CAMINHOS METODOLÓGICOS 2.1 A etnografia na teoria antropológica
6. Jogos dramáticos ao autoconhecimento – como os exercícios dramáticos de Augusto Boal, o psicodrama de Moreno, a somaterapia de Roberto
3.3 Relatos sutis de algumas atividades lúdicas observadas
3.3.5 Queimada ou Baleada
Joga-se com dois grupos de crianças, uma de cada lado. Observa-se a mesma distância no meio do campo, traça-se uma linha chamada fronteira. O grupo fica distante da fronteira por alguns metros. Atrás do grupo, e feita uma segunda linha, onde fica o cemitério local, para quem for desclassificado. Cada grupo possui o seu. Os componentes do primeiro grupo chegam à fronteira e atiram a bola no segundo grupo.
Se ela acertar alguma criança do segundo grupo, esta irá para o cemitério do primeiro grupo. No final, o grupo que tiver menor número de crianças no cemitério, venceu. A bola é atirada com a mão.
Esta brincadeira é de predominância de ação física e de estratégia. Nela aparece um caráter mais ou menos misto na participação, porque às vezes presencia-se meninos jogando, porém, os participantes, em grande parte, são meninas, além disso, a brincadeira foi associada pelos meninos que fizeram parte do grupo de estudo como uma das brincadeiras de “meninas”.
Os relatos sobre as atividades lúdicas acima mencionadas são importantes para a argumentação desse trabalho porque servem de base para a compreensão da construção social da masculinidade enquanto um dos elementos presentes na socialização. Nesse sentido, essas atividades se configuram com um dos portais de reflexão sobre as complexas costuras das relações sociais de gênero, abrindo caminho para o mergulho nas teias simbólicas pelas quais se estabelecem as experiências sociais das crianças investigadas. Além disso, também serve para apresentar as várias estratégias utilizadas por elas para se divertirem e construírem seus espaços de sociabilidade, dentro de seu contexto sócio-cultural e como nesses espaços se estabelecem e se definem os tratamentos e as demarcações entre meninos e meninas.
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ensando na possibilidade de buscar um tipo de explicação para as configurações das relações de gênero entende-se que o esporte e as atividades lúdicas infantis são espaços estratégicos para o estudo das masculinidades e das relações de gênero. São nesses espaços culturais onde meninos e homens aprendem a se enaltecer desvalorizando os homens que são fisicamente mais fracos e as mulheres (Sabo, 2002). Isto posto, mostrar-se-á como os dados coletados confirmam esses pressupostos.
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O “racha” ou “pelada” é geralmente jogado em campos de várzea, praças, ruas de pouco movimento, gramados de jardins públicos, terrenos baldios, praias. É um jogo de bola muito difundido entre crianças e adultos, sem distinção de idade. Em qualquer espaço, e com uma bola se pode jogar uma pelada ou racha, versão informal do popular jogo de futebol.
Geralmente os “peladeiros” vão se reunindo aos poucos e, enquanto esperam a adesão de outros participantes, aproveitam para disputar linha de passe, bobinho, cascudinho, dupla, chute-a-gol. Estas jogadas que antecedem a pelada, propriamente dita, são formas de atrair novos companheiros e, paralelamente, proporcionar o aquecimento dos jogadores. Reunido o grupo, com número fixo de participantes, mas
sempre igual para cada lado, marcam-se as balizas que podem ser improvisadas de várias maneiras: camisas, chinelos, pedras, pedaços de pau, galhos de árvore, etc.
Existem casos em que dois jogadores tiram o par-ou-ímpar, se for necessário, e o vencedor começa a escolher seu time. Vão se alternando na escolha até que não sobre mais ninguém ou se atinja um número considerado suficiente. Normalmente, os primeiros a serem escolhidos são os melhores jogadores, ficando para o final ou indo para o gol (se não for com balizas mirins), aqueles que são considerados ruins na linha- ataque ou na defesa. Em outros casos, os times são formados com base no coleguismo, na afinidade e na amizade. Quando a pelada se inicia com um número reduzido de “peladeiros”, à medida que novos elementos se aproximam da beira do campo, vão sendo escolhidos, entrando sempre um de cada lado.
