Constatado a pedagogia da alternância aplicada num modelo de gestão mista desenvolvido pela ECORM São João Bosco, visualizamos a necessidade de uma verificação:
em que medida as determinações e orientações emanadas do Planejamento Político Pedagógico-PPP estão sendo efetivados na prática?
Aqui encontra-se um modelo de gestão democrática e participativa onde as demandas são apresentadas a partir das deliberações do conselho escolar.
2 Heloisa Luck; Dimensão da gestão escolar e suas competências; 2ª ed.pag. 07; Editora Positivo-Curitiba-2009
2 REVISÃO DA LITERATURA
Será utilizada como marco teórico a obra de Heloisa Luck, Dimensão da Gestão Escolar e Suas Competências (2009), e seu pensamento.
A Educação que sempre preparou para a vida como um todo genérico, entender o mundo e capacitar para o trabalho, hoje se torna uma necessidade muito mais ampla. Deve dar também a capacidade de aprender constantemente, e o conhecimento tecnológico. Pois para realizar até os pequenos atos do dia a dia como acessar informações, operar equipamentos eletrônicos, abrir aplicativos, além da educação geral que não se destaca, mas sim vem em conjunto com as técnicas, amálgama fundamental para avançar através dos níveis escolares. Pedro Demo afirma que “com as novas tecnologias, habilidades tecnológicas digitais fazem também parte da alfabetização” (2015, p.58). Não basta saber ler, escrever e contar. A criança deve saber também acessar a informação e fazer informação, para conseguir viver bem em um universo cibernético presencial e virtual, em que as máquinas estão em todos os lugares e as mudanças com seu progresso, se dão em curtos espaços de tempo, e não a cada década ou século. Não mais existe um pano de fundo de conhecimento tecnológico, sobre o qual aparecem lentamente as mudanças.
[...] e a metamorfose técnica do coletivo humano nunca foi tão evidente. Não existe mais um fundo sociotécnico, mas sim a cena das mídias. As próprias bases do funcionamento social e das atividades cognitivas modificam-se a uma velocidade que todos podem perceber diretamente. Contamos em termos de anos, meses (LEVY, 2010, p. 8).
Neste ambiente de mudanças atuam as organizações encarregadas de orientar o ensino, funcionando através de estruturas instaladas conforme normas gerais seria o Sistema Educacional Nacional, apresentando um conjunto de normas, órgãos e departamentos que se espalham internalizando sua ação para todos os subsistemas no território brasileiro. A visualização e descrição da Política Educacional Brasileira e do Sistema Educacional Nacional, como se depreende a seguir, depende do ponto de vista de cada autor, de seu posicionamento político e varia com a concepção de educação que abraça.
Para Heloisa Luck(2009), no contexto da democratização da escola, de modo a torná-la uma instituição aberta à comunidade e de qualidade para todos, além dos preceitos legais para a sua democratização, conforme proposto na legislação vigente, uma nova estratégia tem sido acrescentada, qual seja a escolha de diretores pela comunidade escolar, a partir dos pressupostos
de que na medida em que a comunidade escolhe o seu diretor, compromete-se em apoiar a implementação de projeto político-pedagógico construído coletivamente, e passa a sentir-se parte atuante desse processo e da comunidade escolar. A prática dessa escolha surgiu em contrapartida à indicação de diretores por políticos, a partir de interesses partidários, que demonstrou constituir-se em um elemento desvirtuador do princípio de que a educação das crianças, jovens e adultos está acima dos interesses de grupos específicos, sejam eles quais forem, que a qualidade da educação deve realizar-se mediante orientação da mais elevada competência e conhecimento profissional. Percebemos aqui que a Comunidade, Política, o Estado e a Educação estão sempre juntos em suas ações (2009, p. 09).
[...] a convivência em instituições promove a formação de culturas escolares específicas que constituem saberes, práticas, hábitos, mitos, valores etc. Esse processo promove a organização de ambientes culturais específicos, que moldam e são moldados pelos diferentes sujeitos escolares, em suas diversas interações (CORDIOLLI, 2014, p.22).
