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CAPÍTULO 2 O HIP HOP NO BRASIL: MOVIMENTO DA JUVENTUDE NA

2.1 O nascimento do Hip hop no Brasil

2.1.1 Que periferia é esta?

De acordo com Flávio Villaça em seu livro o Espaço Intra-Urbano no Brasil170, a segregação espacial por classes sociais é estruturadora das metrópoles brasileiras.

Entendida como o processo no qual “diferentes classes ou camadas sociais tendem a se

concentrar cada vez mais em diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole171, esta segregação nega o direito de diferentes classes sociais conviverem num mesmo espaço. O autor destaca que embora não haja a presença exclusiva da classe mais privilegiada em nenhuma área das metrópoles brasileiras, há, por outro lado, a concentração exclusiva de população pobre em grandes regiões urbanas.

169 MARTINS, Denis Moreira Monassa. Direito e Cultura Popular: o batidão do funk carioca no

ordenamento jurídico. 2006. 130 f. Monografia (Especialização) - Curso de Direito, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

170 VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. São Paulo: Strudio Nobel. 2001 171 VILLAÇA, 2001. op. cit. p. 142

Analisando várias metrópoles do país, tais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo

Horizonte, Salvador e Recife, o autor afirma que “a segregação é um processo

necessário à dominação social, econômica e política por meio do espaço”172. De acordo com Villaça, ao se apropriar do espaço urbano, a classe dominante controla os espaços e

exerce sua dominação. Os mais abastados conduzem a apropriação “diferenciada dos

frutos, das vantagens e dos recursos do espaço urbano”173, determinados social e coletivamente.

A segregação espacial urbana expulsou os mais pobres para regiões periféricas aos centros, não somente devido à melhor infraestrutura nas áreas centrais, mas, sobretudo, conforme demonstra este autor, pelas facilidades de deslocamentos. Ainda segundo Villaça, o padrão de segregação versus periferia em termos de distância, embora verdadeiro, não é suficiente para explicar a exclusão urbana. Neste sentido, faz-

se necessário considerar que há uma disputa por localizações cujo valor é “dado pelo

tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la, ou seja, para produzir a

cidade inteira na qual a localização é parte”174

. Isto significa que “a produção e a apropriação do espaço urbano não só reflete as desigualdades e as contradições sociais,

como também as reafirma e reproduz”175

. Portanto, no Brasil, compete à população de baixa renda abrigar-se em áreas irregulares, exposta a riscos ambientais, fora do padrão legal e de difícil acesso, com pouca ou nenhuma infraestrutura e equipamentos, onde não se nota a presença do Estado. A dimensão do que é viver ou sobreviver em lugares precários é contundente nas narrativas do hip hop, como é o caso da música:

Putz! Que raiva! mano, que furada!

Outra vez Nova Viçosa no jornal folha da mata Última página, assalto deu errado

É fato, enquadro, se pá assassinato Eu to cansado, a cena se repete, reflete No crescimento dos moleque de sete No crime, desde novo, já acha que resolve Num escolhe, vai nessa por falta de opção Educação, refeição, faltou pra esse irmão Se pá vai buscar o que viu na televisão Um tênis importado com cronômetro do lado E a coroa no trabalho ganha menos de um salário

172 VILLAÇA, Flávio. Espaço-Intra Urbano no Brasil. São Paulo: Strudio Nobel. 2001. p. 150. 173

VILLAÇA, 2001.op. cit. p. 328

174 VILLAÇA, 2001. op. cit. p. 334

E o fraco ordenado tem que ser controlado. Nova viçosa, quebrada cabulosa

Nova Viçosa, quebrada por muitos tachada perigosa Mas quem vive aqui sabe que não é bem assim É tipo assim, outro dia uma mina do centro colou aqui Falou pra mim, que há muito tempo não via

Um moleque correndo soltando pipa, feliz Tipo assim, outro com seu parceirim Jogando bola de gude, de manhã bem cedim Dando uns teco diferente, nem precisa trocar pente Agora num ignora, o que eu vou falar

Cadê incentivo prá colar, na escola pra estudar? Quem já tá lá não vai parar de sonhar, imaginar Mas é foda, por hora, tem muita mãe que chora Ajoelha e ora pro seu filho num ir pra droga Implora, pra Deus, NossaSenhora

Livre o filho do gatilho pra ele não virar memória Nova viçosa, quebrada cabulosa

Am, am, am,amam!

Quebrada Cabulosa, NV Rap 176

É neste ambiente de conflitos e batalhas cotidianas pela sobrevivência que vem sendo produzida boa parte do hip hop nacional.

