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Que interactividade deve ter o jornalismo interactivo?

Tradicionalmente, o jornalismo trazia aos seus públicos poucas oportunida- des para uma interacção comunicativa. O modo tradicional mais conhecido de estimular a interacção, proveniente do jornalismo impresso, é o espaço das “Cartas ao Director”. O modelo desta forma de participação é muito simples: os leitores escrevem cartas como resposta ou reacção a mensagens dos media, que são posteriormente editadas e publicadas numa secção destinada a esse fim. Ora, um modelo assim entendido é, no essencial, uma forma de comu- nicação reactiva, a menos que os jornalistas, ou outros leitores, respondam à mensagem inicial. O mesmo princípio aplica-se às formas tradicionais de participação, usadas nos formatos radiofónicos e televisivos convencionais.

Foi, assim, um modelo distinto que surgiu quando as novas tecnologias associadas à internet vieram assumir-se, claramente, como suportes que per- mitem ampliar a níveis inéditos as opções de interactividade no jornalismo. Importa, contudo, estabelecer desde já uma distinção essencial no que se re- fere à qualidade do uso deste meio: entende-se a internet não como “mega- fone” ou “caixa de ressonância” da voz dos seus públicos, mas antes como meio – como espaço – de interacção e de interconexões, estabelecidas sob o princípio da conversação. Na essência encontrar-se-á, ao fim e ao cabo, o mesmo ideal que sempre atravessou o jornalismo; como escreve Witt (2004: 51), “os jornalistas têm, e tiveram sempre, objectivos louváveis que preten- dem atingir. Pretendem garantir que a voz do público é ouvida e que nem toda a comunicação é de cima para baixo; que todas as comunidades, mesmo as marginalizadas, são ouvidas, e que as ideias vindas do centro são tão ouvidas como as que chegam dos extremos.”

É a partir deste espaço e destes ideais que poderá emergir um novo tipo de jornalismo, o jornalismo interactivo. Seguimos a descrição que Jan Schaffer propõe e, que, em si mesma, constitui todo um programa de renovação das práticas jornalísticas. Refere-se a novas definições de notícia, a ser construída da base para o topo e a novas formas de envolver o público, de usar a tecnolo- gia e de interagir com a comunidade. “Um jornalismo que alcance não apenas o ruído das nossas comunidades mas também os silêncios. As notícias que não vão ver espalhadas por todos os outros jornais da cidade. E a informação que

liga os pontos e dá sentido ao que acontece nas suas comunidades, não ape- nas ontem, mas ao longo do tempo” (Schaffer, 2001). No essencial, em vez de notícias unidimensionais e monológicas, o jornalismo passaria a ser composto por muitas mais vozes e perspectivas (multivoiced), tornadas “audíveis” pela interacção permitida pelas novas ferramentas tecnológicas (Heinonen, 1999: 82).

Por sua vez, no espaço deixado vazio entre estas vozes distintas, é decisiva uma nova função do jornalista, que alguns autores designam por “facilitação” (Rosenberry, 2005: 62). A partir dela, o jornalista deverá preencher os espa- ços vazios (os missing links) de autoridade e de organização sistemática, que enfraquecem os modelos ciberutópicos – marcados pela total liberdade e au- tonomia do cidadão comum. Trata-se, no fundo, da revalorização das funções de enquadramento (framing) e da contextualização das vozes soltas e disper- sas presentes nas notícias “do dia”. Como descrevem Kovach e Rosenstiel (2001: 48), “na medida em que os cidadãos encontram um fluxo cada vez maior de dados, têm maior necessidade – e não menos – de fontes dedicadas a verificar essa informação, sublinhando o que é importante conhecer e elimi- nando o que não é. O papel da imprensa nesta nova era passou a ser trabalhar para responder à questão ‘onde está o importante?’ A verificação e a síntese tornaram-se a espinha dorsal do novo papel de gatekeeper do jornalista: o papel de ‘sensekeeper’.”

