CAPÍTULO 2 TRANSEXUALIDADE: CATEGORIA SOCIAL DE GÊNERO OU CATEGORIA DIAGNÓSTICA?
2.3 CONTEXTUALIZAÇÃO DA VISÃO CRÍTICA, DESPATOLOGIZADA
2.3.5 Questionamentos a respeito da obrigatoriedade do laudo
Através da bibliografia consultada pude perceber que os textos que defendem a necessidade do acompanhamento com equipe multidisciplinar e, mais ainda, do acompanhamento com psicóloga e psiquiatra para a produção do laudo que autoriza o Processo Transexualizador (exigência da portaria do CFM, 2010) o fazem por acreditar que “de vital importância é o correto diagnóstico, uma vez que o tratamento cirúrgico é irreversível e, se incorretamente indicado, pode levar até ao suicídio.” (ATHAYDE, 2001:400). Por sua vez, através da leitura de artigos produzidos por autores que se orientam pela percepção despatologizada da transexualidade, ou seja, que a compreendem como uma entre tantas possibilidades de construção identitária, pode-se perceber que por diversas vezes é colocada a problematização em torno da obrigatoriedade do acompanhamento compulsório para a obtenção do laudo médico.
Se partirmos do pressuposto de que há múltiplas possibilidades de experiências e práticas de gênero e que as pessoas que solicitam alterações corporais ou desejam migrar legalmente de um gênero imposto para outro com o qual se identifica, são sujeitos capazes de conferir sentido para estas transformações, não há justificativa para definir um protocolo fundamentado no transtorno mental. (BENTO, 2012b)
Judith Butler (2009) aponta que na elaboração do diagnóstico, os profissionais fazem várias pressuposições que comprometem a autonomia trans. Segundo esta autora, as formas de avaliação psicológica que pressupõem que a pessoa diagnosticada é afetada por
forças que ela não entende, considerando que essas pessoas “deliram” ou são “disfóricas”. O diagnóstico seria baseado na ideia de que certas normas de gênero não foram “adequadamente assimiladas” e que teria ocorrido algum “erro” ou “falha”. Butler aponta ainda que o diagnóstico assume pressupostos sobre os pais e as mães e sobre o que seja ou o que deveria ter sido a vida familiar normal. Ele pressupõe a linguagem da correção, adaptação e normalização. Ele busca sustentar as normas de gênero tal como estão constituídas atualmente e tende a patologizar qualquer esforço para produção do gênero seguindo modos que não estejam em acordo com as normas vigentes (ou que não estejam de acordo com uma certa fantasia dominante do que as normas vigentes realmente são). (BUTLER, 2009:97)
Porém, ainda segundo esta pesquisadora, uma vez que o diagnóstico é agora o instrumento pelo qual se podem obter benefícios, seria um erro reivindicar a abolição do diagnóstico sem que, antes, sejam postas em prática estruturas que possibilitem que garantam o estatuto de legalidade da transição, garantindo que os procedimentos a ela relacionados sejam pagos. (BUTLER, 2009:103)
Relembrando que as pesquisadoras Sampaio e Coelho (2012) expõem em seu texto o desagrado que um de seus interlocutores relatou sentir em relação ao laudo, e ao fato de que para poder realizar as cirurgias e ter um alívio quanto ao seu desconforto, ele teria que ser considerado como um “transtornado; isso é desrespeitoso. Você pode não ser considerado louco, mas você está com um laudo de um transtorno mental e isso é ruim” (Paulo apud SAMPAIO, COELHO, 2012:643).
O laudo é o instrumento máximo dos guardiões das normas de gênero, que para atestar se o indivíduo é um “verdadeiro transexual”, parte do pressuposto de que existiria uma identidade transexual universal, que cumpre exatamente com os pressupostos que foram estabelecidos por pessoas que certamente, não vivenciam a transexualidade, que através do discurso médico e científico, reforçam a norma binária dos gêneros.
Cabe apontar a discussão levantada por uma de nossas interlocutoras, uma ativista dos direitos Trans. Ela afirme enfaticamente que ‘verdadeiro transexual’ é um termo transfóbico ridículo” e que “aliás, a visão científica sobre as identidades trans* de modo geral é transfóbica e cissexistas. Expressões como ‘nasceram em corpos errados’ ‘fulana é mulher biológica e a trans* não’ essa visão patologizante é aviltante”.
Ela amplia a discussão a respeito da expressão “mulher biológica” em uma postagem na sua página pessoal do facebook. Utilizada por ela como mais um instrumento de militância. Ela coloca que a biologia por si só não pode decidir quem é homem e quem é mulher, que o que ela pode é descrever a anatomia, dizer como cada parte do corpo interage entre si, “mas genital, anatomia não definem gênero de ninguém.” Ainda com as suas palavras:
Eu sou uma mulher biológica, pois todos corpos são biológicos - se eu digo que sou mulher, logo, meu corpo é de uma mulher pois, quem define a que gênero pertence meu corpo é a sociedade - a biologia não é um dado que nasce do vácuo senão pela materialização da sociedade, porém, a sociedade não tem mais competência que eu própria para dizer se sou homem ou mulher. Não há qualquer exame bioclínico que me imponha que sou homem ou mulher, pois ser homem ou mulher é uma construção que não se define assim que se nasce.
Com essa fala nossa interlocutora resgata o debate a respeito da autonomia de decisão sobre os corpos, sendo que a palavra final que define uma pessoa como homem ou mulher (ou como os dois, ou como nenhum dos dois), deve ser dada pelo próprio indivíduo. E neste trecho ao problematizar a construção do conhecimento biológico científico, também rompe com a idéia da existência de um sexo biológico, dado, não natural, objetivamente cognoscível, em oposição a um gênero social, construído, uma vez que sexo e gênero não existem antes do discurso, não existem antes da cultura.
CAPÍTULO 3 - DESPATOLOGIZAÇÃO SEM PERDA DE