• Nenhum resultado encontrado

3. PLANEJAMENTO METODOLÓGICO

3.2 Protocolo de Pesquisa e Coleta de Dados

3.2.3 Questões do estudo

Manteve-se a atenção para que a coleta de dados respondesse questões sobre possíveis problemas de usabilidade que pudessem ser potenciais fontes de riscos a gerar incidentes e acidentes. Visto que os técnicos de RT são os profissionais que em maior grau interagem com o paciente, com o tratamento e com o equipamento, esses indivíduos são o foco desta pesquisa, de modo que são observados todos os elementos que compõem sua rotina de trabalho. Dessa forma, foram levantados dados, primeiramente, sobre a unidade de análise, a respeito do número de funcionários da unidade, seus cargos, o horário de funcionamento e carga horária de trabalho, fornecidos pela chefia responsável pelo setor. A partir de então, a coleta de dados em campo foi realizada em duas etapas, das quais faz parte a aplicação dos métodos de EFH.

Antes de iniciar o estudo, os profissionais receberam explicações sobre os objetivos da pesquisa e o método de coleta de dados. Médicos oncologistas, físicos médicos e técnicos e/ou tecnólogos de RT foram convidados a participar voluntariamente. Em seguida, estes últimos foram convidados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para pesquisa com seres humanos (APÊNDICE A), conforme Resolução Nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), ressaltando-se o caráter ético da pesquisa, em que o sigilo e anonimato das informações coletadas garantem a integridade das pessoas e instituições envolvidas.

Os dados foram coletados e analisados por uma pequena equipe de especialistas em EFH, incluindo uma pesquisadora com foco em fatores humanos/cognitivos, da área de Psicologia, e a própria autora, da área de Engenharia de Produção, com maior foco nos aspectos técnicos do processo. Isso permitiu uma visão mais ampla das questões identificadas. A primeira etapa incluiu o método de EFH de análise de tarefas, baseado em Cassano- Piché et al. (2005), que também incluem a observação direta ou etnografia e observação do ambiente de trabalho, descritos anteriormente, entrevistas informais e levantamento de informações. Durante a análise de tarefas, que tem o intuito de investigar as relações dos profissionais de RT com seu trabalho e suas limitações em seu dia a dia, foi observada a maneira como os profissionais realizam suas funções habitualmente, em seu ambiente real, durante seu turno de trabalho, incluindo todos os passos do profissional desde o acesso à ficha do paciente até a aplicação final do tratamento, para que se possa mapear cada passo necessário para executar o processo de tratamento e gerar um fluxograma do mesmo. A observação direta verifica, além desses aspectos, fatores como carga de trabalho, interações e

relações sociais. A observação do ambiente de trabalho verifica, de forma geral, o layout e as condições ambientais do local de trabalho, em que se incluem a disposição dos equipamentos e mobília, e fatores como ruído, iluminação e interrupções, sob o olhar da EFH, em vista de investigar se o processo de entrega de RT pode ser melhorado em termos da interação entre os profissionais e a sua organização.

Nessa etapa, os dados foram coletados durante 40 horas de observações diretas não participantes, isto é, de modo a não interferir nas rotinas dos profissionais, realizadas pelas duas especialistas em EFH em dois diferentes turnos de trabalho, contando com a participação de diferentes profissionais de forma que se pudesse obter dados variados e não tendenciosos. Ressalta-se que em nenhum momento foi avaliado ou, menos ainda, julgado o desempenho do participante em relação à sua função.

A segunda etapa contou com o método de EFH de análise heurística, descrito previamente, que, por sua vez, explora funcionalidades do equipamento de tratamento. Profissionais da área de física médica da unidade de análise forneceram uma ficha de tratamento de paciente simulada a partir da qual foi elaborada uma lista de tarefas a serem realizadas na interface do equipamento de tratamento. Por se tratar de alta complexidade, e pela realização da pesquisa em ambiente real, as tarefas exigidas pela ficha simulada foram executadas por técnicos de RT, como realizado no estudo de Chan (2009) e como é comumente realizado em análises heurísticas na área médica, enquanto os profissionais eram observados pelas especialistas em EFH que conduziram a análise, com a supervisão da equipe de física médica. Esta etapa não envolveu pacientes reais e foi executada fora do horário de trabalho, motivo pelo qual os técnicos aqui solicitados receberam auxílio alimentação e transporte.

As especialistas observaram os técnicos enquanto realizavam as tarefas solicitadas como o fazem habitualmente, dentre os procedimentos mais comuns observados na análise das tarefas realizadas na fase anterior a esta análise, em que avaliaram, com o auxílio da lista das 14 Heurísticas de Zhang (Zhang et al., 2003) descrita anteriormente, se a execução das tarefas na interface do equipamento viola alguma dessas heurísticas. Nesse momento, o participante poderia ser requisitado a colaborar com as especialistas respondendo perguntas sobre o tratamento. Foram igualmente realizadas fotografias das interfaces e dos painéis de controle para avaliações futuras. Novamente, ressalta-se que o desempenho e as habilidades dos participantes não foram avaliados ou julgados. Somente pretendia-se, nessa etapa, identificar a relação do profissional com a interface e a funcionalidade do equipamento de RT e os possíveis problemas de usabilidade referentes ao equipamento, haja vista que, sob o olhar

da EFH, quaisquer problemas em utilizar a interface não são reflexo de habilidades ou incapacidades humanas, mas sim uma indicação de que a tecnologia requer melhorias.

Além das observações, o levantamento de informações também se deu através de um questionário entregue aos profissionais de RT, disposto no Apêndice B deste trabalho. Foram ainda realizadas durante as observações entrevistas semiestruturadas, que são flexíveis, apoiadas por entrevistas não estruturadas, de modo a não interferir na rotina ou na realização do trabalho dos profissionais. Essas entrevistas têm o intuito de coletar a opinião dos profissionais sobre suas dificuldades, suas expectativas em relação à realização de sua função, sua relação de prazer ou frustração com o trabalho, e sua própria visão do mesmo.

Estas questões abordam itens como as funções que o profissional realiza no cargo, suas dificuldades na realização do trabalho, sugestões de melhoria, entre outras. A partir dessas questões, poderiam surgir outros questionamentos, de acordo com as afirmações dos respondentes, o que caracteriza as entrevistas não estruturadas.

Dessa forma, juntamente com as observações, foram identificados o passo a passo da rotina de trabalho do profissional de RT, bem como os problemas de usabilidade tanto em seu fluxo e ambiente de trabalho, como na interface do equipamento de tratamento, para que se pudesse estudar como o processo de entrega de RT pode ser melhorado, assim como a satisfação no trabalho do profissional e a qualidade do tratamento radioterápico dado aos pacientes.