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QUEM ERAM OS INDIVÍDUOS ESPIRITUAIS NA IGREJA DE CORINTO

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2 EXEGESE DE 1COR 12,1-2; 14,

3 A GLOSSOLALIA E AS RELAÇÕES DE PODER NA IGREJA DE CORINTO A PARTIR DE 1 COR 12,1-2; 14,

3.5 QUEM ERAM OS INDIVÍDUOS ESPIRITUAIS NA IGREJA DE CORINTO

A questão referente à espiritualidade humana há muito tempo tem sido motivo de debate entre aqueles que fazem parte dos círculos da religião. E a determinação sobre a natureza desta espiritualidade nem sempre tem sido ponto pacífico entre os agentes religiosos. Segundo Lopes,

Através dos séculos sempre houve na igreja cristã diferentes linhas de pensamento quanto a natureza da espiritualidade ensinada na Bíblia. Em outras palavras: o que é ser verdadeiramente espiritual, em termos bíblicos e cristãos? Muito embora as diferentes linhas sejam capazes de acomodar dentro de suas definições alguns aspectos de outras linhas, elas mantém uma distinção bem nítida entre si quanto ao que é essencial no ser espiritual (1998, p. 88).

Em linhas gerais, o que se nota é que certos grupos religiosos tendem conceber e valorizar aquele tipo de espiritualidade que melhor pode ser utilizado para a autopromoção. Nos tempos do ministério público de Jesus, por exemplo, eram os fariseus aqueles que despontavam como sendo o ápice da espiritualidade judaica. A suposta observância meticulosa e fiel de todos os preceitos da lei de Moisés apontava para a seita farisaica como sendo aquele grupo no qual os fiéis a Deus estavam presentes. Nesse sentido a observância da Lei era o símbolo por excelência de espiritualidade. Noutras palavras, o homem espiritual era aquele que vivia estritamente sob os ditames da lei mosaica.

Desta concepção e valorização do modo de vida farisaico, emergia dentre os judeus uma classe seleta de pessoas, que tomava para si o direito de julgar os outros tendo como referencial a sua própria fidelidade. Exemplo deste quadro são os vários encontros que Jesus teve com determinados fariseus, nos quais Jesus criticou-lhes severamente suas determinações132 e modo de se relacionar com as outras pessoas.133

Nesta alta posição, fruto do reconhecimento público da espiritualidade farisaica, a violência simbólica era tal que o povo comum não se percebia em estado de coisificação. E é em Jesus que este estado de coisas começa a ser denunciado e visualizado por aqueles que estavam sob o domínio da ideologia legalista dos fariseus.

De forma similar, na igreja de Corinto havia certos grupos de pessoas que apontavam para a natureza da verdadeira espiritualidade. Estes tais são denominados nesta epístola de

pneumatiko,j

. Neste ponto, segundo Murphy,

a análise minuciosa da 1 Coríntios revela que Paulo estava preocupado principalmente com a atitude e a atividade de um único grupo em Corinto. Os espirituais estavam na raiz dos problemas tratados em treze dos dezesseis capítulos de 1 Coríntios (2000, p. 286).

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Segundo Mt 23,4, os fariseus atavam sobre os prosélitos e judeus comuns, fardos pesados e difíceis de carregar que nem mesmo eles queriam movê-los com o dedo.

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Em Lc 18,11 vemos o sentimento de superioridade que residia naquele fariseu que, orando para si mesmo, agradeceu a Deus por não ser como os outros homens.

O uso deste termo (

pneumatiko,j

) na epístola em análise aponta para dois sentidos maiores e antagônicos.134 O sentido esboçado por aqueles que se auto- intitulavam espirituais (1Cor 14,37)135 e aquele sentido defendido pelo apóstolo Paulo (1Cor 2,15),136 o qual era sua reação conceitual diante dos exageros praticados pelo primeiro grupo (1Cor 3,1).137 Para Lopes, ao se estudar 1 Coríntios é possível perceber que

Paulo parece ter dois conceitos em mente. Primeiro o conceito dos coríntios. E segundo, o seu conceito. No primeiro caso, Paulo às vezes refere-se aos coríntios como “espirituais,” mas de forma a sugerir que realmente não os considera como tais. Eram os coríntios (ou pelo menos um grupo entre eles) que se julgavam espirituais, mas Paulo reluta em considerá-los assim. Em 3.1 o apóstolo diz que não podia falar a eles como a espirituais (1998, p. 90).

