2 Sujeitos: questões sobre os heróis
2.3 Questão 3: Poderes e capacidades dos heróis
mas sim que essa polaridade na consciência mobilizou seu oposto no inconsciente.
O confronto desses conteúdos mobilizados com a consciência nem sempre ocorre, mas quando acontece um equilíbrio psíquico, se estabelece até que outro conflito de opostos afete a orientação consciente (JUNG, 1991). A compensação, portanto, não compensa a atitude consciente, mas sim sinaliza, por meio de símbolos, o desequilíbrio ou a necessidade deste. A ausência do contato com o patriarcado poderia emergir, compensatoriamente, como outra possibilidade à realidade estudada.
Da mesma forma como se passa no caso da mãe, a ausência de um representante do pai é danosa para a personalidade: se faltam regras e limites, o filho se dilui no em lugar de se relacionar com o mundo; invade-o ou se deixa invadir por ele. Ou ainda, em outro extremo, torna-se rígido, uma vez que a prontidão psíquica para a constelação do arquétipo paterno se incumbe de preencher lacunas da consciência com a massa bruta do arquétipo a ser ativado (LIMA FILHO, 1997, p.69).
Nesse sentido, o pai e suas atitudes (poderes a ele atribuídos na questão 3 a seguir) podem também sugerir uma atitude compensatória dessa população, um reclamo pelo paterno, pela orientação, diferenciação e também pela sobrevivência, estruturação, pelo novo e pela força necessária à continuidade do processo de individuação, preservando valores do matriarcado e sugerindo um sentido rumo à alteridade.
A escolha dos poderes, como observado no gráfico 11, destaca a subcategoria “Poderes divinos”, com 15,0% do total de respostas, sobre “Poderes sobre-humanos”, relativa aos heróis fictícios. Entre essas respostas, exemplificamos:
“Cura, salva e ajuda”; “Poder de libertar e de curar”; ou ainda “Todos os poderes, cura as pessoas”.
A subcategoria “Poderes divinos” agrega respostas que contenham qualidades relacionadas à cura, proteção, ensinamento, iluminação e mudança da condição atual da pessoa. O fato de se tratar da maior frequência apresentada no gráfico 11 vem ao encontro de dois dados observados anteriormente: 1 - o grande número de sujeitos evangélicos e 2 - a consequente apropriação de ícones cristãos, Deus e Jesus, na escolha dos modelos heroicos.
Nesse sentido, a leitura sobre a figura arquetípica da relação Pai-filho expressa nessas imagens, seus poderes divinos, bem como sua relação com o salvamento e com o cuidado, traz elementos simbólicos de cura, proteção, ensinamento, legislação, força, iluminação e unificação, que são comumente atribuídas a Deus e Jesus (JUDY, 1998; ALVARENGA, 2000; 2008) e estavam presentes nas respostas. Os poderes divinos são todos, ilimitados, Deus é considerado pelos cristãos onipotente.
Essas atribuições também englobam a figura materna, haja vista que algumas dessas características são regidas por uma orientação matriarcal. Rios (2008) demonstra que crianças de diferentes idades representam Deus no exercício de cuidado, seja com relação a outros humanos ou com a natureza, além de capacidades supra-humanas, como nos milagres.
Os demais poderes sobre-humanos, como “Solta teia”, “Voa”, “Força”, “Solta laser pelo olho”, entre outros, ligam-se diretamente aos heróis fictícios com maior incidência de respostas (Homem-Aranha e Super-Homem). Espera-se do herói
habilidades especiais (FURTADO, 2006), aquele diferencial que o qualifica ousar e querer, ou seja, dedicar-se ao seu pioneirismo e ação heroica (MÜLLER, 1997; FURTADO, 2006; ALVARENGA, 2008). De maneira semelhante, estão os objetos dos heróis, expressos na subcategoria “Instrumento que faz ou solta algo”, que também parece obedecer ao mesmo critério de escolha, já que Batman é um herói que faz uso desses instrumentos e está entre os heróis com maior frequência de respostas. Estes podem ser entendidos como semelhantes aos poderes heroicos, uma vez que exercem a mesma função, a de instrumentalizar o herói em seus feitos.
Gráfico 11 – Distribuição da frequência quanto aos poderes sobre-humanos6
O maior poder sobre-humano apontado pelas meninas foi “Poderes divinos”, com 20,0% (gráfico 12). Esse percentual representa quase o dobro da mesma resposta dos meninos nessa subcategoria, que foi de 11,8%. Isso condiz com o
6 A subcategoria “Supervisão”, constante desse gráfico e de outros, refere-se à visão muito desenvolvida, não devendo ser confundida com a palavra homógrafa “supervisão”, referente a “supervisionar”.
