Bloco III – Sentidos de ensino de tecnologia/educação tecnológica
ANIMAÇÃO SEM O SOM ANIMAÇÃO COM O SOM Interlocutores: PM1, PM2, PM
5.1.3 Questões para debates e aprofundamentos futuros
A partir dessa análise, mais centrada na relação forma-conteúdo, eu destacarei e discutirei quatro questões que se materializaram em nossos gestos de interpretação da animação. Os dois primeiros são referentes aos mecanismos do funcionamento do discurso, estudados no campo da AD: de antecipação e formações imaginárias. Os dois últimos são efeitos de sentidos materializados no diálogo e que evocam duas dimensões dos estudos sobre tecnologia (sentido amplo): a dimensão histórica e a dimensão didático-pedagógica.
Mecanismos de antecipação e formações imaginárias Durante a discussão as formações imaginárias (ideológicas) entraram em jogo, contribuindo para a produção de novas leituras sobre o material analisado. A partir do pressuposto da AD de que os fatos reclamam sentidos e que mediante qualquer objeto simbólico somos instados a interpretar (ORLANDI, 2009) foi possível observar que o funcionamento da leitura da animação sem o som e com o som produziu deslocamentos nas interpretações. Contudo, esses diferentes modos de interpretar não são soltos, pois “toda formação social [...] tem formas de controle de intepretação, que são historicamente determinadas [...] ao falar interpretamos. Mas, ao mesmo tempo, os sentidos parecem estar sempre lá” (Ibidem, p. 10).
65 O tempo de tese e o imenso material a analisar e discutir não me permite ampliar essa discussão nesse momento, mas tenho interesse em pesquisar e analisar discursos relativos a essa controvérsia futuramente.
Na discussão da animação sem o som os professores e estudantes de graduação se apoiaram nas suas histórias de leitura, se filiando às formações discursivas ligadas às suas áreas disciplinares e de ensino, para analisar as imagens disponíveis, o que fez predominar certos mecanismos de antecipação que podem ser identificados nos discursos de alguns participantes.
Em alguns enunciados certos elementos linguísticos (utilização dos verbos no tempo passado e no modo indicativo, recorrência a objetos e representações imagéticas de ações etc.) parecem indicar que o conjunto da animação (som e imagens) decepcionou os leitores, pois o texto verbal deslocou alguns imaginários sobre o tema e as questões desenvolvidas no material. Trago alguns exemplos desse funcionamento discursivo e capturas de tela significativas:
[...] já que houve lá o aviãozinho que foi uma forma de comunicar (PE4) Figura 5 – Captura de tela: o avião de papel
Figura 6 - Captura de tela: a reciclagem
Fonte: http://tvescola.mec.gov.br/tve/video/de-onde-vem-de-onde-vem-o- papel
[...] quando apareceu a imagem das árvores, e depois da reciclagem (PE5)
[...] aparece ali bastante as imagens das árvores e eu achei que falaria bastante dos recursos naturais (PE1)
[...] a gente também achou no início que ela ia falar do desperdício ... ali também com relação ao que ela falou (PE5)
No discurso de PE1 é interessante a ideia de que o texto verbal iria responder ou dirimir as dúvidas e estabilizar as intepretações que foram produzidas:
[...] Eu imaginei ali... Eu acredito... Vamos conferir (PE1)
Na sua análise da animação podemos ler que houve pouca relação entre o que ela esperava e o que foi efetivamente narrado no texto verbal:
A gente também achou no início que ela ia falar do desperdício, mas não foi disso [...] eu achei que falaria bastante dos recursos naturais [...] falou pouco disso, dos recursos naturais usados na fabricação (PE1, grifo meu)
O sentimento de decepção em relação ao que esperavam que a animação proporcionasse, em termos de conteúdo, é verbalizado por alguns integrantes ao serem questionados sobre o que gostaram e o que não gostaram:
[...] acho que o vídeo trata de questões que são bem interessantes, mas poderia ter falado de muitas outras coisas (PM1)
Eu só fiquei meio decepcionado porque eu achei que ele ia falar sobre a reciclagem, sobre os problemas do uso do papel, e não fala tanto ... (EG4)
Eu achei mais ou menos [fala meio desanimado] tá para mostrar algumas coisas ele é legal, mas eu achei muito simples também ... (EG3)
Lá no final quando o vídeo coloca a reciclagem né? Ele até aponta assim né? Mas, só apontou né? (PM2)
Essas análises são compreensíveis, pois há uma assimetria na distribuição do tempo da animação para cada episódio ou processo envolvido:
Introdução ao tema: 0:00 - 0:56) - Sala de aula;
História da escrita: 0:57- 01:25 - Focada aos suportes de escritura (paredes, pedras, madeira, tecido, papiro etc.); Invenção do papel: 1:26 – 1:51- Pelos chineses e
popularização pelos americanos;
Derivados do papel: 1:52 – 2:10 – Exemplos: livros, revista, dinheiro, papel higiênico;
Processo de produção industrial: 2:11 - 3:26 – Corte dos eucaliptos ao empacotamento.