A construção simbólica homogeneizante estabelecida pelas classes dominantes,

tanto para “cidade”, como local de todos, quanto para “periferia”, espaço de pobres, é

uma capciosa construção ideológica que transforma o exercício de cidadania em benefício, excluindo-o como um direito universal. “A cidade da elite representa e

encobre a cidade real”177

A homogeneização das periferias produzida pela mídia torna-as um todo indiferenciado e ameaçador que, por isso mesmo, deve ser mantido isolado e afastado. […] A “periferia” assim construída é o lugar da violência e da criminalidade, da desestruturação familiar, da pobreza, da falta de recursos, de infraestrutura e de cultura. Em outras palavras, trata-se de uma não cidade, um espaço fora do ideário de cidade hegemonicamente construído.178

É justamente para desconstruir este peso simbólico que os moradores dos bairros pobres das cidades carregam, que o movimento hip hop vem lutando, por meio da denúncia social presente em suas músicas e a partir da busca pelo reconhecimento desta periferia, parte elementar da cidade.

176 NV Rap. Quebrada Cabulosa. Letras. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/nv-rap/quebrada-

cabulosa/>. Acesso em: 26 jun. 2018.

177

MARICATO, Ermínia. Brasil, Cidades. Petrópolis: Vozes. 2001. p. 170.p.165.

178 MOASSAB, Andréia. Brasil Periferia ( s ): a comunicação insurgente do hiphop. São Paulo: EDUC,

Ao adentrar as regiões pobres da cidade percebendo seus becos, vielas e sua população, o que se nota vai além de violência e precariedade. É muito comum de se perceber neste ambiente o respeito mútuo, a colaboração, a rica produção cultural, as ações empreendedoras e outros valores positivos bem diferentes daqueles propagados pela mídia. Para além de uma periferia homogênea e ameaçadora, guardadas as diferenças, é perceptível as semelhanças entre os moradores dos bairros periféricos e aqueles das áreas mais privilegiadas: acordam cedo, levam os filhos pra escola, trabalham, praticam esportes, frequentam salão de beleza, assistem televisão, tem medo de ser assaltado e se reúne com os amigos.

Comumente, o termo periferia é utilizado para definir, numa perspectiva geográfica, os espaços que estão distantes do centro e na faixa externa da área urbanizada e, numa perspectiva sociológica, os locais onde as práticas sociais e a força de trabalho se reproduzem em más condições de habitação. Ambos olhares estão corretos, no entanto, eles não abarcam todo o sentido que a expressão requer. Por isso, utilizamos a expressão periferia tal como os arquitetos e pesquisadores Nabil Bonduki179 e Raquel Rolnik180, ao afirmarem que periferia são “as parcelas do território da cidade que têm baixa renda diferencial, pois, assim, este conceito ganha maior precisão e vincula, concreta e objetivamente, a ocupação do território urbano à

estratificação social”181

. A expressão periferia assume, então, além de seu conceito

geográfico de “o que está à margem”, o conceito social de exclusão.

Os processos de territorialização da pobreza nortearam a alocação dos contingentes mais pobres nas periferias urbanas, caracterizadas, do ponto de vista urbanístico, por profundas precariedades de circulação e de condições de moradia, por carências em diversos setores dos serviços sociais, culturais e infra-estruturais, e pela insuficiência de formas de sociabilidade e de espaços públicos qualificados que acolham as atividades coletivas, a vida social, as relações de trocas e interlocuções capazes de erigir uma esfera pública efetiva. Marcadas pela concentração de renda, desigualdades sociais e

179 É arquiteto e urbanista com mestrado e doutorado em Estruturas Ambientais Urbanas. Atualmente é

Professor Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Habitação e Planejamento, foi Superintendente de Habitação Popular e vereador do município de São Paulo (2001-4), quando coordenou a elaboração do substitutivo do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo e os Planos Regionais das 31 subprefeitura do município.

180 Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Foi relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada, foi diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo, secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidade. É autora dos livros “A Cidade e a Lei”, “O que é Cidade”, “Folha Explica: São Paulo” e “Guerra dos Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças”.

181

BONDUKI, Nabil; ROLNIK, Raquel. Periferia da Grande São Paulo: Reprodução do Espaço como Expediente de Reprodução da Força de Trabalho. In: MARICATO, Ermínia (Org.). A Produção

processos de exclusão sócio-territorial, os riscos se ampliam e, por sua vez, vão exacerbando os conflitos, como fica evidenciado principalmente pela violência urbana que coloca a vida da sociedade como um todo sob um grau máximo de vulnerabilidade 182

Isto posto, temos que as fronteiras da periferia estão longe de se constituírem apenas por coordenadas espaciais, afinal as margens simbólicas que delimitam este espaço podem ser políticas, religiosas, sociais, administrativas ou culturais. Longe de uma homogeneidade, a periferia hoje é marcada pela pluralidade e heterogeneidade que pode ser vista nas diferente relações de trabalho, pela mobilidade social de seus moradores, pelas políticas assistenciais do Estado.