Na pelada as regras do futebol não são respeitadas, isto é, vale tudo22. A única exceção é a mão na bola. Esta falta provoca a interrupção da partida, quando é então cobrada a penalidade, que poderá ser um pênalti, caso o lance tenha ocorrido dentro da área. Quando jogada na rua ou em praças, freqüentemente não há goleiros, sendo balizas demarcadas em tamanho bastante reduzido para dificultar o gol.
Sem tempo determinado de duração - a não ser quando se combina previamente o número de gols - o jogo se desenvolve até escurecer, com incentivos e vaias dos assistentes e torcedores. Quando não há combinação prévia do número de gols da partida, o fim poderá ser determinado pelo primeiro gol feito a partir do momento em que alguém grita: - “Quem fizer o primeiro gol ganha!”. A pelada, então, se torna mais animada com os dois times querendo ter a honra de marcar o último gol e, conseqüentemente, saírem vencedores.
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Entenda-se quase tudo, porque os jogadores estabelecem regras próprias entre eles que se aproximam das regras do futebol profissional.
Saindo da caracterização geral desses “rachas” ou “peladas”, serão, agora, especificados alguns acontecimentos observados durante as partidas de futebol. Os dados que se seguem fizeram parte das observações como um todo, mas estão sendo relatados como tivesse se apresentado num único dia.
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Duas e meia da tarde. Aportei diante da residência do representante comunitário para dar continuidade à coleta dos dados. O representante não se encontrava, mas tinha deixado seu sobrinho com a tarefa de ser meu acompanhante e levar-me até um dos espaços onde os meninos dedicavam parte de seu horário vespertino em atividades de lazer. Ele, também, era dos freqüentadores do “racha” ou “pelada”, e quase todos os meninos que se encontravam no campo eram seus amigos, conhecidos e/ou colegas de escola. Os meninos contatados, por intermédio dele, encontravam-se na faixa etária entre 12 e 14 anos de idade. Esses meninos, todos os dias, costumavam “bater uma bolinha”.
Seguindo, então, ao destino dos rachas, percurso cheio de irregularidades que cortam e recortam as paisagens urbanísticas e formação das habitações simples da comunidade. Acompanhando os passos cálidos do guia de pesquisa, que me conduzia pela comunidade até os campos onde homens jovens, adultos e adolescentes costumavam jogar futebol com seus pares de amizades e de parentesco, notei a presença considerável de pessoas pelas ruas e calçadas. O trecho, ao qual faço referência, é uma via de acesso ao complexo poliesportivo Beira Rio, nele encontrei um emaranhado de casebres, vielas e becos que compõem o mapa geográfico e habitacional da comunidade, em sua maioria composta de precária infra-estrutura (casas tipo favelas). Trata-se de um trecho que fica entre as Avenidas Barão de Bonito,
no Brasilit, e Afonso Olindense, na Várzea. Nessa caminhada o guia recrutava alguns de seus amigos para participar do jogo.
O guia e eu chegamos ao local dos jogos de futebol. O Campo do Beira Rio está localizado na Várzea, próximo ao terminal de Integração do Bairro, logo depois da Avenida Afonso Olindense, em direção ao Rio Capibaribe. Na metade desse percurso encontrou-se um grupo de meninos, todos colegas do guia, que juntos se dirigiram até o campo onde costumavam jogar futebol. Durante a caminhada alguns meninos se interrogavam sobre quem seria a pessoa que agora se juntava a eles para assistir o jogo. Perguntavam sobre o grau de parentesco entre eu e o guia mirim. Às vezes, os meninos procuravam incentivar a participação nas partidas (recusada por mim, visto que tinha que centrar-se nas observações etnográficas).
Quando o jogo foi iniciado, os meninos que esperavam sua oportunidade de entrar para jogar ficavam próximos um dos outros, e eu junto a eles. De forma tímida eles procuravam saber um pouco mais sobre minha pessoa e porque passei a freqüentar seus espaços de lazer, suas tardes de recreação.
