CAPÍTULO 3 SOBRE OS IMPACTOS E OS CONFLITOS DECORRENTES DA
3.5 Sobre os atingidos, principais atores dos conflitos
3.5.1 O que é ser atingido?
Ao longo da pesquisa, mas especialmente do trabalho de campo, buscou-se analisar, da perspectiva dos diversos atores, especialmente daqueles que se encontram nas proximidades do empreendimento, o que estes entendiam e como se sentiam atingidos. Nesse sentido, é o que passa a expor.
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Disponível em: < http://issuu.com/ibase/docs/liv_ibase_minerio_final4> Acesso em 20 de julho de 2015.
O ativista/militante dos direitos humanos e ambientais, Gustavo Gazinelli, ao mencionar sobre o que é ser atingido pela mineração, entende que:
[...] Nós vivemos em uma região que é mineradora, com muita atividade de mineração. E eu acho que o impacto da mineração, ele é muito grande. Ele é muito maior do que uma dimensão regional. Uma mineradora, dessas atuais, de minério de ferro, são mineradoras de grande porte, com plantas de grande porte... Elas têm um grande impacto ambiental, ou seja, atmosférico, hídrico, paisagístico, etc., e esse impacto ambiental, ele acaba... O consumo de água, outorgas... Às vezes, por exemplo, você tem uma outorga de um ribeirão, de um rio, que você tem uma margem outorgável de tanto. Só um projeto de um mineroduto, ou de água para lavar o minério, você vai e pega... Sei lá, 80% de um volume outorgável. Sobra 20%. E aquilo ali é um projeto que vai ficar ali 40 anos. 30, 50... Então, o que acontece? Primeiro, ela impede outras atividades econômicas. Ela acaba constituindo um monopólio econômico da região, em primeiro lugar. E ela impacta gravemente o meio ambiente. Gravemente o meio ambiente. Olha, se eu sou um cara que gosta do meio ambiente, gosto de ter lugares pra ir, gosto de entrar em uma água limpa, tomar uma cachoeira, de ir pra lugar que não tem mineração, até pra poder, de vez em quando, mudar de paisagem... Então, eu me sinto diretamente impactado. [...] Nós falamos lá do conceito de desenvolvimento, você vê que tem várias daquelas coisas que estão na minha visão de desenvolvimento que uma empresa dessa, ou o conjunto de empresas dessas, acaba interferindo de uma forma altamente negativa, e isso impacta na minha expectativa de vida, de qualidade de vida, nos meus sonhos, né? Então, em primeiro lugar, eu me considero muito atingido pela mineração. (GUSTAVO GAZINELLI, informação verbal)
O entrevistado destaca que os impactos da mineração não se dão em um nível apenas regional e acabam se estendendo para outros contextos e realidades. Além disso, o fato de impactar gravemente o meio ambiente aumenta o rol de atingidos, já que o meio ambiente é um bem coletivo.
Gilvander Luís Moreira, ativista/militante dos direitos humanos e ambientais, frei carmelita, membro da Comissão Pastoral da Terra, destaca que, nos contextos de mineração, as pessoas afetadas pelo empreendimento não são apenas atingidas, mas sim massacradas:
[...] a linguagem não é neutra e ai normalmente o capital, e o mercado, e as grandes mineradoras que tão ai, elas usam de forma geral uma linguagem eufemística que é assim doura a pílula, então ao invés de falar que... olha, populações serão massacradas, se diz populações serão atingidas, depois atenua mais ainda, não, vai ter atingidos diretamente e atingidos indiretamente tal, é vai ter uma redução, aí se, por exemplo, computa só a questão econômica né, ai tenta reduzir no economicismo, dizendo: não, a gente vai perder uma pouco de água, mas vai ganhar emprego e tal, mas se a gente vai ver bem, a realidade nua e crua ela é muito mais grave do que o que essa linguagem eufemística tenta passar né, porque sob todos os aspectos né, o prejuízo econômico ele acaba sendo mais do que enorme né, o prejuízo ambiental, o prejuízo cultural, prejuízo da vida, dignidade das pessoas, não é apenas atingida, é massacrada, muita gente morre, entra em depressão né, o caos social que se instaura nas cidade, na região, né. (GILVANDER LUÍS MOREIRA, informação verbal)
não só como atingido, mas sim massacrado. O entrevistado, quando perguntado sobre se estava inserido na categoria de atingido e sobre o que é ser atingido, respondeu que:
Eu não sou atingido, eu sou é massacrado, atingido é pouco, atingido é uma pessoa que, às vezes, que vão supor, que rancou um membro do corpo dele, mas nós somos massacrados, pisado mesmo e pisoteado mesmo. (ENTREVISTADO P, informação verbal, grifo nosso)
Entrevistadora: E o que é esse massacrado pra você assim?