As periferias são caracterizadas cada vez mais por outros contextos, não aqueles mensuráveis simplesmente por quilometragem ou marcação de anéis, coroas ou outro qualquer representativo geométrico, contextos esses alicerçados nas condições e contradições econômico-sociais dos seus moradores, pelas infraestruturas existentes, pelas territorialidades estabelecidas e reestabelecidas, enfim, pelas suas espacialidades.183

De acordo com o sociólogo José de Souza Martins184, é na periferia que se confirma o domínio da renda da terra na cidade e da urbanização, ao mesmo tempo em

que é o atraso do próprio capitalismo. “A periferia é a designação dos espaços

caracterizados pela urbanização patológica, pela negação do propriamente urbano e de

um modo de habitar e viver urbanos”185

. A periferia, enquanto tal se constitui em negação do progresso e a emancipação social prometidos pela modernidade e pela urbanização.

No entanto, a despeito da possibilidade de uma promessa não cumprida, podemos observar que, ao longo dos anos 2000 no Brasil, novas práticas sociais se

182 ROLNIK, Raquel. Política urbana no Brasil. Esperança em meio ao caos?. Revista da ANTP, São

Paulo, 2003. Disponível em:

<https://raquelrolnik.files.wordpress.com/2009/08/esperancaemmeioaocaos.pdf> Acesso em: 26 jun. 2018.

183

FIRKOWSKI, Olga Lúcia C. de F. Novo Conceitual para as Periferias Urbanas. Revista Geografar. v.4.n.2.Curitiba, 2009. p. 24. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/geografar/article/ download/14334/9644.> Acesso em: 26 jun. 2018.

184 Escritor e sociólogo brasileiro, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da

Universidade de São Paulo, ocupou a Cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge, na Inglaterra é considerado a maior autoridade no estudo dos conflitos fundiários no Brasil. Na década de 70, ele foi pioneiro nas pesquisas sobre as frentes de colonização na Amazônia e em 2016 lançou seu quadragésimo quinto título: Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder (Editora Contexto), uma coletânea de textos produzidos nos últimos catorze anos, nos quais ele observa e analisa o desempenho e as transformações do partido.

185 MARTINS, José de Souza. A aparição do demônio na fábrica: origens sociais do eu dividido no

manifestaram nas periferias urbanas sendo denominadas de associativismo produtivo186. Esta ação tem intuito de qualificar a ação coletiva, que se realiza desde o acesso à terra urbana até a produção de moradia e a gestão de serviços, atividades estas sustentadas por um ideal de bem-estar urbano construído coletivamente. Como exemplo destas práticas sociais de colaboração, vale destacar a atuação da Associação Assistencial e Promocional da Pastoral da Oração de Viçosa (APOV) em Viçosa-MG, fundada em 1982. A APOV é uma entidade sem fins lucrativos que tem como missão promover ações educacionais, esportivas e serviços assistenciais integrados à dimensão espiritual e cultural de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias, assim como capacitá-los para a vida profissional, mantendo a atenção permanente na formação de valores, atitudes e habilidades. Em 36 anos de atuação, a APOV vem prestando serviços às comunidades de Nova Viçosa e Posses com a participação efetiva de voluntários do bairro e da cidade de Viçosa, além de universitários e profissionais de diversas áreas. As fontes mantenedoras são convênios firmados com órgãos públicos e privados e, principalmente, pessoas físicas, carinhosamente chamadas de padrinhos. Em 2018, a APOV conta com 24 colaboradores e atende crianças de três a cinco/seis anos com escola formal ligada a Superintendência Regional de Ensino.

Dos sete aos 14 anos, a Associação desenvolve programas complementares à

escola formal, como o “Projeto Caminhar”, que contempla atividades culturais,

esportivas e educacionais no turno em que estão fora da escola do bairro,

proporcionando assim, uma “educação integral”. O coordenador geral Renato

Gonçalves ressalta que a educação infantil bem como os projetos contraturnos ministrados pela Associação enfatizam a aproximação da família, de modo que os pais são voluntários e participam de atividades como limpeza e organização da escola. O sistema de ensino é inovador e prima pelo entendimento da singularidade de cada aluno. As crianças e jovens atendidas pela Associação sofrem os impactos sociais do que é viver na periferia. Violência, falta de infraestrutura e desmotivação com os estudos são alguns deles.

O bailarino do Grupo Impacto de Dança, Wellington Julio, ministra aulas de

danças urbanas para os alunos da APOV. Segundo ele, “é visível a diferença de

comportamento e atitude das crianças atendidas pelo projeto. Aqui elas se sentem motivadas e despertam o interesse pelas atividades sejam elas artísticas ou

pedagógicas”.

186

CUNHA, Neiva Vieira da. FELTRAN; Gabriel de Santis (Orgs.). Sobre periferias: novos conflitos no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Lamparina. 2013.

Cabe ressaltar ainda, que a juventude moradora da periferia que faz parte do movimento hip hop é obrigada a conviver, diariamente, com o preconceito racial e a discriminação social que a estigmatiza e é por isso se faz tão necessário que o hip hop se imponha contra os mecanismos de dominação e conteste esta estrutura espacial que exclui. Ao mostrar que esta periferia existe, o movimento a subverte simbólica e espacialmente e a ressignifica.