15,0 12,8
11,1 9,4
9,4 6,0
5,1 3,0
3,0 2,6 2,6 1,7 1,7 1,3
1,3
14,1
0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0
Poderes divinos Solta teia Instrumento que faz ou solta algo
Força Voa Luta, bate ou mata quem é do mal
Solta laser pelo olho Gruda na parede Visão de raios-X Solta raio ou poder Salva (herói fictício) Poder de congelar ou gelo
Supervisão Poder de fogo Supervelocidade Outros ou não respondeu
Poderes sobre-humanos (%)
maior número de meninas evangélicas e católicas, bem como com a maior frequência de respostas de Deus, na categoria “Heróis Fictícios”, por parte delas.
A respeito dos meninos, destacamos a diferença em relação às meninas em duas subcategorias: “Instrumento que faz ou solta algo” e “Força”. Na primeira, o que chama a atenção é o fato de o principal herói, em termos de alta porcentagem, a lançar mão de instrumentos ser o Batman. Herói esse que foi escolhido de forma mais ampla pelas meninas. No entanto, é de se considerar que aos heróis patriarcais o arsenal heroico é de suma importância (JUDY, 1997).
Gráfico 12 – Distribuição da frequência quanto aos poderes sobre-humanos por gênero
A segunda subcategoria destacada nos meninos, a “Força” (12,5%), é esperada como típica do gênero. Essa característica de expressão fálica encontra na cultura valores e expectativas sobre o masculino. Nas meninas, em uma proporção próxima (com 12,2% do gênero), encontramos um contraponto à “Força”
no poder “Voa”, um poder não bélico, que remete à liberdade, à possibilidade do
13,2 15,6 0,0 2,1
0,7 2,2 0,0 2,8
1,42,2 2,1 3,3
2,22,8
2,1 4,4
2,83,3
4,95,6
4,4 6,97,6 12,2
4,4 12,5
7,8 13,2
12,213,2
11,8 20,0
0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0
Poderes divinos Solta teia Instrumento que faz ou solta algo
Força Voa Luta, bate ou mata quem é do mal
Solta laser pelo olho Gruda na parede Visão de raios-X Solta raio ou poder Salva (herói fictício) Poder de congelar ou gelo
Supervisão Poder de fogo Supervelocidade Outros ou não respondeu
Poderes sobre-humanos X Gênero (%)
Masculino Feminino
movimento e expansão. Vôo está muito relacionado ao “não poder voar”, o encobrimento de incapacidades (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2005). Embora o poder de voar seja comum à grande maioria dos super-heróis contidos nas respostas, a alta aparição nas respostas do gênero feminino parece ensejar uma valorização da liberdade de atitudes, mais comum ao gênero masculino.
Gráfico 13 – Distribuição da frequência quanto aos poderes sobre-humanos por idade
Podemos verificar também no gráfico 13 que o poder “Força” foi mais frequente entre os maiores (Grupo 1). Deve-se considerar que a entrada na vivência de alteridade exige uma força intensa do ponto de vista psicodinâmico, uma vez que o ego está exercendo na adolescência a tarefa de estruturar-se e discriminar-se ao mesmo tempo. As necessidades do adolescente são mais bem entendidas por eles mesmos se comparados às crianças, tanto emocionalmente como também cognitivamente. O fato de o Grupo 2 (dos menores) apresentar uma alta
8,5 18,8
0,8 1,9 0,8 1,9
0,8 2,8 0,8 2,8
0,9 3,9
1,6 3,8 1,6 4,7
1,9 3,9
4,75,5
3,8 7,8 9,4
9,4 7,8 11,3
8,6 14,2
10,4 14,8
13,3 17,0
0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0
Poderes divinos Solta teia Instrumento que faz ou solta algo
Força Voa Luta, bate ou mata quem é do mal Solta laser pelo olho Gruda na parede Visão de raios-X Solta raio ou poder Salva (herói fictício) Poder de congelar ou gelo
Supervisão Poder de fogo Supervelocidade Outros ou não respondeu
Poderes sobre-humanos X Grupos de idade (%)
Grupo1 - (11-16 anos) Grupo 2 - ( 6-11 anos)
porcentagem em relação ao Grupo 1 na categoria “Outros ou não respondeu”
reafirma essa leitura. Ainda a respeito da questão 3, em relação aos poderes humanos atribuídos aos heróis (reais), no gráfico 14 temos a seguinte organização:
Gráfico 14 – Distribuição da frequência quanto aos poderes humanos
Ao aventarmos a possibilidade de uma dificuldade na vivência patriarcal positiva, que coloca em risco a continuidade da existência do indivíduo, tocamos também no valor máximo do matriarcado, a vida, uma vez que o patriarcado institui os valores do matriarcado na forma de normas (ALAVARENGA, 2000). O herói Salvador, enquanto pai, pode estar apontando para a necessidade compensatória da instituição de si e do outro simbolicamente.
