhecer ético-estético da/de/com a vida.
Baruch (ou Benedictus, correspondente latino – “abençoado”) Spinoza (1632 – 1677) pensou uma Ética que em sua ontologia tem como elementos fundamentais o que ele vem a chamar de substância, atributos e modos. Toda compreensão de sua perspectiva de pensamento teórico-prático de uma Ética depende do entendimento desses elementos básicos levantados por ele.
Spinoza já em sua Primeira Proposição de sua Ética declara que uma substância é, por natureza, primeira, relativamente às suas afecções68. Como compreender tal declaração? Spinoza fundamentalmente concebe a Substância como o incondicionado, o absoluto, o que não depende de mais nada para existir, ou seja, nos termos de Spinoza, ela, a Substância, é causa
sui (causa de si). E por causa de si compreende aquilo que cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente69. Ainda falando do que resulta da definição de Substância, à natureza de uma Substância pertence o existir70. Disso, então, compreendamos que uma Substância não pode ser produzida por outra coisa. Ela será, portanto, causa de si mesma, isto é, a sua essência necessariamente envolve a existência, ou seja, à sua natureza pertence o existir71. A substância, portanto, é absoluta é necessariamente infinita, pois como, na verdade, ser finito é parcialmente, uma negação e ser infinito, uma afirmação absoluta da existência de uma natureza, segue-se, portanto, que toda substância deve ser infinita72. Tal noção de substância, diz Spinoza, só pode ser aplicada a Deus, ao ser que existe por si próprio, a um ser absolutamente infinito e constituído de infinitos atributos. Por Deus, diz Spinoza, compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita73. É preciso, pois, explicitarmos o que Spinoza compreende por atributo. Ele diz em sua Ética que por atributo compreendo aquilo que, de uma Substância, o intelecto percebe como constituindo a sua essência74. Ora, se pela definição 6 da Ética, Deus é um ser que existe por si próprio e é constituído por infinitos atributos, então, os atributos são aquilo que percebemos da Substância, já que ela mesma não nos é possível conhecer. Devido à limitação de nossa possibilidade de conhecer e perceber o absolutamente infinito, ou seja, a Substância, a Natureza, Deus, então, nosso entendimento percebe a Substância, a Natureza, Deus a não ser nos seus atributos, em especial dois, a saber, a extensão e o pensamento. Os atributos são infinitamente infinitos, assemelham-se à Substância mas não se confundem com ela. Os atributos são expressões infinitas e cada qual distinta de uma única e mesma Substância. Cada atributo expressa a essência da Substância, Natureza, Deus na sua totalidade e não parte da Substância, Natureza, Deus. Como foi dito anteriormente, cada atributo é infinito em si, não absolutamente infinito – esse só a Substância –, mas infinitamente infinitos. Extensão e pensamento são infinitos, ou seja, a extensão não tem limites, assim como o pensamento. Ou, dito de outra maneira, o limite de ambos é infinito. Diz-se também que cada
atributo é infinito em seu gênero, o que se compreende que extensão não é pensamento e pensamento não é extensão. Pode-se dizer que se os atributos da Substância são infinitamente infinitos, então, essa infinidade infinita de atributos são atributos do absolutamente infinito, ou seja, Substância, Natureza, Deus. Fica claro, assim, que, ainda que dois atributos sejam concebidos como realmente distintos, isto é, um sem a mediação do outro, disso não podemos, entretanto, concluir que eles constituam dois entes diferentes, ou seja, duas substâncias diferentes. Pois é da natureza da substância que cada um dos seus atributos seja concebido por si mesmo, já que todos os atributos que ela tem sempre existiram, simultaneamente, nela, e nenhum pôde ter sido produzido por outro, mas cada um deles exprime a realidade, ou seja, o ser da substância75. Na Ética de Spinoza há, ainda, a maneira de se compreender as coisas singulares, ou seja, aquilo que não é absolutamente infinito, aquilo que não é causa de si, mas aquilo que é causado ou produzido por outra coisa. É o que Spinoza compreende por modo. Ele diz: por modo compreendo as afecções de uma substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido76. A Substância sive Natureza é causa de si própria, mas pela definição acima, um modo é em outra coisa, ou seja, o modo não é causa de si próprio mas está em outra coisa. Os modos podem ser compreendidos também como afecções do atributo de Deus. Como diz Spinoza, a coisa extensa e a coisa pensante ou são atributos de Deus ou são afecções dos atributos de Deus77. O fundamental dessa compreensão de Spinoza é que modo será sempre um modo de ser de alguma coisa, uma maneira de ser da Substância, uma modificação da Substância. Ademais, a identidade do modo, assim, tem de ser compreendida dependente conceitualmente e realmente da Substância. Quando na definição 5 da parte I da Ética Spinoza diz que os modos são afecções da Substância, entendamos, pois, afecções como modo e também como alterações do modo. Isso quer dizer que tanto realmente e conceitualmente as afecções “são em outra coisa”. Ou seja, afecções referem-se a um modo, a uma coisa particular, às afecções da substância. Nas palavras de Spinoza, as coisas particulares nada mais são do que afecções dos atributos de Deus, ou seja, modos pelos quais os atributos de Deus exprimem-se de uma maneira definida e determinada78. As
afecções também referem-se ao corpo e à mente, às suas afecções, o que Spinoza chamará de afeto e imaginação, respectivamente ao corpo e à mente.
