nas políticas públicas.
3.3. As feministas e os feminismos nas conferências e encontros.
3.3.2. A Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres.
3.3.2.2. Questões políticas centrais a) Equidade e Igualdade.
Um debate é travado na comitiva pernambucana, durante o intervalo da manhã do primeiro dia. Estou perto e assisto. Dentre as presentes, mulheres brancas e negras93 estão discutindo sobre as especificidades das mulheres negras e nos direitos subjacentes.
Uma delas coloca que, se você tem igualdade você tem que ter equidade, pois equidade é equivalência. Equidade nos faz pensar nas especificidades, nos direitos específicos. “Nós mulheres somos todas iguais, então temos os mesmos direitos. Aqui, nesta conferência, temos os mesmos direitos. Mas, ao mesmo tempo, temos diferenças que nos levam a pensar nas questões específicas”. Uma mulher se apresenta como pertencente ao movimento negro e feminista e lança a pergunta às demais: se as questões específicas não são reveladas, como fazer? Esta questão não encontra resposta. As mulheres vão se dispersando aos poucos, sem prosseguirem na discussão (Diário de Campo, 2004).
Os termos equidade e igualdade funcionam como aporte para a discussão sobre políticas afirmativas. Estas aparecem como proposição de “diferença positivada”, ou seja, as diferenças existentes são reveladas e tornam-se a maneira sobre a qual políticas de equidade serão construídas. O movimento negro e, particularmente, as mulheres negras, foram as primeiras a exigir que a desigualdade específica – determinada pela posição racial – se fizesse presente através de ações políticas.
A “discriminação” sofrida torna-se, portanto, testificada por meio de leis de “discriminação positiva”. Ou seja, assume-se a discriminação publicamente e são construídas leis que tomam este caminho discriminatório como porta de acesso para territórios institucionais aos quais, tradicionalmente, este segmento não teria acesso. Criam-se as leis de cotas.
Estas leis, entretanto, são polêmicas e vêm causando amplo debate nacional. Os espaços da educação formais – as universidades públicas e as redes de pesquisadores – compõem-se de uma grande seara de apoiadores e opositores. Na conferência nacional, entretanto, esta questão não atravessou nenhuma polêmica, sendo apoiada pelas
93 Eu as reconheço dessa forma, sendo que em seus discursos também há a sobredeterminação e a identificação dentro destas duas categorias raciais.
delegadas presentes. Além disto, as cotas foram ampliadas para outros segmentos do movimento feminista e de mulheres, tal qual ocorreu na Conferência Estadual de Santa Catarina. Entretanto, na conferência nacional não apareceram mulheres brancas, de camadas médias e heterossexuais protestando por espaços enquanto segmento, tal qual ocorrido na Conferência Estadual de Santa Catarina. Apesar disto, a temática da igualdade versus equidade revela-se como um tópico atual bastante polêmico, tendo em vista que tratar da diversidade dentro de um movimento amplo, como vem se configurando o feminista, é um desafio, colocado concretamente nos discursos das participantes da conferência nacional.
b) As interfaces de ocupação de um lugar de poder governamental
Pensar o campo feminista brasileiro e suas tendências implica em situar também a transitoriedade da ocupação destes espaços distintos. Estar em um espaço do movimento social não implica necessariamente em não estar nos demais. Ao mesmo tempo, há um diálogo interno ao campo que coloca a impossibilidade de ocupar, concomitantemente, um lugar de movimento social e governamental. Para as feministas dos fóruns de mulheres estaduais, este duplo vínculo evidenciaria uma não eficácia do processo democrático. Ou seja, fazer controle social, lugar de direito dos movimentos sociais nos espaços políticos democráticos, seria inviabilizado caso algum de seus sujeitos estivesse representando, ao mesmo tempo, um espaço governamental e um do movimento. “Ao governo devemos exigir direitos e políticas públicas justas, bem como acompanhar e avaliar suas ações. Este é o caráter de uma verdadeira sociedade democrática” (fala de delegada do movimento feminista na conferência nacional, Diário de Campo, 2004).
