a nossa própria substância."
(Simone de Beauvoir)
O empenho dos movimentos feministas em todo o mundo e os vários tratados internacionais deu visibilidade ao problema da violência contra as mulheres definindo-a como uma violação de direitos. Considerada como a discriminação que afeta mais gravemente a qualidade de vida das mulheres, essa violência provoca incerteza e medo, além de sofrimentos físicos, mentais, sexuais, coerções e outras formas de privação do direito a liberdade
.
Como mencionei nos Capítulos I e II dessa dissertação, esses movimentos de mulheres no Brasil, tiveram um papel decisivo nos avanços legislativos voltados para o enfrentamento dos diversos tipos de violência, assim como na criação de serviços a essas mulheres, que possibilitasse o acesso à justiça e outros serviços que atendessem as suas demandas levando em conta suas necessidades e especificidades. As palavras de BARSTED (2011) são importantes para pontuar que:Essa violência apresenta formas distintas de manifestações e, na maioria das vezes, é agravada por determinadas características das mulheres. Nesse sentido, torna-se necessário compreender que as mulheres não são um conjunto abstrato e indiferenciado de indivíduos do mesmo sexo, mas que se diferenciam internamente e apresentam necessidades e vulnerabilidades distintas. (BARSTED, 2011, p. 348-349).
Deste modo, o debate em torno da denúncia e visibilização da violência doméstica embalado pela terceira onda do feminismo iniciam no final da década de 80 e ganha mais força a partir dos anos 90. Assim sendo, é no conjunto de ações do programa de políticas de enfrentamento à violência doméstica e de gênero, que cria-se Casas Abrigos. A Secretaria de Políticas para as Mulheres conceitua Casa Abrigo como um local seguro que oferece abrigo protegido e atendimento integral a mulher em situação de violência doméstica. A concepção do atendimento deve pautar-se no questionamento das relações de gênero enquanto construção histórico-cultural das relações desiguais entre homens e mulheres, que legitima e estão na base da violência contras as mulheres.
Como citado, a presente dissertação visa demonstrar, pelas falas até aqui apresentadas, que as mulheres entrevistadas utilizaram o abrigo como uma possibilidade de superação da situação de violência vivenciada. Para uma melhor compreensão, de
minha hipótese de trabalho, inicio com uma etnografia da Casa Abrigo Mãe da Mata, lócus da pesquisa.
3.1 – Casa Abrigo ‘Mãe da Mata’: cotidiano, serviços e práticas
apreendidas.
A Casa Abrigo Mãe da Mata em Rio Branco – AC, foi criada em 2000/01 pelo Governo do Estado do Acre / Secretaria de Ação Social – SAS39
, vinculada à Gerência de Equidade de Gênero (antigo Departamento de Relações Sociais de Gênero). Possui endereço sigiloso, com capacidade de atendimento para 35 pessoas entre mulheres e crianças. Dentre seus objetivos, destacam-se: abrigar mulheres e seus filhos em situação de violência intrafamiliar, garantindo-lhes proteção à vida; fortalecer as mulheres para que saiam do ciclo de violência e reconstituam suas vidas; reduzir os índices de consequências fatais em decorrência da violência intrafamiliar e evitar a desagregação social e familiar das mulheres e seus filhos e filhas, ocorrida frequentemente nas situações de violência.
Seu regimento interno segue o Protocolo de Orientações e Estratégias de Casa Abrigo, que padroniza os procedimentos técnicos necessários do serviço de abrigamento no Brasil. Com forte interesse em conhecer o cotidiano dos serviços de abrigamento rumei para a Casa Abrigo Mãe da Mata com vistas a acompanhar o dia a dia do serviço ali prestado. Após as devidas autorizações para o acesso aos documentos e entrevistar as mulheres abrigadas, em julho de 2011, iniciei minha primeira entrada na Casa para início da coleta de dados para a presente dissertação. Naquele momento, o objetivo era uma conversa mais longa com a coordenação da Casa afim de (re)conhecer o espaço físico, observar a rotina e a dinâmica da instituição.
