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Ainda tratando de passado, retoma-se aqui algumas concepções de Pierre Lévy, considerado por Ercilia e Graeff (2008), ao lado de Manuel Castells, Nichollas Negroponte e Paul Virilio17, como um dos mais importantes teóricos sobre a vida no mundo conectado. Lévy, ao abordar um dos ambientes descritos por Castells como importantes na configuração da Internet e ao comentar as bases desta mudança promovida pela tecnologia, recorda a história da informática, com suas origens no americano Silicon Valley, onde convergiam o trabalho desenvolvido em instituições científicas e universitárias, indústrias eletrônicas e movimentos hippies. Para Lévy (1993, p. 43) é esse cenário, onde havia contestação, confluência de ideias, paixões e objetos que contribuiu para o surgimento não do computador que os militares já trabalhavam há muito tempo, mas o computador pessoal dos fins dos anos 70. A partir do Silicom Valley o computador pessoal se proliferou e se desenvolveu, fazendo com que a informática deixasse de ser uma arte de automatizar cálculos, para o que Lévy chama de tecnologia intelectual. Com isto, esse autor induz a pensar na história da própria inteligência como algo mais fundamental que as ideias. Ele defende uma tese pautada no

17 O filósofo francês Paul Virilio é autor de vários livros sobre as tecnologias de informação e comunicação. Segundo Ercilia e Graeff (2008, p. 90), ele tem uma visão pessimista do que chama de “ditadura da velocidade, com o tempo real “cada vez mais independente do espaço”, podendo levar a “uma nova forma de acidente”.

condicionamento do pensamento pela história das tecnologias intelectuais e propõe uma abordagem ecológica da cognição. Assim, “as tecnologias intelectuais, ainda que pertençam ao mundo sensível ‘exterior’, também participam de forma fundamental no processo cognitivo.” (LÉVY, 1993, p. 160). É no desfazer e refazer das ecologias cognitivas que as tecnologias intelectuais contribuem para o surgimento das fundações culturais que comandam a apreensão do real. A essas fundações e à gestão social do conhecimento, Lévy irá associar os três estados de espírito – oralidade, escrita e informática – algo já comentado no tópico 1.1. E é aqui, ao colocar os computadores ao lado dos saberes oral e da escrita que notamos o quanto as máquinas, no século XXI, têm sido capazes de proporcionar uma modificação das normas do saber.

Também ao abordar a concepção das tecnologias, e partindo de uma ideia geral de que elas geram campos tecnoculturais, Kerkhove (1997, p. 211) propõe a análise do design e os tipos de produção como um meio para identificar padrões, preconceitos e vícios culturais. Analisar essas questões, para ele, torna-se essencial à medida que as economias se globalizam. Assim, o autor afirma que o design faz as relações públicas da tecnologia; desempenha um papel metafórico, traduzindo benefícios funcionais em modalidades cognitivas e sensoriais; faz-se eco do caráter específico da tecnologia; corresponde ao seu impulso básico; é a forma exterior mais visível, audível ou texturada dos artefatos culturais; e emerge como aquilo que poderíamos chamar de “a pele da cultura”.

Além de Castells, Lévy e Kerkhove, outros autores também têm contribuído destacadamente com a discussão sobre as TIC e a Internet. Dentre eles, Turkle (1997) apresenta o conceito de identidade virtual; e Rheingold (1993) cunha a expressão “comunidades virtuais” e aborda o poder de mobilização dos coletivos digitais conectados.

Turkle é conhecida pelas suas contribuições para a discussão sobre as relações das pessoas com a tecnologia. Uma de suas obras mais conhecidas, intitulada “A vida no ecrã: identidade na era da Internet”, é uma referência para as pesquisas que tratam da relação subjetiva e de intimidade estabelecidas com as tecnologias. Nessa relação, segundo ela, busca- se respostas para a natureza do próprio self, em algo que Turkle (1997, p. 12) irá demonstrar como uma “erosão das fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo”. Segundo a autora, “quando atravessamos o ecrã para penetrarmos em comunidades virtuais, reconstruímos a nossa identidade do outro lado do espelho.” (TURKLE, 1997, p. 261).

Em sua mais recente obra, Turkle (2011) faz afirmações contundentes sobre a tecnologia no âmbito das intimidades, como algo que se propõe a ser o arquiteto de relações mais íntimas e atendendo a vulnerabilidades. Neste sentido, ela afirma que a tecnologia “proposes itself as the architect of our intimacies. These days, it suggests substitutions that

put the real on the run”18 e, além disso, corrobora a ideia de que a tecnologia é ela própria sedutora, principalmente quando se está vulnerável. “Digital connections and the sociable

robot may offer the illusion of companionship without the demands off friendship. Our networked life allows us to hide from each other, even as we are tethered to each other”19. (TURKLE, 2011, p. 1).

Rheingold, por sua vez, apresenta várias contribuições para a discussão da relação das pessoas com as tecnologias, dentre elas a noção de comunidades virtuais é uma das mais expressivas e referenciadas para descrever o ambiente de criação e interação coletiva. A dimensão da abordagem de Rheingold (1993) é tamanha que ele chega a afirmar que “virtual

communities could help citizens revitalize democracy, or they could be luring us into an attractively packaged substitute for democratic discourse”20. E ainda instrui “those who

would use computer networks as political tools must go forward and actively apply their theories to more and different kinds of communities”21.

