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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 TOMADA DE DECISÃO: COMPROMETIMENTO ORIENTADO PELA RAZÃO?

2.1.2 Racionalidade limitada: um olhar sob a teoria da decisão

O estudo sistemático da ação de decidir na esfera das organizações possibilitou a origem da teoria da decisão, ou seja, o estudo formal dos processos decisórios e das preferências como resposta a problemas organizacionais e administrativos. Sua evolução se dá a partir de concepções comportamentais, que dão o suporte para compreender a decisão como uma construção de etapas, oferecendo uma perspectiva mais humana e racional.

A busca da compreensão do processo decisório com inserção de aspectos cognitivos nos ambientes organizacionais tem provocado o aumento de inúmeras pesquisas nesta área. Em todo tempo, o ser humano está realizando a ação de tomar decisões, sempre vislumbrando o alcance de um determinado objetivo. Vários fatores podem influenciar este processo, tais como suas experiências, informações disponíveis, crenças. De acordo com Kahn e Katz (1978), os fatores psicológicos devem ser estudados no processo decisório, juntamente com uma discussão dos limites cognitivos da racionalidade. As questões comportamentais mais estudadas em psicologia cognitiva com desdobramentos para a Contabilidade concentram-se nas heurísticas, nos vieses motivacionais, na justiça, na tomada de decisões e na escalada irracional do comprometimento (BAZERMAN, 2004).

Desde os aportes tradicionais da microeconomia sobre tomada de decisão (década de 1940), os quais tinham como foco as regras para a tomada de decisão racional (VON NEUMANN; MORGENSTERN, 1944), uma série de abordagens alternativas sobre o processo decisório foi proposta. Uma das novas visões sobre o processo decisório de maior destaque no cenário atual provém da Psicologia Cognitiva, a partir da década de 1970 (PLOUS, 1993; TVERSKY; KAHNEMAN, 1974). As pesquisas em Psicologia Cognitiva enfatizam a forma como o

processo decisório realmente ocorre, ao invés de seguir os aportes dos estudos da microeconomia e, portanto, o foco em racionalidade.

Os estudos sobre tomada de decisão sob o enfoque da Psicologia Cognitiva têm se dedicado a investigar a forma como os seres humanos tomam decisões na realidade, ou seja, não seguindo regras, mas buscando a racionalidade dentro dos limites.

A tomada de decisão tem sido objeto de pesquisas e estudos tanto no meio acadêmico quanto no mundo dos negócios, o que vem a consolidar esta área do conhecimento como de grande interesse e contribuição para a compreensão do comportamento humano. Edwards (1954) mostrou que as pesquisas sobre tomada de decisão eram desenvolvidas por economistas, matemáticos, estatísticos e filósofos. Quatro décadas depois, consolidou-se uma área de investigação interdisciplinar em torno do comportamento de decisão, já que compreendia modelos vindos da economia, psicologia social, psicologia cognitiva, estatística e outras ciências, como a Contabilidade (PAYNE; BETTMAN; JOHNSON, 1992).

Quanto à tomada de decisão, é muito importante deixar clara a distinção do que é uma boa decisão e um bom resultado. A decisão não pode ser definida simplesmente como aquela que levou a um bom resultado, a um "final feliz", pois existem muitos fatores (como os eventos aleatórios) que estão fora do controle do tomador de decisão. De acordo com Souza (2002), uma boa decisão é aquela baseada nas informações, valores e preferências do decisor e na qualidade do processo decisório, enquanto um bom resultado é aquele que é considerado favorável ao decisor.

A teoria da decisão não é uma teoria descritiva ou explicativa, já que não faz parte de seus objetivos descrever ou explicar como ou porque as pessoas agem de determinada forma ou tomam certas decisões. Trata-se, ao contrário, de uma teoria prescritiva que pretende ajudar pessoas a tomarem decisões de acordo com um conjunto de critérios bem definidos em face de suas preferências básicas, e pode ser aplicada a problemas de diferentes níveis de complexidade. Com base nesta proposição, a teoria da decisão ajuda a obter a solução de um problema mais complexo, pois o ser humano tem capacidade cognitiva limitada; assim, tem limitações para compreender e processar todas as informações que recebe.

Em uma pesquisa publicada no Journal Information Technology and Management sobre a teoria da decisão, levando em conta aspectos cognitivos, os autores investigaram quais foram os fatores que influenciaram um indivíduo a adquirir produtos em lojas virtuais. Os achados indicaram que o tipo de personalidade do consumidor tem um efeito perceptível sobre a facilidade de utilização e com a influência de colegas; essas duas variáveis, juntamente com a utilidade percebida, têm um efeito sobre a eventual decisão de um consumidor para a compra de um produto numa loja virtual (BARKHI; WALLACE, 2010).

Segundo Kaufman (1999), a teoria da decisão pode ser definida como um processo decisório que compreende um conjunto de procedimentos e métodos de análise que procuram assegurar a coerência, a eficácia e a eficiência das decisões tomadas em função das informações disponíveis, antevendo possíveis cenários.

A visão orientada para o processo decisório, por parte daqueles que atuam no campo de análise e teoria da decisão, teve sua origem nos fundamentos teóricos dessa disciplina. Suas raízes, de acordo com Fishburn (1989), são muito antigas, mas sua forma moderna surge com a teoria da utilidade esperada e a teoria dos jogos.

Por outro lado, nas décadas subsequentes, o resultado (e não o processo) das decisões foi considerado o principal valor na definição da qualidade, e as pessoas, por não conhecerem a teoria da decisão, orientavam-se pelo senso comum.

Segundo Russo e Schoemaker (1993), a explicação para essa valorização do resultado em detrimento do processo advém do fato de as organizações frequentemente recompensarem ou punirem seus funcionários com base nos resultados alcançados, negligenciando o desempenho nos processos. No entanto, ainda é forte entre os autores da teoria da decisão a importância do processo ao resultado para se avaliar a qualidade de uma decisão.

Outra corrente de pensamento defendida por Edward (1954) diz que o princípio que orienta uma boa decisão é a maximização da utilidade subjetiva esperada. A grande questão que surge a partir daí, então, é como conseguir estruturar a decisão e obter os números relacionados a esta.

O principal critério de avaliação oferecido pela teoria da decisão é a consistência. Uma boa decisão seria uma decisão consistente. Esse critério confirmou a relevância do processo na avaliação da qualidade de uma decisão e captura apenas uma pequena parcela do que deve fazer parte da noção de uma boa decisão.

Outra forma de abordar a qualidade de uma decisão é oferecida por Kiss (1984). O autor argumenta que não existe uma boa decisão e que a solução ótima de um modelo não é a solução ótima de um problema, a menos que o modelo seja a representação perfeita do problema, o que nunca ocorre. Com base nesta afirmação, e considerando que a decisão é tão boa quanto o modelo que se está gerenciando, o autor conclui que a qualidade de uma decisão será sempre imperfeita ou que não existirá uma boa decisão.

Simon (1978) argumenta que, em situações com alto grau de incerteza e envolvendo questões de elevada complexidade cognitiva, é levada em conta a racionalidade do processo, além da racionalidade das ações escolhidas.