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O QUE TRAGO NO BOLSO: FERRAMENTAS DE APROXIMAÇÃO AO OBJETO 43

Recife, 29 de dezembro de 1979, um sábado. O Diário da Noite, custando cinco cruzeiros (Cr$ 5,00), traz na capa a chamada da coluna Mundo Guei a ser exibida na seção Jornal do Sábado naquela edição, no antepenúltimo dia daquela década.

A seção, “um guia de ideias, serviço e diversão”, conta com a ilustração de uma mulher seminua e sensualizada, com longos cabelos soltos, trajando salto alto e maiô com estampa de “oncinha”. Predominantemente em preto e branco, na capa ganha destaque o layout do Diário da Noite com letras brancas em fundo azul e a chamada para uma matéria de assassinato da coluna Barra Pesada em

vermelho, centralizada e com letras garrafais: “fuzilado com três tiros na casa da namorada!”.

No Jornal do Sábado, dividem a página 7, três colunas: “Cante”, “Histórias de Vida” e “Mundo Guei”. No centro, além das colunas, encontra-se a entrevista com o músico cearense Ednardo e a divulgação do show “Os Anos 80 Estão Aí” a ser realizado no Teatro Santa Isabel. O artista fala da sua marca de “Pavão Misterioso” e a referência ao maracatu, elemento rítmico brasileiro expressivo no Recife e Fortaleza e misto de batuque indígena e nagô africano. Quando questionado pelo repórter Edvaldo Morais sobre as implicações da abertura política no cenário artístico, Ednardo afirma que “a poesia é uma reportagem da época na qual o poeta vive”; e, mais adiante, acrescenta: “com a abertura de novos espaços, vai pintar cada vez mais, coisas mais importantes, pessoas mais importantes dizendo coisas, falando o cotidiano social brasileiro, e da música brasileira”. Não apenas nesta matéria, conexões entre a conjuntura política do Brasil e o cenário artístico se fazem evidentes.   Figura 5. DN, Capa, 29/12/1979       Figura 6 DN, Capa, 29/12/1979      

No final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, o contexto sociopolítico brasileiro, após mais de uma década de ditadura, era de início de decadência do

governo militar. O país alimentava um movimento de “contracultura17” e de grande

efervescência de movimentos sociais e lutas pela redemocratização do Brasil. Metalúrgicos, estudantes, negros e mulheres se organizavam e protestavam pelo fim da ditadura. Este momento é marcado também pela organização e emergência de movimentos sociais pautados na política identitária, como o movimento negro, o movimento feminista e o movimento homossexual (GOHN, 2003).

Nas grandes cidades, “gays” e “lésbicas” sofriam repressão não pela sua sexualidade, mas pela militância de esquerda e posicionamento ideológico. Bares foram abertos para atender a clientela, shows de “travestis” atingiam cada vez mais um público amplo e multiplicou-se o número de revistas e jornais que tratavam da temática. Durante os anos de 1978 e 1979, em São Paulo, reuniões entre estudantes, intelectuais, bancários, escriturários culminaram na primeira organização pelo direito dos “homossexuais”: Ação pelos Direitos Homossexuais que, posteriormente, passou a se chamar SOMOS (FACCHINI, 2009; FACCHINI; FRANÇA, 2009; FRY; MACRAE, 1985; GREEN, 2000). Evento que se tornou possível porque naquele período (em anos anteriores) muitas expressões político-culturais, pouco conhecidas, em diferentes cidades do país alimentavam essa ambiência de resistência ao anonimato e fuga da opressão (MEDRADO, 2015).

Nesse episódio, destacamos dois pontos interessantes. Primeiro, o nome do grupo gerou várias controvérsias; uns argumentavam que ter o nome “homossexuais” claramente no título desencorajava novos membros, outros defendiam que o nome deveria expressar desde o título o propósito da organização (GREEN, 2000). Independentemente, títulos que incluíssem o termo “gay” eram rejeitados sob justificativa de imitar o movimento norte-americano. Segundo, também nesta época destaca-se o surgimento dos periódicos Lampião de Esquina e O Snob.

                                                                                                                         

17 Gerado no contexto pós-Segunda Guerra Mundial e atingindo o auge na década de 1960, a

contracultura foi um movimento marcado pelo questionamento da juventude (em sua maioria de classe média) aos valores conservadores e elitistas da cultura ocidental, sobretudo religiosos e familiares. Nos EUA a cultura marginal e rebelde de maior visibilidade foi o movimento hippie, tendo o festival Woodstock como marco. Expandiu-se também na Europa e América Latina e, no contexto sócio-político do Brasil após o golpe militar, ganhou expressividade nos movimentos estudantis, nas artes (Tropicália, Jovem Guarda, Cinema Novo) e nos estilos de vida.

