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4. C ASO PRÁTICO DE ESTIMAÇÃO DO EAD/CCF POR H ORIZONTE T EMPORAL 1 A NÁLISE E XPLORATÓRIA DAS AMOSTRAS

4.1.1. R ECOLHA DAS AMOSTRAS E TRATAMENTO DOS DADOS

Na recolha da amostra de contratos em incumprimento foi considerada a atual definição de incumprimento consagrada nos normativos europeus, especificamente no Regulamento Europeu n.º575/2013, bem como nas recomendações emitidas pela EBA. No âmbito destes normativos, considera-se em incumprimento uma empresa que mantém consecutivamente durante 90 dias uma dívida superior a 500 € ou sobre a qual se verifique um elevado grau de probabilidade de incumprimento das suas obrigações creditícias. Assim, recolhidas as empresas em situação de incumprimento foram selecionadas apenas as que detinham 1 ou mais contratos de linhas de crédito com limites explícitos. Estes

37 contratos referiam-se a linhas de crédito com um limite máximo de 1 milhão de euros, detidos por empresas que foram classificadas, na data de referência, como uma pequena e média empresa, de acordo com a recomendação europeia. A amostra contempla contratos que entraram em incumprimento entre o período de janeiro de 2010 a dezembro de 2014, perfazendo os 5 anos de histórico mínimo de dados estabelecido no regulamento europeu. A amostra de desenvolvimento contemplou os incumprimentos até dezembro de 2013 e a amostra de validação os incumprimentos ocorridos no ano de 2014.

Foram realizados alguns tratamentos adicionais aos dados. Nos casos em que a empresa detinha mais de 1 contrato, foram somados os limites e os montantes utilizados, para que a cada empresa correspondesse apenas uma observação de EAD, evitando a redundância da informação, conforme recomendado por Moral (2006). Adicionalmente, foram realizados alguns testes à qualidade de dados, tendo sido retirados os registos com limites nulos, EAD nulos ou contratos sem detalhe do tipo de empresa. A eliminação destes contratos visa garantir que as estimativas representam a realidade dos portefólios. No primeiro caso, tais situações referem-se a cortes totais das linhas que embora se mantenham nas bases de dados não caracterizam o comportamento deste portefólio, sendo que a sua inclusão iria representar CCF observados incoerentes (pois sendo o denominador sempre negativo um aumento da exposição teria um CCF negativo e uma diminuição da exposição um CCF positivo). O segundo caso por não representar a realidade do portefólio, onde se verificaria o pagamento da totalidade da dívida, foi também filtrado da amostra, pois a sua inclusão teria um impacto negativo nas médias do CCF (os quais seriam maioritariamente extremos negativos, que embora forçados a 0% iriam reduzir a média do CCF observado). No último caso, a eliminação deve-se à falta de informação quanto à dimensão da empresa, o que impossibilitava a garantia da definição «SME as Retail» adotada no presente relatório.

A amostra continha informação mensal sobre as características da empresa, as características do contrato, saldos de contas com a instituição e ainda informação financeira referente a 2 anos antes das datas de referência. Adicionalmente, foi também incluída informação mensal referente à situação da empresa face a dívidas e a pagamentos em atraso noutras instituições financeiras. Esta informação é disponibilizada pelo Banco de Portugal, na Central de Responsabilidade de Crédito.

Para a recolha das observações de CCF foi definido um horizonte temporal de observação de T=12 meses. Assim, no método de horizonte temporal fixo, considerou-se uma observação por empresa que correspondia ao 12.º mês anterior à data de incumprimento.

38 No método de horizonte temporal variável consideraram-se as 12 observações mensais anteriores à data de incumprimento. Note-se que a cada contrato não estão necessariamente associadas 12 observações, uma vez que em muitos casos verificou-se a existência de cortes na linha (i.e. limites nulos) meses antes do incumprimento. Estes casos, como referido anteriormente, foram excluídos da amostra. Finalmente, a amostra global, após os filtros aplicados, constituía 26763 observações, onde a média do nível de utilização era de 96,2% e a média do CCF forçado ao intervalo unitário e ponderado pelo número de observações era de 11,4%. A amostra de desenvolvimento, cujo período foi anteriormente referido, constituía aproximadamente 82% da amostra global.

