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Se, nos últimos anos, a qualidade de vida se tornou uma meta importante para decisores técnicos e responsáveis políticos, os aspectos relevantes e as opções de operacionalização do conceito estão longe de garantir um consenso generalizado (Gössweiner et al., 2001).

De facto, a ideia de qualidade de vida tem vindo a ser discutida a um nível genérico, frequentemente assente em recomendações vagas e gerais que visam a melhoria das condições de vida das populações. Trata-se de uma ideia consideravelmente abrangente, que não deixa de encerrar algumas ambiguidades advindas, em boa medida, das múltiplas aproximações teóricas e dos vários contextos sócio-espaciais a que se refere. Explica-se, assim, a dificuldade de obter significados consensuais ou um acordo sobre os elementos a medir e monitorizar

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para avaliar a qualidade de vida de determinada população (Ferrão & Guerra, 2004).

Awad & Voruganti (2000) referem a tentativa de explicitação das dificuldades de conceitualização do termo qualidade de vida por Campbell em 1976, quando este afirmava: “qualidade de vida é uma vaga e etérea entidade, algo sobre a qual muita gente fala, mas que ninguém sabe claramente o que é”. A citação dessa afirmação, feita há cerca de trinta anos, ilustra a ênfase dada na literatura mais recente às controvérsias sobre o conceito desde que este começou a aparecer na literatura associado a trabalhos empíricos (Seidl & Zannon, 2004). Seidl & Zannon (2004) comentam a existência de indícios de o termo ter surgido pela primeira vez na literatura médica na década de 30, segundo um levantamento de estudos que tinham por objectivo a sua definição e que faziam referência à avaliação da QV.

Historicamente, é a partir dos anos 60 do século XX, que a expressão qualidade de vida tem sido utilizada de forma cada vez mais frequente. Pode revelar-se ambíguo enquanto conceito científico, a não ser que seja alvo de uma definição precisa (Wolfensberger, 1994). Contrariamente a Seidl & Zannon (2004), alguns autores como Fleck et al. (1999) e Noll (2000), indicam que a sua origem tem raízes no contexto político, apontando como referência o discurso do Presidente americano Lyndon Johnson que, em 1964, referiu que “o progresso social não pode ser medido através do balanço dos bancos mas através da qualidade de vida proporcionada às pessoas”.

A evolução do conceito de QV tem-se encontrado igualmente associada a diversos referenciais teóricos que reflectem conceitos como: satisfação com a vida, felicidade, existência com significado e bem-estar subjectivo, na generalidade dos casos utilizados indiscriminadamente como sinónimos (Frisch, 2000; Taillefer et al., 2003). Este facto tem contribuído para dificuldades na delimitação científica do conceito dado que, embora relacionadas, tais designações são estruturalmente diferentes do conceito de qualidade e vida (Frisch, 2000).

O interesse pela qualidade de vida (QV) surgiu igualmente ligado aos sistemas de indicadores sociais (Cummins, 2000; Rapley, 2003), em que prevalecia uma abordagem essencialmente economicista que analisava o crescimento económico das sociedades através da evolução do respectivo PIB ou do rendimento per capita (Canavarro et al., 2006).

Englobando apenas as transacções monetárias da actividade económica, o PIB deixa de fora uma boa parte dos bens, serviços e actividades mais valorizados pelas pessoas, tendo vindo, apesar disso, a assumir “um estatuto totémico enquanto medida fundamental do sucesso económico” (Cobb et al., 1999). Ora, o que está em causa, no que diz respeito à

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129 qualidade de vida, é o facto de o PIB ignorar a distinção entre as transacções monetárias que genuinamente contribuem para fomentar o bem-estar social e as que provocam a sua degradação. As transacções monetárias tomadas independentemente do seu sentido e do seu valor social, os impostos e taxas legais, os custos com a saúde e com os sistemas de segurança (advindos, por exemplo, do crescimento das taxas de criminalidade) ou, ainda, os custos ambientais das actividades económicas são (nesta lógica) contabilizados como elementos potenciadores do nível de vida e do bem-estar social, independentemente de o mesmo crescimento económico não beneficiar toda a gente ou poder mesmo, eventualmente, agravar as desigualdades sociais.