Resumidamente e numa palavra, os modos são afecções da substância, efeitos imanentes e, também, são as afecções das afecções da substância. Ontológica e logicamente o modo depende da realidade e do conceito de Substância que é causa dele. O modo não é causa de si mesmo nem de seu conceito, mas efeitos de uma causa que não está contida neles mesmos, ou seja, são efeitos sem causa.
Os modos não tendo seu conceito e sua causa em si próprios, dependem do conceito e causa da Substância, Natureza, Deus. A substância tem nos modos sua expressão pelas suas afecções. A substância possui os modos, esses enquanto afecções dela e, assim, ontologicamente a identidade dos modos depende direta e necessariamente da identidade da substância. Afetos e imaginações são afecções das afecções da substância , dependem igualmente da realidade e do conceito de substância (sua causa distante) e do conceito de modo que é uma maneira de se produzir uma existência corpo a corpo próximo com tudo do mundo. Assim, modos – corpo e mente – são afecções da substância e afecções dos modos – afetos e imaginações – dependentes da realidade e conceito da substância enquanto uma causa distante e de uma causa próxima que é o corpo a corpo com o mundo. Compreendamos, assim, que a substância é causa do modo – corpo e mente – e que este causa afetos e imaginações na relação com outros corpos causando outras e outras afecções indefinida e sucessivamente. Assim se passa com o mundo, assim acontece o dinamismo do mundo. Como diz Spinoza, de uma causa dada e determinada segue-se necessariamente um efeito; e, inversamente, se não existe nenhuma causa determinada, é impossível que se siga um efeito79. Um corpo enquanto modo é um efeito da substância e dele sempre serão produzidos indefinidamente outros efeitos. Pois, não existe nada de cuja natureza não se siga algum efeito80 e, pela demonstração dessa proposição, tudo o que existe exprime a natureza de Deus, ou seja, exprime a sua essência de uma maneira definida e determinada, isto é, tudo o que existe exprime, de maneira definida e determinada, a potência de Deus, a qual é causa de todas as coisas e, portanto (pela prop.16), de tudo o que existe deve
seguir-se algum efeito. Assim, tudo é Deus, tudo o que se segue como efeito é efeito de Deus e o corpo é, enquanto efeito, parte do “tudo”, uma maneira, modo de ser divino.
