ENQUADRAMENTO JURÍDICO-LABORAL
5. O CONTRATO DE TRABALHO À LUZ DO DECRETO N.º 4
5.1 R EQUISITOS PARA A CELEBRAÇÃO DO CONTRATO DE TRABALHO
O artigo 18.º, do Decreto n.º 43190, estipulava a necessidade da redução do contrato a escrito e da homologação pelo Instituto Nacional de Trabalho e Previdência (INTP)230 dos contratos celebrados entre empresas ou entidades que realizassem espectáculos e divertimentos públicos e os profissionais de espectáculos e estagiários. A mesma obrigação estava consagrada no artigo 19.º, no caso de o contrato ser celebrado entre o profissional de espectáculos e empresas produtoras de filmes. Note-se que o § 2.º, do artigo 18.º, fixava que o contrato apenas seria consensual quando fossem parte, entre outros, os organismos do Estado e as autarquias locais. O contrato deveria mencionar as obrigações assumidas por ambas as partes, designadamente o salário, a forma do seu pagamento, a data do início e, sublinhe-se, a data do seu termo, entre outros aspectos regulados no artigo 20.º do referido diploma231. Os contratos deveriam ser entregues em sextuplicado no INTP, exigindo o artigo 21.º que um dos exemplares tivesse as assinaturas reconhecidas pelo notário.
Desta forma, estabelecia-se a regra da existência de um termo resolutivo no contrato dos profissionais de espectáculos. Inverte-se a regra que vigora nos contratos de trabalho da lei geral, em que o legislador evita a contratação a termo232 233. No sector
230 Podíamos substituir Instituto Nacional de Trabalho e Previdência por Ministério de Trabalho, mas sabemos que não é totalmente correcto. Uma leitura no site do Ministério da Segurança Social e do Trabalho sobre a génese e desenvolvimento deste Ministério desde 1916 até aos dias de hoje, fez-nos optar por manter “Instituto Nacional de Trabalho e Previdência”.
231 O contrato também deveria mencionar as condições das viagens a realizar, quando necessário; por força do mesmo artigo 20.º, os profissionais não poderiam comprometer-se a actuar de forma gratuita, a não ser em espectáculos de beneficiência; no caso de estar em causa um espectáculo tauromáquico, o contrato deveria ser acompanhado do programa da corrida, conforme rezava o § 1.º, daquele artigo. 232 O artigo 10.º, da LCT, permitia a celebração de um contrato a prazo, sempre que motivos sérios o justificassem. Todavia, este artigo foi revogado pelo Decreto-Lei n.º 781/76, de 28 de Outubro, onde se estabeleceu um sistema moderadamente restritivo. Por sua vez, este Decreto-Lei foi revogado pelo Decreto-Lei n.º 64-A/89, de 27 de Fevereiro, em que o legislador evitou ao máximo a contratação a termo, nos termos do artigo 41.º do referido diploma, só sendo possível celebrar um contrato de trabalho a termo nas situações taxativamente enumeradas naquele artigo, observados todos os requisitos formais estipulados no artigo 42.º, conjugado com o artigo 3.º, da Lei n.º 38/96, de 31 de Agosto. Desde o dia 1 de Dezembro de 2003 está em vigor a Lei n.º 99/2003, de 27 de Agosto (Código de Trabalho): o artigo 129.º permite celebrar um contrato de trabalho a termo apenas para satisfazer necessidades temporárias de uma empresa e pelo período necessário para a satisfação dessas mesmas necessidades; todavia o n.º 2 daquele artigo faz uma enumeração meramente exemplificativa de “necessidades temporárias da empresa”, quando a melhor forma de proteger o trabalhador seria uma enumeração taxativa daquelas situações. 233 O INTP, se assim o entendesse, poderia fixar o modelo de contrato a adoptar, por força do § 3.º, do mesmo artigo 20.º.
67 dos espectáculos, o raciocínio é diferente, tendo em conta as especiais características de um contrato de trabalho de um profissional de espectáculos.
