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O que fazer com o discurso moral que se considera defeituoso?

1. TEORIA DO ERRO MORAL

1.4. O que fazer com o discurso moral que se considera defeituoso?

Um dos problemas a serem enfrentados pelo teórico do erro diz respeito, como acaba de ser dito, muito mais às consequências da aceitação da teoria do erro moral do que a elementos internos à mesma. Uma vez que alguém tenha sido exposto a argumentos convincentes a favor dessa teoria e, em virtude disso, tenha passado a aceitá-la como verdadeira, isto é, passado a crer nela de forma justificada, impõe-se a esse sujeito responder a seguinte indagação: o que fazer com o discurso moral que passou a considerar como defeituoso? Esta questão sobre o que fazer com o discurso moral após a aceitação da teoria do erro é frequentemente chamada na literatura de “the now what problem” e tem se discutido bastante sobre qual seria a resposta mais adequada a ela.

As respostas tradicionalmente fornecidas a essa questão são a proposta de um abolicionismo moral, que consistiria simplesmente em abandonar o discurso moral, e a proposta de um ficcionalismo moral, que seria manter a utilização desse discurso, mas passar a adotar em relação a ele uma atitude distinta da crença, mais especificamente, a atitude ficcional.

Para compreender-se o porquê de serem essas as respostas tradicionalmente fornecidas à questão, é salutar ter em mente o seguinte. Alguém que aceita a teoria do erro moral é

alguém que crê que os enunciados morais são sistematicamente não verdadeiros31, o que, em

outras palavras, seria não crer nas proposições que eles expressam, uma vez que se entenda que crer é, por definição, tomar como verdadeiro. Alguém que esteja em tal condição epistêmica não parece poder, sob pena de irracionalidade, manter as crenças morais que tinha antes da adesão a esse posicionamento teórico. Como afirma Joyce, se qualquer crença moral é não verdadeira e “se uma pessoa tem evidência deste fato, ter essa crença é irracional.” (JOYCE, 2000b, p. 727) Portanto, todo aquele que aceitar a teoria do erro como verdadeira estará, aparentemente, incorrendo em irracionalidade caso continue mantendo suas crenças morais.

A maneira mais natural de evitar tal acusação de irracionalidade parece ser abolir completamente o discurso moral, adotando-se, então, o “abolicionismo moral”. Dentre os que assim entendem, podem ser citados Nietzshe, Anscombe, Blackburn, William Hughes, Peter Woolcock, Richard Garner e Ian Hinckfuss. Segundo Hughes, “se [valores morais] são não reais então a única posição racional é buscar erradicar a linguagem moral e ética completamente e substituí-la por uma linguagem das necessidades e desejos.” (1986, p. 306) No mesmo sentido, afirma Woolcock:

Uma vez que percebemos [que não há obrigações morais], o desdobramento racional pareceria ser treinar a nós mesmos para longe de qualquer tendência residual a obedecer leis morais quando podemos ir longe mesmo quebrando elas. Devemos nos desprogramar de qualquer inclinação para sentir culpa ou para procurar redenção. (1993, p. 428)

Se a conclusão de que se deve abolir o discurso moral estiver correta, então a aceitação da teoria do erro parece trazer consigo consequências devastadoras para a moralidade, com a perda, até mesmo, de eventuais benefícios práticos que ela possa proporcionar aos indivíduos. De fato, muitos opositores da teoria do erro parecem resistir a ela, em grande medida, por pensarem que a aceitar implicaria necessariamente o abolicionismo moral, o qual traria tais consequências.

Dentre os proponentes da teoria do erro moral, há aqueles, como dito recém, que defendem o abolicionismo, os quais tentam mostrar suas vantagens ou mesmo amenizar a impressão de que seria uma opção, por assim dizer, catastrófica para a vida das pessoas, mas há também aqueles que defendem a manutenção do discurso moral, embora com o descarte das crenças morais, por pensarem que sua utilização seria de muita utilidade para a vida das

pessoas. Neste último grupo, encontra-se Joyce, que tenta oferecer uma solução ao problema da eventual acusação de irracionalidade sem que seja necessário abolir completamente o discurso moral. Para tanto, ele propõe o seu ficcionalismo moral, que consiste em continuar utilizando o discurso moral mesmo sabendo de sua falha em declarar verdades, passando a adotar, em vez da atitude doxástica, uma atitude ficcional em relação a ele. Dessa maneira seria possível, conforme o autor, evitar as consequências aparentemente devastadoras de se aceitar a teoria do erro, o que poderia, até mesmo, contribuir para uma reavaliação da mesma, já que ela é vista por muitos como uma ”doutrina perigosa e perniciosa”, cuja aceitação em larga escala poderia ser prejudicial.32 (JOYCE, 2005, p. 310) Além de Joyce, outros autores