No campo notei a presença de um público diversificado, que abrangia uma diversificada faixa etária, com formas de lazer para homens adultos, jovens, adolescentes e crianças. As formas de lazer variavam desde a prática de se jogar futebol até empinar pipa. No complexo existiam dois campos de futebol, com dimensões que se aproximavam das medidas dos estádios de futebol profissionais e uma quadra poliesportiva aonde rapazes e moças costumavam jogar voleibol.
No primeiro campo, durante as tardes que fui observar os meninos jogarem futebol, quase sempre era ocupado por crianças e adolescentes de uma escolinha de futebol. Findado o jogo, da referida escolinha, entra em cena o “racha” dos adultos, que, nessa ocasião, ocupa todas as dimensões do campo, com a existência de regras
que mais se aproximam de uma partida de futebol. Os jogadores, na maioria, jogam calçados, sem uniforme de times geralmente jogam sem camisa.
No segundo campo, o desenho é outro. Mesmo tendo dimensões similares ao do primeiro campo, esse fica subdividido em três pequenos campos, com dimensões que mede aproximadamente 10m x 4m. Nessa subdivisão existe a separação entre o mundo dos homens adultos e de crianças beirando a adolescência.
As barras (traves) do jogo eram geralmente feitas com pedras ou pedaços de tijolos e eram medidas com as passadas de um dos meninos, 4 (quatro) passos de largura. Em alguns casos elas são feitas de ferro e possuem redes, medindo aproximadamente 50 cm de largura e 60 cm de altura.
Esses campos se configuram como espaços de homossociabilidade, nos quais homens e meninos jogando e/ou assistindo compartilham, não só de um espaço físico, mas também dos espaços simbólicos, dos códigos e valores que perpassam o mundo de construção do modo de ser masculino. Modo este estabelecido através de infinitas formas de sociabilidade e diferenciadas segundo os movimentos simbólicos que são o fio condutor do conhecimento.
A formação dos times não tinha um critério bem definido, a lógica mais clara era o grau de amizade entre os meninos e quem tivesse mais habilidade com a bola de futebol. Cada equipe era composta por três jogadores23. O número de equipes variava de um dia para o outro, houve dias que só tinham três equipes e dias que tinham cinco equipes. Duas equipes começavam jogando e as demais ficavam esperando sua vez, que acontecia quando uma das equipes que estavam jogando fazia um gol ou quando
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Raramente esse número crescia para 4 jogadores em cada equipe, quando acontecia tinha uma razão: uma quantidade maior de meninos que queriam jogar. Mas, isso desembocava em outra coisa: era necessário aumentar o tamanho do campo.
chegava o tempo mínimo de 10 minutos por partidas, tempo estabelecido pelos próprios meninos. Habitualmente, os “rachas” se iniciam na parte da tarde e duram de três a quatro horas, até o pôr-do-sol. Em um dia de jogo ocorre entre nove ou dez partidas diferentes. Cada jogo é precisamente igual aos outros, em seu padrão geral.
O principal objeto do jogo é a bola. Só existe uma bola para todos os meninos, quando ela é chutada com força e cai longe, todo o time fica esperando um dos componentes do time que tem a posse de bola, ir buscar. Diferentemente do futebol profissional que obedece a um conjunto de regras bem estabelecidas, e que devem ser cumpridas por todos que fazem parte do metier futebolístico, (jogadores, dirigentes, árbitros e cartolas) o “racha” não apresenta regras rigorosas, elas são estabelecidas durante o acontecimento do jogo e às vezes até contestada.