Os contratos não poderiam ser aprovados se as empresas não estivessem registadas na Inspecção dos Espectáculos e se não tivessem prestado caução, conforme preceituava o artigo 23.º, 1), uma vez que em virtude do art. 35.º (também revogado pelo Decreto- Lei n.º 38/87) “as empresas teatrais, de variedades e circo e quaisquer outras registadas na Inspecção dos Espectáculos ou divertimentos públicos que utilizem com carácter regular o trabalho de profissionais de espectáculos” deveriam constituir uma caução depositada à ordem da referida Inspecção, com o fim de garantir as suas obrigações contratuais e o pagamento das contribuições que fossem devidas à Segurança Social. Ora foi esta a razão principal porque surgiu o Decreto-Lei n.º 38/87: havia consciência de que não se reduziam os contratos dos Profissionais de Espectáculo a escrito, precisamente para “fugir” à constituição daquela caução234
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A Secção IV, “Das garantias das obrigações contratuais”, foi, igualmente revogada pelo diploma de 1987; os artigos 35.º a 44.º consagravam a obrigatoriedade das empresas constituírem uma caução, regulamentando a forma como esta deveria ser prestada235 e o artigo 45.º, bem como o artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 43181, consagrava o direito das empresas exigirem aos seus contratados uma fiança, como forma de garantir o cumprimento dos contratos celebrados para a realização dos espectáculos fora do país.
234 Já o Decreto n.º 44233, de 12 de Março de 1962, veio permitir à Direcção-Geral do Trabalho e Corporações autorizar a redução do montante das cauções.
235 Estas normas têm algum interesse para o presente estudo, todavia, não o suficiente para que seja feita uma análise exaustiva sobre elas. Temos, no entanto, que realçar que as empresas teatrais, de variedades e circo, bem como quaisquer outras registadas na Inspecção dos Espectáculos, e mesmo as empresas produtoras de filmes, que utilizassem regularmente o trabalho dos profissionais de espectáculos, deviam prestar uma caução de valor igual aos encargos médios prováveis com os respectivos salários durante 45 dias de exploração normal, acrescida do pagamento das importâncias devidas à Caixa de Previdência destes profissionais, durante o mesmo período. Qual a finalidade desta caução? Era garantir as obrigações contratuais daquelas empresas e do pagamento daquelas importâncias devidas à Caixa. No que respeita às empresas tauromáquicas, apenas tinham que prestar caução relativamente a cada espectáculo. A referida caução podia ser prestada de diversas formas: depósito em dinheiro ou em títulos do Estado, seguro ou garantia bancária, à ordem do INTP. Destaque-se, por último, que as cauções só podiam ser levantadas seis meses depois do termo do período de garantia, a não ser que a empresa provasse que tinha todos os encargos por essa forma garantidos; porém, no caso de ser uma empresa tauromáquica, aquele prazo reduzia-se para 8 dias. Cfr. artigos 35.º, 36.º, 39.º e 44.º, do Decreto n.º 43190.
68 No que respeita aos requisitos de celebração do contrato de trabalho, gostaríamos, ainda, de fazer referência a duas regras que se integram na secção III, que temos vindo a analisar, que respeitam ao local de trabaho e à pluralidade de empregadores. Relativamente ao primeiro, os profissionais de espectáculos não podiam ser obrigados a actuar fora do local normal de trabalho, para efeitos de radiofusão sonora ou visual, por força do contrato celebrado e essa actuação teria sempre que ser objecto de um acordo separado, conforme se poderá observar no artigo 26.º e no seu § único, do Decreto n.º 43190236. Quanto à pluralidade de entidades empregadoras, o profissional de espectáculos só podia celebrar contratos com duas ou mais empresas, desde que os respectivos contratos o permitissem e tal não prejudicasse cada uma das actuações, por força do artigo 27.º, daquele decreto; assim sendo, a actividade do artista a várias entidades dependia da anuência dos vários empregadores.
Uma regra bastante interessante, não inserida na secção III, mas nas disposições diversas e transitórias, era o artigo 49.º: os profissionais de espectáculos que não cumprissem as obrigações assumidas, causando, desta forma, graves prejuízos às empresas e aos outros profissionais, estavam sujeitos à pena de suspensão do exercício da profissão até dois anos, aplicada por uma comissão corporativa ou por um conselho237 (esta pena só podia ser aplicada, depois de ouvido o trabalhador).