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VEÍCULO E LOCAL

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1.3 R EVISTAS DIRECIONADAS A PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Foram selecionadas doze revistas direcionadas a profissionais de saúde - duas a cada mês de coleta – de diferentes especialidades (Quadro 4).

Quadro 4: Revistas selecionadas.

Data de coleta Revistas Selecionadas

2013 2014

Dez Jan Fev Mar Abr Mai Arquivos Brasileiros de Cardiologia (ABC)

Volume 101 - Nº 1 - julho de 2013 Arquivos Brasileiros de Cardiologia Volume 101 - Nº 2 - Agosto de 2013

Endocrinologia e diabetes clínica e experimental Volume 13 - Nº 2 – Out/Nov/Dez de 2012 Endocrinologia e diabetes clínica e experimental Volume 13 - Nº 4 – Jan/Fev/Mar de 2013

Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis Volume 24 Nº 3 2012 Psiquiatria Clínica

Volume 40 Nº 2 2013

Jornal Brasileiro de Oftalmologia Nº 160 Nov/Dez de 2013

Revista Brasileira de Ortopedia Volume 48 Nº 6 Nov/Dez de 2013 Revista Brasileira de Neurologia Volume 48 Nº 6 Out/Nov/Dez de 2012 Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Volume 62 Nº 1 2013

Revista da Sociedade Brasileira de Cancerologia Ano XVI - Nº 52 - 4º Trimestre de 2012

Vox Otorrino

Edição 135 - Ano XIX - Mai/Jun 2013 Fonte: autoria própria

4.2 Coleta

Foram coletadas no município de Niterói-RJ um total de 164 peças publicitárias no período de dezembro de 2013 a maio de 2014, sendo que 58 peças em consultórios, 59 em hospitais e 47 em revistas (Figura 1).

Figura 1. Número de peças publicitárias coletadas por período e local de coleta. Niterói – Fevereiro/2015.

O número de peças captadas foi maior do que as peças coletadas de dezembro de 2008 a maio de 2009 através da terceira fase do projeto Monitora da ANVISA em parceria com a UFF, quando foram coletadas 56 peças publicitárias - 27 peças em consultórios, 29 em hospitais e nenhuma em revistas (CASTILHO et al., 2008).

Das peças coletadas, 156 são de medicamento de venda sob prescrição médica (95%) e 8 de venda isenta de prescrição médica (5%), o que é um número esperado, visto que a coleta focou em veículos e locais cuja propaganda era direcionada a profissionais de saúde.

Uma parcela das peças publicitárias de medicamentos sob prescrição médica (12,2 %) estava disponível na internet, ou seja, ao alcance do público leigo – o que não é permitido pela legislação sanitária. Essa irregularidade pode viabilizar o aumento da automedicação e o uso irracional de medicamentos.

Em relação à categoria, das 164 peças coletadas, 154 peças eram de anúncios de medicamentos de marca (94%), 3 peças de medicamentos genéricos (2%) e 7 de medicamentos biológicos – vacinas (4%).

Os resultados acima também eram esperados visto que a propaganda é focada principalmente na marca do medicamento. As peças coletadas de medicamentos genéricos foram captadas em hospitais públicos, onde o processo licitatório ocorre pelo menor preço (GARCIA, 2012), logo, a propaganda é focada na substância e preço do medicamento, sendo direcionada ao gestor de compras da unidade.

Já em relação à data de impressão da peça publicitária, a maior parte das peças coletadas era do ano de 2013 (54%), sendo 51 (31%) publicadas no primeiro semestre de 2013 e 38 (23%) no segundo semestre do mesmo ano (Figura 2). Três peças não apresentaram a data de impressão, informação obrigatória e importante, visto que sem essa informação, a empresa poderá justificar que a peça é antiga, anterior à vigência da legislação atual, impossibilitando a aplicação da sanção penal no caso de qualquer irregularidade presente.

Figura 2. Data de impressão das peças publicitárias coletadas. . Niterói – Fevereiro/2015.

Em relação à coleta em consultórios médicos, as especialidades gastroenterologia e endocrinologia foram as que mais contribuíram com peças publicitárias (31 peças coletadas). Nas especialidades dermatologia e neurologia não foi coletada nenhuma peça (Figura 3).

Figura 3. Número de peças publicitárias coletadas por especialidade médica em consultórios.Niterói –

Fevereiro/2015.

Nos hospitais, a maior parte das peças coletadas foi captada em hospitais privados (Figura 4).

Figura 4. Número de peças publicitárias coletadas por hospital. Niterói – Fevereiro/2015.

Esse resultado pode estar relacionado, conforme mencionado acima, ao enfoque da propaganda ser feito na marca do medicamento e, nos hospitais públicos, o processo de compra se dá por licitação – menor preço (GARCIA, 2012). Logo, os hospitais particulares tenderiam a serem alvos mais interessantes para a indústria farmacêutica. Além disso, vários órgãos públicos têm políticas restritivas a esta prática em suas unidades assistenciais (BRASIL, 2010b).

Em contrapartida, muitas peças também foram coletadas no Hospital Universitário Antônio Pedro, um hospital público de ensino. Esse resultado pode estar relacionado às estratégias de marketing das indústrias farmacêuticas, por intermédio de propagandistas, direcionadas às escolas de medicina objetivando influenciar a prescrição futura de seus medicamentos. Isso se dá através da distribuição de brindes e subsídios para participação de congressos, criando uma relação de obrigação moral e fidelidade entre a empresa e o futuro prescritor (TREVISOL et al., 2010).