Para definir o período de recessão económica (i.e. downturn), utilizou-se o Indicador Coincidente da Atividade desenvolvido pelo Banco de Portugal25. Este indicador varia

com o PIB real e vários indicadores da atividade empresarial (p.e. o volume de vendas no comércio a retalho, índice de produção da indústria transformadora, etc.), permitindo obter uma perceção aproximada do estado da economia, sobretudo no contexto empresarial. Assim, para o período de recessão foram considerados os momentos onde este indicador era negativo. Pela análise deste indicador, desde 200026 verifica-se que o

período de maior recessão coincide com a amostra de desenvolvimento do modelo, entre o início de 2011 e o fim de 2013, isto é, aproximadamente 83% do total das observações. Por outro lado, o EAD médio observado da amostra global aumentou apenas marginalmente no maior período de recessão, sendo que o CCF médio27 também se

manteve relativamente estável ao longo do período de 5 anos, aumentando ligeiramente apenas entre julho de 2011 e fevereiro de 2012 (com uma média de 13,4% face à média da amostra de 11,4%). Neste sentido, considerou-se que a atual amostra é representativa de um período de downturn acentuado, pelo que as estimativas obtidas são conservadoras. No desenvolvimento dos modelos optou-se ainda por considerar apenas as linhas de crédito com nível de utilização inferior a 99%. A limitação da amostra a estas observações visou retirar os casos em que o limite era idêntico ao montante utilizado, os quais têm um CCF de 0% e os casos onde o montante utilizado era superior ao limite, que originavam CCF observados incoerentes (dado o denominador ser negativo). De facto, ao analisar a amostra de CCF, decompondo-o nas várias situações que podem ocorrer, verifica-se que

25V. Um Novo Indicador Coincidente para a Economia Portuguesa; Banco de Portugal; Boletim

Económico - junho 2004, paginas 21 a 29.

26Consultar em Anexos, o Anexo III. 27Consultar em Anexos, o Anexo IV.

39 uma grande percentagem (cerca de 56% no horizonte temporal variável) correspondia a contratos com linhas totalmente utilizadas. Por outro lado apenas uma reduzida percentagem correspondia a aumentos efetivos na exposição (12,1% no horizonte temporal variável). Tal como referido por Moral (2006), verificaram-se mais casos de extremos negativos do que positivos, que têm um impacto significativo nas médias da amostra (-45.785,0% no VTH e -185.959,5% no FTH). No horizonte temporal variável, 18% das observações são reduções de dívida que provocam uma média de -288.190,5%, mas apenas 1,7% são situações onde o EAD supera o limite e onde a média é de 179 264,0%. Em suma, apenas 12,1%das observações representam efetivamente acréscimos na exposição onde a média se aproxima dos 71%. Do mesmo modo, no horizonte temporal fixo, apenas 15,3%acréscimos efetivos da exposição, embora a média seja mais elevada que no método anterior (aproximadamente 82%). Outro aspeto importante neste portefólio é o elevado nível de utilização médio em ambos os métodos, que poderá dever- se à elevada dependência das PME no financiamento bancário para suporte da sua atividade operacional. No horizonte temporal variável cerca de 83,7% das observações têm um nível de utilização superior a 95%, diminuindo ligeiramente no horizonte temporal fixo para os 78,6%. Em ambos os métodos, caso se optasse pela limitação da amostra ao nível inferior a 90% (tal como em Barakova et al., 2013), ter-se-ia uma diminuição significativa de observações, o que poderia afetar a estabilidade das estimativas. Assim, embora se tenha testado o impacto de diferentes filtros nas médias do CCF observado, optou-se por utilizar o nível de utilização de 99% referido, pois garante a incorporação do maior número de observações, sobretudo no método de horizonte temporal fixo que contempla apenas uma observação por empresa. Não obstante, nos modelos de regressão testou-se o impacto nas estimativas da restrição da amostra aos contratos com nível de utilização inferior a 85%, dado que apresentava menor concentração de CCF negativos. Note-se que para efeitos de validação dos modelos assumiu-se um CCF de 0% onde o nível de utilização era superior a 99% ou, no caso dos modelos de regressão alternativos, a 85%. Contrariamente ao expectável, não se assumiu um CCF de 100% dado que esta opção iria reduzir o EAD estimado, pois nestes casos o limite é inferior ao montante utilizado.

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4.1.2. CARACTERÍSTICAS AMOSTRAIS POR HORIZONTE TEMPORAL