1 ENTENDER QUE TUDO É NOSSO, SEMPRE ESTEVE EM NÓS HISTÓRIA
2.4 AS REGRAS E A QUALIDADE DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS NA ESCOLA
2.4.1 O que são e para que servem as regras: apresentando conceitos
Ser livre vivendo em sociedade não significa fazer somente o que se deseja; é preciso considerar que, muitas vezes, desejos individuais podem ferir valores coletivos. É por meio das normas8 que as limitações às ações se tornam claras e possíveis de ser discutidas em direção à melhoria do convívio interpessoal.
As regras descrevem e estabelecem como se devem realizar condutas de maneira semelhante, constituem um componente essencial na vida humana, já que boa parte das interações entre os indivíduos está regulada por elas, ou seja, por instruções sobre como
devem transcorrer as ações. São regularidades no comportamento que as determinam, ou organizam de maneira a promover uma melhor forma de relação entre as pessoas. No sentido em que serão abordadas neste trabalho, as regras expressam restrições sobre as ações dos indivíduos, “é preciso respeitar uma palavra empenhada”, ou “é preciso ficar em silêncio enquanto o outro fala”. Macedo (1996, p.194) esclarece que:
a regularidade corresponde ao caráter compreensivo da regra: o que deve ser repetido em todas as circunstâncias. A regulação corresponde ao caráter extensivo da regra: o que deve ser respeitado por todos que estão submetidos a ela.
No mundo, tanto a realidade natural quanto a realidade social são regidas por um conjunto de leis e normas que devem ser respeitadas. Aqui, abordaremos as regras da conduta humana, isto é, “os preceitos pelos quais o homem, o mais nobre dos seres sublunares, criatura dotada tanto de razão quanto de seu livre arbítrio recebe a ordem de fazer uso de tais faculdades na regulação geral de seu comportamento.” (KELSEN, 1995, p.10).
Macedo (1996) faz uma diferenciação entre leis e regras, apoiado na conceituação de Lalande (1993) sobre elas: a “lei, como regra geral, imperativa, que rege a atividade desde o exterior, implicando em exercício de uma autoridade que nos constrange a sua obediência.” Para eles, a lei é uma realidade, é “algo que está constituído fora de nós e nos é imposto” (MACEDO, 1996, p. 190), é imperativa por valer a todos, ela limita o que é permitido ou proibido. A regra não tem esse caráter geral e abstrato, tem que ser prática e particularizada. A lei define o que é necessário a um sistema, a regra delibera as possibilidades de expressão de algo no sistema, “como função expressa algo que temos de nos acomodar” (MACEDO, 1996, p.194). A lei expressa normatização e, por isso, é necessária. A regra, por ser fórmula, é prescritiva, pode ser modificada de acordo com as possibilidades.
Em uma sociedade, a conduta humana pode se desenvolver em múltiplas direções. Contudo, há ações que são mais desejáveis do que outras, e serão as regras que prescreverão os limites dessas ações indispensáveis ao convívio entre as pessoas. Elas regulam as ações humanas, tornando-as previsíveis, e auxiliam na compreensão do que é esperado dos
indivíduos, reiterando o imperativo de que não se realizem ações que possam causar dano aos outros.
Vale destacar que se as regras são tão importantes para a organização e para a regulação das relações elas também o são para a construção de ambientes mais democráticos, justos e harmoniosos. Entretanto, não é possível que haja regras para todas as situações vivenciadas pelos grupos sociais, por isso La Taille (2002) destaca que elas são limitadas e que “para realmente compreendê-las é preciso ir além de sua formulação ‘ao pé da letra’ e penetrar no seu ‘espírito’” (p. 38). As regras precisam ser pautadas em princípios, pois são eles que nortearão a construção e a vivência das regras. Os princípios esclarecem “em nome de que agir”, são a fonte inspiradora a partir da qual as regras deveriam ser formuladas. Segundo o autor, “não somente são eles que revelam a razão de ser das regras, como são eles que nos permitem criar regras em situações para as quais ainda não foram formuladas.” (LA TAILLE, 2002, p. 38).