Na ocasião a equipe da Casa era relativamente nova, ou seja, a coordenadora e demais técnicas (uma assistente social, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional)
39 Posteriormente mudou o nome para SECTAS – Secretaria de Estado, Cidadania, Trabalho e Assistência Social, logo depois, SECIAS – Secretaria de Estado, Cidadania e Assistência Social, em 2007 passa a se chamar SEDS – Secretaria de Estado e Desenvolvimento Social.
iniciaram nos primeiros meses do primeiro semestre de 2011. Segundo os relatos, a Casa ficou um período de quase três meses sem coordenadora antes de a atual assumir. Com uma experiência acumulada com a rotina da Casa por ter trabalhado em anos anteriores, embora na área administrativa, cita que dentre as dificuldades que sentiu foi à ruptura na capacitação da equipe. Conta que nos anos de 2003 e 2004, houve uma intensa capacitação continuada e que foi interrompida após 2005, considera que isso se refletiu negativamente no cotidiano da Casa.
[...] quando cheguei aqui encontrei as meninas numa situação difícil, tinha um público aqui muito difícil também, a gente tinha na época, acho que eram onze ou doze mulheres, e era assim, mais de vinte crianças 90% delas muito difíceis também. (Coordenadora).
Trabalhar com uma temática com uma complexidade enorme como é o caso da violência e tratar isso no cotidiano traz sempre novos desafios, pois a mulher quando chega ao abrigo traz consigo suas dores, suas necessidades, é necessário que os serviços estejam prontos para acolhê-la. São desafios constantes para quem se depara com essa realidade.
[...] cheguei aqui no dia 16 de fevereiro de 2011. Vim com muita resistência, porque eu estava a quatro anos trabalhando em outras áreas. Eu ouvia falar muito que o trabalho aqui é um pouco pesado, era difícil. Então quando eu cheguei aqui, não era bem onde eu queria estar, porque tudo era novo e isso me dava medo também. E quando cheguei me deparei com uma situação, a casa estava totalmente desestruturada, não tinha uma coordenação e isso dificultava mais. (Assistente Social).
Como relatado pela coordenadora quando avalia o prejuízo causado pela ruptura nas capacitações, somado a rotatividade que faz com que se esteja sempre, ou em grande parte (re) começando o trabalho e (re) pensando intervenções e abordagens.
[...] para nós que estávamos chegando sem ter conhecimento da temática, sem nunca ter trabalhado numa casa abrigo, foi complicado no início. Eu cheguei primeiro e logo depois veio a psicóloga, ela ficou com medo, mas nós estávamos juntas e no
início não sabíamos sobre a complexidade da temática, nós não tínhamos conhecimento algum. Pouco tempo depois, acho que um mês, chega a coordenadora e começamos a nos organizar, por que ela [a coordenadora] já havia passado por aqui antes e ai ela também conseguia organizar e assim a partir de sua chegada, nós conseguimos nos estruturar. (Assistente Social).
O fato da psicóloga e a assistente social, relatado também pela terapeuta ocupacional40, nunca terem trabalhado especificamente com a temática as colocava com muitas dúvidas inicialmente e a partir das falas das mulheres é que aprendiam como lidar e qual encaminhamento dar, como relatam, não conheciam a dinâmica da Casa, foi um processo de aprendizagem coletivo.
Assim retomo que esta dissertação tem como foco o lugar da fala da mulher abrigada ou ex-abrigada, vejamos o que representa para essa mulher que chega ao Abrigo com seu corpo e alma marcados pela violência e se depara com uma instituição com sérias dificuldades na gestão.
Quando dei queixa na delegacia do 2º distrito, na frente do delegado, ele voou em cima de mim, me ameaçando dentro da delegacia, dizendo que ia me matar e ninguém fez nada. [...] cheguei ao Abrigo 15h30min, verde de fome, eu no Abrigo fiquei numa depressão tão grande, eu achava que iam para lá quem não tinha família [choro], lá tinha mulher esfaqueada, criança de dois anos estuprada, eu não tinha paz, aquilo era um terror! Mulher briga com a outra lá dentro, não tem assistência médica, a não ser que uma fure a outra, aí chama o SAMU para tratar lá mesmo! Elas não saem para nenhum canto, eu fiquei tão mal.... Minha filha ficou a toa, jogada. (“Leila Diniz”, 36 anos)41.