Sob o slogan “um jornal para gente entendida” (MELO, 2013, p. 129), O Snob foi o primeiro periódico brasileiro escrito por e dirigido para “LGBT” e, no período de 1963 a 1969, produziu aproximadamente 100 edições. Inspirou a criação da Associação Brasileira da Imprensa Gay (em atividade durante 1967 a 1968) e a publicação de outras 30 revistas no Rio de Janeiro e outros cantos do país. O Lampião, produzido por intelectuais e escritores do Rio de Janeiro e São Paulo – dentre eles João Silveiro Trevisan, Peter Fry, Aguinaldo Silva, Darcy Penteado e Clóvis Marques –, ficou conhecido como o primeiro jornal de circulação nacional “LGBT” (GREEN, 2000; MELO, 2013).

Embora invisibilizado, neste mesmo período tais debates ressoaram nas matérias publicadas em jornais do Recife, como o Diário da Noite. Além do movimento de contracultura e forte debate político na cena artística expressos em matérias ou nas colunas “Cante”, “Anistia” e “Soçaite dos Bairros”, a seção Jornal do Sábado também incluía colunas específicas que tratavam de temas dos movimentos sociais organizados, como a “Movimento Negro” e a “Ecologia”. Todas essas colunas e matérias, incluindo pautas também do movimento feminista, faziam parte das publicações do Jornal do Sábado e dividiam o espaço com matérias referente ao movimento homossexual que, posteriormente, consolidou-se na Mundo Guei (com publicações predominantemente aos sábados).

 

Figura 6. DN, Jornal do Sábado, 29/12/1979

   

Logo abaixo da matéria Ednardo: um

show para 80, de 29/12/1979, temos uma das

33 matérias veiculadas na coluna Mundo Guei,

sob o título Os homens que nunca beijam18,

acompanhada da imagem de uma borboleta (símbolo da coluna). O subtítulo − “... e tudo mais jogo num verso/intitulado Mal Secreto”− é um trecho do poema-canção de Wally Salomão, musicada por Jards Macalé e eternizada na voz de Gal Costa em 1971, ano de lançamento do Long Play (LP) “-FA-TAL- Gal a todo vapor”.

Escrito em primeira pessoa, o conto de autoria de Pier Paranoise narra o diálogo entre um homem que se prostitui e um jovem de 17 anos que queria comprar-lhe não sexo, mas um beijo; “de boca. Unzinho. Nada mais”. Como na música, o conto coloca em evidência sentimentos difusos, divergentes, contraditórios. O homem jovem que nunca havia beijado outro homem. Gostaria que a primeira vez fosse “com um homem belo como o senhor”. O “senhor”, por sua vez, faz do seu corpo um negócio e afirma que “não adianta fingir de inocente, porque aqui é assim: gozou, pagou”. Acende um cigarro para demonstrar desinteresse, justificando que só faz o que faz pelo dinheiro. Por fim, as bocas se encontram “enquanto uma língua procura a outra, em ânsia contínua”. O homem busca afastar o jovem com as mãos, evitando-o. “Precisava fingir que não estava gostando, que só estava ali pelo dinheiro, sem consentir que a grana era um ardil para me desviar da censura do mundo”. A claridade da aurora traz os primeiros transeuntes e o garoto vai embora sem pagar, enquanto o homem pensa como reencontrá-lo tão somente para dizer-lhe sobre a felicidade que, naquele instante, o fez esquecer completamente do dinheiro que ele havia de lhe pagar. Dizer também que, “na verdade, não precisava de dinheiro nenhum naquele momento”, mas que sua “alma era alegre”, o “corpo era alegre, alegre, alegre?!”.

Nesse período, destacava-se conflitos e tensões entre dois modelos de classificação da sexualidade. O modelo “tradicional” ou “hierárquico” pode ser

                                                                                                                         

18 Pier Paranoise (não assinado), Os homens que nunca beijam, Diário da Noite, Recife, 29/12/1979,

sábado, p. 7.

 

Figura 7. Capa do LP de Gal Costa

relacionado a oposição binária e hierárquica dos papéis de gênero de categorias heterossexuais tradicionais: do homem ativo que penetra e da mulher passiva que é penetrada; expressos na figura do “bofe” (homem “verdadeiro”) e da “bicha”, respectivamente (DEL PRIORI, 2005; FRY, 1982; GREEN, 2000). Simultaneamente a consolidação do recém-criado “movimento homossexual” – ou primeira onda do movimento gay e lésbico, como prefere Regina Facchini (2009) –, essa forma de classificação disputa com o modelo “moderno” ou “igualitário”, o qual não mais é pensado em termos de distinção entre masculino-feminino, mas numa lógica igualitária, de pluralização dos modos de existência possível e necessidade de ressignificar nomeações socialmente vistas como pejorativas, como o termo “bicha” (FACCHINI; FRANÇA, 2009).

