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Questões como andaimes para a compreensão de leitura

No documento PR LIKELLI SIMAO BENDER (páginas 33-35)

CAPÍTULO II REVISÃO DE LITERATURA

2.3 Questões como andaimes para a compreensão de leitura

As questões de compreensão podem fazer a diferença no ensino de leitura e conduzir o aprendiz a tornar-se estratégico e habilidoso. Em 2003, Carnoy, Gove e Marshall conduziram um estudo investigando os motivos da diferença de desempenho acadêmico entre os países da América Latina: Brasil, Chile e Cuba. Os autores constataram que o tipo de perguntas feitas pelos professores podem ter efeitos na aprendizagem. Nas escolas brasileiras, segundo os autores, se gasta muito mais tempo copiando instruções do que nas escolas chilenas e cubanas, e isso acaba afetando o uso do tempo das aulas, ou seja, o tempo em que se poderia usufruir realizando mais atividades e avançando em conteúdos e discussões, é gasto em cópias mecânicas e que não geram muito aprendizado. As professoras cubanas, cujo país apresentou melhores índices nos testes de avaliação do Laboratório Latino Americano de Evaluación de la Calidad de la Educación (LLECE)19

,quando comparado aos índices do Brasil e Chile, são mais exigentes nas respostas às perguntas feitas em sala de aula, fossem em coro ou individuais, solicitando aos alunos explicações das respostas dadas, correções de respostas de outros alunos, bem como, explicações conceituais. Ainda segundo os autores, “as atividades nas escolas chilenas e, particularmente, nas escolas brasileiras se enquadram na categoria de aulas menos exigentes em termos de capacidade cognitiva exigida dos alunos” (CARNOY; GOVE; MARSHALL, 2003, p.20). Isso é bastante problemático e pode indicar um dos motivos pelos quais o Brasil não avança em termos de leitura nos testes comparativos.

O tipo de perguntas e tarefas solicitadas pelo professor são determinantes para construir andaimes de aprendizado. O termo andaime, utilizado inicialmente por Wood, Bruner e Ross em 1976, funciona como uma metáfora. Assim como numa construção é necessário criar andaimes para sustentação, no aprendizado é necessário dar suporte para que esse se efetive gradativamente. Quando terminada a obra, os andaimes são retirados; do mesmo modo, o professor deve dar suporte para que o aluno aprenda e consiga criar independência, sem precisar do suporte do professor, posteriormente, para realizar tarefas similares. O suporte dado pelos professores, de acordo com Hammond e Gibbons (2005), deve ser utilizado para possibilitar aos aprendizes o desenvolvimento de tarefas que eles não consigam fazer sozinhos, e para isso é necessário conhecer o que os aprendizes já sabem. Os autores adaptam de Mariani (1997) um quadro que ilustra a relação tarefa/dificuldade/suporte

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O Laboratório realiza testes e discussões acerca da educação na América Latina e Caribe. Para mais informações acessar <http://www.evaluacionesinternacionales.edusanluis.com.ar/2008/09/laboratorio- latinoamericano-de.html>.

(Figura 1, a seguir): quanto mais desafio dado ao aprendiz, maior deve ser o suporte dado pelo educador, pois se é exigido demais com pouco suporte, o fracasso é quase certo. Se há pouca exigência e pouco suporte, não há desafio e pode haver desmotivação e falta de compromisso. Pouca exigência e muito suporte também não é o ideal, pois não geram aprendizado. O tipo de tarefa ideal, portanto, seria aquela que é desafiadora, mas que fornece suporte necessário, ou o andaime necessário para se conseguir completar a tarefa.

Figura 1 - Demanda das tarefas

Fonte: Hammond e Gibbons, 2005, p.9 (tradução nossa).

Destarte, as questões de compreensão acerca de um texto podem possibilitar, se forem realizadas pensando-se na construção de andaimes, a formação de aprendizes autônomos. Elas fornecem, se bem elaboradas e aplicadas, suporte para que o leitor se desenvolva e seja capaz de fazer o mesmo tipo de questionamentos quando lê outros textos.

As questões de compreensão podem funcionar como andaimes para a construção de sentidos e da compreensão do texto, para tal, é importante que elas solicitem ao aprendiz que se utilize de estratégias de leitura, com enunciados como “releia o texto”, “sublinhe as palavras desconhecidas e procure-as no dicionário”, dentre outras (ver AZEVEDO, 2015; BENDER; BARETTA, 2014). Deste modo, quem realiza as tarefas pode internalizar as estratégias e utilizá-las em textos semelhantes.

No presente estudo, os questionários de compreensão são tomados como instrumentos para a coleta de dados da pesquisa. De acordo com Tomitch (2008), perguntas de compreensão, sejam elas gerais ou específicas, quando utilizadas em procedimentos metodológicos, obtém dados comportamentais e o enfoque se dá na compreensão como

produto. Os protocolos verbais, por sua vez, também utilizados como instrumento da pesquisa, têm enfoque na análise do processo de leitura.

Existem diversas categorizações em relação às tarefas de compreensão. Para o presente trabalho, optou-se pelo uso da categorização de Pearson e Johnson (1978), que as distingue entre: tarefas de leitura (TLs) explícitas, implícitas e implícitas no script20

. As TLs explícitas requerem do leitor a busca de informações literais no texto, enquanto as TLs implícitas requerem inferências do leitor, ou seja, perguntas e respostas estão no texto, mas de forma não tão óbvia quanto as explícitas e as TLs implícitas no script estão além do texto e requerem integração entre o conhecimento prévio do leitor e aquilo que está no texto. A categorização é também utilizada por Oliveira (2000) e por Caldart (2012), sendo que Oliveira (2000) descobre com seu estudo que os livros didáticos de compreensão leitora do Português ainda dão prioridade a questões explícitas. Caldart (2012), por sua vez, utiliza da categorização para as questões de compreensão utilizadas como um dos instrumentos de seu estudo, com a finalidade de averiguar a compreensão leitora acerca dos dois textos lidos pelos participantes de sua pesquisa.

A opção por esta categorização para elaboração das questões de compreensão dos textos abordados neste estudo se justifica pelo fato de que possibilita analisar a compreensão do texto pelo participante de forma progressiva; parte-se do que está explícito no texto, indo para aquilo que é implícito nas entrelinhas do texto e até aquilo que está fora do texto, com as relações do leitor e de seu conhecimento de mundo, que engloba outros textos.

Conforme dito, as questões de compreensão como instrumento de coleta de dados conseguem avaliar a leitura como produto e não avaliam, portanto, a leitura como processo. Uma das formas de se avaliar o processo de leitura no momento em que ele ocorre é por meio de uso dos protocolos verbais. Sobre eles e seu uso na pesquisa em leitura se pauta o próximo tópico.

No documento PR LIKELLI SIMAO BENDER (páginas 33-35)

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