Fonte: Rebelo et al. (2011: 42), Inquérito aos alunos.
Este inquérito aos alunos incluía também algumas perguntas relativamente às suas práticas de utilização da energia. De um modo geral, verificou-se haver uma tendência no sentido de os inquiridos caracterizarem positivamente as suas práticas, isto é, responderem afirmativamente quando questionados se tinham hábitos de poupança de energia (Rebelo et al., 2011). Entre as respostas que estão mais especificamente relacionadas com o uso dos media eletrónicos verificou-se a mesma tendência, à exceção da utilização dos carregadores de telemóveis: neste caso os inquiridos admitiram mais frequentemente deixá-los ligados à corrente mesmo quando já não estão a ser necessários (Gráfico 7). Estes dados sugerem uma desvalorização do consumo de energia associado aos carregadores quando não estão a ser utilizados para carregar a bateria do telemóvel. Importa referir que, apesar da tendência para que de uma forma geral os inquiridos procurem dar respostas que os aproximem da sua perceção do que é a norma social – que, neste caso, corresponderia a demonstrar alguma preocupação em não desperdiçar energia – um número considerável de alunos (entre 12,2 e 26,3%) respondeu “quase nunca” adotar a prática energeticamente mais eficiente relativamente a estas quatro questões sobre os media eletrónicos. 50.4 31.8 30.2 28.2 27.5 23.6 21.4 11.9 10.8 9.1 9.1 8.7 7.7 6.4 4.7 2.6 0 20 40 60 80 100 Televisão Frigorífico Máquina de lavar roupa Computador de secretária Computador portátil Máquina de lavar loiça Candeeiros (iluminação) Esquentador Ar condicionado Radiador a óleo Fogão Máquina de secar roupa Arca congeladora Telemóvel Micro-ondas Telefone sem fios
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Gráfico 7. Algumas práticas de uso de energia por parte dos alunos de escola secundária de
Lisboa em 2010 (%)
Fonte: Rebelo et al. (2011: 58), Inquérito aos alunos.
Quanto à perceção dos pais relativamente ao impacto das atividades dos seus filhos no consumo energético em suas casas, o inquérito realizado aos pais permitiu observar que uma larga maioria destes considera serem os filhos os principais responsáveis pelos desperdícios de energia em casa, sendo que apenas 14,3% declarou serem os pais (Schmidt et al., 2012).
Com efeito, de entre as entrevistas realizadas aos adultos sobressai a ideia de que estes tendem a partilhar a perceção de que o consumo elétrico em suas casas poderia ser mais baixo se os seus filhos adolescentes não utilizassem em tão grande medida os media eletrónicos. Na perspetiva de alguns pais, este consumo deve-se à intensidade da utilização, mas também ao facto de na atualidade existir uma grande variedade de equipamentos eletrónicos, que fazem parte da vida normal de um adolescente, e que para as gerações anteriores não existiam.
“Acho que consomem mais, por causa de um conjunto de equipamentos que têm ao dispor e que nós não tínhamos – computadores, consolas de jogos, televisões, [ligados] durante o dia inteiro. [Nós] passávamos o dia sempre na rua e eles não passam.” (Mãe, 41
anos, classe média) (Schmidt et al., 2014: 194)
Nas entrevistas, há uma tendência para que os pais mostrem ter a perceção de que os seus filhos adolescentes são grandes utilizadores dos media eletrónicos. Frequentemente referem que os filhos têm o computador sempre ligado quando estão em casa. Deste modo, além do
12,3 12,2 26,3 16,4 14,1 11,1 21,1 16 15,7 11,6 16,4 19,3 53,1 46,2 19,4 35,6 4 18,3 15,3 12 0,5 0,5 1,5 0,7 0% 20% 40% 60% 80% 100%
Desligar completamente o computador, a impressora, etc., quando não estou a usá-los Desligar o monitor do computador quando não estou a utilizá-lo, p. ex. quando estou a fazer
downloads
Deixar carregadores ligados à corrente depois de o telemóvel estar carregado Usar o telemóvel/mp3 em modo de poupança
de energia
50 consumo associado à utilização em concreto destes aparelhos, é evidente que muitos pais têm a perceção de que os filhos mantêm estes aparelhos sempre ligados, mesmo que não estejam a utilizá-los.
“Nesse aspeto a minha filha é televisão, é computador, é lâmpadas… é tudo aceso; onde ela estiver, está tudo aceso. Eu bem lhe ralho, mas não estou sempre ao pé dela…” (Mãe,
56 anos, classe baixa) (Schmidt et al., 2014: 196)
Não obstante este contexto, alguns pais afirmam que os filhos evitam gastar energia desnecessariamente, mantendo desligados quer os media eletrónicos quer as luzes que não estão a ser usados. Contudo, o mais frequente é a expressão da ideia de que os adolescentes são descuidados relativamente ao consumo de energia, apesar de estarem bem informados a respeito dos problemas ambientais.
