CARTOGRAFIA DOS SELOS DA MÚSICA EXPERIMENTAL NO BRASIL
7. Que perspectivas o selo pensa para o futuro?
Hérnia de Discos: como todo selo nós estamos em vias de
captação de recursos para continuar existindo. Nosso projeto é dar andamento às residências artísticas e dar acesso a produções em larga escala funcionando praticamente como uma ‘escola’ para musicistas conseguirem fazer a gestão da carreira, fazer pré-produções caseiras, gravar com materiais que tiverem em casa…. enfim, a ideia é alavancar artistas por elas mesmas, indicando apenas as ferramentas.
Al Revés: o futuro nos parece bastante incerto. Os meios de
distribuição via streaming atingiram um público que passou a ‘consumir’ música quase que exclusivamente por esses meios. Tal fato gera um problema filosófico para nosso projeto, já que tais meios não estão de acordo com a filosofia essencial do selo, que é a distribuição gratuita e livre do material produzido. Acreditamos que um selo atua como uma espécie de filtro, estabelecendo uma curadoria, criando um universo singular dentro do multiverso infinito de produções musicais. Assumir tal fato é importante pois estabelece uma distinção essencial com veículos como iTunes, Spotify ou Deezer, que não se apresentam como filtros, criando a sensação no público de que pode escutar ‘o que quiser’ nessas plataformas. Para nós, um dos grandes desafios é seguir existindo à margem desses meios, preservando nossa filosofia essencial, já que acreditamos ser essa uma de nossas grandes questões como selo.
Sattvaland Records: no futuro, um dia de cada vez –
enquanto Gil Freitas, do mesmo selo, disse: ter um espaço
físico para gravar e executar os trabalhos dos grupos relacionados e/ou revelações do cenário.
Tropical Twista: de continuar com esse trabalho que estamos
fazendo, agregar mais artistas interessantes e dar mais oportunidades para artistas que necessitam de espaço para serem vistos e ouvidos, e abrir ainda mais nosso leque de novas sonoridades através dos releases que lançamos, é uma renovação constante e eterna, a Tropical Twista é um selo mutante e inquieto.
Muziek Mutantti: pensamos na autonomia e liberdade de
nossa arte, permitindo ao artista toda dedicação e evolução de seus trabalhos. Tornar-se uma referência para novos artistas e projetos.
Lezma Records: seguir o trampo de divulgação das bandas.
Não temos a pretensão de nos tornarmos uma gravadora. Nosso intuito é formar redes, cenas, em que as pessoas possam se conhecer e trocar experiências e, claro, tocar o seu som, mostrando não só para a sua bolha, mas pro máximo de pessoas que estejam dispostas a serem tocadas e transformadas pela arte. Nesse sentido, a Lezma Records se insere bem mais numa perspectiva cultural do que mercadológica, no meu ponto de vista.
Abjection Productions: Mais lançamentos de diferentes
origens sonoras, geográficas, mentais, físicas e espirituais.
Mansarda Records: Lançar álbuns que proponham,
questionem, argumentem, criem, esculpam. Trabalhos que existam porque acreditem em suas sonoridades. Que sejam pessoais, idiossincráticos, até mesmo de gosto adquirido. Discos que se movam, e que movam as pessoas a fazerem seus próprios sons.
Seminal Records: Além do já citado na resposta anterior: a
vontade de nos internacionalizar, superar o âmbito puramente local e brasileiro de circulação, gostaríamos de nos embrenhar mais e mais em um conceito de ‘música’, por falta de palavra melhor, que esteja em conexão com o
pensamento, não apenas com a fruição despreocupada. É parte dessa preocupação não apenas o que lançamos, mas como lançamos e atuamos no mundo. Neste sentido respondemos a uma já ampla tradição de selos independentes com vocação especulativa, como a Industrial Records, ou a Dischord, que não apenas lança, mas se pensa a si própria ao lançar.
Quintavant respondeu apresentando uma relação de
atividades e projetos futuros, listados da seguinte forma: 1. Quintavant na Rebel em 2018: Metá Metá, Rakta, a banda colombiana Meridian Brothers, Kiko Dinucci, Na Ozzetti e Passo Torto, a genial Ava Rocha fez o último show da turnê de APYY, a genial Ana Frango Elétrico!!, diversas formações do DEDO (com o lendário Fernando Torres, com Eduardo manso e, em breve, com Paulinho Bicolor), lançamento da Tradição Improvisada, e um trio de choro digital que vai render disco: França, Bartolo, Bicolor. Projeto Audio Rebel Instrumental: God Pussy, o trio Mekler Kassin Monteiro (desconstruindo capelas de artistas consagrados), Bemônio, Lucas Pires, Thiago França Sambando e Space Charanga, e o comboio formado por Chelpa Ferro, IN-SONE e Duplexx. Subcena, evento acerca das possibilidades som/palavra parceria QTV e kza1, editora do Thadeu Santos. Já fizemos Ricardo Aleixo, Guilherme Zarvos, Heyk Pimenta e Cadu Tenório, Liv Lagerbald, Renato Negrão e agora teremos Angélica Freitas com Juliana Perdigão, Catarina Lins, Maria Bogado com Lucas, Barrão e Chacal, André Capilé. Pretendemos lançar uma publicação em 2019.
