O internato brasileiro também não ficou imune a críticas. Entre os problemas apontados pelos intelectuais, as condições físicas e de higiene do internato, especialmente os dormitórios, ocupavam um lugar de destaque. Os médicos preocupados com questões higienistas, em suas teses de doutoramento do século XIX e início do século XX, alertavam
46
ARIÈS, Philippe. De l‘externat a l‘internat. In: ARIÈS, Philippe. L’ enfant et la vie familiale sous l’ Ancien
Regime. Paris: E‘ditious Du Seuil, 1973, p. 315.
47 PERROT, Michelle. Figuras e papéis. In: PERROT, Michelle. História da Vida Privada. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.150.
48
ARIÈS, op. cit., p. 315.
49 ―Enquanto as famílias populares ou camponesas, se querem dar continuidade aos estudos de seus filhos, se vêem obrigados a colocá-los em regime de internato, as famílias burguesas, na medida do possível, recorrem ao externato, tido tanto por Ernest Legouvé quanto por George Sand como a melhor solução. Essa família, mais do que nunca, faz a educação, em face do Estado laico, um assunto privado. É a isso que o ensino ‗livre‘ deve em parte seu êxito‖. PERROT, op. cit., p. 151.
para a insalubridade física e moral dos internatos e apresentavam propostas para o funcionamento higiênico deles50.
Além das críticas formuladas nas teses dos facultativos, o modelo ―colégio-internato‖ recebeu o parecer negativo do movimento pedagógico escolanovista51, iniciado nos Estados Unidos e em países europeus nos anos finais do século XIX e difundido no Brasil nas primeiras décadas do século XX. O movimento indicava como fatores negativos para a formação do sujeito o ajuntamento de crianças e/ou adolescentes e jovens, o regime invariável e a regulação constante, acabando por interferir na livre iniciativa do sujeito.
O internato foi um tema controverso durante boa parte do século XIX, especialmente na sua segunda metade. Não havia consenso sobre os benefícios pedagógicos do internamento. A esse respeito, é ilustrativo um trecho da escrita, realista e autobiográfica, de Raul Pompéia em O Ateneu (1888):
Discutiu a questão do internato. Divergia do parecer vulgar, que o condena. É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? [...] A reclusão exacerba as tendências ingênitas? Tanto melhor é a escola da sociedade. Ilustrar o espírito é pouco; temperar o caráter é tudo. É preciso que chegue um dia a desilusão do carinho doméstico. [...] O internato é útil; a existência agita-se como a peneira do garimpeiro: o que vale mais e o que vale menos, separam-se. [...] Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vai de fora. Os caracteres que ali triunfam, trazem ao entrar o passaporte do sucesso, como os que se perdem, a marca da condenação.52
Nesse fragmento estão presentes duas posições sobre o internato bastante recorrentes, em boa parte do século XIX, nos discursos de autoridades da instrução e em teses médicas. A primeira, provavelmente dominante, impingia ao internato um valor negativo. O modelo era criticado por propiciar a corrupção física e moral dos colegiais. A segunda apontava o
50 Conforme análise de um conjunto de teses produzidas pelos doutorandos das Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, apresentada em outra parte deste trabalho.
51Também denominado de ―Escolas Novas‖, defendia que ―A criança é espontaneamente ativa e necessita, portanto, ser libertada dos vínculos da educação familiar e escolar, permitindo-lhe uma livre manifestação de suas inclinações primárias.‖ Em consequência dessa ideia, o movimento defendia que a educação escolar deveria sofrer profundas mudanças, como afastar o prédio escolar do ambiente artificial e constritivo da cidade, a aprendizagem devia ocorrer em contato com o ambiente externo e as atividades intelectuais deviam estar conjugadas com as atividades práticas. No Brasil, o movimento teve como defensores, entre outros intelectuais da educação, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho. CAMBI, Franco. O século XX até os anos 50. ―Escolas Novas‖ e ideologias da educação. In: CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: UNESP, 1999, p. 514-515.
internato como um ―mal menor‖, recurso importante diante das longas distâncias (casa/colégio) e/ou da falta de estabelecimentos de ensino em determinadas localidades.