Ainda sobre a difícil experiência de “Leila Diniz”:
Trancam a gente dentro do quarto, é tipo como se fosse apartamento, trancam porque disse que já aconteceu do marido pular o muro e ir lá agredir, tá entendendo! Lá a gente se sente presa, às 22:00 horas eles trancavam no cadeado. Eu ficava
40 A Terapeuta Ocupacional iniciou seu trabalho posterior as demais, no período das conversas com a
equipe (janeiro/fevereiro de 2012), a mesma estava a mais ou menos cinco meses na Casa.
41 “Leila Diniz” foi entrevistada fora do Abrigo, seu depoimento sobre sua experiência no Abrigo coincide
desesperada e dizia: “meu Deus, o que eu fiz de errado! O bandido está solto e eu estou presa! Eu me sentia sufocada, muitas vezes eu ficava em pé na grade para ver se respirava um pouco, porque eu detesto ficar trancada. [...] Passei 22 dias lá, assinei um termo para sair porque ainda não era hora. Era para aguardar as medidas protetivas. (“Leila Diniz”, 36 anos).
Não cabe ao pesquisador (a) ‘averiguar’ para confirmar ou não os fatos narrados, assim, recorro à contribuição de BOSI (2010), e faço as devidas adequações, ou seja, não disponho de nenhum instrumento de confronto dos fatos relatados a partir do qual percebesse distorções. As narrativas descrevem uma percepção, uma experiência vivida, uma versão do acontecido, a importância está no que foi escolhido para relatar a experiência, certamente o escolhido são apenas fragmentos de sua história.
Ainda sobre a composição da equipe, além das profissionais citadas, compõem o quadro: duas professoras do ensino fundamental (atendimento às crianças); duas pessoas na enfermaria (uma assistente de enfermagem e um apoio) que trabalham em sistema de plantão; duas educadoras sociais, também em sistema de plantão; duas monitoras por plantão; vigilância armada – durante o dia - do sexo feminino, durante a noite do sexo masculino; duas cozinheiras; um motorista e equipe de limpeza.
Dentre as atividades desenvolvidas atualmente destaca-se: atendimento social diário individual; grupo reflexivo coletivo uma vez por semana e atendimento individual para as mulheres que procuram o atendimento específico da psicologia; grupo de convivência uma vez por semana que se constituiu em um espaço de reflexão coletiva, socialização dos conflitos, dificuldades da convivência em grupo, assim como a própria rotina.
Essa descrição da Casa Abrigo Mãe da Mata, assim como da rotina de atendimento foi colhido a partir do depoimento da coordenadora na primeira visita, entretanto, a dinâmica dessa rotina e como é vivenciada pelas mulheres foi retomada no decorrer do trabalho sob três perspectivas: a partir de minha percepção como pesquisadora; a partir das narrativas das mulheres; a partir do diálogo com a equipe, sem uma ordem sequencial.
É importante ressaltar a boa receptividade que tive pela coordenação e equipe da Casa. A coordenadora já tinha se mostrado disponível e aberta ainda no primeiro contato, no início do mestrado, porém pela natureza da Casa e principalmente o sigilo, precisaria de autorização oficial do gestor, o qual também foi muito receptivo com a proposta do trabalho. A partir daí, tive livre acesso tanto aos documentos como para vivenciar a rotina do espaço.
Antes do primeiro contato com as mulheres, busquei conhecê-las a partir dos caminhos institucionais percorridos por elas na busca da ruptura da violência. Para isso, consultei Boletins de Ocorrência escolhidos aleatoriamente, consultei os relatórios dos anos de 2006 a 2011 que são produzidos mensalmente pela Casa Abrigo para envio aos gestores, e ainda fichas de registros de mulheres abrigadas dos anos de 2006 a 2011, também escolhidas aleatoriamente. Segue algumas percepções a partir da análise dos referidos documentos.
a)Boletins de Ocorrência: Foram escolhidos aleatoriamente 40 Boletins de Ocorrências
dos anos de 2010, 2011 e 2012 na Secretaria de Segurança Pública. Desses, apenas 16 Boletins eram o primeiro registro, nos 24 restantes, existiam mais de duas ocorrências, alguns com dez ocorrências e um registro de uma jovem que até aquele momento já estava com a décima sétima ocorrência. É importante salientar que desta última, todas as ocorrências se referiam ao mesmo agressor. Isso nos faz pensar sobre o que leva uma jovem a denunciar dezessete vezes o mesmo agressor, num curto espaço de tempo, utilizando apenas esse BO como exemplo, ou dito de outra forma, o que leva um jovem a cometer várias violências, agressões com sua ex-namorada, senão a certeza da impunidade, da morosidade da justiça? Essa constatação corrobora com os dados da Pesquisa Ibope/Instituto Avon42
, quando aponta que na prática, a maioria das pessoas ouvidas pela pesquisa não confia na proteção jurídica e policial à mulher vítima de agressão43
.