Pedro Demo (2015) em outra linha de pensamento defende não a mudança das estruturas educacionais, mas sim a mudança de Sistema de Ensino, para um Sistema de Aprendizagem, em que: haverá menor número de aulas e mais pesquisa como princípio pedagógico, levando os alunos a buscarem e reconstruírem o conhecimento existente, aproximando-se aos poucos da autonomia, a capacidade de elaborar as conclusões de seu estudo, com suas palavras e seu raciocínio, ou seja, serem autodidatas.
No pensamento de Pedro Demo (2015), os sistemas de Educação são descritos como um devir, formação e transformação contínua, sempre como resultado de políticas educacionais derivadas dos objetivos e necessidades visualizadas pela gestão escolar, no ambiente em que se dá o encontro do professor com o aluno.
Então as políticas educacionais devem nascer nas salas de aula, que passando seus influxos e necessidades para a administração escolar, a leva a atuar no sentido de fazer os anseios da aprendizagem atingirem os níveis políticos de atuação, e assim serem implementados, pois ali são criadas as normas a serem seguidas por todos, melhorando assim a educação, vista por ele como conteúdo, pesquisa e elaboração: as componentes da aprendizagem.
[...] tempos que pedem mentes capazes de reconstruir conhecimento, unindo domínio de conteúdo com habilidades de pesquisa e elaboração, pensamento crítico autocrítico, uso da autoridade do argumento, autoria sempre renovada (DEMO, 2015, p. 2).
Freire, educador autor de clássicos da Pedagogia, em pensamento que contraponto ao pensamento supra, a educação e a política educacional são reflexos da atuação política, por representantes ou através da prática de cada um. Em todos os seus aspectos e assim deve ser por não existir uma posição neutra para se permanecer. O educador deve escolher sua posição, defendendo-a ao ensinar e o aluno deve ter a liberdade de defender suas idéias. Baseada nesta maneira de ver a educação escolar deve haver uma reflexão político-pedagógica que leve à consciência política e à opção por uma prática pedagógica que interaja com o pensamento do professor (2015, p. 43/44).
Sua visão sobre as sociedades, ontológica, descreve o ser humano como que programado para aprender e ensinar, fugindo a este tipo de proceder, apenas se forçado por forças políticas externas. Vê o homem com certezas que não são radicais, aceitando outras verdades além da sua e colocando a formação permanente como a melhor qualidade da Educação, ela é sempre um devir, um vir a ser resultante da ação política de todos: comunidade, alunos, professores, escolas, estado...
No fundo, conceitos: autoritarismo, ensaio democrático, espontaneísmo, que só fomos capazes de inventar porque, primeiro somos seres programados, condicionados e não determinados; segundo, porque, antes de inventá-los, experimentamos a prática abstratizada por eles (FREIRE, 2015, p.17).
Vê a política educativa como: a vontade de um grupo dominante, expressa no conjunto de normas impositivas, que indicam quais os campos de atuação mais importantes para a administração naquele determinado momento; mas que também recebe, à revelia, o influxo do local onde atua esta política, e daqueles a quem ela atinge e que praticam uma política educacional já transformada por eles.
[...] diminuir o poder pessoal das diretoras, criar instâncias novas de poder com os Conselhos de Escola, deliberativos e não apenas consultivos e através dos quais, num primeiro momento, pais e mães ganhassem ingerência nos destinos da escola de seus filhos, esperamos, é a própria comunidade local que, tendo a escola como algo seu, se faz igualmente presente na condução da política educacional escolar (FREIRE, 2015, p. 87).
Este posicionamento radical de Paulo Freire, defendendo uma educação primordialmente política, é combatido por outros autores, como Pablo Santos:
[...] essa concepção de Educação [...] foi escolhida por sua grande simplicidade e precisão, mesmo se opondo a perspectivas como a de Paulo Freire, autor consagrado
que concebe Educação como um ato político – e que a reduz a essa dimensão (SANTOS, 2014, p.3).
Referindo-se também ao pensamento de Paulo Freire, Cordiolli afirma que a Educação não pode ser observada a partir de apenas um enfoque, o político, existindo outras variáveis a serem descritas e verificadas como as necessidades sociais, a instrumentalidade da educação ao desempenhar suas funções (2014, p. 23).
