2 QUEER: ENCENAÇÕES E CENAS
2.1 Queer is burning
Medo, violência física e psicológica, desencontro do eu e não reconhecimento do outro. Estas são palavras que significam, na mesma medida, exclusão e vulnerabilidade. Exclusão em uma sociedade marcada pela diferença de estruturas binárias de homem/mulher, masculino/feminino, heterossexual/homossexual; vulnerabilidade na proporção em que todos os demais sujeitos que não se
encontram dispostos nestes polos estão à parte, desprovidos de significado, poder, direitos e escolhas. “As oposições binárias podem ser acusadas de reducionistas e demasiadamente simplificadoras – engolindo todas as distinções em sua estrutura um tanto rígida” (HALL, 2016, p. 154). Nesta lógica, homens que exercem funções atribuídas ao masculino e com orientação sexual heterossexual estão salvos; já homens que exercem funções atribuídas ao feminino e com orientação sexual homossexual estão fora de categorias originais, que marcam sua diferenciação pela classificação – o que seria a base do que conhecemos como cultura. Neste caso, “a marcação da ‘diferença’ leva-nos, simbolicamente, a cerrar fileiras, fortalecer a cultura e a estigmatizar e expulsar qualquer coisa que seja definida como impura ou anormal” (HALL, 2016, p. 157). A diferença, ao mesmo tempo em que é necessária, se pensarmos em produção dos significados que dependem da marcação entre os opostos, configura também uma estrutura desigual de poder – recorremos ao conceito de suplementaridade de Jacques Derrida (1973) em que a polarização pressupõe dominação de uma oposição sobre a outra, e não a neutralidade de ambas – no caso das identidades sexuais, torna-se uma estrutura de imposição por contraste.
Para que uma mulher heterossexual se diferencie – e por não existir um modelo original de heterossexualidade (BUTLER, 2003), apenas práticas e ritos de perpetuação destes sujeitos e seus desejos pelo outro sexo –, ela necessita da figura da mulher homossexual, a fim de provar sua existência por comparar-se exatamente àquilo que ela não é. Eve Kosofsky Sedgwick, em Epistemologia do
Armário (1990), acrescenta que a identidade heterossexual masculina, e a cultura
dessa identidade, se consolidam por meio da existência e da exigência da “cristalização expiatória de um desejo masculino pelo mesmo sexo” (SEDGWICK, 1990, p. 29), a homossexualidade.
Então corpos visualmente masculinos que vestem a indumentária atribuída ao feminino, híbridos com pênis e com/sem seios e híbridos com/sem seios e vaginas reconstruídas, identificados como mulher e corpos visualmente femininos que vestem a indumentária atribuída ao masculino, híbridos com vaginas e sem/com seios e híbridos sem/com seios e pênis reconstruídos, identificados como homens, desvirtuam normas possíveis de classificação – sem mencionar as orientações sexuais para todas estas corporificações –, ampliam o debate das identidades e
desconstroem estruturas binárias de atribuição de sexo, de concepção do gênero e de aceitação dos desejos. “A sexualidade é modelada na junção de duas preocupações: com a nossa subjetividade (quem e o que somos) e com a sociedade – com a saúde, a prosperidade e o bem-estar da população como um todo” (WEEKS, 2016, p. 52). A subjetividade e a sociedade definem corpos.
Nesta agência e urgência de pluralidades identitárias e sexuais, surge a Teoria Queer, também chamada por Bourcier (2015) de “teoria dos ‘viados’, a teoria do cu” ou ainda os “estudos transviados” de Bento (2016)62
, quando a autora traz a pauta para a realidade brasileira. Surgidos nas décadas de 1980 e 1990, esses estudos são caracterizados pela adoção de uma postura radical de reinterpretação de subjetividades e trouxeram à tona temas como o resgate afirmativo do termo que lhe dá nome, que em sua tradução original é um enunciado depreciativo, como já dissemos anteriormente, e a ampliação da fluidez dos seres e suas autodenominações – se pensadas sob a ótica da academia e da sociedade. Analisaremos os parâmetros propostos pela Teoria Queer não em um contexto histórico63, mas em suas reinterpretações da tríade sexo-gênero-desejo e a importância destas renegociações para a formação da identidade individual (e para a identificação coletiva) como experimento de “queerização” de Paris is Burning.