Igualmente existia quem defendesse o recurso ao internato como um espaço ideal para o pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes. Neste último caso, considerava-se que as adversidades enfrentadas no internato agiriam positivamente para fortalecer o indivíduo a fim de enfrentar os desafios do mundo exterior. Em 1879, discorrendo sobre a educação da mulher, Sanches de Frias fazia o seguinte questionamento: ―Qual o caminho a seguir na instrução feminina, externato, internato ou na família?‖. Posicionava-se favorável à reclusão e regularidade do internato como um recurso conveniente ao adiantamento e à correção dos defeitos de uma menina: ―[...] horas regulares da alimentação, a distribuição sensata dos seus trabalhos e dos seus recreios – a podem melhorar, se não curar rapidamente, o que é totalmente impossível, se não houver reclusão e reclusão prolongada e sem intermitências‖53. Ainda, para o autor, na condição de externa, a menina estava ―[...] exposta à constante convivencia dos criados, que a acompanham, às chalaças e diálogos picantes dos truões de esquina e à prática das assuadas, jogos e entretenimentos dos garotos‖54.
Quando o governo imperial idealizou, no ano de 1882, o Congresso de Instrução, o internato figurava entre as questões do programa55. O Congresso acabou não ocorrendo, e no seu lugar foi organizada uma Exposição Pedagógica e a publicação de memórias e pareceres, sabre os vários temas propostos no programa56. A décima terceira questão, que deveria ter sido discutida pelos congressistas, tratava do regime de internato praticado nas escolas normais e colégios públicos de instrução secundária. Sobre esta questão foram apresentados pareceres pelos doutores João Carlos de Oliva Maya, Manoel Antonio Duarte Moreira de Azevedo e o Barão Homem de Melo.
O parecer do Dr. João Carlos de Oliva Maya foi favorável à adoção do internato, desde que obedecesse a certas regras e fiscalização do governo.
A educação na família entre nós é, por enquanto, mera aspiração. Os internatos, cujo regime é aplicado com igual vantagem nos colégios e nas escolas normais, preenchem os misteres da educação e instrução, obedecendo porém a certas regras e à vigilância do governo por intermédio
53 FRIAS, David Correia Sanches de. A mulher, sua infância, educação e influência na sociedade. Artigos publicados em outubro de 1879 no jornal A Província do Pará. Pará: Tavares Cardoso & C. Livraria Universal, 1880, p. 54.
54 Ibid., p. 57.
55 O plano do Congresso e o programa das questões sujeitas ao seu exame e discussão foram organizados pelo conselheiro Leôncio de Carvalho.
56 CONGRESSO DA INSTRUÇÃO. 1884. Rio de Janeiro. Atas e Pareceres... Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1884.
de seus delegados. Do progresso da pedagogia depende a solução decisiva em prol do regime dos internatos.57
Por sua vez, o Dr. Manoel Antonio Duarte Moreira de Azevedo defendia que, diante das condições geográficas do Brasil, ainda não era possível suprimir os internatos. Porém, para o seu funcionamento adequado, os internatos deveriam ser instalados em espaços salubres, em
[...] prédios espaçosos situados em lugares altos de ar puro e saudável, com terrenos extensos para exercícios ginásticos e recreios. Procurem sítios de boa vegetação, de horizonte vasto e afastados dos grandes centros de povoação. Terão ali os alunos vida calma, estudiosa e higiene física e moral58.
Nas primeiras décadas do século XX a questão do internato continuou presente nos congressos sobre educação e em alguns tratados, compêndios ou manuais de pedagogia. Na I Conferência Nacional da Educação, realizada em Curitiba, em 1927, de modo específico, aparece a tese intitulada ―A Higiene nos internatos: estudo das condições sanitárias dos internatos de São Paulo‖, apresentada pelo Dr. Eurico Branco Ribeiro. Esse trabalho foi resultante de uma inspeção realizada por ele, no ano de 1926, em 10 colégios-internatos particulares da cidade de São Paulo. Apesar de o inquérito restringir-se a uma localidade específica, é um documento importante por sua singularidade e pela possibilidade de, a partir das constatações apresentadas pelo autor, entender como a questão do internato continuava a ser debatida e como os internatos estavam organizados nas primeiras décadas do século XX.