Várias das teorias do desenvolvimento económico dos anos 50 e 60 chamaram a atenção para o papel de factores como a formação do capital físico (R. Nurkse), a poupança (M. Dobb, W. A. Lewis), a distribuição do rendimento (N. Kaldor, J. Robinson), o comércio internacional (H. Myint, G. Haberler, J. Viner) ou o capital humano (T. W. Schultz) enquanto componentes cruciais do desenvolvimento. Mas também estas posições teóricas não levaram à produção de indicadores complementares ou alternativos ao PIB per capita. Mesmo autores como W. Arthur Lewis e Hans W. Singer, que se basearam nas teorias de T. W. Schultz para defender que o desenvolvimento social no seu conjunto — incluindo aspectos como a educação, a saúde, a fertilidade, etc. — constitui uma condição de crescimento através das melhorias de capital humano que proporcionam, não romperam em definitivo com a visão ‘economicista’, industrialista e objectiva de bem-estar, que identifica desenvolvimento com crescimento e industrialização (Ferrão & Guerra, 2004).

A subjectividade e multidimensionalidade são dois aspectos do termo destacados no plano conceptual com base na revisão da literatura. Quanto aos aspectos metodológicos, uma tendência significativa tem sido a construção e/ou adaptação de instrumentos de medida e de avaliação da QV. Conclui-se que os esforços teórico-metodológicos têm contribuído para a clarificação e relativa maturidade do conceito. Trata-se de uma construção eminentemente interdisciplinar, o que implica a contribuição de diferentes áreas do conhecimento para o seu aprimoramento conceptual e metodológico (Seidl & Zannon, 2004).

Como nos afirmam Berger-Schmitt & Noll (2000), as “lacunas de uma perspectiva puramente económica do desenvolvimento começavam a revelar-se por demais evidentes” nos finais da década de 60 do século XX. As novas visões de qualidade de vida valorizam o envolvimento e a participação das populações no desenrolar da vida comunitária, sublinhando a importância das suas percepções e da sua capacidade de influenciar ou modificar o curso da vida comunitária, e não esquecem o impacte dos actuais modos de desenvolvimento urbano

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nas condiçõesde vida das populações. A investigação nesta área parece, então, reflectir uma

reorientação geral em direcção a três aspectos principais (Ferrão & Guerra, 2004):

a) Necessidade de valorizar as dimensões do bem-estar subjectivo. Com base nesta perspectiva, trabalhos pioneiros da psicologia americana — datados da última metade dos anos sessenta — mostraram que o indicador PIB per capita dificilmente poderia ser utilizado para avaliar a qualidade de vida, na medida em que os indicadores subjectivos de bem-estar — índices de felicidade (componente afectiva) e de satisfação (componente cognitiva) — se relacionam de forma diferenciada com o grau de riqueza de distintos grupos ou países. Os contributos de autores como Von Wright (1963), Cantril (1965) e Bradburn (1969) revelaram- se decisivos para esta inflexão analítica.

b) Necessidade de avaliar o desenvolvimento a partir de uma bateria mais alargada de indicadores, com um duplo objectivo: integrar aspectos não estritamente económicos (desemprego, pobreza, desigualdades, literacia, liberdade, etc.) e, simultaneamente, contemplar a diversidade de situações culturais e institucionais existentes nos vários países do mundo, ultrapassando, definitivamente, a visão linear do desenvolvimento desenhada a partir dos países ‘mais avançados’. Deste ponto de vista, as obras de Schultz (1961, 1962, 1971) e de Seers (1969) constituem marcos essenciais.

c) Necessidade de integrar as preocupações de sustentabilidade ambiental, assumindo que a qualidade das condições ambientais e o desenvolvimento socioeconómico se condicionam mutuamente. Contesta-se, nesta perspectiva, o próprio modelo de crescimento dominante, invocando, sobretudo, argumentos relacionados com o inevitável esgotamento, a curto-médio prazo, de recursos de diversa ordem (naturais, agrícolas, etc.). A publicação de Os Limites do Crescimento, relatório do Massachusetts Institute of Technology realizado por encomenda do Clube de Roma (Meadows et al., 1972), que defende a ideia de crescimento zero, ou, ainda, a obra de Schumacher (1973), que propõe uma inversão no sentido de valorizar a pequena escala e a dimensão local, abrem um novo domínio de reflexão crítica sobre os modelos futuros de crescimento e suas repercussões para o bem-estar e o futuro da humanidade.