Queer, antes da teoria, fazia parte de um discurso de insulto. Na língua
inglesa, traduzia o estranho, o esquisito, a bicha, o maricas, ou seja, uma palavra-arma usada como repressão a estes corpos e seres que, estigmatizados, também tinham seu adjetivo homofóbico. Renascidos da própria vaia, esses indivíduos (incluindo as personagens de Paris is Burning), a militância que os defendia – como o grupo ativista Queer Nation surgido na mesma época – e os estudiosos tomam a ofensa como estratégia de ação positiva (orgulho) e aceitação.
Remetendo ao uso da palavra nigger64 pelos ativistas negros nos anos de 1960 e aliviando o peso da expansão da sigla LGBT, queer funciona como um termo guarda-chuva que abrange a união das
62 “Ser um transviado no Brasil pode ser ‘uma bicha louca’, ‘um viado’, ‘um travesti’, ‘um traveco’, ‘um sapatão’”(BENTO, 2016, p. 24).
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Para uma linha do tempo evolutiva da teoria queer, ver (MARCONI, 2015, p.21). 64
Na tradução literal significa negro. O vocábulo, usado em tom depreciativo, também carrega o significado de preguiçoso, estúpido, sujo e inútil. Ver MIDDLETON; PILGRIM.
múltiplas formas não heterossexuais de identidade sexual (AARON, 2004, p. 5)65.
Assim sendo, identificações não cisgêneras, portanto transgêneras, e suas representações também eram recontextualizadas em experimentações corpóreas e ganharam poder em seus discursos – enquanto “formas de falar sobre um assunto, definindo seu modo de falar, escrever ou se dirigir a este termo de forma aceitável e inteligível” (HALL, 2016, p. 80) –, se ponderados enquanto desafios a regras socialmente construídas. O que permanece como o estranhamento em ser queer é a provocação de apresentar, aceitar e incluir o que está entre as normas e assumir “o desconforto da ambiguidade, do entre lugares, do ‘indecidível’” (LOURO, 2004, p. 7). Como contraproposta para um sistema de gênero que delimita um natural essencial (BUTLER, 2003), um dado sexo ligado à especificidade de órgãos como significantes sexuais em detrimento de outros (PRECIADO, 2014), um desejo com fins de procriação e perpetuação da espécie, em vez de práticas múltiplas de prazer. Para o queer, o gênero passa a ser “praticável” (CONNELL; PEARSE. 2015, p. 141), o sexo não faz o corpo e nem a identidade é vista como fixa66.
Queer pode funcionar como um nome, um adjetivo ou um verbo, mas
em cada um desses casos é definido contrário ao normal ou ao normalizante. A Teoria Queer não é uma estrutura singular ou conceitual sistemática, mas uma coleção de estudos sobre as relações entre sexo, gênero e desejo. Se a Teoria Queer é uma escola de pensamento, então ela é uma escola com a visão disciplinar pouco ortodoxa. O termo descreve um alcance diverso de práticas críticas e prioridades: leituras da representação do desejo pelo mesmo sexo na literatura, nos filmes, na música e nas imagens; análise das relações sociais e políticas de poder relacionadas à sexualidade; crítica ao sistema de sexo-gênero; estudos da
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Do original: echoing black activists’ use of ‘nigger’ in the 1960s, relieving the burden of the titular expansion of LGBT (lesbian, gay, bisexual and transgender), queer’s most basic function is as an umbrella term or catch-all for uniting various forms of non-straight sexual identity.
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A construção de uma identidade não fixa questiona noções do movimento feminista dos anos de 1970, que proclamava, entre varias reivindicações, identidades coerentes para a mulher como sujeito do feminismo a partir do binarismo homem/mulher, masculino/feminino. Esta premissa da fixidez estaria vinculada a uma matriz heterossexual e se desfaz na medida em que a Teoria Queer questiona esta essência da heterossexualidade, ao apresentar um gênero desestabilizado (BUTLER, 2003) ou praticado, não heterossexual. Portanto, também são variáveis noções – até então estáveis – para as identidades (incluindo homens).
identificação transexual e transgênera e dos desejos sadomasoquistas e transgressivos (SPARGO, 1999, p. 9)67.
