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A prova deve ocorrer para demonstrar o nexo causal. No caso estudado neste trabalho, deve ser comprovada a relação entre a atividade do agente ao qual se imputa a conduta lesiva e o dano sofrido pela vítima. No plano fático, a comprovação se torna difícil. De acordo com Marcelo Abelha Rodrigues59, o ônus da prova é mais difícil para a parte que foi lesada, pois além de arcar com um prejuízo, deve arcar com a comprovação do nexo causal do dano.

No caso estudado, a primeira parte a ser comprovada é o dano ocorrido, ou seja, a morte das abelhas devido ao uso de agrotóxicos. Para essa comprovação, é

57BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. STJ – Recurso Especial n. 442586-SP(2002/0075602-3).

Apelante: Rede Bandeirantes de Postos e Serviços Ltda. Apelado: Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental - CETESB. Relator: Ministro Luiz Fux, Brasília, 26 nov. 2002. Disponível em:

https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=385898&n

necessário um exame pericial. Tal exame é feito em laboratório, tendo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul um especialista na área, o engenheiro agrônomo e professor Aroni Sattler, o qual é chamado para coordenar tais exames60. Entretanto, mesmo com a comprovação do dano, a ligação ao agente é deveras difícil. Pode-se aconselhar que apicultores fiquem atentos às atividades de seus vizinhos, mas isso é uma tarefa difícil, a qual pode ser um fator de desgaste para o próprio apicultor, que teria que ficar atento a qualquer atividade de vizinhos em relação a agrotóxicos, além de desviar a sua atenção de sua devida atividade. A denúncia de tal contaminação a Polícia Civil ou Polícia Militar Ambiental pode ajudar muito nas investigações do culpado do caso e na realização de exames periciais. O Ministério Público também pode ajudar com tal tarefa, já que possui a legitimidade de peticionar em casos como esse, conforme já mencionado. Outro fator que pode ser útil na comprovação de tais casos é a inversão do ônus da prova, devendo o agente comprovar que sua atividade não causou o dano em questão. O autor da ação deve demonstrar a existência de probabilidade significativa, por meio de base científica, de que a atividade do acusado pode ter causado a lesão, tendo fundamento no princípio da prevenção61. O juiz pode determinar a inversão do ônus da prova com base ne artigo 373, § 1º62.

O Princípio da precaução busca a durabilidade da existência da natureza e a harmoniosa convivência entre os seres humanos e o meio ambiente, sendo inclusive já aplicado na jurisprudência63. Por essa busca, é justificada a inversão do ônus da prova em casos em que haja dano ambiental e é possível que o dano tenha sido causado pela atividade do suposto agente. Esse é o caso da morte das abelhas dos apicultores, pois, com análises periciais das abelhas mortas, é possível de se encontrar vestígios de princípios ativos presentes em defensivos agrícolas, esses

60GRIGORI, Pedro. Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses:

Casos foram detectados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Análises laboratoriais identificaram agrotóxicos em cerca de 80% dos enxames mortos no RS.

Disponível em: <https://apublica.org/2019/03/apicultores-brasileiros-encontram-meio-bilhao-de-abelhas-mortas-em-tres-meses/>. Acesso em: 7 de março de 2019.

61Org. BÜHRING, Marcia Andrea. Responsabilidade civil ambiental, Educs, 2018, p.45 (ISBN 978-85-7061-935-8).

62 “Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.”

63Org. BÜHRING, Marcia Andrea. Responsabilidade civil ambiental, Educs, 2018, p.45 (ISBN 978-85-7061-935-8).

que causam a morte das abelhas. Tais princípios ativos são o Fipronil e os neonicotinóides, de acordo com Aroni Sattler 64

Entretanto, um fato recente que ajuda a comprovação do dano está sendo tomado. Uma notícia veiculada pelo Correio do Povo afirma que serão tomadas ações que visem a investigação de contaminações por agrotóxico no Rio Grande do Sul, conforme se pode ler:

“O chefe da Divisão de Serviços e Insumos Agropecuários da Secretaria da Agricultura, Rafael Friedrich de Lima, informa que, partir de agora, se dará mais atenção ao trabalho de investigação dos responsáveis pela deriva, começando pelos municípios abrangidos pelas INs.

“Ele explica que, a partir da propriedade que teve o dano comprovado, serão buscadas as informações dos vizinhos imediatos (se adquiriu agrotóxico hormonal, se declarou o uso, se cumpriu os requisitos para aplicação). Alertou ainda que, nos demais municípios com problema, as eventuais multas serão determinadas pela legislação federal. Acrescenta que a Seapdr já encaminhou um caso para a Polícia Civil, para que tramite na esfera criminal.”65

Mesmo a notícia falando na esfera criminal, os planos civil e criminal são independentes, podendo o apicultor inclusive utilizar as informações obtidas no processo criminal para o seu processo.