42 Mais informações: Pesquisa Ibope/Instituo Avon. “Percepções e reações da sociedade sobre a violência contra a mulher. Endereço eletrônico: pesquisa-avon-violencia-domestica-2009. Pdf.
43 Apenas alguns dados: das pessoas entrevistadas, 40% disseram que a mulher pode confiar na proteção das instituições jurídicas e policiais. Entretanto, 56% se mostram céticos com relação a essa proteção, 25%
b) Relatórios dos Atendimentos da Casa Abrigo Mãe da Mata: São relatórios
produzidos mensalmente e enviados para os gestores com o objetivo de subsidiar o planejamento da Casa quanto aos recursos necessários para sua manutenção.
Foram examinados os relatórios dos anos de 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. Durante esse período, passaram pela Casa Abrigo Mãe da Mata cerca de 700 mulheres e cerca de 1200 crianças com idade variando entre 0 a 15 anos. Em sua imensa maioria, são mulheres com ensino fundamental incompleto, do lar, quando trabalham fora de casa, muitas delas são empregadas domésticas e não tem outra qualificação.
Na análise dos relatórios assim como nas fichas descritas abaixo, a variável cor, permite concluir que a ela não é dada a importância necessária, constata-se em muitos registros a ausência dessa informação, assim como o uso inadequado de outras nomenclaturas como, por exemplo: morena, morena clara, morena escura, nomear parda para uma indígena, embora a grande maioria se denomine pardas, negras e minoritariamente brancas.
Pode-se dizer que as usuárias da Casa Abrigo Mãe da Mata em Rio Branco, tem o perfil de mulheres pobres, baixa escolaridade, muitas não alfabetizadas. Não são donas nem mesmo de seus corpos machucados, tem baixa autoestima e são potencialmente necessitadas da assistência do Estado em vários aspectos de suas vidas que vão além da violência sofrida.
Esses relatórios são longos, com cerca trinta e cinco itens (variáveis) e descrevem toda a rotina da Casa Abrigo especificando detalhadamente os tipos de atendimento destinados a cada mulher e filhos individualmente, como por exemplo, dentro dos dias permanecidos na Casa, a quantidade de refeições44
consumidas por cada mulher ou dos entrevistados afirmaram que as leis não são eficientes para garantir esta segurança. A pesquisa aponta que esse quadro não mudou mesmo para aqueles que disseram conhecer a Lei Maria da Penha.
44 Podemos citar como exemplo o caso da Sra. A. L. encontrada em regime de cárcere num seringal acreano, vítima de incesto, que juntamente com seus cinco filhos - todos os filhos de seu próprio pai, portanto pai e avô das crianças - consumiam cerca de 900 refeições mensais. Trouxe consigo todas as demandas imagináveis: saúde (umas das crianças tinha deficiência), educação, falta de moradia, falta de qualificação profissional, falta de documentos, etc. Ficou no Abrigo durante um ano e cinco meses, pois não tinha onde morar. Atualmente mora com seus filhos em uma casa oriunda do programa de habitação e está reconstruindo sua vida.
família, além de especificar todas as demandas solicitadas e atendidas, desde um simples telefonema para um familiar, providenciar um documento, ir a um atendimento mais complexo, como um tratamento médico ou cirúrgico entre outros. Cada saída do espaço físico da casa também é computada, pois isso demanda recursos materiais e humanos, como carro com motorista, uma monitora para acompanhar.
As mulheres que ali chegam, a princípio em busca de um lugar seguro para que não corra risco de morte, porém trazem consigo uma serie de demandas imediatas que a Casa precisa está preparada para atendê-las em suas especificidades e singularidades. É importante frisar que essas demandas interferem sobremaneira na decisão de romper ou não com seu agressor, ou mesmo que permita um repensar sobre sua vida pós abrigo, como disse uma abrigada em vários momentos: “não adianta denunciar, vir para cá e
depois ter que voltar...”
c) Fichas de mulheres abrigadas: São registros armazenados em pastas individuais que
são abertas no momento de chegada da mulher ao Abrigo e fechadas na sua saída. Foram coletados e analisados 46 registros, escolhidos aleatoriamente nos anos de 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 e 2012 contando nesse momento com o registro das onze mulheres que foram entrevistadas.
