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3 MEIO AMBIENTE E COMÉRCIO INTERNACIONAL

3.2 A QUESTÃO AMBIENTAL NAS RODADAS DO GATT E DA OMC

Logo após a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra e os EUA, principalmente, deram início à criação de novas instituições para administrar as relações econômicas internacionais, incluindo a ajuda na reconstrução dos países que estavam em guerra. Em 1944, a Conferência de Bretton Woods, como ficou conhecida a Conferência realizada pelas Nações Unidas, resultou na criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Interamericano para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). As nações signatárias da ONU, também resolveram criar uma nova estrutura institucional para reduzir os obstáculos ao comércio internacional. Houve então a proposta americana de criar a ITO (Organização Internacional do Comércio) em 1945, mas antes desta Organização ser aprovada pelo Senado dos EUA, o GATT (General Agreement on Tariffs and Trade) foi adotado como um meio temporário para tratar da liberalização comercial, até a aprovação da ITO. Porém, o projeto da ITO não foi aprovado e o GATT tornou-se efetivo a partir de 1949 (Esty 1994).

O GATT, que possuia secretariado sediado em Genebra, formou-se como um Tratado multilateral do comércio internacional, visando estimular o livre comércio (Sandroni, 1994). Até 1993, o GATT já havia realizado 8 rodadas de negociação visando, principalmente, a redução tarifária. Na 8ª Rodada, conhecida como rodada do Uruguai, houve especial atenção para o caso das barreiras não tarifárias (Esty, 1994).

O estímulo à liberalização comercial ajudou no crescimento econômico do mundo industrializado pós 2ª Guerra, quando os níveis de produtividade cresceram e a transferência de tecnologia foi estimulada, entre outros benefícios. No início dos anos 90, por sua vez, enquanto as nações desenvolvidas passaram a aumentar o protecionismo dos seus mercados, os países subdesenvolvidos reduziram-no. Por outro lado, ocorreu um aumento no investimento direto externo (estimulado pela desregulamentação econômica), e também cresceram os conflitos, tanto ideológicos quanto concretos, entre as políticas de comercialização e as de meio ambiente (Schimidleiny, 1992).

O GATT era regido por três princípios básicos: o tratamento igual, não discriminatório, para todas as nações comerciantes; redução de tarifas por meio de negociações; e

eliminação das cotas de importação. Segundo Esty (1994, p. 245), "o princípio mais fundamental do GATT pode ser reduzido a um simples conceito: não discriminação... a não discriminação abriga dois componentes chave: o da nação mais favorecida e o de tratamento nacional".

O princípio da não discriminação pode ser aplicado aos problemas da relação entre comércio e meio ambiente, porque ele diz que as partes contratantes devem garantir que países não discriminem entre produtos domésticos e importados, entre importados de diferentes países e os bens vendidos no mercado interno. Este princípio, portanto, é contrário ao uso de medidas protecionistas ao comércio sob argumentos de proteção ambiental (Vaz, 1994).

Quando criado, o GATT não tratava das questões ambientais ou de desenvolvimento sustentável, tendo em vista que não havia essa preocupação à nível internacional. Porém, com os trabalhos preparatórios para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (Conferência de Estocolmo), temendo que as preocupações ambientais pudessem criar barreiras ao comércio exterior, o GATT estabeleceu, em 1971, um Grupo de Medidas Ambientais e Comércio Internacional.

Esse grupo apresentou o trabalho "Controle de Poluição Industrial e Comércio Internacional", durante a Conferência de Estocolmo. Neste trabalho, reconheceu-se a necessidade de legislações governamentais para proteger o meio ambiente e evitar a introdução de barreiras ao comércio. Depois disso, o grupo não realizou mais nenhum trabalho, até o início da década de 90 (Carneiro, 1999).

Os trabalhos do Grupo foram reativados em 1991 e examinaram questões como os efeitos da certificação ambiental sobre o comércio, a transparência dos regulamentos nacionais contidos nos acordos ambientais multilaterais, entre outras. O grupo concluiu esse conjunto de trabalhos afirmando que não havia contradição entre os princípios do sistema multilateral de comércio e a proteção ao meio ambiente (Ibidem.).

Em geral, o GATT possuía apenas dois instrumentos para lidar com as questões ambientais: o Artigo XX; e seu Acordo Geral sobre Barreiras Técnicas ao comércio. O

artigo XX estabelecia que os países têm o direito de adotar medidas de comercialização "necessários para proteger a vida ou a saúde humana, animal e vegetal... (ou) relativas à conservação de recursos naturais não renováveis, caso tais medidas tornem-se eficazes em conjunto com as restrições sobre a produção e o consumo internos" (Lane, 1998). Tais medidas porém não deveriam resultar em discriminação disfarçada ao comércio.

O Acordo sobre Barreiras Técnicas ao Comércio, por sua vez, permite lidar com as questões comerciais levantadas por padrões e regulamentos técnicos em nível multilateral e reconhece que os países têm o direito de tomar as medidas necessárias para proteger a vida ou a saúde humana, animal ou vegetal, ou do meio ambiente, desde que não se constituam em discriminação contra outros países (Schimidleiny, 1992).

Os problemas surgem com a possibilidade do Artigo XX ser transformado numa justificativa para o protecionismo. Exemplo disso foi a proibição americana à gasolina da Venezuela (que veremos a seguir). Portanto, mesmo que o sistema multilateral de comércio seja compatível com a preservação ambiental, medidas unilaterais podem afetar as relações entre parceiros.

Assim sendo, na Declaração de Marrakech, de 1994, originária da Rodada do Uruguai, foram tratados com destaque dois temas: normas trabalhistas e questões ambientais. Nesta Declaração, o GATT reconheceu a necessidade de perseguir o uso ótimo dos recursos mundiais com base no desenvolvimento sustentável, reiterando os acordos que emanaram da Conferência do Rio.

A OMC, que substituiu o GATT, em 1996, instituiu um Comitê para tratar especialmente das relações meio ambiente e comércio internacional, denominado Comitê de Comércio e Meio Ambiente (CTE), que responde diretamente a instância máxima de poder da organização (Conselho Geral) e é aberto a todos os membros da OMC.

Apesar da OMC defender a não aplicação de medidas de política ambiental como barreira ao comércio, existe uma forte tendência dessas serem aplicadas, já tendo ocorrido alguns casos. Desde sua criação, a OMC já recebeu 2,3 mil notificações no âmbito do Acordo sobre Barreiras Técnicas, sendo que 253 se relacionavam a questões ambientais, boa parte

destes referindo-se aos selos ecológicos. Neste sentido, na relação comercial entre países ricos e pobres, os primeiros, por possuírem uma sociedade mais organizada e consciente em termos ambientais, podem impor medidas de preservação do meio ambiente como requisito para importar produtos, notadamente os de origem agrícola (Carneiro, 1999).

Assim sendo, os casos de barreiras ambientais ao comércio levados a OMC tem resultado em altos custos (geralmente os casos levam anos para serem resolvidos) para as nações em vias de desenvolvimento, com a perda de acesso a mercados (IRELA, 1998). O próximo tópico trata especificamente dessas barreiras não tarifárias de cunho ambiental ao comércio.