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CAPÍTULO 03 Da Experiência à Identidade “Fraternidade Esperança”

3.5 Quinto momento: a identidade coletiva religiosa oriunda desse processo

A decisão de romper com a Congregação das Irmãs da Divina Providência deu-se em 03 de setembro de 1978. Após isso, foram feitos os encaminhamentos para que efetivamente o grupo fosse reconhecido dentro da instância católica.

Aí fizemos341 uma Assembléia e decidimos romper e formar o grupo. Aí

escolhemos o nome de Fraternidade Esperança. Tudo era decidido em grupo, aí nos perguntávamos que nome vamos dar para o grupo? Foram vários nomes, escolhemos Fraternidade Esperança porque: Fraternidade porque nós vivemos num mundo que tem muita desunião,viver a Fraternidade e Esperança para suscitar a esperança lá onde não existe, nos milhões de empobrecidos e marginalizados, por isso o nome Fraternidade Esperança.342

A identificação, o sentimento de pertencimento ao grupo, nos parece ser os elementos presentes na organização grupal, que teria culminado na decisão de

338 Carta redigida por Frei Fábio Panini à Dom Gregório Warmeling. op. cit. p. 06. 339

Nos documentos e livros consultados não há consenso quanto ao número de religiosas que se desligou da Congregação das Irmãs da Divina Providência. Körbes, Irmã Madalena em seu livro cita 46 num momento e mais a frente cita 52. No impresso Fraternidade Esperança, 1995 consta que foram 60 religiosas. Devido a essa divergência de informação, optei em usar aproximadamente 60 religiosas.

340 KÖRBES, Irmã Madalena. História da Congregação das Irmãs da Divina Providência. p. 100. 341 Esse fragmento da entrevista teve palavras substituídas do original para se ajustar de acordo com

solicitação feita em 13/05/2009 pela autora do depoimento.

desligamento da antiga Congregação. O princípio de Vida Religiosa defendido já no final dos anos 1960, dentro do CCJ e na atuação individual dessas religiosas tomou-se a base de elaboração para o Projeto de Vida desse grupo: ‘suscitar a esperança lá onde não tem, nos milhões de empobrecidos e marginalizados’.

Identificamos no documento encaminhado a Dom Gregório, datado de 09/09/1978, que as intenções religiosas de atuação eram claras e objetivas.

Ser resposta aos sinais dos tempos hoje na Igreja: colocar-nos ao lado do oprimido, marginalizado – o pobre. Nosso serviço junto ao irmão consistirá em lhes ser revelação do amor de Deus, sinal de esperança de vida e estimulação a sua libertação cristã. Para isto, nós nos propomos engajarmos em obras de cunho educacional, especialmente de educação de base; na área da saúde de comunidade343 e da promoção social e humana, em consonância

aos planos de pastoral da igreja local.344

Nas intenções de atuação aparece a identificação com os ‘oprimidos e marginalizados’, dando especial atenção à ‘educação de base, saúde de comunidade e promoção social humana’ os três aspectos básicos que eram desenvolvidos nos CDIs, conforme já apontados no capitulo II. Nisso há vestígios que a experiência iniciada no ano de 1975 continuou presente influenciando amplamente a vida religiosa dessas mulheres.

Pelos indícios encontrados nos parece que a referida experiência subsidiou a Assembléia Geral da Fraternidade Esperança, de 28/12/1978 a 05/01/1979, sendo referenciada na elaboração do Projeto de Vida onde constam as áreas de atuação:

Nossa atuação se desenvolverá no mundo do trabalho rural e suburbano, nas áreas pesqueiras e reservas indígenas, servindo-nos de ferramentas e metodologia próprias, para desencadear um processo de libertação, apoiando e integrando iniciativas e organizações populares 345.

Além das áreas de atuação, também se faz referência ao que se visa enquanto grupo religioso: ‘desencadear um processo de libertação, apoiando e integrando iniciativas e organizações populares’, sinalizando para a identificação desse grupo, não apenas com as áreas empobrecidas, mas como um movimento maior que acontecia no Brasil da educação popular, nas organizações de bairros e de trabalhadores.

343 A opção religiosa de engajamento na promoção da saúde comunitária foi representativa na organização

da Pastoral da Saúde da Arquidiocese de Florianópolis, estudada por MACHADO, Marilane. Do institucional ao comunitário: a Pastoral da Saúde em Florianópolis (1970-1990). Dissertação, 2007 (Mestrado História Cultural). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

344 Carta com informes de dados apresentada a Dom Gregório. 09/09/1978. Impresso. Arquivo Sede

Fraternidade Esperança. Bragança Paulista-SP. p. 3.

Como Associação Diocesana Fraternidade Esperança, com o apoio do bispo de Joinville que “consultando os seus Irmãos de Episcopado no regional de Santa Catarina e deles ter recebido a expressa concordância (...)346”, as acolheu ciente de que todo o Regional Sul IV da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reconhecia como legitima a identificação religiosa que de ora em diante passavam utilizar e que “o que pretendem com seu estilo de vida me parece corresponder às necessidades do mundo que aí está. Toda vida religiosa surgiu sempre como resposta a problemas reais e concretos da história.347” Assim sendo, conforme documentos consultados referentes à identidade jurídico-canônica do grupo religioso, o mesmo, pelas características que apresenta perante as leis da Igreja – Direito Canônico, é denominado Instituto Religioso em Formação. No ano de 2002 organizou-se e aprovou-se a criação da Associação de Vida Religiosa Fraternidade Esperança, com estatuto civil. Pela necessidade que se sentia para organizar o patrimônio comum desse grupo, que se resume a sede geral e algumas moradias populares em que residem comunidades de Irmãs.348

No ato de acolhimento dessas religiosas, Dom Gregório as acolheu com uma carta349 de igual teor, direcionada nominalmente a cada uma dessas mulheres.