Muitas das feministas que faziam militância no movimento social se viram convidadas a ocuparem cargos nos poderes executivos, quando partidos de esquerda passaram a exercer funções de poder nos governos municipal, estadual e federal, na virada dos anos 1990 para os 2000. Agora, do outro lado das margens do rio, muitas delas situavam-se, para além disso, em uma “terceira margem do rio” posto que não deveriam mais assumir um discurso do movimento feminista, em função de serem do governo e não mais do movimento. Porém, este exercício parecia ser bastante difícil, motivo pelo qual diziam se encontrarem em um terceiro lugar: ao mesmo tempo em que passavam a responder às demandas do movimento como poder público, sentiam-se em
dever e desejo de militar no movimento. Também adicionavam a este posto a dificuldade de ocupar um discurso burocratizado, demarcador de ações nas quais o orçamento público direcionava tanto os discursos quanto as ações ideológicas.
Sair de um outro lugar que é o campo dos movimentos sociais e ir para o campo do poder público exige, dá um conflito de identidade primeiro, e exige uma readequação, porque começo a enxergar coisas que não enxergava desse lugar que estou. Na minha experiência pessoal é assim, é como se eu tivesse uma visão qualitativa dos processos das relações de poder, dos processos de exclusão. E hoje eu tenho uma visão quantitativa. Não sei até onde essa visão quantitativa não está influenciando também na minha percepção anterior, que era qualitativa, sobre as questões estruturais que produziam exclusão e sobre a dinâmica de relação social (coordenadora da Secretaria da Mulher de João Pessoa (PB), entrevistada em janeiro de 2006). Se antes o olhar e o posicionamento sobre políticas públicas eram pautados pela ocupação de um lugar no movimento – “organizar para reivindicar” – , agora, o conhecimento gradativo do funcionamento da máquina estatal reorienta o olhar. Ao mesmo tempo em que o discurso governamental passa a ter maior legitimidade e poder de atuação quando aquela que ocupa o cargo tem um diálogo anterior com o movimento social, sair definitivamente do lugar da reivindicação para o da execução não parece ser tarefa fácil para aquelas que a aceitam. Rejeitar algumas reivindicações advindas dos movimentos sociais pode ser uma atividade mais cotidiana do que o esperado por muitas delas – militantes e “governantes”. Isto demonstra a complexidade das situações pelas quais estas mulheres passam, posto que “não existem soluções fáceis quando tantos matizes – pautas do movimento e pautas do governo – estão em jogo” (fala de delegada, na conferência nacional, Diário de Campo, 2004).
Leiam-se, por exemplo, os debates sobre aborto e sobre participação masculina nas conferências. Tornar a diretriz de descriminalização do aborto como lei não obteve o sucesso esperado, nos anos consecutivos à conferência, embora ações de órgãos gestores tenham sido realizadas (dentre elas, algumas do Ministério da Saúde, em 2006 e 2007, com relação ao atendimento ao aborto legal). Algumas instâncias governamentais executivas não se unificaram no sentido de apoiar esta reivindicação do movimento social. Neste caso, as feministas governamentais apoiavam a diretriz sobre o aborto, entretanto seu lobby não foi suficiente para alterar a máquina estatal de
coligações e coalizões do poder legislativo. Isto vem mostrar também a complexidade da própria esfera governamental que, por sua vez, não é homogênea94.
Com relação à participação masculina, entretanto, não havia uma concordância entre as delegadas do movimento e as do governo. As feministas do governo, que organizavam o processo de conferências, estavam de acordo que “homens estratégicos” – ou seja, homens que ocupem posições politicamente estratégicas para os diálogos em prol da cidadania das mulheres – poderiam e deveriam participar das conferências. Assim foi que no processo final, em Brasília, os delegados e observadores presentes eram, em sua maioria, representantes do poder público.
c) Participação de homens delegados na conferência – políticas para mulher versus políticas de gênero?