Sucessivamente, ele aborda os tipos de papel e utilidades, até que Kika retome a história, na qual utiliza as mesmas palavras da narrativa. Ao parafrasear a história à professora, ela se detém no processo industrial de produção, utilizando as mesmas palavras do “aviãozinho do papel” (personificado). O fato de se concentrar nesse episódio da animação contribui para problematizar a ideia de neutralidade, seja da linguagem, seja da tecnologia. Aspecto esse, debatido mais adiante.
As questões formuladas durante o processo da leitura foram fundamentais para mobilizar outros sentidos. Porém, é importante considerar os mecanismos de antecipação, pois dos 4’52” de duração da animação, 1’15” foi dedicado à explicação da produção industrial do papel. Essa assimetria, produzida no modo de contar a história desse artefato, colocou a ênfase no momento do corte de eucaliptos até o seu empacotamento. Nesse “episódio” temporal os humanos são completamente silenciados, tanto nas imagens como no texto verbal.
Outra questão que me chamou a atenção e, que eu não havia considerado na primeira análise, tem relação com a dimensão histórica, abordada um pouco mais adiante. É possível ler nessa produção linear da narrativa uma história do triunfo científico e tecnológico do Ocidente
(representado pelos americanos) sobre o Oriente (chineses). Segue o texto que eu transcrevi e que me fez criar essas relações de sentido:
Os chineses foram os primeiros a fabricar o papel que vocês conhecem. Ele era feito de fibras de bambu ou seda. Mas, em 1960 o papel deixou de ser um negócio da China para ser um negócio mundial. Foi quando os americanos fizeram a primeira fábrica de papel e, hoje, o mundo não vive sem o papel (Transcrição do áudio da animação)
O narrador (papel) não específica quais americanos: os do Sul ou do Norte, mas as histórias únicas que vêm nos sendo contadas me fazem ler Estados Unidos da América. Penso que ela se reproduz nessa animação.
Ao assisti-la inúmeras vezes, sozinha e com outras pessoas, eu percebi que, nessa história única sobre o papel, também são silenciadas as contribuições dos árabes, dos europeus e de outros conhecimentos científicos e tecnológicos que tornaram possível a sua fabricação em série e sua expansão global. Cito alguns exemplos: os moinhos árabes, a invenção da tipografia, a energia hidráulica, o cilindro holandês, a máquina de fabricar papel e a primeira pasta de papel feita de modo mecânico, a introdução de procedimentos químicos que dão origem à celulose etc.
Curioso, que nas poucas histórias que li sobre o desenvolvimento do papel no século XVII, os americanos não são citados como os inventores da primeira fábrica de papel. Mesmo, se considerarmos como símbolo de fábrica os primeiros moinhos, movidos pelo cilindro holandês, ou, a primeira máquina de papel que contribuiu para a mudança no modo de produção (artesanal para o industrial) a primeira fábrica de papel não poderia ser um “negócio dos americanos”, como está sendo narrado.
Penso que essa análise merece aprofundamento e conhecimentos mais específicos. Contudo, essas e outras relações de sentido são importantes para compreender o modo como a AD, a qual nos filiamos, pensa a relação entre discurso e ideologia (imaginário), pois ele contribui para a acessarmos os efeitos de leitura. São as formações ideológicas que, ao interligarem uma ou mais formações discursivas (discurso pedagógico, científico, ambiental, tecnológico etc.) que
possibilitam perceber como os textos significam para os leitores (ORLANDI, 2012).
