2 DOS CAMINHOS, TRAJETOS, ANDANÇAS: CARTOGRAFIAS VIAJANTES
2.2 QUEM SÃO OS ADOLESCENTES E JOVENS EM LIBERDADE ASSISTIDA NESTE CAMPO DE INVESTIGAÇÃO
Antes de iniciar a narrativa/viagem, torna-se importante situar quem é o adolescente/jovem que cumpre medida socioeducativa de liberdade assistida no município de Vitória. Atualmente o acompanhamento das medidas socioeducativas em meio aberto (liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade) é realizado pelo CREAS. Vitória dispõe de três CREASs: o do Centro, o de Maruípe e o de Bento Ferreira.
De acordo com os dados enviados pelos técnicos dos serviços, sistematizados a fim de construirmos um “perfil” dos adolescentes e jovens em cumprimento efetivo de medida socioeducativa, em 2014, temos o quadro seguinte9:
CREAS Centro (total de 26 adolescentes/jovens):
a) Sexo: 24 do masculino e 2 do feminino
b) Idade:
9 As planilhas enviadas pelos técnicos dos CREASs trazem os seguintes dados: nome do
adolescente/jovem, data de nascimento, bairro, ato infracional e medida aplicada, tempo da medida, data da sentença, início do cumprimento da medida, escola e observações/situação atual. Foram sistematizados somente os dados dos sujeitos em cumprimento efetivo da medida. Ressaltamos que a gerência e a coordenação dos CREASs não permitiram o acesso direto aos prontuários dos sujeitos por questões de ética e privacidade.
15 anos: 1 16 anos: 2 17 anos: 10 18 anos: 8 19 anos: 3 20 anos: 2 c) Medida socioeducativa: Liberdade Assistida (LA): 7
Prestação de Serviço à Comunidade (PSC): 14 LA/PSC: 5
d) Artigo do Código Penal/ato infracional: Art. 157 (roubo): 5 Tráfico: 9 Tráfico/associação ao tráfico: 5 Tráfico/porte de arma: 1 Art. 155 (furto): 1 Estupro de vulnerável: 2 Não informado: 2 Roubo patrimônio: 1 e) Situação escolar: Matriculado em EMEF: 4 Matriculado em EEEFM: 4 EJA: 1
Não estuda/fora da escola: 17 (65%)
CREAS Maruípe (total de 29 adolescentes/jovens):
a) Sexo: 27 do masculino e 2 do feminino
b) Idade: 15 anos: 6
16 anos: 4 17 anos: 9 18 anos: 6 19 anos: 4 c) Medida socioeducativa: LA: 12 PSC: 11 LA/PSC: 6
d) Artigo do Código Penal/ato infracional: Art. 157 (roubo): 19
Art. 155 (furto): 2
Art. 12 e 14 (porte arma): 2 Art. 33 (Lei 11.343/06): 3 Estupro de vulnerável: 1 Não informado: 2 e) Situação escolar: Matriculado em EMEF: 12 Matriculado em EEEFM: 5 EJA: 1
Não estuda/fora da escola: 9 (31%) Não informado: 2
CREAS Bento Ferreira (total de 24 adolescentes/jovens):
a) Sexo: 23 do masculino e 1 do feminino
b) Idade: 15 anos: 2 16 anos: 8 17 anos: 3 18 anos: 4
19 anos: 3 20 anos: 3 25 anos: 1 c) Medida socioeducativa: LA: 11 PSC: 8 LA/PSC: 4 Não informado: 1
d) Artigo do Código Penal/ato infracional: Art. 157 (roubo): 5 Art. 33/35: 7 Art. 16: 1 Art. 121: 1 Art. 157 e 180: 1 Não informado: 8 e) Situação escolar: Matriculado em EMEF: 2 Matriculado em EEEFM: 3 EJA: 3
Não estuda/fora da escola/não está matriculado: 7 (29%) Não informado: 8
Concluiu o ensino médio: 1
Os dados apontam que 33 (41,7%) dos 79 adolescentes e jovens efetivamente cumprindo medida socioeducativa em meio aberto estavam fora da escola/não estudavam ou não estavam matriculados. No CREAS Centro, dezessete estavam nessa situação, totalizando 65%; no CREAS Maruípe, eram nove (31%), e no CREAS Bento Ferreira, sete (29%). Dez sujeitos não informaram sua situação escolar, alguns por estarem em início de acompanhamento, o que pode aumentar o número de sujeitos fora da escola.
Dos que estavam matriculados frequentando regularmente, dezoito estavam em EMEF (turno não especificado), cinco em EJA, doze em EEEFM (turno não especificado). Somente um havia concluído o ensino médio.
Os sujeitos tinham, na maioria, entre 16 e 17 anos de idade, com 74 do sexo masculino e somente cinco do sexo feminino. A definição de etnia/raça não constava nos dados enviados.
Para além dos dados estatísticos, que apontam 41,7% do total investigado efetivamente não inseridos em escola, as narrativas compartilhadas na pesquisa nos possibilitaram refletir sobre as relações que os sujeitos pesquisados estabelecem com a escola, com a medida socioeducativa, com os professores. Seus modos de vida evidenciam juventudes que se fazem na rua, no tráfico, na família e também na escola.
Os dados estatísticos não revelam a leitura que comumente é feita dos adolescentes e jovens em cumprimento de liberdade assistida. Assim, propomos compartilhar as narrativas e experiências com alunos adolescentes/jovens muitas vezes tidos como invisíveis, supérfluos, descartáveis.
Kramer (2006, p. 11) evidencia narrativas de professores, histórias que apontam que “ler e escrever é arma” (arma na luta contra a desigualdade), que mostram alunos- bichos, alunos-bandidos, alunos-pedras; que denunciam a angústia de professores e desnudam a miséria de alunos pobres com escolas ainda mais miseráveis. Vemos narrativas colhidas e compartilhadas pela autora na experiência com uma “escola real, concreta, essa ali da esquina...”.
A autora desnuda a história da professora Ana, que entende a leitura e a escrita como armas contra a desigualdade e que vivencia a experiência docente a partir dessa concepção. Fala também do relato de uma outra professora: “Eles não são gente. São bicho. Não agem como gente, não se expressam como gente, não se comportam como gente” (KRAMER, 2006, p. 127), aluno-bicho, então.
A autora traz ainda o relato da professora que denuncia: “Na escola que frequento não encontro crianças; há apenas bandidos no lugar de alunos. E o que faço com bandidos? Nada” (KRAMER, 2006, p. 133), aluno-bandido, então.
Também falamos de escolas-professores-alunos. Se a autora traz as inquietações e questões das professoras, lembra-nos de que todas as crianças têm direito de sonhar. Assim, traz os sonhos, utopias e apostas e sinaliza para uma ética que deve ser vivida coletivamente, na experiência com o outro. Apostamos na possibilidade de encontros potentes entre os adolescentes/jovens em liberdade assistida e a escola pública, com toda a multiplicidade de sujeitos que a compõe (professores, alunos, funcionários).
Que sonhos têm os adolescentes e jovens de hoje? Se “ler e escrever é arma”, conforme disse Ana na história retratada por Kramer (2006), que armas podem ainda usar? Acreditamos que ouvir e escrever suas histórias pode ser arma na luta pelos seus sonhos, o que aponta para uma pesquisa que se faz ético-política.
Por isso falar de liberdade assistida, de liberdade, de histórias de vida... porque a vida se faz na internação, na rua, na cidade e também na escola – o primeiro porto a ser explorado.
3 PRIMEIRO PORTO – A ESCOLA: ENCONTROS COM PROFESSORES E