No que diz respeito àqueles grupos que foram objeto da censura de Paulo, temos, primeiramente, aqueles que julgavam que a verdadeira espiritualidade estava associada aos discursos religiosos eloqüentes e cheios de argumentos sofisticados, nos quais a

sofia

era fluentemente citada (1Cor 2,1).

Em segundo lugar, além dessa forma de se compreender a espiritualidade, em Corinto havia um outro grupo de pessoas que arrogavam para si o status de possuidoras de carismas revelacionais e por meio destes labutavam por manter a posição de elevada espiritualidade entre os cristãos coríntios (WAGNER apud LOPES, 2008, p. 225). Estas pessoas eram denominadas de

pneumatiko,j

visto que

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Analisando o vocábulo pneumatiko,j, Dunn (2000, 739) afirma que é evidente que Paulo “não somente está adotando como também reformulando a linguagem de seus oponentes”. E é nesta reformulação conceitual que tal apóstolo abrirá caminhos para a defesa dos fracos, dos menos dignos e dos sem nobre nascimento.

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Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo. (BEG)

136

Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém (BEG). É digno de nota que no texto grego não há a palavra homem (a;nqrwpoj), mas sim tão somentepneumatiko.j.

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Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo.

atribuíam ao Espírito Santo a origem de suas falas revelacionais.138 As evidências da presença deste último grupo na igreja de Corinto encontram-se em 1Cor 3,1139 e 1Cor 14,37.140

Lopes (1998, p. 88-109), em seu artigo “Paulo e os ‘espirituais’ de Corinto”, elenca alguns exegetas que têm abordado esta questão. Na análise sobre quem seriam os espirituais de 1Cor 2-3, segundo este autor, Earle E. Ellis é de opinião que os espirituais são os profetas cristãos; Moisés Silva e Vern Pythress defendem que eles são “todos os cristãos, em contraste com conceito dos coríntios de que ser espiritual é ter dons carismáticos”.

Contudo, sua opinião é que o substantivo

pneumatiko,j

deve ser visto como sendo uma referência “a cristãos maduros, em contraste com o conceito dos coríntios de que os espirituais eram os que tinham dons carismáticos, especialmente o de línguas” (LOPES, 1998, p. 92).

A posição defendida nesta dissertação, além de se harmonizar com pensamento de Lopes, ressalta que tal conceito de Paulo para

pneumatiko,j

, coloca em relevo o erro crasso de certo segmento da igreja de Corinto, que atribuía o status de elevada espiritualidade aqueles que possuíam o carisma da glossolalia. Noutras palavras, o conceito de Paulo deve ser visto como uma resposta à questão de quais seriam as pessoas realmente espirituais na comunidade cristã de Corinto; uma vez que, segundo 1Cor 14,37, certas pessoas da igreja se julgavam detentoras deste elevado status.

Analisando a mesma situação de conflito em Corinto, Wyckoff (1996, p. 483) afirma que as elocuções de discursos inspirados, que projetavam seus oradores acima dos demais membros da comunidade cristã, manifestavam-se especialmente

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Carson, Moo e Morris (1997, p. 313-314), falando sobre os interlocutores com os quais Paulo teve que debater, dizem que a distorção encontrada na igreja de Corinto, quanto à sabedoria e espiritualidade, poderia ser justificada não pela influência da especulação sapiencial do judaísmo helenístico ou pelo movimento sofista; mas sim do seu próprio passado pagão. Em acréscimo a este parecer, somos de opinião que a tradição profética do judaísmo também muito contribuiu para estes equívocos conceituais; e, em especial, sobre a espiritualidade.

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Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e sim, como a carnais, como a crianças em Cristo.

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Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo.

por meio da glossolalia. E aqueles através dos quais este fenômeno se mostrava evidente consideravam-se ultraespirituais.

E, diante desta realidade da presença de pessoas na igreja de Corinto que arrogavam para si uma espiritualidade que os fazia portadores de discursos proféticos autoritativos, como estas pessoas se relacionavam com o restante da comunidade cristã?

O que se pode afirmar preliminarmente é que a qualidade das relações sociais entre os glossolálicos e a comunidade em geral tendia a um desconforto tal que levou determinadas pessoas da comunidade a fazerem questionamentos a Paulo sobre esta classe de indivíduos. Questionamentos estes que Paulo explicita quando escreve “

Peri. de. tw/n pneumatikw/n

” (1Cor 12,1).

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