A importância das comunidades virtuais para o entendimento das redes é algo extremamente importante na atualidade. Segundo Costa (2008, p. 56), seu desenvolvimento “é provavelmente um dos maiores acontecimentos dos últimos anos, já que elas estimulam uma nova maneira de 'fazer sociedade'”. Costa comenta o trabalho de Rheingold o apresentando como um dos nomes intimamente ligados à Cultura Digital e ao qual relaciona a ideia de ecossistema de subculturas, contrário à ideia de uma subcultura online única e monolítica. “Quase uma década depois, pode-se dizer que essas subculturas virtuais estão florescendo por todos os cantos do planeta. São tão variadas que é simplesmente impossível mapear todas as espécies e subculturas” (COSTA, 2008, p. 55). Ele afirma também que Rheingold teria percebido “que as comunidades virtuais são lugares onde as pessoas se encontram, mas são igualmente um meio para atingir diversos fins” (COSTA, 2008, P. 59). Ressalta as

18 A tecnologia propõe-se como o arquiteto de nossas intimidades. Nestes dias, ela sugere substituções que colocam o real em fuga. (TURKLE, 2011, p. 1, tradução nossa).

19 As conexões digitais e os robôs sociáveis podem proporcionar uma ilusão de companhia sem as exigências da amizade. Nossa vida em rede permite nos escondermos uns dos outros, mesmo quando estamos amarrados uns aos outros. (TURKLE, 2011, p. 1, tradução nossa).

20 As comunidades virtuais podem ajudar os cidadãos a revitalizar a democracia, ou podem estar nos atraindo para um substituto e sedutor embalado como discurso democrático. (RHEINGOLD, 1993, tradução nossa). 21 Aqueles que usam as redes de computadores como instrumento político devem ir para uma frente de atividade e aplicar suas teorias em maiores e diferentes tipos de comunidades. (RHEINGOLD, 1993, tradução nossa).

comunidades também como um espaço de construção coletiva do conhecimento, recuperando a idea de Lévy sobre inteligência coletiva e de Rheingold sobre a multiplicação dos graus individuais de seus conhecimentos. “Da mesma forma que Rheingold, Lévy está convencido de que uma comunidade virtual, quando convenientemente organizada, representa importante riqueza em termos de conhecimento distribuído, de capacidade de ação e de potência cooperativa.” (COSTA, 2008, p. 61).

As comunidades virtuais constituem-se, assim, como fontes de consulta e um tipo de filtro humano inteligente, algo destacado por Costa (2008, p. 60) como importante num horizonte de excesso de informação. Neste lugar, além da expectativa de encontrar respostas e colaborar na construção de ideias, conceitos e sentidos, há um mundo próprio em que predominam um espaço de significação e de pertencimento. “O objetivo maior está na sensação de pertencer a um ambiente que todos constroem e compartilham.” (COSTA, 2008, p. 71).

Um dos espaços em que as comunidades virtuais também se consubstanciam são as redes sociais, onde pessoas têm se agrupado em torno dos mais variados temas, instituições e geografias. Mais do que um espaço para comunidades, as redes agregam troca de mensagens, informações, fotos, vídeos, documentos, listas de amigos, dentre outras funcionalidades que fazem com que possuam uma dinâmica própria. Neste sentido, é preciso destacar o relevante papel que as redes sociais assumiram mais recentemente na história das práticas no ambiente em rede. Segundo Ercilia e Graeff (2008, p. 63), elas “se tornaram extremamente populares e estão entre os sites mais acessados no mundo. Viraram a forma mais fácil de se comunicar e se relacionar online com outras pessoas”. Afirmação que pode ser comprovada nas estatísticas sobre acesso à rede, que comumente também trazem dados sobre o acesso a algumas das mais populares redes sociais.

Mas também tratando de questões sobre comunidades, numa perspectiva da educação neste espaço e num exemplo dessa abordagem, Passarelli (2002) apresenta a experiência de um jornal interativo num ambiente escolar como uma tentativa de superar as dificuldades da inserção das TIC nas escolas brasileiras, sugerindo, com isto, a criação de “um ambiente de aprendizagem propício à socialização do conhecimento e conseqüente criação de comunidades virtuais de aprendizagem e de prática” (PASSARELLI, 2002, p. 191). A importância dessa discussão está em questões que a autora formula a partir da experiência, ressaltando um papel protagonista do aluno, numa atitude autônoma e crítica frente a sua própria aprendizagem e com o professor num papel de orientador. Segundo Passarelli (2002,

p. 199), dado que é consenso que “o cenário educacional pós-moderno não pode ser concebido sem a inclusão das TIC”, a pergunta é “como devem as novas tecnologias atuar no complexo cenário da educação”. Esta conclusão deve, afirma Passarelli (2002, p. 199), integrar novas tecnologias à educação de forma que permita “a construção da autonomia frente à aprendizagem, do trabalho cooperativo e da cidadania, propiciando aprendizagem significativa, desenvolvimento de senso crítico e inclusão social”.

Certamente há neste contexto das recentes TIC, a Educação no embate de paradigmas. Trata-se de um ambiente que permeia a vida cotidiana, portado de conceitos, valores, linguagens, tecnologias e processos considerados por Passarelli (2007, p. 21) como complexos. “Com o conhecimento em constante atualização, surgem novas demandas para educação ao longo da vida e para a convergência do conhecimento, criando assim novas áreas de atuação, ao passo que outras se tornam obsoletas” (PASSARELLI, 2007, p. 22). Sendo assim, o mundo da Educação também se sente obrigado a revisitar suas teorias e práticas de aprendizagem e a desenvolver, segundo a autora, ações como a própria inclusão digital de professores, num processo de educação inclusiva datado por ela como tendo início nos anos 1980 nos países desenvolvidos e nos anos 1990 nos países em desenvolvimento. Segundo Passarelli (2007, p. 23), trata-se de um processo doloroso de mudança que envolve vários atores em torno da escola e “alastra-se para além de seus muros permeando pais, parentes, comunidade próxima desembocando, neste movimento contínuo de fluxo e refluxo, na sociedade”.

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