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4. ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES COLETADAS

4.2. Análises globais

4.2.2. Questionário sobre os Exames

O QE foi aplicado na segunda aula da unidade de ensino e respondido por seis dos sete colaboradores da pesquisa.

O item “a” da primeira questão era: “Você, alguém da sua família ou algum amigo/colega já realizou alguma radiografia (exame de raio-X), tomografia computadorizada, ressonância magnética ou tomografia por emissão de pósitrons? Qual ou quais?”. A radiografia foi mencionada cinco vezes, a RMN três vezes, a CT uma vez e a PET nenhuma. De fato, esperávamos um número maior de menções à radiografia em comparação aos outros, afinal, trata-se de um exame bastante difundido, com custo relativamente baixo e aplicável a casos que ocorrem com maior frequência, como fraturas e análises dentárias.

O item “b” era: “Por que você ou essa pessoa teve que fazer esse(s) exame(s)?”. Entre as respostas estão: fraturas, câncer, enxaqueca; problemas nos rins, pulmões e coração. Duas das respostas obtidas são apresentadas a seguir:

Marta: “Tive que fazer, primeiramente para saber se meu probleminha do coração era maligno ou beligno, depois foram exames de rotina mesmo, que faço todo ano.”. Pérola: “Enxaqueca e rim, no caso da radiografia foi com contraste p/ rim.” (grifo da licencianda).

O item “c” era: “Já lhe contaram algo sobre o funcionamento de algum ou alguns desses exames? Se sim, diga quem lhe contou e o que lhe contaram”.

Por já terem tido algum contato com radiografias, RMN’s e CT’s, seja porque as realizaram ou porque conheciam pessoas que as tivessem realizado, esperávamos que todos os licenciandos manifestassem representações sobre o funcionamento de tais exames. Nesse sentido, surpreendeu-nos o fato de que a resposta da licencianda Marta foi “Não”. Contudo, atentando para a maneira pela qual a pergunta foi formulada, esse “não” pode indicar apenas que nunca alguém havia lhe contado algo a respeito do funcionamento dos exames e não que ela não tivesse nada a dizer sobre isso. Salientamos ainda que como Marta afirmou em sua resposta anterior que realizava exames de rotina anualmente, era de se esperar que, de fato, ela tivesse representações sobre seus funcionamentos. Algo como “Na ressonância magnética é necessário retirar todos objetos metálicos antes de entrar na sala”.

Os outros cinco licenciandos responderam das seguintes maneiras:

Alfredo: “Sim, que serão emitidos raios radioativos p/ conseguirem obter a imagem necessária. Uma pessoa que trabalha tirando raio-X fica muito exposta à radioatividade, sendo perigoso p/ sua saúde”.

Selma: “Sim; sobre o exame de raio-X já ouvi em TV, tomografia já ouvi falar também, mas não lembro quem; ressonância magnética ouvi falar quando fui fazer o exame”.

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Iury: “O procedimento [da radiografia] é que não deve se submeter a esse exame portando algum metal e o técnico fica ‘protegido’ por uma placa de chumbo”. Levi: “Sim; ressonancia pelo o uso de ímas muito fortes”.

Pérola: “Sim, na disciplina de fenômenos biológicos, sobre os contrastes que são aplicados nesses exames”.

As respostas nos oferecem indícios para afirmar que as representações dos licenciandos sobre aspectos do funcionamento dos exames de imagem prévias à unidade de ensino eram bastante limitadas no que concerne a seus embasamentos científicos, resumindo-se a informações incompletas e algumas concepções alternativas [Consideração nº 6] - como a confusão entre radioatividade e radiação ionizante e a ideia de que a radiografia tem relação com radioatividade, ambas manifestadas por Alfredo. De fato, tendo em vista as Considerações nº 1 e nº 2, podemos pressupor que as representações dos licenciandos sobre o funcionamento desses exames foram produzidas a partir da realização dos mesmos e/ou a partir do contato com outras pessoas/mídias - e não a partir de momentos de estudo formal sobre o assunto, pois, ao que tudo indica, antes de desenvolvermos o trabalho pedagógico com a unidade de ensino, eles inexistiram para esses licenciandos.