Atualmente não há regras sobre a atuação dos propagandistas nas universidades brasileiras e, principalmente, junto aos estudantes. Esse tema não é muito discutido durante a graduação dos futuros médicos. Com isso, a maior parte dos alunos desconhece as estratégias da indústria farmacêutica para a promoção de seus produtos e se tornam vulneráveis (PERES e JOB, 2010). Por esse motivo, aconselha-se a proibição da propaganda de medicamentos em ambientes onde circulam acadêmicos de medicina (PALÁCIOS et al., 2008)

A figura 5 apresenta o número de peças publicitárias coletadas em publicações técnicas dirigidas a profissionais de saúde. Nota-se que a quantidade de propagandas em revistas científicas é alta, o que pode prejudicar a qualidade acadêmica das mesmas. Vinte e duas peças - (47%) do total de peças coletadas em revistas - foram captadas de publicações relacionadas à psiquiatria e neurologia (Figura 5), ou seja, publicações relacionadas à saúde mental e anúncios, em sua maioria, de medicamentos sob controle especial. Nove peças (19%) foram captadas de publicações relacionadas à cardiologia (Figura 5), fato que pode estar relacionado à transformação do perfil epidemiológico brasileiro, caracterizado pelo aumento da incidência de doenças cardiovasculares (ARAÚJO, 2012) tornando essa área como um nicho de mercado interessante para a indústria farmacêutica.

Em relação aos laboratórios/indústrias farmacêuticas, foram coletadas peças publicitárias de 41 laboratórios diferentes. Observou-se que 78% são laboratórios multinacionais e 61% comercializam apenas medicamentos de marca.

A metodologia de coleta favoreceu a obtenção de peças de diversas classes terapêuticas (Figura 6).

A principal classe terapêutica presente no material coletado foi antimicrobianos/antiparasitários/antifúngicos. Resultado semelhante foi observado por Luchessi e colaboradores (2005) e por Barros e Joany (2002). Cabe ressaltar que atualmente a dispensação de medicamentos antimicrobianos de venda sob prescrição exige receita de controle especial (BRASIL, 2010c). Assim, é razoável supor que a indústria farmacêutica tenha ampliado a propaganda dessa classe terapêutica junto aos prescritores objetivando estimular a prescrição de suas marcas e não perder vendas.

Outro fato relevante é que 33 das 164 peças coletadas (20%) eram de medicamentos controlados pela portaria 344/98 (Figura 7).

Figura 7. Medicamentos controlados - classe terapêutica e respectivo local de coleta das peças. Niterói –

Fevereiro/2015.

Os antidepressivos foram a classe de medicamentos controlados pela portaria 344/98 com maior número de peças coletadas (10 peças – 30,3 %), seguida por anestésicos (8 peças – 24,2%), antipsicóticos (5 peças – 15,2%), indutor de sono (3 peças – 9,1%), outros fármacos que atuam no sistema nervoso central (3 peças – 9,1%), psicoestimulante (2 peças – 6,1%), anticonvulsivo (1 peça – 3%) e antiparkinsoniano (1 peça – 3%).

Mastroianni e colaboradores (2008) ao analisarem a propaganda de medicamentos psicoativos distribuídas pelos representantes da indústria farmacêutica a médicos em clínicas, unidades básicas de saúde e hospitais do município de Araraquara (SP), durante o ano de 2005, observaram resultados semelhantes. O estudo apontou que 39,8% das propagandas coletadas eram de medicamentos antidepressivos (MASTROIANNI et al., 2008), não coincidentemente, o uso dessa classe de medicamentos aumentou na última década (RIBEIRO, 2014).

Um fato importante detectado é que 13 (39%) das 33 peças de medicamentos controlados coletadas foram captadas em hospitais e consultórios médicos, o que contraria a legislação sanitária vigente que determina que os propagandistas podem utilizar material de ajuda visual que façam menção aos medicamentos sob controle especial sem deixar esse material com o profissional.

A propaganda ou publicidade de medicamentos sob controle especial, sujeitos à venda sob prescrição médica, com notificação de receita ou retenção de receita, somente pode ser efetuada em revistas de conteúdo exclusivamente técnico, referentes a patologias e medicamentos, dirigidas direta e unicamente a profissionais de saúde habilitados a prescrever e/ou dispensar medicamentos (BRASIL, 1998b).

Os principais argumentos, utilizados em mais de 50% das peças publicitárias coletadas, eram indicação/ação do produto e eficácia e/ou segurança (Figura 8). Outros argumentos utilizados com frequência são informações sobre a doença e escolha do medicamento para tratá-la (8,5 %), preço (6,1 %), rapidez/prolongamento de ação (6,1 %), novidade/inovação (4,9 %), otimização do tratamento pela junção de fármacos no mesmo medicamento (4,9%), entre outros (Figura 8).

Figura 8. Argumento das peças publicitárias coletadas. Niterói – Fevereiro/2015.

Como observado, os argumentos são focados nos benefícios e vantagens do medicamento. São os itens de maior destaque nas peças publicitárias.

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