“Vejo pelos meus filhos e pelos meus sobrinhos que estão mais bem informados do que nós [estávamos na idade deles], mas não são mais cuidadosos do que nós [éramos]. (…) eles no dia-a-dia é as luzes acesas, o computador sempre ligado, a televisão sempre ligada…” (Mãe, 42 anos, classe alta) (Schmidt et al., 2014: 193)
Também em Schmidt, Prista e Correia (2011: 44), os filhos adolescentes e jovens foram indicados pelos 41 adultos ouvidos como os “principais ‘gastadores de luz’”, dado que por negligência deixam acesas luzes por todas as divisões da casa. De um modo geral, os pais entrevistados no projeto Netzero tendem a dizer que os filhos não são muito cuidadosos relativamente ao consumo de eletricidade, sendo nalguns casos frequente que os pais os repreendam para que não deixem o carregador do telemóvel permanentemente ligado à tomada elétrica, por exemplo. No entanto, esta falta de cuidado com a energia consumida pelos media eletrónicos parece tender a ser compreendida pelos pais no quadro do forte apego, ou mesmo dependência, que diversos pais atribuem aos seus filhos adolescentes relativamente aos media eletrónicos. Entre estes dispositivos tendem a surgir de modo destacado o telemóvel e o computador, sendo que a utilização das redes sociais tende a surgir como a principal motivação que os pais indicam para este apreço dos filhos por estas tecnologias.
“Ela [a filha], sem o computador… podia passar fome, mas sem computador… sem computador para ir ao Facebook e não sei quê, isso não. (…) Ela não podia viver sem computador e telemóvel…” (Pai, 53 anos, classe média) (Schmidt et al., 2014: 190) “Os miúdos estão sensibilizados para apagar as luzes, mas se for computadores ou MP3, para uso direto deles, já não.” (Mãe, 48 anos, classe baixa) (Schmidt et al., 2014: 194)
51 Nalguns casos, os pais justificam a inabilidade dos filhos para poupar energia com o facto de estarem na adolescência – uma vez que esta é tipicamente uma fase da vida em que se tende a privilegiar a diversão, esquecendo-se as obrigações e ignorando-se as consequências. Mas alguns pais lamentam terem dado aos seus filhos uma educação permissiva ou demasiado protetora.
“Eles são adolescentes. Acho que teoricamente sabem tudo, são capazes de estar bastante bem informados, mas em termos práticos são muito preguiçosos, são esquecidos, são estouvados. Sabem perfeitamente que têm que desligar o carregador do telemóvel, mas aquilo não lhes cabe na cabeça. Foram mal-educados, sempre tiveram pessoas que lhes fizessem as coisas, e contra mim falo. Tentei dar-lhes o melhor possível e hoje chego à conclusão que se calhar fiz mal, devia tê-los obrigado a coisas mais cedo.” (Mãe, 51 anos,
classe alta) (Schmidt et al. 2014: 193-194)
Por outro lado, nas entrevistas transparece a ideia de que diversos pais consideram que o facto de os seus filhos terem sido criados numa sociedade de consumo, em que facilmente têm acesso aos bens que desejam, tende a conduzi-los a não valorizar o que têm, em contraste com a sua própria geração, que foi criada em diferentes condições históricas e, em grande medida, num ambiente de escassez. Por esta razão – o facto de muitos pais não terem tido acesso a determinados bens e oportunidades quando eram jovens – muitos parecem agora determinados em poupar os filhos às consequências da crise, procurando garantir que têm acesso a todos os bens de que necessitam.
Face ao impacto da crise económica, foi referido nalgumas entrevistas que a anterior tendência para comprar objetos não essenciais, como telemóveis, televisões ou computadores, foi coartada. Porém, tendo criado o hábito de os utilizar, estes equipamentos são agora considerados necessários ou mesmo fundamentais para alguns dos entrevistados, fazendo inclusivamente parte do que consideram ser o conforto do seu ambiente doméstico.
Além de comprarem estes equipamentos menos frequentemente, alguns pais referem também que procuram reduzir a sua utilização, mantendo-os ligados apenas quando estão a ser usados, e que tentam reduzir os consumos destes equipamentos em standby, desligando-os na tomada ou recorrendo a extensões com interruptor.
“As pessoas hoje tentam poupar, cortar mais. Até há pessoas que se deitam cedo só para não gastarem eletricidade e não verem televisão.” (Mãe, 56 anos, classe baixa) (Schmidt
52 Alguns pais referem nas entrevistas que o facto de os filhos aceitarem estas restrições e colaborarem evitando ter ligados aparelhos ou luzes que não estejam a ser necessários pode estar relacionado com o que os filhos aprendem na escola sobre energia e que parece ser considerado relevante pelos pais, mas a educação familiar é também valorizada.
O facto de estarmos perante um estudo que não visou especificamente estudar o uso dos media eletrónicos por parte dos jovens pode ajudar a explicar por que razão se observam diferentes práticas de uso da energia. Quando inquiridos de forma mais genérica sobre o uso que fazem da energia e os cuidados que têm para não a desperdiçar verifica-se uma postura mais proactiva, do que quando se exploram práticas específicas relacionadas com os media eletrónicos, como ficará patente um pouco mais à frente neste relatório.
Como os pais parecem reconhecer, nem todas as áreas onde os jovens usam energia para desenvolver as suas práticas quotidianas assumem o mesmo relevo para o seu quotidiano. O destaque vai claramente para o uso dos media eletrónicos, sendo por isso muito importante explorar as especificidades desta área em especial e procurar compreender de que forma estas tecnologias e a sua utilização pelos jovens se cruzam com o uso de energia.
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