O que Spargo diz com esta afirmação é que os estudos queer, embora uma coleção de estudos nada tradicionais, “saberes subalternos” (MARCONI, 2015, p. 18), sobre as relações entre sexo, gênero e desejo, unem-se ao prever uma atitude inclusiva para sujeitos e práticas até então perversos – “a implantação das subversões é um efeito-instrumento: através do isolamento e da consolidação das sexualidades periféricas que relações do poder com o sexo e o prazer [...] medem o corpo e penetram nas condutas” (FOUCAULT, 1988, p. 47) – e identidades deslocadas, porque suas sexualidades não eram condizentes com a singular dominante. Ou porque a marcação de suas histórias pessoais não se enquadra com suas vontades – as escolas, por exemplo, criam a “masculinidade forjada” (LOURO, 2016b, p. 22) dos homens controlados em seus impulsos versus as mulheres emocionais. Ou porque a marcação de seu código de vestimenta estava em contradição com os discursos de seu corpo (modificado ou não). Vale destacarmos que a roupa “funciona como o primeiro e mais importante filtro social para o reconhecimento instantâneo da identidade de gênero de uma pessoa” (LANZ, 2015, p. 182). O corpo vestido tem gênero. A indumentária é normatizadora e encontra-se na diferenciação masculina/feminina do vestir.
Spargo identifica em Michel Foucault e A História da Sexualidade (publicado originalmente em 1970) um catalisador para as revisões propostas pela Teoria
Queer sobre sexo-corpo-gênero. Foucault, ao examinar o discurso do (e sobre o)
sexo, levanta questões sobre a sexualidade que, não reprimida, mas incitada, enfatiza quem fala, os pontos de vista do que é dito e a difusão destes dizeres – questões de poder e controle no interior de normas de decência que agiriam como redes68 (FOUCAULT, 2015), como dispositivos da sexualidade69 para policiar
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Do original: Queer can function as a noun, an adjective or a verb, but in each case is defined against ‘normal’ or normalizing. Queer theory is not a singular or systematic conceptual or
methodological framework, but a collection of intellectual engagements with the relations between sex, gender and sexual desire. If queer theory is a school of thought, then it’s one with a highly unorthodox view of discipline. The term describes a diverse range of critical practices and priorities: readings of the representation of same-sex desire in literary texts, films, music, images; analyses of the social and political power relations of sexuality; critiques of the sex-gender system; studies of transsexual and transgender identification, of sadomasochism and of transgressive desires.
68 Em Microfísica do Poder, Foucault explica a sexualidade controlada por redes: “um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas,
enunciados e, por conseguinte, decretar onde e quando era permitido falar sobre sexo. Poder este que, segundo Hall (2016), está nas esferas públicas, como na política e na economia, e privadas, como na família. O poder – enquanto um “feixe de relações mais ou menos organizado” (FOUCAULT, 2015, p. 369) – do discurso de um grupo assume o fato como uma verdade.
O conhecimento e os sujeitos opressores da fala – igrejas, instituições de ensino, governos, médicos – sustentam esta veracidade dos fatos sobre os corpos (onde atua a sexualidade). “Diversas técnicas de regulação são aplicadas aos corpos e diversos aparatos e formações discursivas os dividem, classificam e inscrevem diferentemente em seus respectivos regimes de poder da ‘verdade’” (HALL, 2016, p. 91). Essa censura resulta, então, na criação de regiões de silêncio “pelo menos de tato e discrição: entre pais e filhos, por exemplo, ou educadores e alunos, patrões e serviçais” (FOUCAULT, 1988, p. 21) e na valorização desta fala pelos sujeitos oprimidos – “a multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vez mais” (FOUCAULT, 1988, p. 21). Aqui o controle e a repressão transformam o poder, que passa também a ser nova produção de conhecimento (para os que não o têm).
No controle da sexualidade surge um crescente de discursos-poderes sobre sexo: “programas de televisão e rádio, sermões e legislação, [...] conselhos médicos, ensaios e artigos, assim como novas práticas sexuais e a indústria da pornografia” (HALL, 2016, p. 90). O que nos leva a dizer que a formação da identidade, ligada aos poderes que atuam sobre ela, é um embate coletivo e individual sobre a representação do sujeito:
decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” (FOUCAULT, 2015, p. 364).
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O poder sobre o sexo, para Foucault (1988), age de acordo com o que ele denominou de
dispositivo da sexualidade – tecnologias/técnicas que retêm a verdade discursiva do sexo e agem por rejeição (a hipótese negativa), regramento (a instância da regra), proibição (o ciclo da
interdição) e censura. “Funcionaria de acordo com as engrenagens simples e infinitamente
reproduzidas da lei, da interdição e da censura: do Estado à família, do príncipe ao pai, do tribunal à quinquilharia das punições cotidianas, das instâncias da dominação social às estruturas
constitutivas do próprio sujeito, encontrar-se-ia, em escalas diferentes apenas, uma forma geral de poder. Essa forma é o direito, com o jogo entre o lícito e o ilícito, a transgressão e o castigo” (FOUCAULT, 1988, p. 81). São estes os dispositivos: a histerização do corpo da mulher, a
‘pedagogização’ do sexo da criança, a socialização das condutas procriadoras e a ‘psiquiatrização’ do prazer perverso (FOUCAULT, 1988).
