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Nesta seção, serão apresentados alguns dados de pesquisas que revelam o perfil das mulheres em situação de violência que acionaram o sistema de justiça criminal.

A partir de dados levantados pelo CNJ (2018a), no que se refere ao nível de escolaridade das mulheres pesquisadas, foi verificado, na cidade do Recife, que apenas 7% conseguiram concluir um curso superior, enquanto 41% não havia completado o 1º grau. Em Maceió, o percentual de mulheres com nível superior foi de 6% e a maior frequência foi de mulheres com o 1º e o 2º graus completos (11% e 15%, respectivamente). Na capital paraense, identificou-se os percentuais de 12% para mulheres com ensino médio completo e de 13% para mulheres que não completaram o ensino fundamental.

Já o estudo feito por Souza (2019), realizado com mulheres atendidas na 1ª VVDFM da cidade do Recife, revela um perfil com alto grau de

66 escolaridade, em que 38% das entrevistadas concluíram o ensino médio e 26% fizeram curso superior.

No que diz respeito às ocupações mencionadas, de acordo com Souza (2019), 44% das mulheres trabalham em atividades próprias e 19% são funcionárias com carteira assinada, enquanto 31% estão desempregadas. Diferentemente do resultado encontrado na pesquisa do CNJ (2018a), em que a maior parte das ocupações verificadas pode ser considerada como sem vínculo formal, a exemplo de ambulantes, cambistas, diaristas, faxineiras, etc., além do grande número de mulheres que se nomeia como “do lar”, o que sugere uma baixa expectativa de remuneração e poucas perspectivas de crescimento profissional e econômico (CNJ, 2018a).

Sobre a renda das mulheres pesquisadas, Souza (2019) constatou que metade das entrevistadas podem ser consideradas de baixa renda, por perceberem até 1 salário mínimo por mês, conforme indica o gráfico 1:

Gráfico 1 - Faixa de renda das mulheres em situação de violência

Fonte: SOUZA (2019, p. 117).

No entanto, outro item da pesquisa de Souza (2019) mostra que, ainda que sejam consideradas de baixa renda, a maioria das mulheres pesquisadas (75%) se apresentou como independente financeiramente.

Quanto à associação entre violência doméstica e independência financeira da mulher, pesquisadores do IPEA (2019) constataram que há uma relação complexa entre as chances de uma mulher sofrer violência doméstica e sua participação do mercado de trabalho. De acordo com o estudo, entre os

67 casais que coabitam, o fato de a mulher trabalhar diminui a probabilidade de ela sofrer violência por parte do seu cônjuge; por outro lado, entre os casais que se separaram, houve uma significativa correspondência entre a participação da mulher no mercado de trabalho e as chances de sofrer violência doméstica.

Possivelmente, uma explicação para esses dados é que o crescimento da participação da mulher na renda da família pode aumentar o seu poder de barganha, o que diminuiria as chances de ser violentada. Contudo, em alguns casos, a independência financeira da mulher dilata as tensões entre o casal, especialmente pelo fato de essa independência romper com valores patriarcais, o que pode findar em uma situação de violência. O fato de ter sua própria renda, também permite que a mulher opte por se separar e, ante o inconformismo do ex-companheiro, a mulher termina por ser vitimada (IPEA, 2019).

No entanto, há de ser evidenciado que a independência financeira feminina é um expressivo elemento para do seu processo de empoderamento, uma vez que amplia o acesso à informação sobre seus direitos, os mecanismos para acionar tais direitos e o aumento da autoestima e da segurança para tomar decisões (IPEA, 2019).

Informações relativas à cor das mulheres foram escassamente encontradas nos processos, mas, nos casos em que esse item estava disponível, sobressaíram as cores parda e negra e estas, quando somadas, resultavam em mais que o dobro das demais cores noticiadas (CNJ, 2018a). Resultado semelhante foi verificado na pesquisa realizada na 1ª VVDFM do Recife, em que 38% das mulheres se autodenominaram pardas e 13%, pretas (SOUZA, 2019).

No tocante a essa questão, é pertinente trazer, também, o que mostra o Mapa da Violência 2015. Segundo o referido estudo, no período entre 2003 e 2013, o número de homicídios de mulheres negras aumentou em 54,2%, passando de 1.864 (no ano de 2003) para 2.875 (em 2013). Em contrapartida, houve uma queda de 9,8% no percentual de mulheres brancas assassinadas (de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013). Após a Lei Maria da Penha, essa realidade se manteve, ainda que em menor escala: o número de homicídios de mulheres brancas caiu 2,1%, enquanto o de mulheres negras cresceu em 35%. O estudo mostrou, também, que, no ano de 2013, das 4.762 mulheres assassinadas no Brasil, 50,3% delas foram vítimas de familiares, ou seja, 2.394, e que 1.583 dessas mortes (33,2% do total de homicídios) foram cometidas por

68 parceiros ou ex-parceiros da vítima. A partir desses dados, pode-se inferir que as mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica e familiar no país.

