4.2 ZONA 2
4.2.2 Quintal 2 – Ely Ana – Bairro Roman
O espaço do quintal 2 teve em sua gênese o processo descrito anteriormente sobre a ocupação territorial dos projetos do império de importar mão de obra alemã e italiana. Neste contexto está o bairro Roman, das terras distribuídas para os italianos nesta época. O bairro é caracterizado por um córrego com fluxo bem definido e pela presença de vegetação de mata atlântica, havendo bolsões e corredores ecológicos que criam um clima ameno na área. Também tem como característica um grande número de espécies de plantas e animais silvestres. Estas características podem ser vistas na fotografia a seguir:
O espaço é definido pela predominância de espaços de vegetação secundária de espécies nativas, através da regeneração ecológica (CASSINI, 2005), havendo entre as casas grandes distâncias, e terrenos de proporções maiores. Assemelha-se a zona rural não só em sua forma, com estradas de terra e muros naturais, mas também em sua cultura, que possui laços muito fortes entre os moradores da região, por parentesco, apadrinhamento ou tempo de moradia no local, e pela troca e doação do excedente produzido nos quintais. Outro fato que se assemelha é posto por MEDEIROS, 2002:
“O espaço rural corresponde a aquilo que não é urbano, sendo definido a partir de carências e não de suas próprias características. Além disso, o rural, assim como o urbano, é definido pelo arbítrio dos poderes municipais, o que, muitas vezes, é influenciado por seus interesses fiscais”.
A região é povoada predominantemente por descendentes diretos de italianos, que carregam sua cultura em relação à natureza como herança. O principal indicador deste fato é a própria aparência física das pessoas, além dos saberes reproduzidos por grande parte dos integrantes do bairro, como a culinária e a dança. Apesar destas características, é próxima a área central urbana e não enfrenta as dificuldades com vias de fluxo nem com o acesso a tecnologias, como internet rápida e televisão a cabo.
O morador da casa Luiz Otávio Moras, conhecido como Canário por todos, um dos moradores do quintal, é descendente direto dos italianos, preservando os aspectos físicos de seus ancestrais, além da cultura e das técnicas de manejo. O sujeito da entrevista neste estudo foi sua mulher, Ely Ana, mulher branca, que mora com ele e sua filha Liliane na casa, com presença descontinua de seu filho Luiz Otávio Filho, criado nessa casa e que hoje considera a área como parte de sua identidade, já que também cuidava e interagia com ela.
A renda da família gira em torno dos 8 salários mínimos gerados por ambos. Canário é dono de uma empresa de transporte que escoa a produção dos pequenos produtores e agriculturas familiares para o CEASA em Juiz de Fora, posição conquistada através da sabedoria popular sobre espécies e de boas técnicas de comércio, representando os lavradores de Barbacena na busca de um acordo que
seja mais lucrativo para todos. Canário não comercializa as espécies plantadas em sua casa, utilizando-as apenas para subsistência e para compartilhar com sua rede de afeto na comunidade local. As outras provedoras de renda da casa são Ely Ana que é formada em pedagogia mais hoje se encontra sem emprego, e Liliane, que trabalha em uma escola em Barbacena e também trabalha como advogada autônoma, tendo pouco tempo para a apreciação do quintal. A família reside no local há 32 anos, tendo em todos eles cuidado e interagido diariamente com o quintal.
Dona Ely Ana nos diz que a principal influência em seu modo de lidar com a natureza foi sua família, tendo em destaque sua mãe, Dalva. Proveniente, como Tião Massaroca, já entrevistado e amigo da família, de Piedade do Rio Grande , Minas Gerais, cidade isolada na época, onde mal se tinha luz, viveu em uma área com forte relação com a natureza. Esta foi palco de processos sociais como brincar, ir para a escola e roubar mangas dos vizinhos. Viveu de perto a relação entre a vida cotidiana e os processos ambientais, tendo a subsistência totalmente tirada da extração dos bens plantados e dos animais criados. A vida na roça era extremamente dependente da natureza e de seus processos, assim como do manejo e das técnicas necessárias, aprendidas por ela após 15 anos na roça com sua mãe.
Ely Ana se aprofundou no estudo do uso das plantas para usos medicinais, estudando os livros de Jaime Brüning, “Cura-se com remédios caseiros” e “A saúde brota da natureza”, ambos sobre como identificar e manejar espécies de forma benéfica para saúde do ser humano, de pequenas gripes, até a cura para a histeria, segundo Brüning sendo “andar descalço com pé em contato com o chão, para conectar-se a terra“.
O quintal é organizado de maneira plural, sendo uma área grande em território. A parte frontal do terreno tem uma horta orgânica na depressão de inundação do córrego do bairro. Esta parte do terreno é extremamente fértil devido ao depósito de sedimentos orgânicos no período de enchimento do córrego, com bolsões de vegetação, sendo um deles planejado pelos gestores, com pés de abacate, banana e manga. Na parte de trás do terreno temos um pomar de cítricos e um galinheiro. Também há uma fonte de água corrente, onde são realizadas atividades da vida cotidiana.
respectivamente presentes na horta orgânica e no pomar de cítricos (laranja, limão, lima, mexerica). Há também um galinheiro. Estas áreas foram estipuladas com o objetivo de consumo próprio, para comer in natura, na produção de geleias, condimentos ou em remédios caseiros. O excedente do consumo próprio da família é compartilhado de forma afetuosa com pessoas queridas. Ely Ana destaca a segurança de se saber o que está comendo, se é orgânico e sem agrotóxicos.
O que observamos é uma área com presença de interação ecológica, com corredores ecológicos e refúgios de mata atlântica, como posto por OKLAY, 2004: “Essa diversidade contribui não somente para a segurança alimentar e estabilidade econômica dos agricultores familiares, mas para o equilíbrio do sistema agroecológico como um todo”. O grande número de espécies de fauna e flora, e que faz parte de uma grade de ecossistemas existentes nos quintais da região. Juntos formam uma rede de residências com baixo impacto nas dinâmicas ecológicas, que são bem estabelecidas e capacitam suas funções de forma estável.
O terreno para esta família é exposto aqui por Dona Ely Ana: “é como cuidar dos dentes, é como cuidar de si mesmo”, mostrando sua relação com o espaço e com a natureza mesmo sem saber das importâncias ecológicas. Os filhos foram criados na mesma casa desde criança, tendo-a presente em sua construção individual e social, como uma marca deixada pelo espaço. Suas relações de afeto passaram por este filtro, desde apelidar as galinhas, até acordar às 5 horas da manhã para pegar ovos.
Para Ely Ana a importância do quintal vai além da segurança alimentar (CORDEIRO & CAMURÇA, 2013), sendo também um remédio para a saúde física e mental, como um lugar que expressa pertencimento, pureza e beleza cênica. Destaca também o prazer do cheiro de ar puro da mata, finalizando dizendo que jamais abandonaria a casa e seu quintal.