2. Quintavant fora da Rebel em 2018: no Rio, fizemos Quartinho em Madureira (parceria com a Void): Tantão e Os Fita, Negro Leo, God Pussy, Lee Ranaldo e Tradição Improvisada (Ano passado no Eletronika de BH com Tantão). Esse ano em SP: QTV na Virada CCSP: Negro Leo e Tantão e Os Fita. No Breve: lançamento Bella e Cadu com Fruto, André Damião e participação de Juçara Marçal. No Centro da Terra: Vermes do Limbo lançando O Sol Mais Escuro com participações de Rakta, Taciana Barros, Edgard Scandurra e Negro Leo.
3. Preparando a terceira edição do Antimatéria, festival do QTV com atrações nacionais e internacionais para outubro de 2018. Único confirmado: Full Blast de Peter Brotzmann, que lança disco gravado na Rebel através de uma parceria entre o QTV e o selo austríaco Trost records. Vinil!
4. Lançamentos QTV: FILME: Filme da Bella dirigido por Sérgio Mekler UN Anne e Gabraz fizeram Eu Sou o Rio, um cinepoema sobre Tantão, que nós ajudamos a produzir e gostamos muito! DISCO: Single Lê Almeida, Tantão e God Pussy em parceria com a Transfusão; O sol mais escuro Vermes do Limbo; Vinil Action Lekking em parceria com a Circus; Bella e Cadu: cassete de vazios, parceria com o selo paulistano Coisas que matam. Vem aí: Marco Scarassatti com um álbum de experimentação sonora com a viola de cocho (muito comum no Mato Grosso em ritmos locais como o siriri e o cururu) Thiago Miazzo: QTV (álbum de colagens sonoras) Novos discos de Bemônio, Bella, DEDO, Baby Hitler, Abaetetuba, Panda e Bicolor, e novos nomes como Mekler
Kassin Monteiro, Wallace Função e Gabriela Mureb, além do Full Blast. Nos planos: além do festival Antimatéria, da produção de discos e filmes, programamos duas publicações: Subcena e uma coleção de impressos autorais com trabalhos gráficos dirigido pelo gênio Lucas Pires, um dos maiores artistas em atividade no Brasil hoje.
Jabuticaba Records: O futuro/sonho é conseguir consolidar
uma cena ativa de produção de música eletrônica e manter um calendário sólido de lançamentos mensais.
Estranhas Ocupações: Expandir as redes de contato e
intercâmbio; levar a cabo, através de um programa contínuo de edições, uma cartografia das produções sonoras (passadas e presentes) experimentais na América Latina; incrementar o volume de edições de livros e revistas; autossustentabilidade.
Sê-lo: Vamos continuar aprendendo e experimentando nessa
área, priorizando mais as edições físicas. Continuamos apostando no exercício de uma outra ética, mais colaborativa, e num agenciamento continuo dos fluxos inerentes às nossas produções, no contexto de retrocesso social e político em que vivemos.
Renovação, diversidade de lançamentos, trabalhos que acreditem em suas sonoridades, discos que movam as pessoas, a possibilidade de formar redes e cenas, apostar no exercício de
éticas mais colaborativas, alavancar artistas por elas mesmas são algumas das questões que aparecem nas falas sobre o futuro.
Ao mesmo tempo, aparece um contraponto entre os aspectos mutantes e inquietos (trazidos por Felipe Delgado, da Tropical Twista) e um futuro que parece incerto, posto que, através da fala de Alexandre Marino, os mecanismos de streaming atingiram um público que passou a consumir música quase que exclusivamente por estes meios. Desta forma, coloca-se uma questão fundamental para os selos que priorizam a distribuição gratuita e livre do material produzido. A partir disto, Marino traz a questão da atuação dos selos como uma espécie de filtro, estabelecendo uma curadoria, criando um universo singular dentro do multiverso infinito de produções musicais, assumindo esta como uma distinção essencial com relação aos veículos que se pretendem ausentes de filtros. A diversidade aparece também nas atividades da Quintavant, trazendo um entrecruzamento de lingua- gens e promovendo ações que envolvem shows, as possibilidades som/palavra, festivais, filmes e publicações.
Jabuticaba refere a ideia de consolidar uma cena ativa, mantendo um calendário de lançamentos, enquanto Estranhas Ocupações destaca a ideia de expandir as redes de contato e in- tercâmbio, desenvolver uma cartografia das produções sonoras experimentais na América Latina e alcançar a autossusten- tabilidade. Seminal Records destaca a importância do adensamen- to em um conceito de música, em conexão com o pensamento, não apenas com a fruição despreocupada. “É parte dessa preocupação
não apenas o que lançamos, mas como lançamos: um pensar-se a si própria ao lançar.”