De acordo com Peter Fry (1982), são quatro os componentes básicos usados socialmente na construção das identidades sexuais-afetivas: o sexo fisiológico, o papel de gênero, o comportamento sexual e a orientação sexual. O primeiro trata de atributos físicos que não variam de sistema cultural para outro, o qual distingue machos e fêmeas. O segundo, variável culturalmente, refere-se aos papéis masculinos e femininos dos comportamentos, traços de personalidade e expectativas sociais. O terceiro componente diz respeito ao comportamento sexual esperado por determinada identidade, que na cultura brasileira ganham destaque a “atividade” (penetrar) e “passividade” (ser penetrado/a) no ato sexual. Por fim, o quarto componente básico faz referência ao “sexo fisiológico do objeto de desejo sexual” (p. 91), cabendo ao sujeito orientar-se homo, hetero ou bissexualmente.

Articulando a construção do sexo com as expectativas em torno do que chama de “heterossexualidade obrigatória”, Gayle Rubin (1993) desafia ao afirmar que o que entendemos por sexo é moldado culturalmente. Sexo e gênero são organizados e produzidos em uma “economia política dos sistemas sexuais”, a qual a autora nomeia de sistema sexo/gênero. Esse sistema compreende a forma pela qual uma sociedade transforma um conjunto de arranjos do sexo e da sexualidade humana em produtos que envolvem mais do que “relações de procriação”, no sentido biológico.

Grosso modo, “a organização do sexo repousa sobre o gênero, a heterossexualidade obrigatória e a coerção da sexualidade feminina” (p. 11). Para a autora, gênero é a divisão dos sexos socialmente imposta, que por meio dos

sistemas de parentesco transformam machos em “homens” e fêmeas em “mulheres”, categorias mutuamente exclusivas e incompletas que encontram a plenitude ao se unirem uns aos outros através do casamento. A proibição prévia de algumas uniões heterossexuais (tabu do incesto) implica também, ainda que não explicitamente, um tabu contra relações não-heterossexuais. O sistema sexo/gênero implica dizer que o mesmo sistema que oprime as mulheres gera opressão aos sujeitos com inclinações homoeróticas; comportando uma dupla imposição: a identificação com um sexo e o direcionamento do desejo sexual ao outro sexo.

Mais recentemente, Judith Butler (2015) defende que não há uma identidade por trás das expressões de gênero; a identidade é performativamente constituída pelas próprias expressões que são tidas como seus resultados. A produção do sexo como natural ou pré-discursivo deve ser compreendido como efeito do aparato de construção cultural, o qual nomeamos de gênero. Ao empreender uma genealogia cuja tarefa é de investigar pontos de origem múltiplos e difusos calcadas no falocentrismo e na heterossexualidade compulsória – regimes de poder/discurso –, Butler (2015, p. 43-44) explora aquilo que irá nomear como sujeitos do sexo/gênero/desejo/prática sexual.

A “coerência” e a “continuidade” da “pessoa” não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa, mas, ao contrário, normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas. (...) Gêneros “inteligíveis” são aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. (...) Leis que buscam estabelecer linhas causais ou expressivas de ligação entre o sexo biológico, o gênero culturalmente constituído e a “expressão” ou “efeito” de ambos na manifestação do desejo sexual por meio da prática sexual.

No conto Os homens que nunca beijam, da Mundo Guei, triunfa o romantismo, a linguagem sentimental, da ternura e do carinho, ao mesmo tempo em que estabelecer relações homoeróticas não implica perder o status de “homem”. A relação que se estabelece entre eles é “desviante” do modelo hierárquico na medida em que quebra a regra fundamental da matriz moral e familiar, qual seja, a de ambos desempenharem o mesmo papel de gênero masculino (componente 2) e o comportamento sexual (componente 3) não estar pautado em termos de atividade e passividade (FRY, 1982). Enquanto que no sistema hierárquico predomina a assimetria, no novo sistema exalta-se a igualdade.

No entanto, tensões são evidentes entre os dois modelos de classificação da sexualidade, na medida em que o desejo pelo “homem de verdade” guia o negócio, materializado na figura do michê (personagem-narrador), de modo que reina um paradoxo: o desejo é homoerótico, mas o objeto de desejo é hetero-orientado. A mercadoria não é apenas o corpo, mas um corpo marcado pelos padrões hegemônicos de masculinidade; fetiche tanto de quem compra, quanto de quem vende (PERLONGHER, 2008).