É deste modo que o jornalismo aprofunda o seu estatuto enquanto recurso para a cidadania. Na medida em que as pessoas se relacionem em termos discursivos com todo este processo, sob a óptica de uma discussão pública orientada para o bem comum, ganha evidência a sua ligação à ideia de jorna- lismo público. É um facto que grande parte dos ideais do jornalismo público se afiguram irrealistas – as competências dos cidadãos para uma participação jornalisticamente relevante ou para debater assuntos públicos variam muito, por exemplo. Contudo, nesta óptica, o ponto crítico acaba por ser outro, e relaciona-se com a motivação das pessoas para participarem em discussões públicas e, dessa forma, contribuírem para um jornalismo com uma maior amplitude de vozes.

Como se encontra amplamente descrito, as soluções apresentadas pelos defensores da ciberdemocracia (fóruns electrónicos, esferas públicas digitais), que, no limite, tornariam a própria ideia de jornalismo anacrónica e desneces- sária, não se apresentaram como alternativas credíveis para um modelo de-

mocrático deliberativo. As suas falhas são essencialmente de dois tipos: 1. a ausência – na verdade, desdém – nas suas perspectivas de qualquer cone- xão com as bases institucionais dos sistemas de comunicação políticos e 2. o determinismo tecnológico presente na crença de que se um discurso pode emergir, ele emergirá (Rosenberry, 2005: 70). É hoje claro que as expectati- vas de uma cidadania activa numa agora digital têm que ser consideradas de forma cautelosa, e que muitas das perspectivas apresentadas referiam-se mais ao potencial da internet do que à sua realidade empírica.

As questões que importa colocar, neste contexto, são muito precisas: a partir de que conjunto de usos é que o jornalismo interactivo permitirá al- cançar os principais objectivos inspiradores das ideias de jornalismo público? Sendo sabido que o potencial das conexões electrónicas para o incremento da democracia tem vindo a ser estudado com grande ênfase, em que medida as práticas específicas de jornalismo online desempenham, sob a perspectiva do jornalismo público, um papel na democracia? Se os desafios e as oportuni- dades criadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação no jornalismo são evidentes, importa esclarecer como podem ser operacionaliza- das, isto é, que usos poderão ser concretizados a partir destas oportunidades.

Para examinar a aplicabilidade dos objectivos do jornalismo público às práticas do jornalismo interactivo, é possível enunciar um conjunto de recur- sos e aferir a sua utilização, agrupando-os em acordo com a sua relevância para a consecução desses objectivos. Assim, importa identificar a existência e o uso de funcionalidades direccionadas para:

1. o estabelecimento de laços com a comunidade (através da listagem dos emails gerais e dos emails do autor de cada artigo);

2. para o envolvimento dos indivíduos enquanto cidadãos (concedendo- lhes acesso a elementos que permitam a própria validação da informa- ção); ou

3. para facilitar a deliberação pública (através da promoção do acesso a espaços online de discussão).

Uma avaliação do uso destes recursos deverá, por sua vez, considerar em que medida os dispositivos interactivos nos sites informativos a) colocam a

autoridade institucional perante as vozes dos cidadãos (confrontam vozes ofi- ciais com vozes dos cidadãos); b) criam espaços de interacção entre cidadãos e poder político, ou outros poderes; c) combinam vozes institucionais com a voz dos cidadãos; e d) usam os dispositivos interactivos para apresentar infor- mação de interesse público, promovendo funções de vigilância e de escrutínio. Será possível, a partir daqui, encetar uma investigação acerca de quais são os temas que, efectivamente, fazem parte da agenda dos públicos, por comparação com a agenda dos políticos e das fontes oficiais. Poderá ainda experimentar as intuições presentemente existentes acerca da possibilidade e da efectiva necessidade de um modo de jornalismo que tenda a favorecer as “estórias” esquecidas, as fontes marginalizadas e o retorno à sociedade civil e às suas dinâmicas informais, em prejuízo da informação pré-fabricada e seleccionada, concentrada nos mecanismos institucionais (cf. Correia, 2005: 132-133).