2.2 Os conflitos e as violências na escola
2.2.4 Quem deve resolver os conflitos e as violências?
Tendo em vista que grande parte dos professores sente-se despreparado e impotente para lidar com tais situações, deparamo-nos com este dilema: quem deve resolver os conflitos e as violências?
O conflito deve ser “solucionado” pelos próprios envolvidos, mediatizados pelo professor, que é capacitado para isso (ou deveria ser!), e no local onde foi ocorrido. Por
exemplo, se o conflito aconteceu entre alunos na sala de aula, deverá ser resolvido na sala de aula pelos alunos, auxiliados pelo professor, que tentará uma conciliação pacífica entre os colegas e ouvirá atentamente as partes.
As situações de conflitos disciplinares devem ser enfrentadas no âmbito em que ocorrem, até que se esgotem as possibilidades de solução. Trata-se de superar os famosos “encaminhamentos” de alunos para a orientação ou direção, ou ainda as mais famosas “convocações de pais”. Assim, por exemplo, dado um conflito em sala de aula, o professor deve fazer tudo que estiver ao seu alcance para resolvê-lo nesta esfera, individual ou coletivamente (VASCONCELLOS, 1995, p. 92).
Quando o professor delega a outro a incumbência de resolver os conflitos que são da sua competência e responsabilidade, está “terceirizando” o problema, logo, abrindo mão da sua própria autoridade. Ninguém melhor do que ele que presencia uma cena de conflito para poder resolvê-lo ou amenizá-lo.
É preciso superar a fragmentação das relações. Comumente, os problemas de disciplina são enfrentados por ruptura de relações: manda-se o “aluno problema” para a orientação ou direção, faz-se conselho de classe sem a participação dos alunos; faz-se reunião de representantes de classe sem a participação dos professores, etc. e depois não se sabe porque com tanto trabalho as coisas não vão para frente[...] (VASCONCELLOS, 1995, p. 92).
Segundo Vasconcellos (1995), o encaminhamento, além de fragmentar as relações, ainda aumenta o problema e o trabalho a posteriori. A resolução das violências pode ocorrer de forma pacífica ou acarretar mais violência; depende da ação do professor.
O importante é não deixar passar a oportunidade de problematizar as aprendizagens que podem ser extraídas desta experiência, que tanto pode ser rica quanto pode ser traumática.
Não ficar mandando toda hora aluno para fora, nem ficar sofrendo com aluno em classe por receio de tomar uma decisão mais firme; procurar resolver o problema diretamente com o aluno; se não tiver êxito, solicitar ajuda de colegas, da orientação, da coordenação. Se emergiu um conflito em sala de aula, é ali que deve ser tratado; quando, por exemplo, o professor manda o aluno para a direção, fica uma situação muito artificial: o conflito não é entre o aluno e a direção, mas entre aluno, professor e coletivo de sala. Se a dificuldade, pois, está na relação professor-aluno, ou professor – aluno - coletivo da classe, é esta que deve ser trabalhada (VASCONCELLOS, 1995, p. 92).
É preciso que o aluno perceba o professor presente ali, para lhe dar assistência naquilo que não é de sua capacidade, naquilo que não está ao seu alcance e que deve ser resolvido entre eles. Afinal, Vasconcellos (1995) ressalta que, quando o problema é da sala de aula, é desta que deve partir a solução e não da direção ou de terceiros. Precisamos romper com o modelo tradicional de educação, pois,
Na escola tradicional é comum, quando há desavenças entre as crianças ou entre o aluno e o professor, que se utilizem procedimentos que resolvem o problema temporariamente, mas que não educam. Ou seja, para lidar com as situações em que as crianças brigam, comportam-se mal, desobedecem as regras ou são indisciplinadas, os professores, em geral, utilizam punições, como por exemplo: escrevem na agenda do aluno o que ele fez de errado, transferindo o problema que deveria ser da competência da escola para a família; contam diretamente aos pais; encaminham os infratores ao diretor, orientador, coordenador...; tiram algo que dá prazer à criança, como o parque, a educação física, o vídeo, o recreio, etc., colocam para “pensar no que fez”; advertem; suspendem; ameaçam; fazem sermões; retiram o amor (dizendo que está triste, que é feio, que não gosta mais...); dão ponto negativo; etc. [...] Ou ainda se valem das recompensas, “formas açucaradas de controle”, para que a criança apresente determinado comportamento. Esses educadores utilizam as punições e as recompensas porque estão convencidos que são esses os procedimentos que fazem as crianças serem obedientes e educadas, desconhecendo uma outra maneira de agir, acreditando que esses “instrumentos” são fundamentais para a formação de futuros cidadãos adultos bons, honestos e inteligentes (VINHA, 2003, p. 233).
Lembrando Guimarães (1996), “Como encontrarmos um equilíbrio entre os interesses dos alunos e as exigências da instituição? É preciso deixar de acreditar que paz signifique ausência de todo conflito” (p. 81).
Os conflitos são ótimas oportunidades para trabalharmos valores e regras. São compreendidos como momentos que estão presentes no cotidiano de cada classe e que nos dão “pistas” sobre o que as crianças precisam aprender. Dessa forma, as desavenças são encaradas como positivas e necessárias, mesmo que desgastantes. Surgem principalmente na troca de pontos-de-vista, só possível pela interação social. Sua ausência reflete relações de respeito unilateral, em que raramente há discordâncias, brigas ou discussões, pois apenas uma das partes detém a autoridade, o poder, a razão (VINHA, 2003, p. 232).
Em um lugar onde se manifestam a diversidade e a multiculturalidade, como a escola, é natural que haja pontos de vista divergentes o que, não raro, resulta em conflitos. Estes são excelentes momentos para oportunizar o diálogo entre os pares, possibilitar a fala sobre as suas emoções e sobre os sentimentos emergentes daquela situação.
Nessa ou em outras situações de conflito, o educador poderá intervir, explicitando o problema de tal forma que as crianças possam entender, ajudá-las a verbalizar seus sentimentos e desejos, promovendo uma interação, e auxiliá-las a escutar umas as outras, convidando-as para colocar suas sugestões e propor soluções (VINHA, 2003, p. 236).
Para Vasconcellos (1995), a escola deve prever momentos durante o ano para um contato mais próximo entre professor-alunos, sempre que for necessário. Para ele,
No caso limite em que isto não esteja acontecendo ainda, poderia se apontar uma inversão da prática corriqueira: ao invés de encaminhar o aluno para a orientação/coordenação/direção, solicitar que a orientação fique em classe com os
alunos fazendo algum trabalho, enquanto o professor pode ter um contato mais profundo com o(s) aluno (s) em questão (p.92).
Fica a sugestão do autor, assim como todas as suas exposições ao tema. São reflexões importantes que nos motivam, enquanto educadores, a pensar alternativas justas e adequadas para as violências na escola. São desafios propostos pelos autores que pensam, assim como nós, na relação pedagógica e no enfrentamento das violências na escola.