Assim, o conhecimento das histórias de leitura e de formação dos sujeitos que participaram das oficinas é fundamental para a análise, pois auxilia na compreensão de como a memória discursiva se materializa nos processos intersubjetivos, nos quais os sujeitos recorrem aos textos lidos e esquecidos ou à intertextualidade (relação direta com o texto/autor) para sustentarem os seus dizeres.
Nos excertos acima, o tema do desperdício e da reciclagem, interpretado como algo que poderia ter recebido maior atenção, se torna mais compreensível quando remetemos esses discursos às condições em que se produzem: Quem diz? De qual lugar diz?
O acesso ao perfil dos sujeitos e a algumas de suas histórias de formação profissional e acadêmica possibilita a construção de algumas intepretações. PE2, por exemplo, trouxe exemplos de como a animação produz o efeito de que os humanos estão separados do processo tecnológico.
Eu não gostei da questão social mesmo [...]. Do homem ali, né? Só máquina, de onde veio? Tá, então tem a árvore, então a árvore é cortada, mas quem é que corta a árvore? Tá, tem a serra ali cortando sozinha, poderia mostrar o homem cortando a madeira, daí depois tem a máquina lá, mas quem tá operando aquela máquina, não tem ninguém operando a máquina? (PE2)
Em seu discurso ele faz referência ao processo produtivo industrial. O texto inicial destacado é acompanhado de imagens em movimento. Eu capturei algumas imagens para ajudar a entender esses efeitos de leitura:
Figura 7 - Captura de tela: o episódio da produção industrial do papel
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=rjUaQW0VG0k
Pensando o efeito-sujeito como uma condição para a intepretação, é importante trazer algumas considerações sobre o discurso de PE2, pois nos três momentos iniciais da discussão: análise da animação sem o som, com o som e avaliação forma-conteúdo, percebi uma influência de suas leituras na produção de sentidos produzida pelo Grupo 1, ao qual ele se integrou.
Esses condicionantes precisam ser apresentados nessa análise, pois fazem parte das condições estritas da pesquisa, nas quais o conhecimento de quem diz e de onde diz é fundamental para compreendermos como a memória discursiva se atualiza no intradiscurso.
No excerto retirado do texto trabalhado na oficina dois, já conhecido por PE2, pode ajudar a compreender efeitos de leitura:
A maioria dos papéis como eu é feita a partir da madeira de uma árvore chamada de eucalipto. As toras de eucalipto chegam das fazendas e são descarregadas na indústria de papel. Uma esteira
leva a madeira para ser descascada, picada. Então, a madeira é cozida, produzindo a celulose [...]
Vemos a serra, os caminhões, as máquinas e nos perguntamos: quem está cortando, dirigindo caminhões, fazendo as máquinas funcionarem? Quem construiu as máquinas? Quem as manipula? Além disso, no segundo excerto o narrador ora atribui a ação a um sujeito indeterminado ou aos objetos ou recursos naturais [...] (GEREMIAS; CASSIANI, 2013)
Acredito que as leituras realizadas por mim anteciparam algumas das interpretações produzidas durante a análise intersubjetiva.
PE2, ao se apoiar em fragmentos de uma análise que eu havia apresentado em momentos anteriores, aos quais ele participou, traz elementos para pensar o esquecimento nº1 (ilusão de que somos a origem do dizer) e o nº 2 (o que é dito só pode ser dito daquele modo, com as mesmas palavras).
Ainda é possível analisar nessas produções intersubjetivas, o funcionamento da paráfrase e da intertextualidade, na medida em que PE2 se apoia em outro texto que leu para analisar a narrativa, como por exemplo, o texto 3 que foi tra
balhado na terceira oficina (THOMAS; FRESSOLI; LALOUF, 2008). Conhecendo as histórias de leitura de PE2 e a intepretação dos autores sobre a relação tecnologia e sociedade, posso entender melhor as paráfrases produzidas:
THOMAS, FRESSOLI, LALOUF,