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O QUE ERA SER MULHER NO BRASIL DOS ANOS 1950

Ser mulher, esposa e mãe era o destino da mulher da década de 1950. A vocação para a vida doméstica era essencial para a constituição de um lar. Assim, nas primeiras décadas do século XX, a expectativa que se tinha em relação ao comportamento feminino era basicamente a mesma dos anos anteriores. A mulher, até os anos 196045, está presa à necessidade de encontrar marido, realizar um bom casamento, ter uma casa e filhos.

Do mesmo modo que antes, esperava-se que a esposa fosse portadora de inúmeras qualidades domésticas, fundamentais para que o casamento desse certo. Precisava ser simples, mas requintada, modesta, justa, saber cozinhar, educar bem os filhos, entender de economia

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PINSKY, Carla Bassanezi. Mulheres dos anos dourados. São Paulo: Contexto, 2014, p. 18.

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ALVES, BARSTERD. Permanência ou mudança: a legislação sobre a família no Brasil. In: RIBEIRO, I. (Org.). Família e valores: sociedade brasileira contemporânea. São Paulo: Loyola, 1987.

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Os anos 1960 são marcados por inúmeras novidades - surge o anticoncepcional; a geração beat, que se opunha à sociedade de consumo; o movimento artístico da Art Pop e a revolução feminista, entre outras.

doméstica e ser bem humorada. Ter iniciativa, desejar trabalhar fora de casa e possuir um espírito de aventura eram qualidades masculinas, portanto, não desejadas para uma mulher, pois poderiam alterar sua feminilidade. A indústria de bens de serviços tornou-se uma “aliada” da dona de casa dessa década, afinal, a tecnologia chegava à cozinha, e, agora, a mulher não tinha mais desculpas para não se cuidar, alegando que o trabalho doméstico roubava seu tempo.

A imprensa feminina se apropriou da ideia da “supremacia da praticidade”46, agora a dona de casa era também podia ser uma garota moderna. A leitora era incitada a ter esses novos objetos dentro de casa, na ilusão de que seria mais livre para suas atividades; no entanto, continuava enredada no mesmo sistema de antes. Conforme destaca Pinsky47, a leitora era convidada a se modernizar, seja através do uso de eletrodomésticos, decoração da casa ou comprando revistas. Essas ações não ameaçavam as tradicionais atribuições de gênero, pois ela continuava a ser a única responsável pelas tarefas domésticas.

A domesticidade da mulher é uma característica marcante da imprensa feminina dessa época. O casamento e a maternidade, somados ao desempenho das tarefas domésticas, são apresentados como se fossem o destino natural da mulher, negando toda sua dimensão social. Assim, as mulheres são vistas como esposas48, mães e donas de casa em potencial, baseando- se numa ideia predeterminada de diferença sexual. Nesse sentido, o vínculo matrimonial era visto como uma “garantia de controle sobre o poder, da mesma forma que funcionava como proteção contra as freqüentes ameaças de desastres econômicos”49

. A nova sociedade urbano-

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As aspas são minhas, afinal a publicidade da época anunciava uma verdadeira revolução na vida da dona de casa. Agora ela teria a tecnologia como aliada, trocaria o tanque por uma máquina de lavar roupas, o forno do fogão pelo elétrico, o pano de lustrar pela enceradeira. Assim ela faria todo o serviço em menos tempo e poderia ficar bonita e menos cansada para esperar o marido voltar do trabalho. Ver Anexo - Propagandas.

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PINSKY, 2014.

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“Para a mulher casada, sujeito a ser educado com determinação, elaboraram-se decálogos, como o publicado na Revista Feminina: I – Ama teu esposo acima de tudo na terra e ama o teu próximo da melhor forma que puderes; mas lembra-te de que a tua casa é de teu esposo e não do teu próximo. II – Trata teu esposo como um precioso amigo; como a um hóspede de grande consideração e nunca como uma amiga a quem te contam as pequenas contrariedades da vida. III – Espera teu esposo com teu lar sempre em ordem e o semblante risonho; mas não te aflijas excessivamente se alguma vez ele não reparar nisso. IV – Não lhe peças o supérfluo para o teu lar; pede-lhe sim, caso possas, uma casa alegre e um pouco do espaço tranqüilo para as crianças. V – Que teus filhos sejam sempre bem-arranjados e limpos; que ele ao vê-los assim possa sorrir satisfeito e que essa satisfação o faça sorrir quando se lembre dos seus, em estado ausente. VI – Lembra-te sempre que te casaste para partilhar com teu esposo as alegrias e as tristezas da existência. Quando todos o abandonarem fica tu a seu lado e diz-lhe: Aqui me tens! Sou sempre a mesma. VII – Se teu esposo possuir a ventura de ter uma mãe viva, seja boa para com ela pensando em todas as noites de aflição que terá passado para protegê-lo na infância, formando o coração que um dia havia de ser teu. VIII – Não peças à vida o que ela nunca deu para ninguém. Pensa antes que se fores útil poderás ser feliz. IX – Quando as mágoas chegarem não te acovardes, luta! Luta e espera na certeza de que os dias de sol voltarão. X – Se teu esposo se afastar de ti, espera-o; ainda mesmo que te abandone, espera-o! Porque tu não és somente a sua esposa; és ainda a honra de teu nome. E quando um dia ele voltar, há de abençoar-te” (MALUF; MOTT, 1998, p. 394-396).