Como informa o próprio título da tese do Dr. Eurico Branco Ribeiro, a higiene continuava sendo o eixo principal para a análise dos internatos. A partir desse enfoque o autor apresenta e analisa diversas recomendações para o funcionamento higiênico de um internato. Suas observações e contribuições recaíam sobre as condições físicas do internato (localização e disposição geral, o edifício escolar e suas divisões), a respeito das condições de atendimento e ingresso dos internos (assistência médica e dentária, profilaxia, contatos entre internos e externos, enxoval) e a organização propriamente pedagógica dos internatos (horários, o ensino de higiene e a educação sexual).
57
MAIA, João Carlos de Oliva. O regime de Internato nos estabelecimentos de instrução secundária e nas escolas normais. In: CONGRESSO DA INSTRUÇÃO. 1884. Rio de Janeiro. Atas e Pareceres... Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1884.
58
AZEVEDO, Manuel Antônio Duarte Moreira de. O regime de Internato nos estabelecimentos de instrução secundária e nas escolas normais. In: CONGRESSO DA INSTRUÇÃO. 1884. Rio de Janeiro. Atas e
O Dr. Eurico Branco Ribeiro apresentava como ideal para o funcionamento adequado de um internato um prédio completamente isolado de outros edifícios, com boa disposição e com bastante arvoredo. Sobre esse aspecto ele concluiu que não existiam essas condições para todos os internatos pesquisados, pois alguns deles estavam instalados em ―casas que serviram de residências para famílias, casas comuns, situadas entre outras‖. Segundo ele, os edifícios dos colégios pesquisados podiam ser classificados em prédios especialmente construídos para servirem como colégio-internato e os prédios adaptados59 para essa função. Embora, os primeiros apresentassem melhores condições sanitárias, todos padeciam de falhas que deveriam ser corrigidas a fim de se adaptarem aos novos conceitos higiênicos.
O Dr. Eurico Branco Ribeiro destacava como uma dessas falhas a adoção dos dormitórios coletivos ou ―grandes salões‖, atulhados de camas, embora existissem internatos que adotavam o sistema de dormitórios com compartimentos para três ou quatro pessoas, e os modelos intermediários, caracterizados por serem
[...] um vasto salão dividido por paredes de meia altura em cubículos onde se abrigam de três a cinco pessoas. Em um deles, os corredores cortam o salão ao meio, de modo que cada compartimento tem a sua janela, ficando os da esquina aquinhoados com duas. Em outro, os corredores são à volta do salão, e os quartinhos, denominados ‗boxes‘, constituem um bloco no centro. Um tal sistema tem, pelo menos, a virtude de impedir o demasiado aproveitamento do salão, que, se fosse aberto, daria lugar à colocação de um número muito maior de camas.60
Outro aspecto salientado na tese do Dr. Eurico Branco Ribeiro foi a questão do contato entre internos e externos, visto como prejudicial pelos males físicos e morais que poderiam causar aos alunos internos. De fato, desde o século XIX, era recorrente no discurso médico- higiênico a desaprovação desses contatos, especialmente por questões morais61.
Igualmente, no início do século XX, precisamente no ano de 1912, o Dr. B. Vieira de Mello, encarregado do Serviço de Inspeção Médico Sanitário das Escolas de São Paulo, organizou um conjunto de preceitos higiênicos que deveriam ser observados para a instalação
59 Adaptações nem sempre correspondentes aos preceitos higiênicos: ―Às vezes a disposição é boa, mas o compartimento é acanhado, como no caso de um dos estabelecimentos por nós visitados, que converteu a cozinha de uma casa de família em cozinha para atender a uma centena de pessoas‖. RIBEIRO, Eurico Branco. A higiene nos internatos: Estudo das condições sanitárias dos internatos de São Paulo. In: COSTA, Maria José Franco Ferreira da; SHENA; Denílson Roberto; SCHMIT; Maria Auxiliadora. (Orgs.). I Conferência Nacional
de Educação. Brasília: SEDEIA/ INEP/ IPARDES, 1997, p.493.
