1. A EVOLUÇÃO NORMATIVA E O CONCEITO DE PESSOA COM DEFICIÊNCIA
3.1 O que é trabalho
Consoante se acabou de defender, o trabalho é um instrumento de realização da justiça. No entanto, essa concepção é alcançada sob o olhar da ciência do Direito. Outras ciências, como a Sociologia e a Economia também se debruçam sobre esse mesmo objeto, lançando definições bastante úteis ao fim que se busca: aproveitar o máximo de suas potencialidades na concretização dos direitos das pessoas com deficiência, sob o prisma da inclusão social.
Nesse sentido, sem intenção de descer ao mais profundo dos conceitos, mas pretendendo apenas apreender as ideias centrais neles expressas, oportuno iniciar a presente reflexão, visitando as considerações clássicas da Sociologia acerca da definição de trabalho.
Émile Durkheim (1999), ao refletir sobre as sociedades, coloca o trabalho em posição absolutamente central. Segundo Durkheim, há uma estreita relação entre a complexidade social e a divisão do trabalho, gerando, a partir disso, as forças que podem agregar ou desagregar a sociedade.
Nas sociedades tradicionais, mais simples, verifica-se notória homogeneidade, com culturas e valores compartilhados pelos indivíduos, havendo controle por meio de padrões morais, fornecidos, por exemplo, pela religião. A coesão dessas sociedades se dá por meio da “solidariedade mecânica”. Nelas, nota-se uma divisão do trabalho menor e mais
simples. Ao contrário, nas sociedades urbanizadas e industrializadas, há uma divisão do trabalho bem mais acentuada, com a especialização de tarefas. Nelas a pluralidade de valores entre os indivíduos torna mais difícil e complexo o consenso, operando uma força motriz de coesão denominada “solidariedade orgânica”.
Em apertada síntese, pode-se dizer que, para Durkheim, a coesão social, depende da interação de cada um com a divisão do trabalho. Ele parte do pressuposto de que essa divisão pode gerar consensos e ser catalisadora de um pacto de convivência. Os indivíduos aceitam o lugar social que lhes é dado desde que impere uma ordem social que leve justiça a todos os seus membros.
A divisão do trabalho, porém, pode acontecer de maneira anormal e desregrada, ensejando a desintegração social e o enfraquecimento da consciência coletiva, tornando precária a vida e rompendo laços sociais, num fenômeno oposto ao da solidariedade, que Durkheim chamou de anomia.
Nas reflexões de Durkheim, percebe-se que o trabalho ocupa uma posição central para a organização social, como um valor fundante. Em paralelo a essa perspectiva, Karl Marx compreende o trabalho em sua relação direta com o indivíduo. Para ele, em poucas palavras, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, empregando sua força, a fim de se apropriar da matéria natural de forma útil a sua vida. Agindo sobre a natureza, o homem a altera e altera sua própria natureza (MARX, 2003, p. 260).
Nas sociedades pré-capitalistas, o trabalho rural era a principal forma de labor, utilizada eminentemente para a produção de bens suficientes às necessidades de cada indivíduo ou de cada comunidade, não havendo intuito de lucro ou de acumulação de capital. Com a revolução industrial, esse paradigma mudou drasticamente: houve a migração dos centros rurais para os urbanos, o homem se desvencilhou de seu vínculo com a terra para as cidades, onde sua sobrevivência passou a depender da venda de sua força de trabalho, o que fez surgir a classe de trabalhadores.
Para Marx, não obstante a mudança radical que se operou com o advento do capitalismo e a patrimonialização da força laboral, o trabalho, em sua origem, ainda guardava estreita interação com a sobrevivência humana. Por essa razão, ele o definiu como bem inalienável do homem.
Interessantes, neste ponto, são as percepções de Max Weber, debruçadas sobre o comportamento humano e o sentido que os indivíduos atribuem as suas ações. Weber analisa a interação da religião – o protestantismo e o catolicismo – com a economia e a relação do indivíduo com o trabalho. Para ele, os protestantes mostravam uma inclinação específica para
o racionalismo econômico que não era igualmente observada entre os católicos e isso se devia às peculiaridades de cada confissão (WEBER, 2004, p. 33-34).
A ética protestante, segundo observações de Weber, estimulava a ascensão social por meio do trabalho, que era compreendido como uma vocação dirigida a uma profissão, desenvolvendo uma conduta racional, enquadrada em um processo de desencantamento do mundo, racionalização e burocratização, no qual a riqueza e a prosperidade não eram dádivas divinas, mas deveriam ser conquistadas por meio do esforço e labor humano, especializado e lícito.
O trabalho é, pois, sob o ponto de vista sociológico, a mola propulsora da sociedade. Ele funciona como principal fator de coesão e organização. Para o indivíduo, o trabalho é um poderoso instrumento de dominação da natureza. É, de todo homem, um bem inalienável. A percepção da força de trabalho e do valor a ela inerente mudou radicalmente o curso da história, transformou a relação do homem com o Estado e consigo mesmo, desvinculou do divino a obtenção da riqueza e o alcance da prosperidade, atribuindo ao homem e à sociedade os ganhos e os ônus dessa descoberta revolucionária.
Absorvendo esses valores, a Constituição Federal brasileira consagrou o trabalho como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, juntamente com a dignidade humana e cidadania, com os quais se encontra estreitamente relacionado (artigo 1º). O trabalho é arsenal necessário para que essa mesma República alcance seus objetivos fundamentais (art. 3º): construção de uma sociedade livre justa e solidária, garantia do desenvolvimento nacional e erradicação da pobreza, da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais.
Além de consistir em um dos principais pilares do Estado, o trabalho é ainda um direito social, consagrado no artigo 7º da Constituição. Para o Direito, o trabalho é o objeto da primeira ação afirmativa da história, conforme assevera Fonseca (2006, p. 312): o Direito do Trabalho. O surgimento desse ramo do Direito deu-se pelo rompimento com a ideia de igualdade formal ou de uma lei imparcial. Tomou partido em prol da classe trabalhadora e, se por um lado, legitimou a venda da força de trabalho, por outro, ergueu-se como uma forma de resistência, de limitação do poder econômico, para, justamente, preservar a dignidade do trabalho humano. Esta é a dialética que notabiliza o Direito do Trabalho e todos os outros direitos sociais fundamentais que venham em favor da igualdade substancial (FONSECA, 2006, p. 312).
Sob esse ponto de vista de Fonseca (2006), a ótica fundada pelo Direito do Trabalho, que despatrimonializou a força de trabalho e possibilitou a visão da função social da
propriedade, do valor social da livre iniciativa, passou a nortear também as relações civis e de consumo, em favor da pessoa do trabalhador, do consumidor ou do contratante civil, que utiliza o contrato como instrumento de direitos que o assistem, não somente como mero trânsito de bens.
Assim é que os princípios que regem o Direito do Trabalho, bem como a circunstâncias históricas que o geraram, aplicam-se integralmente para justificar o princípio da inclusão e as normas de ação afirmativa laboral em favor das pessoas com deficiência.