2 RELAÇÕES ENTRE COLEÇÃO, DOCUMENTO E CULTURA: EM BUSCA DE
4.3 Vivendo de vassado
4.3.1 Quiccheberg e o vrimeiro tratado sobre museus
Difícil imaginarmos que em 1565 tenha surgido um manual sobre museus, pois a literatura da área fala em surgimento destas instituições, tal como as conhecemos, a partir do século XVIII, mas é o que de fato acontece com o tratado de museus de Quiccheberg. A relevância deste manual é surpreendente, não só pelo ineditismo do
FIGURA 8 – Capa do manual do Quiccheberg
tema, mas pela profundidade da abordagem, encontrada em sua obra temas que ainda hoje são atuais:
Si le patrimoine immatériel – dont le terme ne remonte à guère plus loin que le dernier quart du XXe siècle – est bel et bien déjà présent dans les musées, à quand remonte son introduction et comment ont été résolues les questions liées à sa visualisation ? Bien que ce débat soit trèscontemporain, la problématique semble avoir toujours existé ; elle est déjà abordée dans le premier traité de muséologie au monde, rédigé par Samuel Quiccheberg en 156550. (MAIRESSE, 2004, p. 54).
Para exemplificar a contribuição do manual, faz-se necessário primeiro entender a concepção geral do seu trabalho que propõe a organização da coleção em cinco grandes temas (inscriptions) que podem ser subdividas:
We use the term inscription in this way in our theater in case any king or Prince or other patron should either have inscribed, in like fashion, collections of individual objetcs for especific places or indeed have resolved to do inscribe them51. (QUICCHEBERG, 1565).
As “inscriptions” de Quiccheberg podem ser entendidas como um sistema onde existem cinco classes principais que podem ser utilizadas de acordo com os contextos e que se apresentam basicamente da seguinte forma: criador ou fundador da coleção (que pode ser o colecionador ou mesmo Deus no caso da natureza, por exemplo); objetos trabalhados (no sentido artístico) pelo homem (artificialia); objetos da natureza (naturalia); ferramentas de artifício (meios de agir sobre a natureza no intuito de conhecê-la) e representações do conhecimento (no caso de mapas, por exemplo, que representam determinado lugar).
Le coeur du traité est le système de classification qu’il propose, celles-ci ayant pour but de décrire l’ensemble des merveilles de l’univers. La classification comprend 53 inscriptions – c’est le titre du livre – réparties en cinq classes : la première décrit principalement le fondateur du théâtre – le collectionneur – sa généalogie et l’ensemble de ses possessions ou des faits se rapportant à sa région ; la seconde classe aborde les ouvrages d’art ou les réalisations humaines : statues, artisanat, vases, mobilier, monnaies et médailles ; la troisième classe décrit les oeuvres de la nature : animaux
50 Se o patrimônio imaterial - cujo termo remonta a pouco mais do que o último quarto do século XX - de fato
já está presente em museus, quando se deu sua introdução e como foram resolvidas as questões relacionadas à sua visualização? Embora este debate seja contemporâneo, o problema parece ter sempre existido; Ele já foi abordado no primeiro Tratado de museologia do mundo, escrito por Samuel Quiccheberg em 1565.
51 Nós usamos o termo inscrição (tema) desta forma em nosso teatro (museu ou gabinete), para o caso de que
qualquer rei, príncipe, ou patrono tenha feito inscrições (temas ou classes) de coleções com objetos individuais para lugares específicos, ou mesmo para quando tenha, de fato, resolvido inscrevê-las (temas).
merveilleux, animaux, fruits, plantes, pierres et terre ; la quatrième classe recense les outils nécessaires à l’activité humaine : instruments de musique, outils mathématiques ou de médecine, armes, vêtements… enfin, la dernière classe énumère les images produites par l’homme : peintures à l’huile, aquarelles, gravures, blasons, etc52. (MAIRESSE, 2004, p. 55).
O ato colecionador renascentista surge, no contexto dos museus, com uma sistematização impressionante. Estava posta uma visão de uma coleção vasta e com auspícios de representar todo o mundo conhecido, como era de se esperar do contexto colecionista da renascença, mas a complexidade da proposição classificatória de Quiccheberg guarda contornos que só seriam encontrados na caracterização iluminista. O manual inaugura um acirramento do espírito científico que levaria o ato colecionador à criação de grandes sistemas classificatórios para ordenar o vasto conhecimento que se apresentava às coleções no período iluminista. Estas constatações elevam a contribuição do manual a uma condição importante no estatuto científico da Museologia e da prática museológica, pois já propunha:
Quiccheberg est en effet l’un des premiers à proposer, par le biais de son système de classes et d’inscriptions, une méthode d’inventaire ou de catalogage des collections – ce qu’il prône d’ailleurs avec vigueur dans son traité53. (MAIRESSE, 2004, p. 59).