É com base nesta tripla reorientação teórica que é permitido identificar algumas das principais frentes críticas à visão ‘economicista’ predominante até aos anos sessenta do século vinte. Embora parcialmente sobrepostas, e sofrendo, por vezes, influências comuns provenientes, por exemplo, do domínio da filosofia, essas frentes críticas traduzem, de certo modo, o essencial de um processo de crescente enriquecimento teórico e complexidade

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131 analítica com expressão no tipo de indicadores propostos para medir, acompanhar e avaliar a qualidade de vida (Ferrão & Guerra, 2004).

Figura 58 – Breve panorâmica das concepções teóricas subjacentes à produção de indicadores de qualidade de vida

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Parece legítimo afirmar que os conceitos hoje prevalecentes — visão holística da saúde, desenvolvimento humano, desenvolvimento sustentável — se sobrepõem de tal modo que se torna difícil manter as visões mais focalizadas que lhes deram origem (Ferrão & Guerra, 2004).

Devido ao facto da QDV ser estudada em diversos contextos e em diferentes populações, têm sido utilizados diversos indicadores para a avaliar. De forma geral, cada definição reflecte o contexto e os indicadores estudados. Taillefer et al., (2003) referem-nos a afirmação utilizada por Feinstein em 1987 para designar QV e a qual demonstra a amplitude de conceitos pela qual pode ser vista: the idea [of QoL] has became a kind of umbrella under which are placed many different indexes dealing with whatever the user wants to focus on.

Santos & Martins (2002) sublinham que é importante referir duas outras questões fundamentais, as quais devem ser equacionadas quando se analisa a qualidade de vida e quando se quer definir um conjunto de indicadores de qualidade de vida. A primeira, diz respeito ao facto das necessidades dos indivíduos estarem intimamente relacionadas com o contexto social, político e cultural em que vivem, havendo portanto, uma variação significativa dessas mesmas necessidades, tanto ao longo do tempo, como também ao longo do espaço (Santos & Martins, 2002).

Os mesmos autores referem que, a segunda, está relacionada com a caracterização de um espaço em termos de bens e serviços existentes: a qualidade de vida é medida não só em função da existência desses recursos, mas também, da sua acessibilidade e facilidade de utilização. Directamente relacionada com este último aspecto, coloca-se também a questão do nível de satisfação da população utilizadora desses mesmos bens e serviços, o que será central na análise mais subjectiva da percepção da qualidade de vida (Santos & Martins, 2002).

Com base neste universo de definições e interpretações que surgem e dada a complexidade do tema optamos neste trabalho por adoptar uma perspectiva pragmática e simples, usando níveis de rendimento, mas essencialmente bens de consumo e infra- estruturas, admitindo de forma simples que melhores estruturas e consumo se aproximam de melhores padrões de vida. Isto, apesar da expressão “condições de vida” encontrado em Monitoring quality of life in Europe (2003) referir-se geralmente às circunstâncias quotidianas da vida das pessoas… reflectidas nos padrões de rendimento e consumo, sendo ‘Qualidade de vida’ definida como um conceito mais vasto, que faz referência ao bem-estar geral das pessoas em sociedade».

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133 Contudo, tendo em conta a exigência de objectividade nos parâmetros de recolha de dados num trabalho desta índole, em conjunto com a maior dificuldade de medida de tais indicadores, acrescido do facto de a da Ilha das Flores nesta última fase por nós estipulada (3ª Fase) ter dado um enorme “salto”, consideramos pertinente uma abordagem direccionada por este prisma menos complexo, de maneira a podermos aferir de forma sensível quão significativo foi o avanço da capacidade aquisitiva e das condições infraestruturais da nossa amostra populacional (população agrícola) que continua sendo apesar de todos os apoios comunitários e regionais, uma das franjas populacionais mais vulneráveis de todo o território nacional e particularmente insular e regional.

Não podemos deixar de relevar e incentivar, no entanto, a necessidade de haver uma abordagem mais profunda destes indicadores subjectivos em estudos posteriores.