60 Ibid., p. 486.
61 Pode ser consultada, entre outras, a tese do Dr. Candido Balbino da Cunha. CUNHA, Balbino Candido da.
Esboço de uma Higiene de colégios, aplicável aos nossos; regras principais tendentes á conservação da saude, e ao desenvolvimento das forças físicas e intelectuais, segundo as quais se devem reger os nossos colégios. Rio
de um internato62. Repetindo basicamente as prescrições expressas nas recomendações higiênicas para os internatos, o autor dividiu suas orientações em três pontos: ―Situação e orientação do edifício‖, ―O edifício e suas dependências‖ e ―Higiene dos colegiais‖.
Desse modo, dominavam nas discussões sobre o internato aspectos ligados à higiene escolar, quase sempre baseadas em ensinamentos copiados de autores estrangeiros. Um impresso alemão de autoria do Dr. Leo Burgerstein, traduzido para o português, exemplifica essa influência. O autor alemão apresenta diversos aspectos da higiene escolar e dentro dessa disciplina apresenta os inconvenientes dos internatos pela facilidade da propagação das enfermidades contagiosas, devido ao grande contingente de pessoas compartilhando o mesmo espaço, e pela frequência como eram difundidos os desvios sexuais. Para o autor, o modelo mais recomendado era o dos semi-internatos, edificados nas imediações da cidade. Nesse modelo o estudante poderia passar o dia na escola e a noite em casa com a família. A vantagem do semi-internato, segundo o autor, estava no menor gasto com relação ao internato e porque o estudante podia continuar sob a influência educativa da família63.
A questão do internato também estava presente nas ideias pedagógicas, geralmente de cunho moral e religioso, quando tratava da educação sexual. Segundo esses escritos, nos internatos os males ou vícios sexuais se agravavam, pois os ―corrompidos‖ facilmente contaminavam os companheiros. Advertia-se sobre o perigo de companheiras sentimentais e carinhosas, das ligações muito íntimas e exclusivistas e da propagação do ―vício solitário‖64.
Era necessária, portanto, uma educação sexual dos meninos e meninas encerrados nos internatos dos colégios, baseada em preceitos morais e religiosos e que combatesse e/ou evitasse toda espécie de perversão sexual. A educação sexual deveria ser ensinada de forma muito circunspecta para evitar a curiosidade demasiada e maliciosa sobre as coisas do sexo. Esse cuidado deveria ser redobrado ao ser abordado o assunto numa classe de meninas, pois a
[...] preocupação sexual é absorvente entre meninas de colégios. As cousas mais simples e banais, elas maliciam. [...] Numa sala de mocinhas, não se pode falar em amor, em pecado original, etc., sem despertar a malícia. Há
62 MELLO, B. Vieira. Requisitos para um bom internato. São Paulo: Weiszflog Irmãos, 1912.
63 BURGERSTEIN, Leo. Higiene escolar (tradução 3ª edição alemã pelo Dr. Lyon Davidovich). Rio de Janeiro: Atlântida Editora 1934, p. 181.
64
―Mesmo desprezando os argumentos morais, a própria ciência dirá os males produzidos pelas perdas seminais dos mocinhos, cujo organismo em formação deve economizar todas as forças necessárias ao próprio crescimento. [...] Crescido no desperdício de tão precioso elemento, o moço se verá prejudicado tanto nas resistências do corpo como nas faculdades superiores da inteligência e da vontade. Está muito de acordo com os estudos de endocrinologia, tão avançados nos últimos tempos‖. NEGROMONTE, A. A educação sexual (para pais e educadores). Rio de Janeiro: Edições Rumo, Rio de Janeiro, 1941, p. 152.
mesmo uma ‗língua‘ em que as palavras vulgares têm significações impuras. Isto nem devemos generalizar, nem desconhecer.65
A educação física e esportiva era vista como uma prática bastante vantajosa para afastar os meninos e moços das conversações perigosas, dos vícios e das perversões sexuais. Daí seu uso acentuado em determinados internatos, como método de desviar o pensamento dos jovens de práticas condenadas e mantê-los constantemente ocupados.
Enfim, as questões ligadas à higiene e à propagação de perversões sexuais continuavam marcando o discurso de intelectuais que abordavam o uso do internato escolar. Quanto à permanência do modelo, imperava o dissenso.