5 O TIPO DE DANO SOFRIDO PELOS APICULTORES E PELA SOCIEDADE

O dano sofrido pelos apicultores pode ser descrito de forma material, já que suas caixas de abelhas são propriedades dele, às quais eles investiram uma quantia de tempo e dinheiro para a possuírem e usufruírem. Logo, é certo afirmar que a caixa de abelha é uma propriedade móvel do apicultor, ou seja, um bem móvel conforme classifica o Código Civil em seus artigos 8266 e 8367.

64QUEIROZ, Sérgio. Apicultores gaúchos temem desaparecimento de abelhas com aumento da liberação de pesticidas. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/brasil/apicultores-gauchos-

67 “Consideram-se móveis para os efeitos legais: I - as energias que tenham valor econômico; II - os direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes; III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações”.

No entanto, podemos classificar as abelhas juridicamente de acordo com a sua inserção e importância no meio-ambiente. Esses insetos, conforme ilustrado na introdução, têm uma grande importância não só econômica, mas ambiental também, devido a polinização que elas realizam, principalmente de espécies de plantas das quais nós nos alimentamos. Por esse motivo, pode-se afirmar que um dano severo às abelhas poderá configurar um desequilíbrio da produção alimentícia de do meio-ambiente. A constituição inclusive prevê a proteção ao meio ambiente equilibrado no seu artigo 22568 .

O meio-ambiente é um “bem de uso comum do povo”69. Como as abelhas são parte do meio ambiente, poder-se-ia argumentar que elas fazem parte dos bens coletivos, e não dos bens privados do apicultor. Entretanto, aponta-se que há a compra e venda de abelhas, ou seja, elas integram negócios jurídicos e são bens privados, ou seja, apicultores trocaram seu dinheiro voluntariamente para a aquisição de abelhas, as quais integram o seu patrimônio agora. Mesmo em casos de abelhas capturadas da natureza, pode-se considerar o apicultor como o primeiro proprietário delas, já que ele teve o trabalho de as capturar. Se elas não pudessem ser enquadradas como propriedade privada, elas não poderiam ser vendidas ou compradas. Logo, pode-se concluir que as abelhas são propriedades dos apicultores que exercem uma função coletiva.

Dessa maneira, o dano da morte das abelhas não se trata apenas de um dano isolado aos apicultores e a sua propriedade e seus frutos, mas também de um dano à coletividade, que é prejudicada devido ao desequilíbrio causado pelos agrotóxicos nas colmeias.

Édis Milaré identifica em fenômenos similares “uma dupla face na danosidade ambiental”70. Essa “dupla face”, segundo esse mesmo autor71, está prevista na Lei 6.938/81, no artigo 14, § 1º, na frase “a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade”. Tal fato é também reconhecido por José Rubens Morato Leite72, o qual afirma que o dano ambiental

68 “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

69DE ANDRADE, Lourenço. O Meio Ambiente como Bem de Uso Comum do Povo. 2003.

Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2003.

70MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente, Editora dos Tribunais, 2ª edição, 2001, p 422.

71MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente, Editora dos Tribunais, 2ª edição, 2001, p 422.

72José Rubens Morato Leite apud MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente, Editora dos Tribunais, 2ª edição, 2001, p 422.

tem uma “conceituação ambivalente”, pois, além de designar a lesão ao patrimônio ambiental- segundo o autor, bem comum à coletividade-, designa também um dano a interesses privados, seja por ação direta ou por dano em ricochete. Assim, conclui-se que o dever de conclui-se reparar os danos sofridos pelos apicultores não exclui o dever de se reparar os danos sofridos pela sociedade.

De acordo com Édis Milaré73, o direito brasileiro diferencia o dano ambiental em:

“a) o dano ambiental coletivo, dano ambiental em sentido estrito ou dano ambiental propriamente dito causado ao meio ambiente globalmente considerado, em sua concepção difusa como patrimônio coletivo e, b) dano ambiental individual ou dano ambiental pessoal sofrido pelas pessoas e seus bens”.

Ao se observar o caso da mortandade das abelhas, levando-se em conta as consequências econômicas/patrimoniais sofridas pelos apicultores, bem como as consequências ambientais geradas ao meio ambiente e ao seu equilíbrio, com possíveis alterações até no fornecimento de alimentos para a população, conclui-se que a morte de colmeias inteiras é não somente um dano ambiental individual ou pessoal com danos materiais específicos como classifica o autor, mas também um dano ambiental coletivo. Apesar de o presente trabalho se focar mais precisamente no dano ambiental sofrido pelo indivíduo que vive da apicultura, deve-se ressaltar que essa perda sofrida pelo indivíduo em questão não é apenas um problema isolado dele ou do segmento econômico no qual ele se insere, mas também uma perda coletiva.

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