Os grupos sociais que ocupam as posições centrais, “normais” (de gênero, da sexualidade, de raça, de classe, de religião etc) têm possibilidades não apenas de representar a si mesmos, mas também de representar os outros. Eles falam por si e também falam pelos outros (e sobre os outros); apresentam como padrão sua própria estética, sua ética e sua ciência e arrogam-se o direito de representar (pela negação ou pela subordinação) as manifestações dos demais grupos. Por tudo isso, podemos afirmar que as identidades sociais e culturais são políticas. As formas como elas se representam ou são representadas, os significados que atribuem às suas experiências e práticas são, sempre, atravessados e marcados por relações de poder (LOURO, 2016b, p. 16).
Para Guacira Lopes Louro, estas relações de poder funcionam como pontos de referência que incluiriam, e dizemos incluiriam porque são ainda excludentes no pressuposto de encaixe geral, todos os seres. Ideias de normalidade para a sexualidade ou uma inclinação natural dos sujeitos a seus desejos sempre voltados ao sexo oposto – o comportamento inato a este permanece sob vigilância – são negadas pelos queers. Como explica Venus Xtravaganza em cena: “Alguns acham que nós somos doentes ou loucas. E alguns acham que somos as coisas mais maravilhosas e especiais do mundo” (PARIS ..., 1990). Essa naturalização da sexualidade é outro ponto-chave para Foucault (1988) que a situa não como parte da vida humana, mas a reinscreve como experiência, relacionando sua origem à história, à sociedade e à cultura.
O que se supunha como natural está ligado a quem controla esta natureza referencial, logo, consegue afirmar a existência de um antinatural – a natureza, a “ordem simbólica” (PRECIADO, 2014, p. 24), funciona como norma reguladora para apontar o peculiar em relação ao que foi normatizado. “Aprendemos a classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente, pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias maneiras com que se expressam” (LOURO, 2016b, p. 15). Classificado o outro, portanto, vemos que “gêneros representam não um indivíduo, e sim uma relação, uma relação social; representam um indivíduo por meio de uma classe70” (LAURETIS, 1994, p. 211). Gênero é o resultado de uma construção coletiva ensinada e reiterada.
70 Lauretis explica o uso da palavra classe como “grupo de pessoas unidas por determinantes e interesses sociais – incluindo, especialmente, a ideologia – que não são nem livremente escolhidos nem arbitrariamente determinados” (LAURETIS, 1994, p. 211).
A Teoria Queer remete à desnaturalização dos corpos e gêneros (e a separação dos mesmos enquanto construto coerente prevendo que um pênis, por exemplo, está para um homem assim como a vagina é apenas de um corpo-mulher) e a desnormatização dos desejos (heterossexuais não são a lei). Quando em cena de Paris is Burning, Venus Xtravaganza – mulher, trans, latina e que ganha a vida nos bailes e também como prostituta – manifesta a vontade de uma adequação cirúrgica, ela mostra sua desnaturalização. “Eu não sinto que existe nada masculino em mim, tirando talvez o que eu tenho aqui embaixo, que é a minha coisinha pessoal. É por isso que quero mudar de sexo, para me tornar completa” (PARIS... 1990). Tornar-se completa, “tornar-se mulher” (BEAUVOIR, 2009), são reações para uma aparente não identificação do que é ser mulher, tendo o gênero marcado e as atitudes delimitadas anteriores ao corpo sexuado e o que se busca com ele ou dele.
Desnaturalização também está ligada à tomada do discurso-poder – até então os desviados da norma não tinham a sua fala e, portanto, a sua significação. Corpos desnaturalizados por cirurgia ou tratamentos hormonais, gêneros desnaturalizados por experimentações dos corpos e dos códigos culturais, orientações sexuais desnaturalizadas por compreender o desejo através de outros órgãos – boca, ânus, pele e próteses – desconectados enquanto zonas erógenas e desassociados de ideais de reprodução, por consequência, desnaturalizam as identidades.