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industrial que se formava exigia a representação de papéis cada vez mais difíceis para as mulheres-esposas. Diante desse contorcionismo imposto, as mulheres até podiam aspirar a ter uma vida mais livre, mas exigia-se que, antes de se dedicar ao trabalho remunerado, fossem boas donas de casa.

Essa também foi uma década em que ficaram frente a frente os ideais das moças de família com as moças tidas como levianas ou modernas, aqui no sentido contrário ao exposto acima, de modo pejorativo. Carla Bassanezi faz uma distinção entre elas, explicando que

as moças de família eram as que se portavam corretamente, de modo a não ficarem

mal faladas. Tinham gestos contidos, respeitavam os pais, preparavam-se

adequadamente para o casamento, conservavam sua inocência sexual e não se deixavam levar por intimidades físicas com os rapazes [...] mantendo-se virgens até o matrimônio enquanto aos rapazes era permitido ter experiências sexuais. [...] As

levianas eram aquelas com quem os rapazes namoram, mas não casam. Deveriam,

inclusive, ser evitadas pelas boas moças para que estas não fossem atingidas por sua má fama e seus maus exemplos50.

Apesar desse rigor, já era possível e permitido às moças conhecerem os rapazes, futuros pretendentes, pois, teoricamente, não aconteciam mais casamentos sem afeto, como ocorria antigamente. Por outro lado, continua ocorrendo um autocontrole feminino, até porque controlar a mulher e seus impulsos era tido como uma preocupação social. Por isso, há uma busca à moça que melhor se enquadre nos padrões da boa moral. É verdade que, nesse período, a escolha matrimonial não dependia mais dos pais e, sim, dos namorados; mas a influência familiar permanecia forte, e isso significa dizer que nem sempre o marido sonhado pela filha era o ideal, pois havia outros fatores que determinariam a escolha do companheiro, entre eles,

o critério principal de avaliação do bom partido, um futuro bom marido, era mais consensual: ser honesto e trabalhador, capaz de manter a família com conforto, pois acreditava-se que ‘só o amor não é tudo, quando a fome bate na porta da rua o amor pula a janela’51

.

A preocupação que a sociedade mais conservadora tinha com o comportamento feminino era pertinente, porque a mulher vai encontrar no bojo dessa década a possibilidade de ser mais autônoma, de se destacar e de alterar o velho comportamento feminino. Mulheres essas que, ao terem mais acesso à educação, e, logo na sequência, às pílulas

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BASSANEZI, Carla. Mulheres dos anos dourados. In: PRIORE, Mary del (Org.); BASSANEZI, Carla (Coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 199, p. 610-612.

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anticoncepcionais, podendo fazer uso livre da sua sexualidade, desestabilizam as estruturas conservadoras da sociedade. Segundo, Maluf e Mott, essa moça dos tempos modernos, cheia de liberdades, de saia curta e decote profundo, era perigosa e ameaçadora à ordem da família, tanto que a imprensa da época passa a realçar a importância e o sentido da boa educação e do comportamento da mulher, questionando os das que ousavam ser diferentes, afinal “que pode ser da menina moderna?”52

. Nesse questionamento, há sem dúvida, uma cobrança da missão imposta à mulher, pois como esta menina moderna dará conta do seu papel principal, que é o de formar uma família e servir de exemplo para os seus filhos e sociedade em geral, sendo independente? O tom da pergunta é quase professoral; nesse sentido, a imprensa, principalmente a feminina, buscará, nos propósitos positivistas, conselhos e regras que possam ser oferecidos às moças direitas, no sentido de preservá-las das más companhias.

É por isso que as páginas femininas continuarão em voga, por meio de seu formato que lembra um almanaque, as quais direcionarão a leitura das mulheres da época e, de certa forma, de toda a sociedade. Portanto, faz-se necessário ressaltar que tanto o comportamento avançado das moças quanto o cuidado com os interesses da sociedade, defendidos pela Imprensa Feminina, já existiam antes da década estudada. Maluf e Mott destacam que, já em 1926, Afrânio Peixoto, na obra Sinhazinha, condenava a independência da mulher. Para as autoras, a partir da leitura da obra citada, a imagem do homem que tem de ficar em casa, cuidando do lar, enquanto a mulher trabalha, beira o pejorativo, pois “a imprensa se revelava implacável com a emancipação feminina. Quando executado por um homem, o trabalho doméstico é pintado como algo duro e penoso – e a personagem que se submete a ele é tratado como ridículo”53

. Nesse caso, compete ao marido ser o responsável por prover o sustento da família, o que, por sua vez, legitimava a dependência econômica da mulher, transformando-a, assim, na única responsável pelos serviços domésticos. Para que o marido a considerasse uma boa dona de casa, era fundamental a essa mulher,

além de manter permanente bom humor, de realizar todas as tarefas sempre em benefício de toda a família, deixando para segundo plano tudo o que as afastasse da admiração científica do lar, de ser econômicas, as mulheres jamais deveriam pedir a participação do marido no serviço doméstico54.