As sensações de abandono e impotência, comuns à vivência emocional da criança, ativam a função compensatória (MÜLLER, 1997) e exigem poderes opostos a elas, como os poderes dos heróis reais encontrados no gráfico 14, em que as três respostas mais frequentes, referentes aos heróis reais, são de poderes ligados a
13,2 0,9
0,9 0,9
1,8 1,8
2,6 2,6
3,5
6,1 6,1
8,8 8,8
9,6
13,2
19,3
0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0
Sentimentos positivos com relação ao sujeito Cuida ou faz companhia Oferece coisas materiais Educa Trabalha Oferece atividade de lazer
Ajuda (heróis reais) Força (heróis humanos) Esforço, dedicado ou decidido Honestidade Coragem Não tem poder Salva (heróis humanos) Felicidade Vai à Igreja Outros ou não respondeu
Poderes humanos (heróis reais) (%)
atributos que podemos considerar típicos do matriarcado e do patriarcado, como o são o oferecimento de sentimentos positivos, coisas materiais, educação e o ato de trabalhar. Nessa expressão, os sujeitos sugerem uma atitude compensatória, uma vez que seguem na rota contrária de suas condições ambientais, refletindo ainda o narcisismo saudável da criança, que é autorreferente e que precisa que o outro se relacione afetivamente com ela para sobreviver.
O direcionamento de sentimentos positivos aos sujeitos foi a maior frequência de respostas obtida na categoria “Poderes reais”, com 19,3%, exemplos dessas respostas são: “Carinhoso”; “Gosta de mim”; “É legal”; “Amigo” e “Sente amor por mim”.
Além disso, sendo uma das funções do herói mítico a vivência dos valores da cultura, auxiliando na apropriação destes pelos mais novos (CAMPBELL, 2003), os poderes humanizados verificados no gráfico 14 são condizentes com os heróis reais mais escolhidos, ou seja, Pai e Mãe; os pais (gráfico 8) e as atribuições (poderes) deles esperados e também recebidos.
“Cuida e faz companhia”, seguido por “Oferece coisas materiais”, surgem como a segunda e terceira maior frequência respectivamente dentro da categoria dos poderes humanos e podem ser diretamente ligados aos valores do matriarcado e do patriarcado positivo. É válido relembrar que a população pesquisada pertence a uma classe que possui poucos recursos materiais.
A esse respeito, Bustamante e Trad (2005) afirmam, em um estudo sobre participação paterna no cuidado de crianças pequenas, que o cuidado paterno está muito associado à divisão sexual do trabalho, na qual a mulher é cuidadora e o homem provedor. Essa divisão é tão forte, segundo o estudo, que os homens que realizam tarefas de cuidado com os filhos, como alimentação, banho, entre outros, são considerados pelas mulheres da família como fora da função apropriada. Nesse
sentido, o fato de a subcategoria “Oferece coisas materiais” estar entre as maiores em termos de frequência de respostas vem ao encontro da percepção desse estudo.
Porém, tanto a subcategoria acima citada, quanto “Cuida ou faz companhia”
são menos frequentes do que “Sentimentos positivos em relação ao sujeito”, como já anunciado anteriormente. Esse dado nos mostra que os poderes heroicos dos modelos reais estão estreitamente ligados à qualidade da relação afetiva com os cuidadores.
Jung já pronunciava que poder e amor são sentimentos contrapostos, polaridades no psiquismo humano, considerando que o primeiro tende a aumentar na falta do segundo. No entanto, poder e amor podem não ser necessariamente opostos, e o poder pode ser entendido dentro de uma dinâmica própria, e não apenas como oposição do amor (WAHBA, 2004). Isso pôde ser verificado nas respostas sobre quais poderes os heróis reais dos sujeitos possuem. As crianças vivenciam os poderes dos heróis como algo que pode beneficiá-las, e não como algo que as tolhe.