Ainda tentando recuperar a contribuição de Quiccheberg, um tema importante e atual para a Museologia contemporânea já se mostrava na obra do autor, que é a questão da transmissão do conhecimento através da memória:
Si l’immatériel, par le biais de tous les moyens qui lui sont propres pour se manifester, occupe une place importante au sein du projet muséal, la
52 O cerne do Tratado é o sistema de classificação que ele propõe, tendo por objetivo descrever todas as
maravilhas do universo. A classificação é composta por 53 entradas - é o título do livro - divididas em cinco classes: a primeira descreve principalmente o fundador do museu - o colecionador -, sua genealogia e todas suas posses ou fatos relativos à sua região. A segunda classe aborda as obras de arte ou as realizações humanas: estátuas, artesanato, vasos, móveis, moedas e medalhas; a terceira classe descreve as obras da natureza: animais maravilhosos, animais, frutas, plantas, pedras e terra; a quarta classe identifica as ferramentas necessárias para a atividade humana: instrumentos musicais, ferramentas matemáticas ou médicas, armas, roupas; finalmente, a última classe enumera as imagens produzidas por seres humanos: pinturas em óleo, aquarelas, gravuras, brasões, etc.
53Quiccheberg é um dos primeiros a propor, por meio do sistema de classes e entradas, um método de
inventário e catalogação de coleções - o que ele defende com força em seu Tratado.
question de sa transmission semble, pour Quiccheberg, à la fois simple et complexe. Simple, elle l’est parce qu’il paraît évident, pour l’auteur des Inscriptions, que tout ne peut être conservé : le vivant ou le règne de l’organique est promis à une dégradation (à une transformation) inéluctable dont le savant ne se soucie guère. L’écrit et l’image en préserveront les traces. Complexe, car face à cette certitude, Quiccheberg paraît encore se référer à l’art de la mémoire – ou au travail en atelier – qui passe par l’homme pour conserver la connaissance54. (MAIRESSE, 2004, p. 60).
Retomando então a caracterização do ato colecionador renascentista no contexto da Museologia, temos uma concepção de coleção onde a amplitude do acervo guardava auspícios de totalidade, mas a sistematização do conhecimento orientava a erudição e o espírito colecionista da época. Ou seja, existia uma pacificação da volúpia colecionadora através da organização do conhecimento, identificando e atribuindo valor às coisas (objetos e seres). A principal distinção, que mais tarde caracterizou a emergência dos museus, foi entre arte (artificialia) e história natural (naturalia). A concepção de Quiccheberg era, no entanto, mais audaciosa, flertando com a valorização da imaterialidade (sobretudo do conhecimento) e com a problematização (categorização) do sujeito construtor (colecionador) do conhecimento:
Une sorte de hiérarchie apparaît assez clairement dans le système des inscriptions qui débute avec le divin et le collectionneur démiurge, reproduisant le monde dans sa chambre, puis énumère les productions humaines, passe ensuite à celles de la nature et aux outils nécessaires pour les produire55. (MAIRESSE, 2004, p. 55).
54 Se o imaterial, através de todos os meios que são específicos para manifestar-se, ocupa um lugar importante
no âmbito do projeto do Museu, a questão de sua transmissão parece, ao mesmo tempo, para Quiccheberg, simples e complexa. É simples, porque parece óbvio, para o autor das entradas, que nem tudo pode ser armazenado: a vida ou o reino orgânico são destinados à degradação (à transformação) inevitável que para o cientista importa pouco. A escrita e a imagem preservarão os vestígios. É também complexo, porque perante esta certeza, Quiccheberg ainda parece referir-se a arte da memória - ou ao trabalho em ateliê - que passa pelo homem para manter o conhecimento.
55
Um tipo de hierarquia é bastante claro no sistema de registro que começa com o Divino e o Demiurgo colecionador, reproduzindo o mundo em seu quarto e em seguida, enumera as produções humanas, além da natureza e as ferramentas necessárias para se produzir.
Essa coleção orientada para a totalidade da representação do universo, mas categorizada segundo princípios de amplo espectro de aplicações não vislumbrava, no entanto, um amplo acesso social, pois o seu modelo fora construído para os príncipes e seus gabinetes de curiosidades. Porém ao invés de se deter apenas em referências protocolares à realeza, Quiccheberg lança as bases para a caracterização de um espírito que seria consolidado somente no período iluminista. Sendo ainda a sua concepção de organização das coleções (e por extensão do conhecimento) dotada de bases filosóficas profundas e inspiradoras:
Since all those topics are present that universal nature embraces, that all books teach, that all of human life can offer, it is perfectly clear that no discipline can be taught, no work of art examined, no state of life imagined, that does not have its foundations, equipment, means of support, or examples here in the theater56. (QUICCHEBERG, 1565).
Por fim, fica-se com uma imagem final do ato colecionador renascentista em sua extensão museológica com a centralidade da figura do sujeito (demiurgo) como instaurador do ato colecionista movido ainda pela curiosidade, mas orientado pelas lentes da sistematização do conhecimento e, embora confinado nos armários da realeza, vislumbrando e ansiando pelo futuro.