Compreendamos a dimensão e a implicação do existir e do pensar o real, a Vida a partir do que Spinoza elabora em sua filosofia. Um corpo como modo, enquanto efeito da Substância, Natureza, Deus (incluo aqui a Vida), um corpo/mente enquanto um modo-de-existir e modo-de-pensar – corpo como um modo de ser divino – tem no existir e no pensar a potência de se perceber existencial e cognitivamente como eterno e infinito em (univocidade e imanência) Substância, Natureza, Deus, Vida. Constituir-se como corpo, então, passa por produzir-se uma existência que compreende que tudo se liga com tudo. E, uma vez que se compreenda de modo adequado as relações, alcança- se uma cognição inventiva que compreende que nada se separa de nada e que o corpo é um modo de infinitas qualidades, produz, tece, articula, cria todo um mundo. Cada corpo em sua potência é uma parte da Natureza por esforço de perseverar em seu existir em que existe por si absoluta e infinitamente – Natureza, Substância, Deus, Vida. A mente de um corpo que se produza e compreenda tudo assim tem um conhecimento adequado de que cada ideia de cada corpo ou coisa singular existente em ato envolve necessariamente a essência eterna e infinita de Deus81. Assim, pela Demonstração que segue essa proposição Spinoza diz que a ideia de uma coisa singular existente em ato envolve necessariamente tanto a essência quanto a existência dessa coisa. Ora, as coisas singulares não podem ser concebidas sem Deus; mas, por terem Deus como causa, enquanto ele é considerado segundo o atributo do qual essas coisas são modos, suas idéias devem envolver necessariamente o conceito desse atributo, isto é, a essência eterna e infinita de Deus82. Assim, existir e pensar de um corpo na Vida constitui uma tarefa ética de fundamental importância, existir e pensar uma vida imanente à Vida. Spinoza compreende a existência um sentido bem forte que esse conceito possa ter. Diz Spinoza, por existência compreendo, aqui, não a duração, isto é, não a existência enquanto concebida abstratamente e como uma certa espécie de quantidade. Falo, na verdade, dessa natureza da existência que é conferida às coisas singulares porque da necessidade eterna da Natureza de Deus seguem-se infinitas
coisas, de infinitas maneiras. Falo, repito, dessa existência das coisas singulares, enquanto elas existem em Deus. Pois, embora cada uma seja determinada, por outra coisa singular, a existir de uma maneira definida, a força pela qual cada uma persevera no existir segue-se da natureza de Deus83. Assim, o conhecer faz ligar uma compreensão de que um corpo a corpo com o mundo desperta um existir e pensar potentes, no sentido de que o que se encontra numa existência no mundo, na vida, é o que um corpo “incorpora” ou “encarna”. Uma ligação superior de conhecimento do/de mundo, da vida, além e aquém de um saber em termos de conteúdo, mas um conhecimento que empresta ao corpo e a todas as coisas do mundo, vida e um brilho essencial. Tudo começa, pois, para o indivíduo, com um “eu sinto” e não com um “eu penso”, com um “eu sou afetado”, com uma paixão.84
Nessa relação, tudo vem a ser para o corpo mais do que mero acaso ou mera exterioridade. Um corpo a corpo nessas condições é necessariamente um acontecimento de nascimento sempre novo. O corpo realiza no/com o mundo um novo e eterno nascimento. A ideia da mente desse corpo é a ideia de não mais Ser isolado, um sujeito, um objeto etc., mas um membro, uma parte que existe e pensa, uma vida que se atualiza e que abarca uma compreensão da progressão absolutamente infinita da Vida. Ou se compreende o existir e o pensar de um corpo na Vida nessa ontologia ou, do contrário, todo existir e pensar do corpo será inadequado. Assim, produzir uma vida nessa ontologia passa a ser produzir um modo-de-conhecer que compreende ser passível de conhecer ativamente tudo o que é – a Natureza em seu exuberante absoluto e infinito dinamismo. É a total absoluta e infinita exuberância que se exprime, que é expressa por infinitas qualidades e que essas existem também finitamente como um modo. Como expressões dessas qualidades é que um corpo produz uma Ética ao constituir existência e pensamento, existir e pensar de um corpo numa vida. Nesse modo-de- conhecer situarmo-nos no mundo na qualidade de criadores, ou seja, o mundo é o que compomos – existência e pensamento. O mundo é a inseparabilidade de tudo e também do que se compõe no corpo a corpo que se faz mundo, é mundo.