Na “zona do baixo meretrício”, regiões associadas à prostituição, pobreza e crime, opera não apenas gênero como marcador social de diferenças, mas também de classe e etário. Mais do que descritivas (o que acontece lá), tais territorialidades interessam pelo código prescritivo (o que pode ser feito lá). A transgressão ou excitação vai além do sexo pago e se inscreve no código-território: quebra da ordem heterossexual, rompimento de normas sexuais que prescrevem parcerias com pessoas da mesma faixa etária e origem social e étnica (CARELLA, 2011; PERLONGHER, 2008). Semelhante às cidades litorâneas, costumam concentrar-se nas proximidades da zona portuária devido a assiduidade de fregueses provenientes da tripulação dos navios. No Recife da década de 1970, tais regiões apresentam sociabilidades móveis e marginais, permeadas pelo mercado do sexo, a prostituição viril e condutas sexualmente estigmatizadas, como as práticas homoeróticas.

Ainda, o sistema sexo-gênero-desejo (RUBIN, 1993; BUTLER, 2015) nos provoca descolamentos sobre certezas naturalizadas, primeiro, por questionar o caráter imutável do sexo, que sob essa perspectiva é tão culturalmente construído quanto o gênero. Insistir na coerência e unidade da categoria “homem” ou “homossexual”, de forma normativa e excludente, torna-se um gesto globalizante que mantém intacto privilégios de gênero, classe, raça ou idade, ao passo que rejeita possíveis intersecções estéticas, políticas e culturais. Não há descontinuidade entre os corpos sexuados e os papéis de gênero culturalmente construídos. Segundo, por colocar em evidência a norma que exige uma unidade de experiência entre sexo, gênero e desejo, a qual institui uma relação de oposição de gênero pautada na heterossexualidade compulsória. O homoerotismo masculino que se torna texto jornalístico na coluna Mundo Guei ameaça essa ficção regulatória −

produzida performativamente − ao apresentar sujeitos incoerentes ou descontínuos às normas de inteligibilidade cultural.

Embora as disputas estejam sempre em jogo, no conjunto de matérias veiculadas na Mundo Guei é possível perceber a ênfase ao modelo igualitário de classificação da sexualidade, com vistas a garantir inteligibilidade ao sujeito político “guei”, “entendido”, “homossexual assumido” ou “declarado”. Ou seja, o “homossexualismo masculino” é assumido publicamente como uma “condição” sexual, mas que não pressupõe a renúncia aos padrões de masculinidade hegemônica ou “viver como uma mulher”; buscam se reconhecer como uma família “guei”, “alegre”, cujo denominador comum é o “comportamento alternativo masculino” e o fato de se reconhecerem como um “homem que gosta de outro como ele”.

Ao passo que o controle da sexualidade acontece via produção – fazer ver, fazer falar – do “mundo guei”, percebe-se o movimento de exclusão ou apagamento daqueles/as outros/as que não podem ou não querem ser incluídos/as no projeto de sujeito político, materializados em expressões como: “bicha”, “bofe”, “senhorita”, “afeminadas”, “bonecas”, “loucas”, “mini-mulheres”, “desmunhecadas”. De modo que, os dois modelos classificatórios da sexualidade são úteis por motivos de sistematização, embora reconhecemos que possam coexistir e, inclusive, serem invocados no mesmo contexto e pelo mesmo sujeito; como é o caso das matérias que observamos da coluna Mundo Guei.

Existiria ainda um terceiro modelo pautado no papel de gênero (componente 2) e comportamento sexual (componente 3) formulado, sobretudo, por médicos e psiquiatras do final do século XIX. Nesse modelo médico, o “homem normal” seria aquele que, sendo do sexo biológico masculino (macho), desempenha um papel de gênero masculino e comportamento “ativo” na relação sexual (FRY, 1982). Nesses termos, os homens que mantinham relações sexuais com outros homens seriam, necessariamente, classificados como “pederasta”, “uranista”, “homossexual”; independente de assumir uma posição “passiva” – “homossexual passivo invertido” – ou “ativa” – “pseudo-heterossexual”, “homossexual ativo pervertido” (p. 97-98) – no comportamento sexual. A hierarquia se mantém, não apenas com base na norma binária masculino-feminino, mas também sustentada pela oposição entre normal (heterossexualidade) e patológico (homossexualismo).