Araújo (2006) advoga que atualmente discute-se muito a questão da ética e resiliência, combatendo a ideia de que, frente às adversidades da vida, as atitudes resilientes tendem a não priorizarem ou incluírem o benefício de outros. No entanto, segundo a autora, é possível afirmar que comportamentos resilientes podem sim beneficiar um coletivo, necessitando inclusive de uma energia do complexo heroico para seu exercício. Essa ideia fomenta nossa percepção de que poderes e habilidades no enfrentamento de dificuldades não se contrapõem necessariamente a atitudes amorosas, mas atuam justamente ao seu favor.
São nessas figuras heroicas e em suas habilidades que o psiquismo infantil e adolescente encontra a possibilidade da vivência do conflito de opostos, necessário ao seu desenvolvimento (FORDHAM, 2001). Ao falarem dos poderes de seus heróis
reais, podem estar falando sobre oposições encontradas em suas vidas, de um lado a marginalização e baixa condição socioeconômica, e de outro os cuidados dos pais que recebem e lhes dão suporte de desenvolvimento, daqueles que podem e devem cuidar deles e salvá-los.
Gráfico 15 – Distribuição da frequência quanto aos poderes humanos por gênero
Com relação ao gênero (gráfico 15), destaca-se a proximidade percentual das respostas na maioria das categorias, exceto pela subcategoria “Força” que, a exemplo da categoria “Poderes sobre-humanos”, obteve uma frequência de respostas maior por parte dos meninos. Essa “Força”, no entanto, é referente aos heróis reais, uma força menos extraordinária.
Em termos de idade (gráfico 16), ocorre a proximidade estatística em muitas categorias, a exemplo do verificado quanto ao gênero. No entanto, duas subcategorias apresentam diferenças e merecem destaque.
12,713,7 0,0 1,6
0,0 1,6 0,0 2,0
1,62,0 2,01,6 1,6 3,9
2,0 3,2
7,8 0,0
5,9 6,3 5,96,3
7,8 9,5 7,8 9,5 9,8
9,5 11,8 14,3 17,6
20,6
0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0
Sentimentos positivos com relação ao sujeito Cuida ou faz companhia Oferece coisas materiais Educa Trabalha Oferece atividade de lazer Ajuda (heróis reais) Força (heróis humanos) Esforço, dedicado ou decidido
Honestidade Coragem Não tem poder Salva (heróis humanos) Felicidade Vai à Igreja Outros ou não respondeu
Poderes humanos (heróis reais) X Gênero (%)
Masculino Feminino
A subcategoria “Trabalha”, enquanto poder humano, surge com 12,9% no Grupo 1 e 3,8% no Grupo 2. O Grupo 1, sendo composto por adolescentes, demonstra aqui a importância que o trabalho tem do ponto de vista cultural e existencial. A inserção no mercado de trabalho parece se apresentar como uma
“conquista heroica”, podendo estar refletindo um desejo dos jovens e a dificuldade em obtê-lo.
Gráfico 16 – Distribuição da frequência quanto aos poderes humanos por idade
A categoria “Outros ou não respondeu” é muito mais frequente entre os mais novos (23,0% no Grupo 2 e 4,8% no Grupo 1), como também ocorreu na categoria
“Poderes sobre-humanos”, demonstrando mais uma vez o menor repertório nas respostas das crianças em relação aos adolescentes.
Essa proximidade estatística na maior parte dos poderes humanos, por parte do gênero e também idade, enseja que a característica da população é valorizar o que podemos denominar “poderes amorosos”, e não opressores.
4,8 23,1
0,0 1,6 0,0 1,6
0,0 1,9
0,0 3,2 0,0 3,2
1,9 3,2 0,0 4,8
3,23,85,8 6,5 5,86,5 3,8 12,9
7,7 9,7
8,1 11,5
11,3 15,4 19,4
19,2
0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0
Sentimentos positivos com relação ao sujeito Cuida ou faz companhia Oferece coisas materiais Educa Trabalha Oferece atividade de lazer
Ajuda (heróis reais) Força (heróis humanos) Esforço, dedicado ou decidido Honestidade
Coragem Não tem poder Salva (heróis humanos) Felicidade Vai à Igreja Outros ou não respondeu
Poderes humanos (heróis reais) X Grupos de idade (%)
Grupo1 - (11-16 anos) Grupo 2 - ( 6-11 anos)