A retomada deste tema, que surgiu em algumas conferências estaduais, acontece devido a dois pontos principais: a efetiva participação de homens delegados na conferência nacional, vindos dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Norte, e ao questionamento por parte de muitas delegadas sobre como se constituem as políticas para mulheres.
Por um lado, havia o entendimento de que existe uma diferença entre políticas voltadas, especificamente, para os direitos das mulheres e, por outro, as políticas de gênero que beneficiariam também os homens, ainda que indiretamente. Ou seja, as primeiras tratariam de salientar e modificar as desigualdades sofridas pelas mulheres, enquanto que as segundas “deixariam brechas para que os homens também se beneficiassem do processo das conferências para as mulheres, vindo a ter alguns direitos também garantidos” (Diário de Campo, 2004).
94
“Nas legislaturas posteriores à constituinte de 1988, iniciadas em 1999 e 2003, respectivamente, foram enviadas 34 proposições sobre a descriminalização do aborto e acentuou-se a reação conservadora que, na realidade, já vinha emergindo na segunda metade do período anterior. É verdade que houve um breve hiato, em relação a essa manifestação, em que foram apresentados projetos de lei sobre a questão do aborto por malformação fetal. Mas aquela tendência voltou a se acentuar, inicialmente, como uma reação à discussão do aborto por anomalia do feto e, depois, diante das atividades da Comissão Tripartite e da apresentação do seu anteprojeto à Câmara – que, aliás, não chegou a ser votado. Ressalta-se que nenhuma proposta substantiva em relação à discussão do tema foi aprovada. Por fim, no âmbito da sociedade civil, pode-se destacar, nesse amplo período de 1989 a 2006, o maior envolvimento público dos atores políticos e sociais, historicamente comprometidos com o tema – o movimento feminista e a Igreja Católica – , sua ampliação com outros atores, o exercício de novas formas de atuação, a preocupação com seus respectivos discursos e a utilização da mídia como um instrumento político. Houve, sem dúvida, uma grande intensificação do debate” (ROCHA, 2006, p. 10).
Entretanto, este não era um consenso, posto que, para algumas mulheres delegadas e observadoras presentes na conferência nacional, a participação dos homens não era uma questão problemática, nem tampouco a definição de diretrizes que também os contemplasse.
Se, por um lado, havia homens presentes na conferência nacional que participavam e reivindicavam direitos específicos nas áreas de saúde, violência e educação (posto que eram advindos de espaços governamentais referentes aos temas que priorizavam e/ou do ministério público), sem causarem nenhuma interferência aparente no processo decisório da conferência95, ao mesmo tempo, ocorreram fatos, nos quais alguns deles estavam presentes, que merecem ser analisados.
Em mais de um Grupo Temático, particularmente naqueles voltados para a violência e para a saúde, ocorreram alguns “contratempos” nos quais homens delegados estavam inseridos. Relatos de algumas delegadas, somados à minha própria observação em um dos grupos, mostravam que havia um discurso ambíguo em torno desta questão. Ao mesmo tempo em que os homens participavam “da mesma maneira que as mulheres” – intervindo na leitura das diretrizes, apoiando ou não, quando julgavam pertinente – ou seja, da maneira usual e esperada em uma conferência, este “modo” de participar também era questionado. Particularmente, um homem que não era delegado, mas observador, entrou e saiu de mais de um subgrupo temático porque foi solicitado que se retirasse, por parte da coordenadora do subgrupo. Segundo relatos, o mesmo estava “solicitando” a algumas mulheres delegadas presentes que alterassem algumas diretrizes que ele julgava pertinentes. Para aquelas mulheres que solicitaram sua saída da sala e do grupo de votação, aquele homem “estava utilizando o espaço e os direitos das mulheres, manipulando para que o que ele julgava pertinente entrasse nas diretrizes” (Diário de Campo, 2004). Mulheres observadoras também atuavam em articulação com as que eram delegadas, de forma que suas opiniões se presentificassem de alguma forma, apesar de não poderem, pelo regimento interno, votar? Sim, entretanto, as participantes relataram um incômodo quanto à forma de dialogar daquele homem com o subgrupo.