Nesse período, acrescenta Jeffrey Weeks (2000), questões relativas aos corpos e às práticas sexuais tornam-se preocupação generalizada de especialistas, ganhando sua própria disciplina no final do século XIX: a sexologia. Além da necessidade de nomear/compreender/escrutinar os fenômenos humanos a partir de forças internas e biologizantes, sob influência de uma perspectiva pós-darwiniana, o sexo passa a ser um “instinto”, algo “natural” e expressivo das necessidades cruciais do corpo; mais do que isso, é “constitutivo” do ser. A sexualidade, neste sentido, é elemento central para entendermos nossa existência e os determinantes da personalidade. O ensaio Psychopathia sexualis de autoria de Krafft-Ebing (1931

apud COSTA, 1992; WEEKS, 2000) foi pioneiro pela descrição detalhada do “instinto

natural” cuja “força avassaladora” exige satisfação. Supostamente, além de o sexo ser determinante de personalidades e identidades, ao tratar de uma experiência “universal” toma como base o modelo sexual masculino, a partir de uma linguagem notoriamente orientada por marcadores e estilos considerados masculinos.

Nessas narrativas científicas, os agentes sexuais ativos são os homens; as mulheres saturadas de sexualidade são o próprio “sexo”, meramente reativas uma vez que seus corpos são altamente sexualizados (WEEKS, 2000). Nesses ensaios, como aponta Jurandir Costa (1992), o sexólogo do final do século XIX encarregou-se de sistematizar e catalogar a norma em um eixo dos “normais”, os quais exercitavam sua sexualidade em função da reprodução, no outro eixo os desvios naturais ou os tantos outros “perversos” (pessoas sem compromisso com a reprodução ou que se excitavam com partes do corpo de outras pessoas) e entre estes os “invertidos” (“homossexuais”); embora sentissem atração por pessoas, traíam a natureza reprodutiva e, portanto, cometiam o crime duplamente: o pecado do prazer e contra a natureza da reprodução e o instinto de conservação da espécie.

No Brasil, exemplo da tipologia do que poderíamos chamar de excessos sexuais é o livro Homossexualismo (A libertinagem no Rio de Janeiro) de Pires de Almeida, como argumenta Peter Fry (1982). Inspirado nas teorias desenvolvidas por Richard von Krafft-Ebing e Karl Ulrichs, o médico carioca desenvolveu como argumento central a ideia de que só seria possível evitar a decadência e a doença restringindo a sexualidade do homem à heterossexualidade no casamento. As teorias desenvolvidas por Ulrichs, Krafft-Ebing e Almeida produziram uma

taxionomia de identidades sexuais pautadas na nova ética sexual conjugal e que insistem, em maior ou menor grau, na gênese biológica da “homossexualidade”.

Na literatura, Marcel Proust e André Gide são os responsáveis a dar força e densidade na concepção hoje consolidada e compartilhada pela maioria de nós da existência do tipo homossexual dotado de características próprias (COSTA, 1992). Sob pano de fundo da moralidade burguesa européia do século XIX, os escritores franceses trataram a sexualidade homoerótica oitocentista inventando um novo vocabulário que nos habituou a reconhecer e descrever a verdadeira natureza dos “invertidos”, através de uma tematização exaustiva sobre o assunto e presente em suas obras. Proust buscava absolvição da culpa dos seus desejos homoeróticos pelas ideologias científicas disponíveis na época, sobretudo médico-legais, psiquiátricas, sexológicas e jurídicas correntes no século XIX reproduzindo, igualmente, os preconceitos burgueses e ideais do amor romântico; não sem culpa, vergonha ou remorso. Acreditava estar na ciência o aval da inocência, redimindo o homoerotismo a uma espécie de vício e desvio natural sem devolvê-lo ao crime. Gide, ao contrário, ainda que afirmasse o aspecto instintivo, hereditário ou decorrente da evolução natural divinizou o homoerotismo. Via na inocência uma virtude, benção natural pervertida por uma sociedade decadente e em sua maioria de inclinação heteroerótica (COSTA, 1992).

Embora seja importante enfatizar que há várias maneiras para compreender o homoerotismo masculino no Brasil, sobretudo no que tange a momentos históricos e variações culturais, políticas e econômicas, é possível tecer algumas aproximações com a nova ética sexual (COSTA, 1992). A transição do ideal moral oitocentista − que na literatura encontra expressão nos trabalhos de Proust e Gide e na ciência pelos tratados de Krafft-Ebing, Ulrichs e Almeida − para a ética sexual moderna é crucial para a discussão dos elementos que tornaram possível o surgimento da “identidade gay” e a reformulação do que se entende por “homossexual” até então.

O mito “adâmico” da “homossexualidade natural” nada mais é que um