Recebi o seu pedido e o acolho de coração aberto. (...) Sabemos que você não vem de mãos abanando. Traz consigo muita riqueza interior: paz e alegria natural e espontânea. Maturidade, respeito e personalidade. (...) Nos últimos tempos você viveu horas amargas e difíceis. Não guarde nenhum ressentimento de nada. Não vale a pena. Não perca seu tempo em ruminar o passado. Não leva a nada. (...) Faça da comunidade uma verdadeira família. (...) A comunidade será o que o grupo fizer dela. Sinta verdadeira alegria em voltar para sua comunidade. 350

No trecho acima, Dom Gregório incentiva as freiras a esquecer os momentos tristes do passado, animando-as a viver uma comunidade religiosa de acolhida e alegria, destacando que cada uma tinha qualidades e méritos pessoais e religiosos que lhes davam condições de fazer um trabalho digno dentro dos princípios católicos de vida consagrada no grupo ao qual se uniam e se identificavam.

Abaixo temos a figura de um dos símbolos que identifica a Fraternidade Esperança.

346Carta redigida por Frei Fábio Panini à Dom Gregório Warmeling. op. cit. p. 6. 347 Carta redigida por Frei Fábio Panini à Dom Gregório Warmeling. op. cit. p. 12.

348 cf. KÖRBES, Irmã Madalena. História da Congregação das Irmãs da Divina Providência. op. cit.

p. 160-161.

349 Anexo 08.

Mapa símbolo: princípios de Vida Religiosa da Fraternidade Esperança. Foto retirada de arquivo da autora.

No mapa da América Latina, onde estão impressas as principais características do grupo Fraternidade Esperança, consta a auto-definição que essas pessoas assumem ser ‘um grupo de mulheres cristãs que optaram viver vida religiosa comunitária inserida nos meios populares’. Podemos inferir a partir da frase presente no símbolo identitário do grupo que se reafirma a opção pelos espaços populares no qual se orientou todo processo de ressignificação religiosa.

Ao identificarem-se com a realidade de pobreza e miséria que muitas pessoas vivem, essas religiosas se identificam com a realidade não só brasileira, mas também latino americana, algo premente do próprio documento de Medellín que as inspirou tantas vezes no seu processo de constituição. Dessa forma “O carisma das Irmãs da

Fraternidade Esperança expandiu-se além das fronteiras do Brasil, em dois outros países latino-americanos: Bolívia e Nicarágua.351

Foto representando tronco de origem e árvores co-irmãs. Foto retirada de arquivo da autora.

O contato inicial com a comunidade da Bolívia e da Nicarágua se deu da seguinte maneira:

A Fraternidade Esperança Boliviana nasceu de contatos informais com a Irmã Esperanza Ruiz. Os contatos começaram em 1979. Com as visitas mútuas, a partir de 1980, consolidou uma comunhão profunda de tal forma que se consideravam comunidades irmãs. (...) cada Fraternidade estabeleceu seu Projeto de Vida a partir de sua realidade, em plena autonomia. As irmãs bolivianas são especializadas em Educação e Vida. A Fraternidade Esperança

351 KÖRBES, Irmã Madalena. História da Congregação das Irmãs da Divina Providência. op. cit.

brasileira conheceu o grupo da Nicarágua através da Irmã Esperanza Ruiz da Bolívia. Ambas estavam interessadas em educação popular. A missionária Vida Esperanza Cerrato trabalhava como o povo em aldeias da Costa Atlântica no interior de Bluefields e a ela se juntaram várias companheiras dispostas a realizar a mesma missão. Fundaram assim as “Misioneras Franciscanas” em 15/01/1981.352

Mesmo compartilhando interesses comuns de atuação com educação, todos os grupos desempenharam sua ação junto às comunidades empobrecidas, cada comunidade de religiosa continuou mantendo sua identidade individual, Projeto de Vida distinto, contudo se estabeleceu entre si uma parceria de trabalho contribuindo para o aprimoramento dos três grupos.

Entre os três grupos há um compromisso de intercâmbio em todos os sentidos. Houve algumas irmãs brasileiras que fizeram a experiência de conviver por semanas e até meses na Nicarágua, e dentre elas, três já estiveram no Brasil e na Bolívia, para crescimento na partilha e no apoio mútuo. 353

Possivelmente essa experiência tenha influenciado para que a Fraternidade Esperança use até hoje o slogan: “presença missionária na América Latina”, afinal outros dois grupos de religiosas também são frutos da Teologia da Libertação e dos apelos de Medellín, tal qual o grupo brasileiro.

Como ficaram os CDIs nesse processo todo? Se quem os mantinha financeiramente, eram o CCJ e a Sociedade Divina Providência, quem acreditava nesses Centros eram as religiosas que se desligaram da Congregação, então eles foram fechados, abandonados à própria sorte ou alguém se responsabilizou por essas unidades?