Esses registros dos anos de 2006 a 2009 estavam guardados no ‘arquivo morto’ da secretaria, em um espaço físico distinto da Casa Abrigo, juntamente com todos os demais arquivos de uma secretaria de estado. Diferentemente dos relatórios que tem como finalidade principal planejar a manutenção da Casa, a esses registros cabem informações mais individuais e, portanto de âmbito interno.
Observa-se que, enquanto um instrumento interno poderia ter uma riqueza maior nas informações, contribuindo inclusive para se ter uma melhor caracterização das usuárias. Nota-se que do primeiro registro analisado referente ao ano de 2006 ao momento atual, não houve um aprimoramento nas variáveis que o compõem, nem no seu preenchimento. É possível que internamente isso não cause nenhum prejuízo na intervenção, ou mesmo no atendimento, porém com a percepção de pesquisadora compreendo que, quanto mais informações contiverem esses instrumentos maiores são as
possibilidades para conhecer aspectos importantes daquelas mulheres. Para as que estão na Casa Abrigo Mãe da Mata repetidamente, essas informações podem trazer elementos que certamente podem contribuir nas intervenções levando em conta as experiências anteriores. Acredita-se que embora possa parecer imperceptível, toda tentativa de ruptura equivale a uma resistência, ou um exercício para criar as condições concretas para romper definitivamente com a situação de violência, portanto exige outro olhar por parte da equipe.
Junto a essa percepção, outro elemento que tem que ser levado em conta, embora já tenha sido relatado anteriormente, são as implicações das equipes da Casa não serem permanentes, contribuindo com uma rotatividade enorme que faz com que quem chega frequentemente se sinta tão ‘novo’ quanto às próprias usuárias que ali estão pela primeira vez, e nesse sentido, mais uma vez percebo a necessidade de ser ter registros internos mais ricos de informações. Retomo algumas narrativas da equipe:
“Foi um grande desafio, porque eu nunca tinha trabalhado nessa área, trabalhei mais na área educacional, me identifico muito com as questões da família. [...] mas não tinha trabalhado especificamente com a violência doméstica, eu não tinha um referencial sobre isso...” (Psicóloga).
A narrativa da psicóloga confirma com o estudo de SCHRAIBER (1999), quando diz:
[...] a criação de serviços eficazes na assistência aos agravos decorrentes e na prevenção das violências apresenta repercussões não só para as pessoas que sofrem violência, mas também para os profissionais dos serviços. Esses profissionais são instados a refletirem sobre seus valores e seu trabalho, adequando suas intervenções e postura profissional junto a sua clientela, apartir do momento em que a violência é evidenciada e reconhecida como um problema de intervenção que lhes compete (SCHRAIBER, 1999, p. 34).
Iniciar uma intervenção profissional com um tema tão complexo é sempre um desafio, é necessária mudanças de paradigmas que interferem diretamente sobre a percepção que se tem sobre o tema.
Um fato até interessante foi que inicialmente a casa estava realmente numa situação bem difícil. Simbolicamente, por exemplo, eu não consegui definir um espaço que fosse da psicologia, eu fiquei junto com a assistente social no mesmo espaço, na mesma sala. Então isso tem um valor simbólico! Pois assim, juntamos nossos medos, ninguém falou sobre isso. Mas era isso! Vamos juntar os nossos medos e compreendê-los, o que nós temos e o que nós devemos fazer, então foi assim, um período realmente difícil, um período muito difícil (Psicóloga).
Como foi dito anteriormente, a equipe técnica atual da Casa Abrigo, objeto da presente investigação, iniciou em 2011, com exceção da coordenadora, os demais não tinha trabalhado especificamente com a temática da violência, foi um aprendizado coletivo em que a experiência anterior da coordenadora com a dinâmica da Casa, contribuiu para que a equipe se sentisse mais segura nos momentos iniciais de aprendizagem, segundo a fala da psicóloga e da assistente social.
[...] no campo da assistência, faz-se necessária a integração de ações entre profissionais de vários setores assistenciais. A