também defenderam e defendem um ficcionalismo moral, dentre os quais parece poder ser inserido o próprio Mackie, cujas visões sobre o que fazer com o discurso moral poderiam ser interpretadas como a proposta de um ficcionalismo33, além de outros autores mais

contemporâneos que têm desenvolvido a proposta de modo mais completo e sistemático, como Daniel Nolan, Greg Restall e Caroline West (2005).

Mais recentemente, outras respostas têm sido oferecidas para a questão além dos tradicionais abolicionismo e ficcionalismo moral. Uma delas é, supreendentemente, a proposta de um conservacionismo, que consistiria na manutenção do discurso moral tal como ele está, a despeito de seu defeito, o que inclui conservar as crenças morais. Jonas Olson (2011 e 2014) e Philip Brown (2011) defendem esse posicionamento.

Outra resposta possível que tem defensores é o propagandismo, que consiste em o teórico do erro abandonar suas crenças morais, mas continuar utilizando o discurso moral normalmente, mantendo em sigilo sua informação sobre a teoria do erro moral e deixando as demais pessoas continuarem com suas crenças morais. Cuneo e Christy (2011) defendem esse posicionamento.

Por fim, uma terceira resposta alternativa às tradicionais é a proposta de um substituicionismo, que consiste em “adotar uma atitude de completo compromisso em relação a algumas proposições que não são proposições morais, e usar esses compromissos completos para preencher o buraco em nossa vida normativa” deixado pelo abandono das crenças morais. (LUTZ, 2014, p.362) Segundo Matt Lutz, que defende esse posicionamento, vários

32 No próximo capítulo, discorrer-se-á em maiores detalhes sobre as motivações de Joyce ao propor seu

ficcionalismo moral.

33 Mackie não chega a desenvolver uma proposta de ficcionalismo moral propriamente. O que ele faz,

principalmente, é reconhecer que, apesar do erro envolvido no discurso moral, sua utilização seria de grande utilidade. As considerações do autor nos contextos em que discorre sobre referida utilidade parecem amparar a interpretação de sua posição sobre o que fazer com o discurso moral como uma espécie de ficcionalismo. Nesse sentido é a interpretação de Richard Garner (2007). Contudo, há discussões a esse respeito, não sendo, portanto, uma questão pacífica.

seriam os candidatos possíveis a atitude de completo compromisso em relação a proposições não morais, dentre os quais ele cita as crenças que o sujeito tem sobre suas próprias atitudes e projetos, crenças sobre as normas predominantes de sua cultura ou mesmo atitudes distintas da crença. Tratar-se-ia, portanto, de um posicionamento genérico que admite vários candidatos possíveis como substitutos para as crenças morais. (LUTZ, 2014, p.362)

É em meio a essas e outras opções possíveis sobre o que fazer com o discurso moral após a aceitação da teoria do erro34 que está a proposta de Joyce de um ficcionalismo moral.

Neste trabalho, pretende-se proceder a uma avaliação crítica dessa proposta e, na medida em que ela foi apresentada por Joyce a fim de solucionar um problema que surge da aceitação da teoria do erro, foi salutar discorrer um pouco sobre essa teoria e, em particular, sobre a defesa da mesma empreendida por Joyce, como feito no decorrer deste capítulo. Apesar de não ser o objetivo aqui avaliar a teoria do erro em si, e tampouco a argumentação oferecida por Joyce em sua defesa, conhecer um pouco sobre ambas é uma boa maneira de mostrar o contexto mais amplo das visões do autor no qual está inserida sua proposta e, sobretudo, precisar o teor do problema específico para cuja solução ele a apresenta. Isto permite esclarecer de forma mais natural e compreensiva os pressupostos teóricos dos quais ele parte, assim como suas motivações e objetivos, o que é de fundamental importância, tanto para a adequada compreensão, quanto para a avaliação de sua proposta de um ficcionalismo moral. Tendo todo o exposto até o momento como ponto de partida, passar-se-á, a partir de agora, a fazer uma reconstrução de tal proposta, para, em um momento posterior, realizar a avaliação crítica que constitui o objetivo geral deste trabalho.

34 A lista de opções recém apresentada não pretende ser exaustiva, mas tão somente apresentar os principais