Em relação à faixa etária das mulheres na ocasião da denúncia da violência, tem-se que, nas três cidades em que foi possível coletar o dado, predominou o intervalo de 31 a 40 anos de idade, sendo o índice no Recife de 35,4%; em Maceió, 21,7%; e em Belém, 24,5% (CNJ, 2018a). No estudo de Souza (2019), porém, houve equilíbrio de 25% para cada uma das faixas etárias (21-30 anos; 31-40 anos, 41-50 anos e mais de 50 anos).

A pesquisa CNJ (2018a) revelou, ainda, que, na data da ocorrência do fato que motivou as mulheres a registrarem queixa, em todas as seis cidades, a maioria dos casos refletiam situações em que as denunciantes mantinham ou mantiveram relação conjugal com o acusado, sendo os resultados finais: Recife – 72%, Maceió – 81%, Belém – 76%, Brasília – 52%, São Paulo – 50% e Porto Alegre – 42%. Tal resultado foi ratificado por Souza (2019), que verificou que, dentre as entrevistadas, 72% mantinham ou mantiveram relacionamento amoroso com o denunciado, sendo que 31% eram ex-companheiros(as) da mulher; 19%, ex-namorados(as); 13%, companheiros(as) e 9%, namorados(as). Outro aspecto significativo detectado pela pesquisa do CNJ diz respeito à continuidade ou não do relacionamento entre as partes, após a ocorrência da violência:

Dentre os casais que estavam juntos na data do fato, em Recife/PE, 29% se separaram e 46% continuaram com o relacionamento; em Maceió/AL, 11% continuaram com o relacionamento e 22% se separaram; em Belém/PA, 21% permaneceram junto e 22% rompeu; e, em Porto Alegre/RS, 41% romperam e 59% continuaram com o relacionamento. (CNJ, 2018a, p. 80)

Sobre as violências denunciadas pelas mulheres e julgadas no âmbito das Varas ou Juizados, tem-se que, na cidade do Recife, a maior parte dos crimes julgados foi de ameaça (43%) e injúria (22%); em Maceió, ameaça (58%) e violência doméstica por lesão leve (24%); em Belém, ameaça (49%) e violência doméstica por lesão leve (29%); em Brasília, ameaça (29%) e injúria (29%); em São Paulo, violência doméstica por lesão leve (33%) e ameaça (32%) e em Porto Alegre, violência doméstica por lesão leve (52%) e ameaça (32%).

69 Quanto à razão de terem procurado o sistema de justiça criminal, prevaleceu entre as mulheres entrevistadas o desejo de interromper o ciclo da violência e suas expectativas giravam em torno das medidas protetivas – não do processo penal. Também foi verificado pela pesquisa que, em muitas situações, o que a mulher busca é uma possibilidade de ajuda, especialmente no que diz respeito à partilha de bens, guarda e pensão dos filhos, divórcio e outras demandas que são de competência da Vara de Família (CNJ, 2018a).

No tocante ao tema prisão, apenas 41 das 75 entrevistadas expuseram posicionamento. Destas, a maioria (29 mulheres) afirmou que não desejava que o agressor fosse preso – o que foi ratificado na entrevista às equipes multidisciplinares das Varas ou Juizados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher.

As equipes afirmaram que as vítimas, em sua maioria, não desejam a prisão. Importante destacar a fala de um dos integrantes que foi reproduzida, de outras formas, em vários grupos focais: “Existem vítimas que não desejam o fim do casamento, apenas o fim da agressão”. Por isso é importante a escuta qualificada da vítima para entendê-la antes de julgá-la. (CNJ, 2018a, p. 238)

Algumas vítimas manifestaram interesse em reparação de danos, o que indica, segundo as pesquisadoras, que a prisão do homem que cometeu a agressão não atenderia às necessidades daquela mulher em situação de violência.

Considerando a questão da reparação de danos, foi perguntado às mulheres a respeito do seu conhecimento sobre justiça restaurativa e apenas duas responderam que conheciam ou já haviam escutado falar sobre, porém, nenhuma das entrevistadas soube explicar o que seriam as práticas restaurativas, nem haviam vivenciado procedimentos identificados enquanto Justiça restaurativa.

Cabe destacar, ainda, a recorrente experiência de revitimização das mulheres entrevistadas, que, além de sofrerem as violências perpetradas pelo agressor, vivenciam as violências do sistema de justiça criminal e seus agentes, desde o momento da denúncia, seja por telefone ou presencialmente, nas delegacias, como será discutido mais à frente.

Apresentado esse panorama, é pertinente realçar que tais informações não podem ser definidas como o padrão da mulher em situação de violência

70 doméstica ou familiar, uma vez que os dados catalogados representam apenas as mulheres que registraram a ocorrência da violência e deram continuidade ao processo criminal.

3.2 Consequências da violência doméstica e familiar no psiquismo das