CAPÍTULO I – DEFININDO PERCURSOS
1.1. Questões de Estilo
Apresento ao leitor, no preâmbulo deste capítulo, a letra de uma canção do cantor e compositor Alberam Moraes, natural do Alto Juruá, conhecido pelo seu engajamento na divulgação da cultura regional. Da letra musical destaco os seguintes versos:
Eu sou de lá da ponta do Brasil onde o vento faz a curva.
O açaí é a uva das bandas de lá...
(...) Vocês precisam ouvir a voz que vem de lá, Vocês precisam ver a beleza do lugar.
Para enaltecer aspectos da cultura local, o compositor faz uso demasiado do vocábulo “lá” para se referir às suas origens como terra longínqua. Esse termo tem a função de apontar para o contexto situacional, revelando o distanciamento geográfico do músico nas jornadas que a vida lhe oportunizou. Essa escolha, muitas vezes, tem deixado o músico em apuros porque, ao voltar para sua terra natal, toda vez que o cantor entoa esses versos, ele precisa explicar aos seus ouvintes que compôs a música durante suas diásporas pelo Brasil. A explicação
se justifica porque o “lá” passou a significar “aqui” e a adaptação mudaria as rimas e a sintonia da canção.
Para evitar adaptações estilísticas no futuro, nesta pesquisa opto por dêiticos espaciais que indicam a posição física e geográfica de estar localizado no próprio contexto social no qual atuo como professor- pesquisador do Campus Floresta da UFAC. Os dêiticos aqui, nessa região, neste lugar, etc. indicam minha localização na condição de ator social de um contexto de ensino de ILE, situado em terras longínquas em relação aos grandes centros urbanos do Brasil, nas quais quase tudo está mergulhado em águas.
Deste lugar, envolvido pela concepção de florestania necessária à existência do homem amazônico na floresta, reflito como ribeirinho, filho de seringueiros e agricultores, estudante, professor e professor- pesquisador (NÓVOA, 1992; MOITA LOPES, 1996). Pelas minhas narrativas aqui apresentadas fluem minhas identidades líquidas (BAUMAN, 2000), constituídas ao longo das relações de alteridade nos trajetos das diásporas8 (HALL, 1996) que a formação educacional impõe,
bem como estão presentes as minhas identidades de professor de ILE constituídas ao longo da prática docente neste contexto de ensino. Tenho ciência de que, nesta narrativa, há a “enunciação” de outras vozes, pois como sujeito sócio-histórico e “polifônico” (BAKTHIN, 2006), outros discursos sempre estarão “interpolados” aos meus (FOCAULT, 2002). Nela há as vozes de um professor de ILE concebido no ventre da imensidão verde, constituído pelo discurso de florestania e atrelado ao “entre-lugar” da cultura9 local (BHABHA, 2005), intrinsicamente
vinculado à paisagem em que nasci e cresci junto aos meus conterrâneos
8 Hall define identidades de diáspora como sendo “as que estão constantemente
produzindo-se e reproduzindo-se novas, através da transformação e da diferença” (HALL, 1996, p. 75).
9 Bhabha define o entre-lugar como “a necessidade de passar além das narrativas de
subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais” (BHABHA, 2005, p.20).
ribeirinhos, agroextrativistas, colegas de faculdade, alunos e professores em formação. Nesta narrativa, há ainda as vozes dos autores lidos e conhecidos no âmbito da academia durante a formação acadêmica, intensificadas tanto em meu mestrado, no Programa de Pós-graduação em Letras: Linguagens e Identidade, da UFAC, quanto em meu doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, do qual esta tese é resultante. Todas essas vivências e identidades adentram a sala de aula do professor de ILE (WILLIAMS; BURDEN, 1994), que leva para o espaço de construção do conhecimento sua cultura, experiências de vida, carregando consigo todo um imbricamento de identidades profissionais e institucionais (DUBAR, 2005)10 que se
relacionam dialogicamente com o contexto social (HOLLIDAY, [1994]2001).
Mesmo diante de tanto dialogismo, não adoto a modéstia estilística dos autores que escrevem na primeira pessoa do plural como é tradicionalmente praticado na academia. Na maioria das vezes, faço uso da primeira pessoa do singular para refletir criticamente como professor- pesquisador que procura compreender e construir saberes relativos à sala de aula do contexto no qual está inserido.
Essa escolha estilística está em consonância com o paradigma metodológico escolhido no qual o próprio pesquisador é fonte de dados (CLANDININ; CONNELLY, 2000; ELY; VINZ; ANZUL; DOWNING; 2001, MELLO, 2005, 2012). Em algumas partes da tese, optarei pela primeira pessoa do plural quando me referir a procedimentos vivenciados juntamente com os alunos-professores do CLI, atores sociais colaboradores nessa história vivida no Campus Floresta. A partir das leituras das narrativas, ora faço inferências em primeira pessoal do singular para compor sentidos para a minha prática docente,
10 "A identidade nada mais é do que: o resultado a um só tempo estável e provisório,
individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições” (DUBAR, 2005, p. 136).
evidenciando minha compreensão sobre a materialidade linguística fornecida pelos participantes, ora minha compreensão traz também as vozes dos alunos-professores, resultando em um processo dialógico entre o meu texto e as narrativas.
A seguir, para orientar o leitor sobre o contexto desta pesquisa, apresento um panorama11 histórico-sociocultural da região do Alto
Juruá, oportunizando uma visão sobre os aspectos geopolíticos e ecolinguísticos do local a partir de minha ótica, como professor de língua inglesa e habitante deste local. Convido o leitor a fazer um mergulho nas águas barrentas do rio Juruá, a percorrer as trilhas dos varadouros destas paragens, a perceber como exerço minha florestania e lido com os problemas de ensino que emergem na sala de aula deste contexto social, marcado pelo isolamento geográfico e pela falta de práticas discursivas na língua que ensino.
11 Para maiores informações sobre o contexto histórico-sociocultural local, remeto o
leitor aos seguintes autores: jornalista alagoano Craveiro Costa ([1922]1973), integrante do partido dos Autonomistas do Juruá, a partir de 1904; do ensaísta e engenheiro Euclides da Cunha ([1906]2000), membro da expedição que desbravou o Vale do Purus, no Acre, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores em 1904; Leandro Tocantins (2001), a partir de seus relatos históricos sobre a geopolítica e história do Acre; jurista José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho ([1930]2003), tendo como bases seus textos escritos na condição de testemunha ocular do processo de federalização do Juruá, em 1904; pesquisador Enoque Pessoa (2003), que investiga os povos da floresta do Alto Juruá pela perspectiva da psicologia social; antropólogos Mauro Almeida (2002), Manuela Carneiro da Cunha (2002) e Marcelo Piedafita Iglesias (2010) que apresentam compreensões sobre a diversidade cultural desta região enfatizando a organização social dos povos da floresta.