Seja o que se constitua no corpo a corpo como um modo-de-conhecer, o corpo produz existência e pensamento aquém e além de uma mera repetição do acaso das coisas, mas produz um sentido de realização de mundo por criação. Essa criação aberta pelo modo-de-conhecer possibilita produzir uma existência e um pensamento infinitos. Toda realidade adquire uma compreensão de que tudo faz corpo, tudo conecta com o mundo inteiro. Desse modo, não mais faz sentido falar de um sujeito, indivíduo, eu isolados, mas de pensar um modo-de-existir e modo-de-pensar que implique todo o nexo de relações revelado nessa compreensão cognitiva de Ser no mundo como uma grande produção ininterrupta com as forças presentes no mundo. Tal compreensão é mesmo a Vida ela mesma que tudo abrange e tudo inclui ultrapassando qualquer pessoalidade que se possa atribuir a um indivíduo ou sujeito em particular. Esse modo de produção de existência e de pensamento – o que é o mesmo em dois atributos diferentes – possibilita uma ética que é também um valor de transformação de si e do mundo pela criação. A vida produzida como corpo no Real, na Vida, é constante transformação do que é produzido pela criação. O valor da criação de um corpo é valor da potência de transformar a vida real enquanto a produz. Concomitante à criação de mundo, há a cognição que se realiza no acontecer-do-mundo de uma vida que se cria. A cognição é, nesse caso, a compreensão do mundo que cria, é a compreensão da mente do corpo que acontece no acontecimento da criação. Essa compreensão é mesmo um conhecimento que não é uma produção primeira da mente, mas um conhecimento que é um puro padecer do corpo. Nesse padecer do corpo o pensamento se modifica justo pelas relações que no corpo a corpo se estabelecem e a mente se modifica pela “nova” ideia do corpo modificado pelo padecimento em sua relação com outros corpos. Para compreender melhor isto, cabe assinalar que o entender (ainda que a palavra soe a outra coisa) é um puro e simples padecer, quer dizer, que nossa alma é modificada de forma que recebe outros modos de pensar que não tinha anteriormente. Pois, assim como alguém por haver atuado em todo objeto, recebe formas ou modo de pensamento similares a ele, assim está claro também que este adquire da forma ou qualidade do objeto um sentimento totalmente distinto a daquele outro que não tinha tantas causas e que, portanto,
havia sido movido a afirmar ou negar por uma ação mais ligeira, já que percebeu em si mesmo menos ou menores acréscimos85. A vida criada com o mundo é a vida compreendida na mais profunda superfície do corpo, não mais uma compreensão de/do “dentro” ou “fora”, mas uma vida estendida ampla e infinitamente atualizada indefinidamente em sua potência de existir num si e num mundo. Cabe ao corpo produzir eticamente essa vida e dar-se, enfim, a ela. O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre! Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter- se-á o que gastar. Não ter pois avareza com esse vazio-pleno: gastá-lo86. Que o corpo, então, não se poupe de viver esse perigo estranho, a máxima intimidade com o absolutamente infinito, de gastar-se sem avareza nesse risco. Produzir esse modo-de-conhecer é constituir-se num modo ético, um si, pois toda perspectiva de um sujeito, indivíduo e de um eu modernos é dissolvida na sua forma dura e esse modo-de-conhecer passa a permitir compor um modo de subjetivação de um si insubordinado às formas constituídas e limitadas de sujeito, indivíduo e de eu transcendentes e/ou criadores a partir de si enquanto perspectiva privilegiada. Na Ética o si é um modo que absorve e que é absorvido pelo dinamismo do real. O si passa a ser o modo de um corpo viver todos os afetos sem avareza, o vazio-pleno da vida. Compreendendo junto a Spinoza, os afetos são o que inevitavelmente o corpo haure de um encontro, de uma afecção sofrida. O corpo em suas afecções interage, sofre indefinidas afecções e impressões. Os afetos são as reações (efeitos) no corpo das afecções sofridas. Afeto é interpretação. Assim, o que impulsiona, move, constitui o leitmotiv do corpo são os afetos. O corpo são afetos que mesmo a razão ela mesma se vê impossibilitada de modificá-los, ao contrário, a razão não é livre dos afetos do corpo. Então, o modo-de-conhecer do corpo passa pela compreensão dos afetos que o movem e, dessa maneira, ele passa a uma razão afetiva. É o que Nietzsche disse algures, numa carta: fazer do conhecimento o mais potente dos afetos. Compreender as relações corpo a corpo, as afecções do corpo, as paixões do corpo, conquistar o
entendimento de seus afetos é o que um corpo pode conquistar nas suas relações por afecções. Quando a razão do corpo é uma razão afetiva, então, o corpo entra numa cognição de si e do mundo nas suas relações, num modo- de-conhecer ad hoc ele passa a conhecer essas relações. O peso não se encontra no ser, mas nas relações, são elas é que dizem do ser. Cada si constitui-se numa determinada relação com infindáveis afecções, mas cada si junto com outros. O corpo é essa provisoriedade dados os múltiplos afetos constituídos na solidão pela ininterrupção das afecções junto com outros corpos numa mesma matéria imanente, Substância, Natureza – Vida. E constituir-se de afetos na solidão, nisso que impulsiona o corpo, move-o no mundo, na substância do mundo. E o que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão87. Nisso que é a solidão de cada corpo repleto de múltiplos afetos, então, qual a sabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos afligem nossos buracos88. O corpo na sua movência numa vida constitui-se num si afetivo pelas afecções, constitui-se num corpo que é um esforço em perseverar em seu ser, corpo/mente que pelo desejo age e pensa a potência de um si e