Referente a contestação das regras, as infrações são cobradas com um jogador colado a bola, impedindo a sua passagem diretamente. Qualquer jogador pode pedir falta, pois não existe a figura do árbitro e isso, muitas das vezes, ocasiona brigas e contestação por parte de alguns meninos que não se conformam com o pedido de uma falta. Esse fato ocasiona insultos que desembocam na verbalização direcionadas à virilidade, ao questionamento do menino enquanto homem. Pedir uma falta que não seja ríspida coloca os meninos em acusações mútuas sobre a força do outro. Moleza e fraqueza não combinam com o requisito de masculinidade exigido nos rachas. Nesse sentido, existe uma vasta literatura sobre a construção da masculinidade no esporte, tendo a força física e emocional masculina como elemento importante da construção de um ethos masculino (Sabo, 2002; Bourdieu, 1999; Louro, 1997). Era freqüente observar, através de afirmações espontâneas, a exaltação das potencialidades como também a diminuição dos adversários. Essa diminuição se apresenta como instrumento de valorização da masculinidade, porque as virtudes são, quase sempre, associadas a
adjetivos masculinos, enquanto que os adjetivos de desqualificação, são associados ao feminino. Pode-se dizer que os jogos e as brincadeiras observados não só ensinam os meninos a se considerarem superiores às mulheres, mas também evitar tudo aquilo que se refere ou se define culturalmente como atividades ou características femininas (Bourdieu, 1999; Vale de Almeida, 1995).
No racha não há tiro de meta, quando a bola sai pela linha de fundo qualquer jogador pode sair conduzindo ou tocando para um companheiro de time, que em algumas ocasiões tocam para um menino próximo e arrisca um drible no adversário, o que vai lhe trazer orgulho se por acaso ele conseguir sucesso na jogada, são nesses momentos aonde se exalta bastante às qualidades individuais dos meninos/jogadores, Eles próprios costumam se vangloriar da sua habilidade, exaltando a jogada e colocando o adversário como aquele que foi incapaz de tomar a bola. Nesse momento, as brincadeiras e gozações feitas a partir de uma jogada bem construída individualmente ou coletivamente são causadoras de elogios para quem fez a jogada e de gozações e brincadeiras depreciativas para quem sofreu a jogada.
Como se sabe, no futebol o objetivo final é o gol, mas não se pode deixar de dizer que por trás desse objetivo estão presentes outros elementos que fazem partem do jogo, tais como, uma bela jogada, comemorada ou acompanhada de uma lamentação por ter perdido o gol, “mas pelo menos foi uma bela jogada”. A plasticidade do jogo não se concentra no gol, ele é desfecho de tudo o que acontece nas quatro linhas. São nesses momentos de interação, de um menino passando a bola para outro ou mesmo fazendo uma jogada que mereça elogio que acontece a verbalização de falas que estão carregadas de valores relacionados a masculinidade.
Nos rachas também não tem impedimento, que se constitui numa regra caracterizada da seguinte forma: o atacante se posiciona a frente do último defensor da
meta a ser atacada, dessa forma, o jogador estar em posição de impedimento. Esse tipo de jogada os meninos chamam de “estar na banheira”, mas para eles não funciona como penalidade da jogada, o jogador pode estar em qualquer posição no campo e fazer o gol, não existe impedimento nos “rachas”.
O escanteio ou córner é também outra regra que no racha não tem o mesmo formato do futebol jogado com dois times com 11 jogadores cada, nessa situação ele é batido com os pés, já no rachas ele é cobrado com as mãos ou com pés. Quando a bola sai pela linha de fundo em decorrência de uma intercepção do defensor que impediu a consumação da jogada (o gol), um dos jogadores vai até a linha imaginária que simboliza os espaços dentro e fora do campo e arremessa com as mãos ou com os pés.
Em termo de regras, a considerada mais clara no “racha” é a interdição de usar as mãos quando a bola estar em jogo. Usar as mãos, só é aceito em duas ocasiões. Uma quando se vai bater o escanteio (como já mencionado) e a outra na cobrança de lateral. Em outras jogadas fica terminantemente proibido colocar as mãos sobre a bola, exceto em casos em que ela toque na mão de um menino sem que ele tenha a intenção de mudar a trajetória da bola, o que muitas vezes ocasiona muitas confusões devido existir várias interpretações sobre o fato, nota-se isso quando um menino diz “eu não coloquei a mão na bola, eu toquei se querer, não é falta”, e outro retruca: “é falta, você colocou a mão na bola e isso não vale...”. Cria-se o maior burburinho, interpretações de um lado e de outro, ganha aquele que conseguir falar mais alto, impor sua opinião ou mesmo conseguir a maior adesão dos participantes ao jogo. Até mesmo os meninos que estão no time de fora opinam sobre a jogada e acabam por influenciar na decisão sobre se foi falta ou não.
