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73 RAÇA, IDENTIDADE E MASOQUISMO ORIGINÁRIO

No documento http://www.conpdl.com.br/anaisconpdl6 (páginas 73-78)

O masoquismo originário é a posição de entrada de todo sujeito que se constitui: é preciso assujeitar- se e fazer o princípio do prazer funcionar a partir das fronteiras daí advindas para que se constitua um eu. Será sempre em resposta a esse masoquismo originário que as identidades irão se formar. Há, certamente, vias facilitadas na cultura que mantém o sujeito atrelado à passividade e ao lugar de objeto. Destacam-se duas vias régias para esse tipo de tradução: o gênero feminino e a raça negra. Imperativos superegoicos incessantes vão conduzir aquelas e aqueles designados nesses lugares (mulheres, negras e negros) à posição passiva, de ódio dirigido a si mesmo. Um dos objetivos do racismo é “negar ao negro a possibilidade de autodefinição” (Nascimento, 2017, p. 94).

Quero destacar quatro passagens no livro de Carolina para mostrar como a insígnia preta/preto se mostra ambivalente. Há uma luta por reconhecimento e por investimento em si mesma, mas há também a articulação forte da insígnia ao pior.

Ao “é pena você ser preta”, Carolina nos diz:

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É o obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça, ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta. (Jesus, 2014, p. 64).

Comentando a proibição de negros na escola nos EUA: “Fico pensando: os norte-americanos são

considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol.” (Jesus, 2014, p. 122).

Segue, no entanto, mais uma passagem na qual Carolina reconhece sua condição racial como causa também de sua miséria: “A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.” (Jesus, 2014, p. 167).

Finalmente, observemos como Carolina trabalha a metáfora da escravidão / animalidade: “Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. ... o mundo é como o branco quer” (Jesus, 2014, p. 70).

A metáfora do cabelo é ambivalente: mesmo que queira ressaltar a qualidade educada, incomoda a ideia de atrelar, mais uma vez, a obediência a algo que é parte do fenótipo negro. De qualquer forma, trata- se de uma resposta a alguém que lamenta o fato de Carolina ser negra, ao que ela sustenta o desejo de “voltar sempre preta”. A mesma defesa de uma identidade irrecusável é feita quando ela comenta as

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políticas segregacionistas norte-americanas. No entanto, segue presente em seu discurso a cor preta

atrelada a uma vida dura e ruim.

Finalmente, numa passagem fortíssima, Carolina associa livremente pensando na desventura da vaca, designando-a como escrava e explicitando que há um outro em todas essas cenas, um outro que produz efetivamente o negro como posição masoquista para um gozo sádico branco: “Devo incluir-me, porque eu tambem sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo.” (Jesus, 2014, p. 37). O branco queima, o branco joga no lixo, poderíamos explicitar o sujeito dos verbos. O veredicto sádico-anal do branco encontra sua tradução facilitada na cultura racista: da mensagem “tu não deves existir como sujeito” a tradução masoquista que se impõe é essa: “sou rebotalho”.

Quais são as operações psíquicas e sociais que constroem e mantêm as vias facilitadas do racismo como códigos tradutivos? O racismo já não seria uma forma de sistematizar e organizar o mal-estar de conviver com a diversidade transformando-a em diferença opositiva? As operações racistas são descritas de forma exemplar por Taguieff (2001): a recusa ao contato, a rejeição ou exclusão do outro, o desprezo e o rebaixamento, a dominação e a exploração, e até o extermínio. Tais operações não seriam uma tradução sádica do masoquismo originário dos brancos (e outros grupos hegemônicos) de tal forma a simbolizar num só objeto a passividade a ser evitada e ao mesmo tempo excitantemente produzida?

RACISMOS

Há duas grandes perversões sociais que são vias facilitadas pré-conscientes que servem de tradução para nosso masoquismo originário: o racismo e o machismo. Pode-se dizer que todas as pessoas se constituem banhadas por mensagens – explícitas e/ou enigmáticas – que incitam e excitam o sujeito a produzir seus arranjos pulsionais de tal maneira a sempre compactuarem em alguma medida com essas duas perversões e suas múltiplas derivações.

Obviamente, tais perversões sociais, por mais universais que sejam, incidem no sujeito como código tradutivo. Isto quer dizer que cada um fará uma tradução e um uso singular desses códigos: da adesão à recusa mais ferrenha; da inibição intelectual quanto ao desejo de saber sobre essas perversões à crítica aberta e solidária a essas perversões.

A adesão e a resistência a esses códigos encontram enormes variações, de tal forma que se torna imperioso usar o plural para designar tais posições morais: machismos, racismos. As derivações do primeiro compreendem a homofobia e a misoginia como exemplos. No segundo, as discriminações por fenótipo (cor e formas de corpo) ou por pertencimento a grupos (religiosos, étnicos, nacionalistas,

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p.ex.) são as derivações mais comuns. Cada sujeito pode circular por vários desses campos, ativa e/ou

passivamente, sendo alvo de ataques e/ou atacando.

Aceitas essas premissas básicas, declarar que alguém é racista e machista envolve uma distinção importante. A adesão mais consciente e deliberada, a prática repetida mesmo depois das críticas e de tempo razoável de elaboração: são critérios como esses que fazem distinguir a prática perversa atuada como gozo particular daquela outra, generalizada e universal, que situa todos e todas, sem exceção, no campo dos códigos perversos do racismo e do machismo. Neste último caso, a operação do código perverso se dá a partir do pré-consciente. Uma vez reconhecida sua presença e atuação, aquela(e) que persiste em utilizar o código, isto é, aquela(e) que “sabe, mas mesmo assim...”, é quem deve ser considerado dentro do campo da perversão propriamente dito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, tentei avançar uma hipótese para um projeto de pesquisa de longo prazo. A psicanálise brasileira tem ainda uma dívida considerável para com os estudos sobre o racismo. Há uma série de questões clínicas e institucionais decorrentes do racismo no Brasil e que afetam diretamente o fazer psicanalítico. Fica meu convite, a partir da organização VI CONPDL e também desse pequeno texto, para que novas pesquisas sejam possíveis sobre esse tema tão fundamental para nosso ethos.

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REFERÊNCIAS

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autoria

resumo

FERNANDA CANAVÊZ

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

CONTATO: [email protected].

Inspirado pelo despejo de Carolina Maria de Jesus, relegada aos recônditos da cidade em função de sua classe social, o trabalho trata do tema da experiência urbana na

contemporaneidade a partir do referencial psicanalítico. Parte-de da ideia de que a negação do acesso à cidade pode produzir um excesso traumático, concorrendo, assim, para a redução dos corpos a uma objetificação radical. Para a consecução desse objetivo, lança mão da articulação entre o campo da psicanálise e das artes visuais contemporâneas, com destaque para o comentário de trabalhos de dois artistas.

PALAVRAS-CHAVE: cidade, corpo, trauma, arte, psicanálise.

O corpo despejado:

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