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MALUF, Marina; MOTT, Maria Lúcia. Recônditos do mundo feminino. In: NOVAIS, Fernando A; SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil: República: da belle époque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, v. 3, p. 390.

53

Ibid., p. 378.

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O casamento ideal definia, portanto, as atribuições e direitos de cada cônjuge e, assim, as tarefas domésticas, como cozinhar, passar, lavar, cuidar dos filhos e da casa, eram deveres femininos, de forma que os homens deveriam ser solicitados para fazer apenas pequenos reparos, nada que colocasse sua reputação em dúvida. Isso demonstra que havia uma hierarquia familiar, respaldada pela legislação, pois pertencia ao homem o poder de decisão, uma vez que, “o marido era o chefe, detentor de poder sobre a esposa e os filhos, a quem cabiam as decisões supremas, a última palavra. Logo abaixo vinha a autoridade da esposa”55.

Dessa forma, a mulher dos anos 1950, a rainha do lar, era a responsável direta pela felicidade doméstica, devendo ter, como preocupação central, o marido e os filhos. De certa maneira, essa felicidade era baseada no bem-estar do marido. Mas como isso seria possível? Segundo Bassanezi, havia algumas fórmulas que poderiam ajudar as mulheres dos anos dourados a terem sucesso nessa tarefa, entre elas, as prendas domésticas56, afinal, o bom desempenho doméstico, inclusive saber cozinhar bem, era um modo de cuidar da manutenção do casamento. E onde aprender sobre as prendas domésticas? A imprensa feminina encarregou-se de auxiliar a mulher nesse aprendizado. Além disso, para que a harmonia fosse mantida, a mulher precisa tornar-se companheira de seu esposo, facilitando sua vida e baseando a relação do casal na amizade, pois “a relação conjugal era mais marcada pelo respeito do que pelo princípio de prazer”57

. Isso significa dizer que o amor não atuava sozinho. No início do século, há apenas vinte anos, mais importante que o amor era o sentimento de amizade que deveria haver entre os cônjuges, porque

na busca da união para toda a vida, o casamento encontra sua razão de ser na mútua estima e amizade dos esposos, e seja qual for a maneira por que se manifeste, é sempre na forma de simpatia, independente dos arroubos sentimentais, que se desvanecem com o tempo58.

O que se pode extrair desta percepção sobre a amizade conjugal é que havia um pudor exagerado ao se tratar dos assuntos relacionados ao sexo. Não raro, a primeira noite de núpcias expunha uma realidade nunca antes sonhada pelas mulheres de então. Essa ignorância em matéria de sexo também era uma forma de aprisionamento da mulher ao sacerdócio do lar. Essa diferenciação dos papéis estabelecidos entre homem e mulher foi se cristalizando ao longo dos tempos e, ao se prescreverem os papéis, corre-se o risco de atrofiar as relações.

55

BASSANEZI, op. cit., p. 626.

56

Ibid. p. 627.

57

MALUF; MOTT, op.cit., p. 392.

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Primeiro, que o dever ser empareda o homem enquanto provedor e a mulher enquanto rainha do lar; segundo, que ocultou da sociedade a importância social e econômica prestada pela mulher ao realizar seu trabalho dentro de casa, camuflando a dureza do serviço doméstico. Esses papéis escamoteiam o drama vivido por mulheres que, por estarem casadas, precisam cuidar da casa, do marido e dos filhos em ocupação de tempo integral como forma de indenização, uma vez que as possibilidades de acesso à igualdade de direitos acontecerão apenas anos depois, e mesmo assim, não de forma completa.

Vale lembrar que o conteúdo presente nessas páginas e, de certa forma, em toda a Imprensa Feminina, é marcado pelo contexto histórico, ou seja, as colunas, os textos, as páginas, refletem o pensamento da sociedade da época, com todos os seus avanços e contradições. Segundo Pinsky, a imprensa feminina busca a aproximação com a leitora, e a necessidade de se manter enquanto produto comerciável de um jornal/revista faz com que, invariavelmente, seja superficial, pois nela “nunca surgem ideias revolucionárias, não abrem caminhos, mas também não podem ficar muito distantes das transformações que ocorrem na sociedade, sob o risco de perder seu publico leitor”59

Essas mudanças e permanências nos costumes e nas relações familiares, assim como nas regras de comportamento em sociedade, podem ser percebidas pela leitura das colunas e páginas femininas da época e, mais, é possível ainda perceber o jogo de poder em que estavam envolvidos homens e mulheres, os conflitos de gerações, as insatisfações e até as atitudes de rebeldia diante dos ditames impostos.