A incompletude das informações trazidas nas respostas dos licenciandos pode ser evidenciada a partir de alguns questionamentos: “De que maneira os raios emitidos permitem obter a imagem radiográfica, Alfredo?”; “Por que é perigoso trabalhar tirando radiografias, Alfredo?”; “Por que quem faz uma radiografia não pode estar portando objetos metálicos, Iury?”; “Por que o técnico deve ficar protegido por uma placa de chumbo durante o exame, Iury?”; e “Qual a função dos ímãs muito fortes na ressonância magnética, Levi?”.

Em síntese, é possível dizer que as representações manifestadas pelos licenciandos estão calcadas principalmente em repetições empíricas (cópias mnemônicas) e formais (dizer o mesmo de outra forma) de informações que circulam no senso comum e que costumam ser mencionadas quando da realização dos exames, como as de que fazer uma radiografia e trabalhar com isso envolve certo risco à saúde, sendo necessário se proteger com materiais de chumbo; de que é necessário retirar objetos metálicos quando da realização de radiografias; e de que o aparelho de RMN tem um ímã muito forte.

A Consideração nº 4 indica que alguns licenciandos representavam os raios X e a radioatividade de maneira semelhante. A resposta de Alfredo, que confundiu os raios X e a radioatividade, além de corroborar essa consideração, permite ampliá-la, afirmando que havia certa confusão entre esses conceitos. Nesse sentido, reformulamos a Consideração nº 4: as representações de alguns licenciandos sobre a natureza dos raios X e da radioatividade

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prévias à unidade de ensino eram similares e/ou se confundiam [Consideração nº 4 reformulada].

Apenas dois licenciandos (Alfredo e Iury) evidenciaram em suas respostas conhecer riscos envolvidos com a realização dos exames de imagem, especificamente, com a realização de radiografias. Apesar disso, parece-nos que a informação de que há riscos quando da realização de radiografias tem bastante circulação, constituindo-se como uma informação que pode ser atrelada ao senso comum. Consequentemente, cremos que os licenciandos os conheciam, embora não tenham explicitado isso em suas respostas – e, de fato, a questão não se referia diretamente aos riscos. Independentemente disso, mesmo os que indicaram conhecê-los, não especificaram quais seriam suas origens ou motivos. Temos, assim, o primeiro indício que embasa nossa sétima consideração: ainda que soubessem da existência de riscos associados à realização de exames de imagem, antes da unidade de ensino os licenciandos não evidenciaram conhecer as naturezas, origens ou motivos desses riscos [Consideração nº 7].

Ainda sobre o item “c” da primeira questão, dois dos cinco licenciandos (Selma e Pérola) não explicitaram muito bem o que sabiam sobre o funcionamento dos referidos exames, o que pode indicar que suas representações sobre o assunto ainda não estavam bem formuladas para eles mesmos – o que também corrobora a consideração de que as representações dos licenciandos sobre aspectos do funcionamento dos exames de imagem prévias à unidade de ensino eram bastante limitadas no que concerne a seus embasamentos científicos, resumindo-se a informações incompletas e algumas concepções alternativas (Consideração nº 6).

No que diz respeito a quem lhes havia contado algo sobre o assunto, apenas dois responderam (Selma e Pérola), citando a televisão – o que corrobora a Consideração nº 2 - e a disciplina “Física Aplicada aos Fenômenos Biológicos” (terceiro semestre do curso). Os outros podem ter se esquecido de quais foram suas referências sobre o assunto ou até mesmo se esquecido de responderem ao questionamento.

A terceira e última questão era: “O desenvolvimento da tecnologia tem ajudado bastante o desenvolvimento da física e, por outro lado, o desenvolvimento de conhecimentos na física tem contribuído para inúmeros desenvolvimentos tecnológicos, desde aqueles que serviram para a guerra até aos que ajudaram muita gente a viver mais. Como você acha que a física contribuiu para o desenvolvimento: a) Do aparelho de radiografia (raio-X)? b) Do aparelho de tomografia computadorizada? c) Do aparelho de ressonância magnética? d) Do aparelho de tomografia por emissão de pósitrons?”.