Judith Butler, em Corpos que Pesam (2016) e Problemas de Gênero:
feminismo e subversão da identidade (2003), atenta ao fato de que esta
naturalização do sexo está relacionada a uma construção do gênero anterior ao nascimento, passando por um ato visual-descritivo do corpo e do gênero (como ritual social) que acontece nos exames pré-natais e também pós-parto, quando uma criança é anunciada, por exemplo, como ‘ela’ ou ‘ele’
Nessa nomeação, a garota torna-se uma garota, ela é trazida para o domínio da linguagem e do parentesco através da interpelação71 do gênero. Mas esse tornar-se garota não termina ali; pelo contrário, essa interpelação fundante é reiterada por várias autoridades, e ao
71
A interpelação é a declaração de um corpo neutro como masculino ou feminino. Esta interpelação é um ritual, um ato da sociedade heterossexual em que, através do discurso (BUTLER, 2003, 2016), se apresenta a verdade do gênero. Ninguém é homem ou mulher até que se pronuncie isto. Preciado (2014) delimita ainda a interpelação de gênero como a responsável por “fazer corpos” e “ressignificar órgãos” – e desfazer ou adaptar os que estão em dissonância.
longo de vários intervalos de tempo, para reforçar ou contestar esse efeito naturalizado. A nomeação é, ao mesmo tempo, o estabelecimento de uma fronteira e também a inculcação repetida de uma norma (BUTLER, 2016, p. 161).
Explícito nesta passagem é o fato de que o corpo não é neutro, mas submetido a ações de repetição, como um check list identificatório de homens e mulheres, machos e fêmeas heterossexuais (os sujeitos desses corpos têm de estar em concordância com este desejo e nem a eles é dada esta escolha) e reiterado por um aparelho regulatório anterior a eles, uma regra contratual de formação de seres binários. “Então a assunção do sexo é constrangida desde o início” (BUTLER, 2016, p. 166), porque age de acordo com um laço de heterossexualidade.
O desejo pelo sexo oposto faz parte de um conjunto de normas coerentes de classificação de sujeitos. Esta coerência pede oposição e, para sua existência, exige uma heterossexualidade estável e binária (homem e mulher como opostos). A filósofa dialoga aqui com a construção como conhecimento discursivo, formando o que chama de “gênero inteligível” (BUTLER, 2003, p. 43), o qual uniformiza sexos (biológicos), gêneros (construídos), desejos (como efeito de sexo e gênero) e práticas sexuais (expressando os desejos já sob o efeito de sexo e gênero). Para pensarmos o gênero – e a existência ou não de um inteligível como inclinação – faz-se necessário categorizá-lo como um ato performativo, uma “prática que torna realidade ou produz aquilo que nomeia” (PORCHAT, 2014, p. 39). A performatividade72 de gênero surge como um feito discursivo advindo de um regime regulatório de separação e hierarquização de corpos.
Constrangimentos sociais, tabus, proibições, ameaças de punições operam na repetição ritualizada de normas e esta repetição constitui uma cena transitória de construção de gênero e sua desestabilização [...] Esta repetição cria um efeito de uniformidade de gênero, um
72 Performatividade ou atos performativos, ou “realizativos” (PRECIADO, 2014), são expressões de gênero repetidas que formam o gênero, não são formadas a partir dele. “Não há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente construída pelas próprias expressões tidas como seus resultados” (BUTLER, 2003, p. 56). Estes atos, que vão desde a escolha de uma roupa ou de uma forma de andar identificada como masculina ou feminina, situados no âmbito da linguagem, são criadores dos gêneros (SALIH, 2015) e fazem parte das “citações ritualizadas da lei heterossexual” (PRECIADO, 2014, p. 92).
efeito estável de masculino e feminino, que desestabiliza a noção do sujeito (BUTLER, 1993b, p. 21)73.
Em Critically Queer (1993b), Butler argumenta que estas práticas reguladoras de gênero e, por consequência, de identidades, expõem suas fragilidades. Na medida em que disseminam a repetição de ações performativas para a formação do gênero e do desejo heterossexual, abrem espaços para dissonantes que copiam esses atos. “O que salienta o status cabalmente construído do assim chamado heterossexual original” (BUTLER, 2003, p. 66), como idealização do natural. Para Bento (2016), atos que fazem o gênero passam por escolhas cotidianas – como o uso de acessórios, os cortes de cabelo – que uniformizam sujeitos entre os dois gêneros. “Nossos corpos são fabricados por tecnologias74
precisas e sofisticadas que têm como um dos mais poderosos resultados, nas subjetividades, a crença de que a determinação das identidades está inscrita em alguma parte do corpo” (BENTO, 2016, p. 22). Mas a identidade, para Butler, é sua própria construção. O masculino e o feminino seriam categorias ficcionais de listagem dos corpos. “A feminilidade é uma performance75, uma imitação sem original. Em linhas gerais, entre uma mulher e uma drag queen, a diferença é o comprimento do salto” (BOURCIER, 2015, p. 12). A ideia de imitação – da drag e da mulher – seria uma