É muito, muito humilhante, é a baixa estima da pessoa, tirar, tirar o seu direito de ir e vir, é apoderar dos seus bens de qualquer maneira, humilhação, é ser arrancado com injustiça, porque se eu não tenho o direito é só me
mostrar que eu não tenho o direito, eu vou entender que eu não tenho o direito e ainda tem que pagar ainda por eu ter feito aquilo, inda vou concordar ainda, mas o que tá acontecendo com nós é injustiça, eles não mostra que nós não temos o direito e arranca de qualquer jeito. Eu agora
eu inda falo ainda que é uma guerra, nós estamos vivendo aqui numa guerra, uma guerra onde, uma guerra covarde né, porque quando é uma guerra com, um exército vai pruma guerra pra lutar com outro exército, é uma guerra às vezes até justa porque é de força com força, mas a guerra que eles tão usando, é uma guerra covarde, eles vêm armado com um grupo despreparado, simples, sem intenção de brigar, intenção de nada e eles vêm pra briga com tudo, parte com tudo pra cima da gente, hoje nós tamo vivendo aqui em Conceição do Mato Dentro uma guerra. (ENTREVISTADO P, informação verbal, grifo nosso)
A Entrevistada L, atingida, comunidade Água Quente Passa Sete, declara-se atingida e menciona sobre o que é ser atingida:
Eu me encaixo na categoria de atingido, eu sou... eu me declaro atingida. Se Anglo não me reconhece como atingida não me interessa, eu me declaro como atingida. É... o que que você disse? [...] Ser atingido é sentir na carne o reflexo de um empreendimento que tá passando por cima da sua cabeça. É deixar de ter água, é ver pessoas estranhas andando na sua porta, é ter sua porteira... ser obrigada a trancar sua porteira com cadeado e corrente. É passar na estrada e chorar todo dia [choro], porque cê vê a serra que cê sempre via virá um monte de terra e um monte de ferro cheio de luz. É ver os bichos correndo, fugindo porque não tem pra onde ir. É ver a montanha que tava no seu coração descendo. É ver as pessoas sofrendo com falta d’água. É ver gente morrendo, é ver gente com problema de saúde. É ver os velhos de Conceição do Mato Dentro morrendo e adoecendo de tristeza. É não ter o sossego de deixar seu filho ir numa sorveteria em Conceição do Mato Dentro sozinho, como ia antes, porque você não tem confiança de deixá-lo andar na cidade mais, porque tá cheio de estranho. É ter... é ver... É um risco de ser assaltado numa cidade pequena que sempre foi pacata. Eu sou atingida por isso tudo. (ENTREVISTADO L, informação verbal)
Já a Entrevistada G, atingida, moradora da Comunidade de Água Quente, compara sua condição de atingida à de um ‘bicho’ que se sente ameaçado ao ser retirado de seu ninho: “Eu sou assim, eu reagi. Então, eu sou atingido porque eu, inclusive, consegui reagir. Porque senão eu seria sucumbida, não seria atingida [risos]” (ENTREVISTADA G, informação verbal).
Embora existentes e reconhecidamente afetados pelo empreendimento Minas-Rio, a empresa Anglo American segue se furtando de seu dever de dar a essas
comunidades atingidas o que lhes é devido: o direito a seus modos de vida e seus territórios.
Os conflitos seguem infinitos e cada vez mais latentes e, ao contrário de tentativas reais de resolução, o que se tem percebido são formas e estratégias de resolução de conflitos através do “consenso”, muitas vezes forçado. É sobre isso que se passa a dissertar.
3.6 Estratégias e instrumentos para “resolução” dos conflitos, principalmente