Com visão ampliada, António Teodoro (2012) nos apresenta percepção diferenciada dos sistemas educativos, não só do Brasil, mas globalmente através da participação das organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas e Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico – OCDE, entre outras, que legitimam as políticas educacionais nacionais, principalmente de países periféricos, levando pelo seu reconhecimento interno e externo como legislação aceitável, a uma normalização (padronização) das políticas educacionais se aproximando da formação de uma sociedade mundial, um sentimento difuso, mas perceptível na educação internacional(2001, p.409).
Ao olhar esta descrição geral da lenta ‘padronização’ da educação, percebe-se que ela sofre os efeitos das mudanças por que passam as sociedades em todo o mundo. Estas mudanças que se iniciaram há muito tempo e que se aceleraram a partir das revoluções burguesas, culminando na atual globalização com sua revolução informática, isto é, o aumento da importância do global e do local, em detrimento do nacional. Não são só mudanças sociais globais, mas tecnológicas e morais, que se refletem em questões internas comuns a muitos países
Assumiu-se, como prioridade das políticas públicas, a construção de uma escola que acolhesse todos, independentemente de sua condição social e econômica, grupo étnico ou diferença cultural, e a todos permitisse oportunidades de promoção social, profissional e cultural. [...]. Nas últimas duas décadas do século 20, assistiu-se à afirmação de um novo senso comum no discurso e nas políticas públicas de educação[...]. As organizações internacionais de natureza intergovernamental desempenharam um papel fundamental na construção desse novo senso comum, sendo elas os seus poderosos agentes globalizadores (TEODORO, JEZINE (orgs.), 2012, p. 8).
Esta “regulação” internacional se dá em um primeiro momento de forma soft (suave), termo de Direito Internacional que indica a aceitação de ideais e objetivos comuns a serem alcançados pelos países, e internalizados por serem objetivos que qualquer estado quer alcançar, como: progresso, igualdade, direitos humanos, formando uma cultura comum a ser implementada através dos sistemas educacionais. Após a internacionalização, esta regulação
torna-se coerciva, constando então como norma efetiva, obrigatória para os países que aceitam o acordo com as Nações Unidas. A ação efetiva desta regulação internacional sobressai, entre várias, com a “Década das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável’, implementação da Resolução 57/254, liderada pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, visando obter o compromisso prático das nações, de aprender a viver sustentavelmente.
Mas o que é exatamente a Década? É um conjunto de parcerias que procura reunir uma grande diversidade de interesses e preocupações. É um instrumento de mobilização, difusão e informação. [...] pelo qual os governos, organizações internacionais, sociedade civil, setor privado e comunidades locais ao redor do mundo podem demonstrar seu compromisso prático de aprender a viver sustentavelmente (UNESCO, 2005, p. 9).
Outra posição apresenta Pablo S. M. Bispo dos Santos (2014). Ensina que a gestão democrática educacional é resultante de um sistema de ações que tem como objetivo maior o desenvolvimento econômico de uma sociedade.
O professor que não tem tal consciência e também a competência pedagógica necessária, isto é "um professor medíocre conseguirá que os alunos sejam mais instruídos, porém não mais cultos; pois o professor desenvolverá apenas a parte mecânica da escola e o aluno sendo um cérebro ativo terá que, com a ajuda do seu ambiente social desenvolver e organizar os conteúdos" (GRAMSCI, 1982, p. 132).
A política educacional aparece aqui apenas como uma parte das políticas de estado / governo, as políticas públicas, que podem ser distributivas, direito à educação gratuita por exemplo, ou redistributivas como as cotas, ou ainda políticas regulatórias que no caso da educação é exteriorizada diretamente através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, Lei nº 9.394/96 e outras leis e decretos.
A posição de Santos (2014) se apresenta mais complexa que as de Paulo Freire (uma dimensão: política), e de Marcos Cordiolli (três dimensões: política, social e econômica).
Santos intui a possibilidade de encontrar inúmeras componentes para se analisar, comparar, concluir e alterar as políticas educacionais (políticas públicas educacionais), sendo este enriquecimento do número de enfoques gerador de uma melhor visão dos sistemas, de seus resultados e das ações a serem efetivadas.
Libâneo, Oliveira e Toschivêem a política educacional como uma das organizações possíveis para o sistema educacional, sendo formada pela legislação educacional e pelas estruturas administrativas institucionais estabelecidas (ministérios, órgãos, departamentos,
escolas...). Consideram a política educacional como uma das formas de gestão da educação (2012, p. 327).