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O licenciando Iury deu uma única resposta a todos esses itens: “Medicina, segurança”. Já Marta respondeu “Não faço ideia” em todos eles.

Quanto aos outros quatro licenciandos, especificamente sobre o item “a”, referente ao aparelho de radiografia, obtivemos as seguintes respostas:

Pérola: “Descoberta da radioatividade”. Levi: “Emissão de radiação de alta penetração”.

Selma: “Com a descoberta das ondas de Raio-X e depois aprimoramento das máquinas”.

Alfredo: “Descoberta da radioatividade e que através dela é possível obter imagens de órgãos e ossos e como se proteger dela, assim, foi descoberto outros compostos químicos radioativos”.

As representações dos licenciandos Pérola e Alfredo corroboram a Consideração nº 4 reformulada, pois indicam a presença da concepção alternativa de que o aparelho de radiografia funciona com base na radioatividade. Selma e Levi, por sua vez, embora tenham respondido com pouca especificidade, foram capazes de afirmar, respectivamente, que o acontecimento fundamental para o desenvolvimento do aparelho de radiografia foi a descoberta dos raios X e que a radiação utilizada pelo aparelho de radiografia possui alto poder de penetração.

Quanto ao item “b”, referente ao aparelho de CT, os quatro licenciandos responderam afirmando que não sabiam nada sobre o seu funcionamento e/ou desenvolvimento.

Sobre o aparelho de RMN (item “c”), a licencianda Pérola afirmou que não sabia nada a respeito, ao contrário dos outros três, conforme suas respostas a seguir:

Levi: “Interferência eletromagnetica".

Selma: “Com o desenvolvimento da compreensão do eletromagnetismo e sua aplicação.”.

Alfredo: “Algo relacionado ao magnetismo?”.

A representação de Levi sobre o funcionamento físico do aparelho de RMN é formada por uma concepção alternativa (associar o funcionamento da RMN a um tipo de interferência). A resposta de Selma, embora demasiadamente genérica, sugere que a representação da licencianda sobre o aparelho de RMN era composta por sentidos condizentes com a explicação de seu funcionamento pela física. A resposta de Alfredo, por sua vez, ao indicar incerteza por meio de uma frase interrogativa, sugere que suas representações sobre o assunto ainda não estavam bem formuladas. Uma possibilidade a se considerar é a de que o adjetivo “magnética” presente no nome do exame, ao sugerir que se trata de algo que envolve

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magnetismo, tenha funcionado como condição de produção para as respostas dos licenciandos.

No que diz respeito ao item “d”, referente ao aparelho de PET, enquanto Alfredo e Selma disseram que não sabiam nada a respeito, Levi e Pérola responderam das seguintes maneiras:

Levi: “Pela interferência das partículas carregadas”. Pérola: “Átomo, partículas elementares”.

Como se trata do exame menos conhecido entre os quatro que abordamos na unidade de ensino, não esperávamos obter respostas que guardassem muita coerência com as interpretações da física sobre o assunto. Dessa forma, embora as respostas dadas por Levi e Pérola tenham pouca especificidade, foram mencionados termos como “partículas elementares” e “partículas carregadas”, os quais possuem relação com o funcionamento do aparelho de PET. Acreditamos que a presença da palavra “pósitron” no nome do exame, tenha se constituído como a principal condição de produção das respostas de Levi e Pérola, pois ao lerem a palavra “pósitron” os licenciandos devem ter se lembrado que o pósitron é uma partícula e que os átomos são compostos por partículas. Assim, embora sugiram que tais licenciandos saibam que o pósitron é uma partícula, suas respostas, por carecerem de especificidade - ao não mencionarem palavras como “antipartículas” ou “aniquilação”, por exemplo -, sugerem também limitado conhecimento acerca do funcionamento e/ou desenvolvimento da PET.

Em conjunto, as respostas dadas aos itens da terceira questão do QE nos permitem formular nossa oitava consideração: as representações dos licenciandos sobre a participação da física no desenvolvimento dos aparelhos de radiografia, CT, PET e RMN prévias à unidade de ensino eram formadas em boa medida por informações desconexas, carecendo de especificidade [Consideração nº 8].