Após sua saída de uma das salas, houve “bate-boca” entre ele e as responsáveis pelos trabalhos daquele grupo. Este incidente causou vários rumores posteriores, nos
95 Posto que, para muitas feministas contrárias à participação dos homens como delegados – representantes dos direitos das mulheres – , a própria presença dos mesmos poderia interferir no processo da conferência, no seu desenvolvimento e em sua conclusão (Diário de Campo, 2004).
corredores e espaços informais da conferência. De uma forma geral, comentava-se que aquele homem estava “passando dos limites” (Diário de Campo, 2004).
Outros homens observadores estavam presentes, inclusive um dos quais procurou participar do processo em Pernambuco e não pôde. Mesmo como observador, foi classificado por algumas delegadas como “alguém que interfere no processo ou um não-aliado”. Apesar da insatisfação daquelas delegadas, representantes do movimento feminista na conferência nacional, este homem obteve a possibilidade de participar como observador, advinda da comissão organizadora do evento, ou seja, de membros da própria Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Se o movimento social organizado não aceitava sua presença, havia, de maneira concomitante, feministas do governo que consideravam “necessária e fundamental” essa mesma presença. Uma das representantes do governo comentou, em diálogo durante a conferência, que não considerava a ida de homens delegados como uma questão problemática, mas que teve que tratá-la com prudência, posto que, em algumas conferências, as representantes do movimento feminista e de mulheres, foram terminantemente contra a participação de homens (entrevista a representante da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, durante a conferência nacional. Diário de Campo, 2004).
Na conferência do estado do Amazonas também houve problemas neste sentido. Relatos de delegadas daquele estado indicavam que alguns homens homossexuais que trabalhavam com perspectiva de gênero foram retirados da conferência. O argumento era de que eles “não tinham vulva”, logo não poderiam participar. Porém um homem tetraplégico foi aceito. Ele era presidente de uma associação de deficientes. Elas não souberam explicar bem o porquê de um homem tetraplégico ter acesso a espaços feministas, apesar de “ser homem” e, portanto, enquadrado “fora” das políticas para as “mulheres”.
Este relato apontava para a separação no campo político entre mulher e gênero. Desta vez, o que chama a atenção é que o termo “mulher” é associado à política, enquanto que gênero é chamado de conceito acadêmico. “Gênero é uma coisa, mulher é outra. Gênero não é um conceito político. Ele é mais maleável que o conceito de mulher” (diálogo entre delegadas do Movimento Feminista do Amazonas e de Pernambuco, nos espaços informais da conferência. Diário de Campo, 2004).
De uma forma geral, houve na conferência nacional, em termos de temáticas, a preocupação de manter as diversas vozes trazidas das conferências estaduais. Dessa
forma, mantiveram-se as temáticas propostas no início do processo, pela própria Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Ocorreu que algumas diretrizes internas a cada temática foram suprimidas ou alteradas. As diretrizes nas quais havia algum indicativo de ação junto aos homens constituíram os momentos mais polêmicos. Em contrapartida, a diretriz de descriminalização do aborto foi aprovada sem dificuldades. Fizeram-se presentes, mais uma vez, as questões de cunho político, tais como, identidade e legitimidade dos discursos e da representação feministas, bem como pluralidade de estratégias políticas, visto que já haviam aparecido na Conferência Estadual de Santa Catarina e em outras conferências, como as de Pernambuco e Amazonas. Estas discussões indicam um pensamento político feminista, sobre o qual são constituídas estratégias de articulação em prol de políticas públicas com formas discursivas específicas de diálogo e embate entre o movimento e o governo.
Se as conferências foram um espaço de confluência de discursos políticos entre o governo e o movimento feminista, um outro encontro reuniu governo e academia no mesmo espaço político. Esse foi o Encontro Nacional Pensando Gênero e Ciências.