Há regras sociais que são dirigidas a uma classe de indivíduos e definem como ela deve agir no desempenho de uma função. Por exemplo, existem regras específicas para definir quais são as responsabilidades do presidente de uma empresa ou do diretor de uma escola. Ross (1967) faz uma distinção entre as normas e os mandatos (ou regras individuais), sendo que estes últimos referem-se a uma ordem emitida por um indivíduo a outro que deve obedecer. Os Mandatos têm as particularidades de uma relação entre duas pessoas em uma situação concreta específica e em um espaço e tempo determinados, enquanto as regras dirigem-se a um grupo de pessoas que deve seguir a mesma conduta, são mais atemporais e afetam o indivíduo em função de seu papel social. Podemos tomar como exemplo a ordem de uma mãe a seu filho para que coloque a mesa do almoço. Poderia ser uma norma se, por consentimento mútuo, a família definisse que todos devem contribuir para a organização da casa. Os mandatos são importantes, por ser o primeiro contato das crianças com o mundo regrado. Elas começam recebendo essas ordens, mas, possivelmente, utilizarão esses mandatos para construir outras normas.
As regras são impessoais, devem valer para todas as situações em que sejam aplicáveis, precisam ser conhecidas por quem deve obedecê-las e é necessário que essas pessoas se sintam
obrigadas a segui-las. Assim, as operações cognitivas que se realizam nesse caso são mais complexas do que nos mandatos.
Em suas pesquisas, Piaget (1932-1994) constata que os motivos pelos quais se segue uma regra podem ser o medo de ser castigado ou o de perder o amor do outro (que é uma autoridade representativa para ele), o regulador nesse caso é externo. O outro motivo é o respeito, isto é, quem faz com que a pessoa cumpra a regra é um sentimento interno de obrigatoriedade.
Tognetta e Vinha (2007), fundamentadas nos estudos de Turiel (1975, 1983, 1984, 1989), destacam dois principais tipos de regras sociais, as convencionais e as morais. As primeiras são particulares, relativas a um determinado grupo social, mas também são coletivas. Elas permitem coordenar as ações dos indivíduos e desempenham um importante papel no fortalecimento do vínculo de um grupo social. As convencionais são elaboradas a partir das necessidades do grupo e podem ser modificadas caso seja esse o desejo da maioria dos integrantes. Essas regras regulam o uso social de diferentes coisas e situações, como forma de vestir, de comer, forma de saudar uns aos outros, entre outros aspectos da vida social. Por isso, elas podem variar em diferentes culturas ou mesmo nos pequenos grupos de uma mesma sociedade. Exemplo disso é o uso que algumas escolas fazem de uniforme e outras não.
As regras morais têm um caráter universal, pois seus aspectos básicos são compartilhados pelas diversas sociedades humanas, referem-se às relações interpessoais e são derivadas de princípios, como: liberdade, respeito, igualdade, justiça, dignidade, etc. Assim, o
que as diferencia das convencionais é o conteúdo.
Como foi explicitado no capítulo que trata do Desenvolvimento Moral, o ingresso da criança no mundo moral, ou seja, no mundo regrado, se dá pelas imposições e orientações dos adultos. Serão retomados aqui, de forma resumida, alguns aspectos básicos da aquisição das normas para que a compreensão dos aspectos psicológicos seja facilitada.
Logo no começo da vida, não há a compreensão das regras, ou seja, há uma ausência total delas. Com o desenvolvimento cognitivo e as trocas sociais, por volta dos três anos, a criança começa a identificar que há coisas que podem ou não ser feitas. Quando ela obedece a uma norma isso se dá graças ao respeito unilateral característico da relação desigual entre ela e a autoridade daquele que prescreveu a regra. É, portanto, uma obediência acrítica, de quem
ainda não consegue identificar a necessidade da regra, pois além de não ter recursos cognitivos suficientes para fazer uso da reciprocidade, é dominada pelo egocentrismo À medida que vai crescendo e se desenvolvendo, a criança, podendo operar por reciprocidade e julgar por equidade, passa a entender a necessidade das regras. A fonte da obediência passa a ser interna, porque conhecer as razões pelas quais se deve ou não seguir determinada norma.
Vale destacar que, para Piaget (1932-1994), a qualidade das relações sociais influenciará fortemente no desenvolvimento moral da criança. Menin (2007) ressalta que, para que a criança supere o egocentrismo e construa relações além das de respeito unilateral que resultam em heteronomia, é necessário que ela vivencie relações de cooperação, que promoverão a descentração (ou seja, a superação do egocentrismo), e relações de reciprocidade, que possibilitarão a autonomia da prática e a consciência das regras.