Nesses rachas não existe posição determinada, o deslocamento no campo é constante, vê-se numa hora um menino como atacante e pouco depois ele já está na
defesa. Há uma circulação de meninos nas posições, o que se mantém sempre é um menino perto de outro colocado numa posição estratégica para receber a bola. Há também a ausência de goleiros no jogo, o máximo que acontece é que um dos meninos fica próximo às balizas para impedir o gol.
O tempo de jogo geralmente é de 10 minutos ou dois gols. Se o jogo for empate e ainda houver mais de um time, saem os dois times que estavam jogando. Se existir apenas um time na espera para jogar, a partida será decidida na cobrança de penalidades máximas diretas para as balizas, numa distancia de mais ou menos cinco passos. Cada equipe tem direito a três cobranças. Terminado os 10 minutos será decretado o vencedor a equipe que estiver com vantagem no marcador.
O critério de entrada para o jogo de cada time é a ordem de chegada dos participantes e o anúncio da composição do time. Na medida em que mais meninos vão chegando, mais times vão se formando.
Esses rachas se constituem como uma das formas lúdicas que fazem parte da rede de sociabilidade na comunidade. Dentro dessa rede percebe-se alguns elementos, entre eles a segregação sexual do lazer. Numa pesquisa sobre tempo livre e lazer Franch (2000) também percebeu essa segregação. Segundo ela,
“brincar de academia, de ‘cozinhado’, de boneca, pular corda ou elástico é típico das meninas abaixo dos onze anos, embora algumas dessas brincadeiras estendam-se aos primeiros anos da adolescência. Os meninos, mas também os jovens ‘ameninados’, gostam de empinar papagaio e de bola de gude, brincadeiras que vão esquecendo-se posteriormente. Brincar de escondido é lembrança de infância para os adolescentes de ambos os sexos. Crianças e jovens partilham o gosto por alguns jogos de equipe: o de queimada as meninas, o de futebol para ambos os sexos, embora com claro predomínio masculino e aberto à participação de adultos” (Franch, 2000: 136).
A construção social da masculinidade se apresenta nessa segregação sexual, mas também em outras esferas de sua constituição, como é o caso da exaltação de
ser macho em determinadas jogadas. Os covardes, os fracos, são execrados e ridicularizados, se configurando nesse momento da interação social numa hierarquização interna, forte elemento que compõe uma das facetas dessa construção. Bacelar (1997) também percebeu isso em seu estudo sobre jogo de futebol24 em camadas populares. Segundo ele é forte a exaltação do macho forte e viril, aquele que desafia, que não tem medo, caso contrário, ele será desmoralizado, desonrado. Por isso, “abdicar da coragem, não enfrentar o adversário mesmo quando em desvantagem, se esconder da disputa, será motivo determinante para a desmoralização e a desonra (...) Assim, torna-se muito comum a designação de ‘boneca’ e ‘menina’ (Bacelar, 1991: 97)
Nas observações feitas também notou-se designações que se assemelham as que foram constatadas por Bacelar. No caso aqui específico as designações mais comuns encontradas para desmoralizar o adversário quando ele fraqueja, tira o pé de uma jogada mais dura, são as denominações de: “frangos”, “maricas”, “mulherzinha”. Com a palavra os meninos:
“Tu é frango? Ninguém pode encostar que tu pede falta, parece que é frango...” (André - 11 anos).
“Porra cara, tá com medo de jogar. Tu tá nervoso. Ó pra aí o cara, tem medo de entrar numa dividida. Tu não é home não? Tu é frango, é?. O cara lá é home igual a tu” (Augusto - 14 anos).
Esses rachas se configuram como um momento especial do lazer dos meninos, colocando em destaque certos aspectos da sua realidade, eles são mais que um simples “lazer” (recreação consentida), configura-se, também, como a expressão de sua própria sociabilidade, da sua própria convivência.
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Jogar futebol em campos de várzea é um costume corrente no cotidiano de homens e meninos. E, sem dúvida, pode ser interpretado como um espaço de homossociabilidade, aonde homens e meninos vivenciam e compartilham valores e significados de práticas por eles mesmos denominadas de masculina. O espaço do