Segundo este pensamento, (figura 10) inexiste no Brasil um sistema nacional de educação, pois não há a articulação educacional entre os planos federal, estadual e municipal, que têm administração própria, podendo organizar seus sistemas e baixar normas de funcionamento, formando assim uma simples ‘organização’ da educação, mas não se constituindo em um sistema nacional.
Para existir um sistema nacional de educação seria necessário que a política educacional apresentasse propriedades, características de política pública de estado e não de governo. Os Sistemas Educativos regionais e locais deveriam ser verdadeiros subsistemas e não sistemas justapostos, lado a lado, como ocorre atualmente.
Na atualidade, ocorre que os órgãos educacionais são apenas consultivos, dependendo de aprovação dos governos do momento para adquirirem validade, como é o caso do Conselho Nacional de Educação, que não possui força normativa, seguindo as normas emanadas de órgãos externos, e dependendo da aprovação de seus pareceres pelo Ministro da Educação.
A versão não aprovada da LDB [...] previa a existência de um sistema nacional de educação [...]de um Conselho Nacional de Educação, que seria o órgão articulador dos vários sistemas de ensino. Com caráter deliberativo, normativo [...]. Na lei aprovada, a LDB de 1996, o sistema nacional de educação foi substituído pela organização da educação nacional [...] (LIBÂNEO; OLIVEIRA; TOSCHI, 2012, p.
329).
Pelo exposto acima percebe-se que embora todos os autores visitados, com exceção de António Teodoro com seu enfoque globalizante (2012), tratem das mesmas políticas educacionais e dos sistemas educacionais delas derivados, eles têm posicionamentos diferentes, dando maior importância para certas dimensões e menor para outras, utilizando de diferentes meios e fontes para descrever o que veem.
Com diferentes movimentos de pensamento realizados pelos autores, inclusive socorrendo-se eles mesmos de seus pares (citam-se uns aos outros) sustentam suas formas de interpretação. Demonstram ter consciência destas divergências mútuas e buscam com seus argumentos chegar a um conhecimento comum.
Ao estudar estas posições e divergências, observar a troca de idéias entre eles e perceber a flexibilização dos meios e formas de cada um agir, sente-se a força e influência deste pensamento educacional deles emanado. Com eles vislumbra-se a possibilidade de políticas públicas e sistemas educacionais harmônicos, articulados e perenes como verdadeiras
instituições de Estado, e também os pontos importantes a serem investigados (categorias), para aprofundamento dos conhecimentos sobre nosso tema, os princípios e sua permeabilidade no sistema educacional.
Portanto, vamos ter em mente que a palavra categoria está relacionada à classificação ou, mais precisamente, a um agrupamento de elementos que são sistematizados pelo pesquisador [...]. Quando falamos em categorias teóricas estamos nos referindo às leituras convergentes ao tema central de estudos (OLIVEIRA, 2016, p. 94).
Com a riqueza de interpretações e enfoques aqui cotejados, chegamos às categorias teóricas: gestão democrática e participativa, princípios e valores do Sistema Educacional Brasileiro; funcionamento do Sistema Educacional (organização e permeabilidade);e o Sistema Educacional na visão dos atores envolvidos direta e indiretamente. Com elas, o desenvolvimento dos instrumentos e procedimentos de investigação torna-se mais acessíveis e podem ser corretamente direcionados, e esta pesquisa pode sim alcançar seus objetivos e responder à questão proposta.
3 OBJETIVOS
Os objetivos da pesquisa foram estabelecidos de forma que sua concatenação e sequência levem a compreensão das práticas de gestão aplicadas na Escola Comunitária Rural Municipal- ECORM em São João Bosco-Jaguaré (ES) desenvolvimento dos procedimentos, ordenadamente, com a obtenção de dados suficientes para a explicitação dos fenômenos observados, o entendimento do problema e a possibilidade aprimorar as ferramentas já utilizadas como práticas pedagógicas na gestão
Os objetivos indicam o ponto de partida da pesquisa, sugerem a direção que o pesquisador deve tomar na busca do saber e apresentam o ponto de chegada do trabalho científico. Os objetivos enunciam ações que devem ser operacionalizadas ao longo da pesquisa e consolidadas na conclusão do trabalho científico mediante o emprego dos procedimentos adequados (CAS, 2008, p. 109).