Alexandre Júnior (2012, p. XIV) afirma que a retórica, ao lado da gramática, da lógica e da poética, “não é uma ciência
a priori [...], é o produto da experiência consumada de hábeis
oradores, a elaboração resultante da análise das suas estratégias [...]”, pois desde
Homero que a Grécia é eloquente e se preocupa com a arte de bem falar. Tanto a Ilíada como a Odisseia estão repletas de conselhos, assembleias, discursos; pois, falar bem era tão importante para o herói, para o rei, como combater bem (ALEXANDRE JÚNIOR, 2012, p. XIV).
Barthes (1975) relata que o surgimento da retórica está ligado aos processos de direito à propriedade ainda incipien- tes na Sicília em 485 a.C., nos quais começaram a mobilizar “grandes júris populares, diante dos quais, para convencer, era necessário sobretudo ser ‘eloquente’” (BARTHES, 1975, p. 151). Segundo Alexandre Júnior (2012, p. XVII), nessa mesma época, a arte do diálogo começa a se desenvolver em Eleia e “graças a uma habilidade prodigiosa de articular estes dois métodos, a Grécia inteira adere ao fascínio e ao deslumbramento de ver discutir e dissertar sobre qualquer tema [...]”, de onde podemos encontrar as origens tanto da retórica quanto da dialética, duas modalidades da argumentação.
Alexandre Júnior (2012) menciona ainda que, graças aos elogios de admiradores e aos ataques de Platão (cf. PLATÃO, 1991), Górgias foi o mais célebre entre aqueles que seguiram a vertente retórica, sendo enviado a Atenas em 427 a.C. na quali- dade de embaixador da Sicília e, aí então, se estabelecendo como professor de dialética e retórica. Ainda em seus primórdios, a retórica se viu num conflito com a filosofia, decorrente espe- cialmente das reflexões de Platão acerca da retórica filosófica e da retórica sofista. Com relação a isso, Alexandre Júnior (2012, p. XXIII) sintetiza que Platão, em Fedro, defende uma retórica filosófica e, em Górgias, rejeita uma retórica sofista. Por sua vez, McCoy (2010, p. 96) sugere que Platão escreve Górgias com o objetivo de “examinar criticamente o discurso filosófico, e não apenas rebater a retórica sofística”, assim “Platão junta os dois para explorar mais profundamente a natureza e o valor da filosofia”, questionando, por exemplo, “noções conflitantes do racional e do que constitui o bom argumento”.
Discípulo de Platão, Aristóteles posiciona-se, entretanto, favoravelmente à retórica, produzindo entre 350 e 315 a.C. os três livros de sua Retórica, em que, segundo Alexandre Júnior (2012, p. XXVII-XXVIII), critica seus predecessores por priorizar o discurso judicial em detrimento dos demais gêneros, negli- genciar o uso da argumentação lógica em favor das emoções e valorizar a estrutura formal do discurso. Alexandre Júnior (2012, p. XXVIII) destaca que a “grande inovação de Aristóteles foi o lugar dado ao argumento lógico como elemento central na arte de persuasão”, afirmando que a “Retórica é sobretudo uma retórica da prova, do raciocínio, do silogismo retórico; isto é, uma teoria da argumentação persuasiva”.
Não é sem razão que Aristóteles define a retórica como correlata à dialética logo no primeiro enunciado de sua Retórica: “A retórica é a outra face da dialética” (Retórica, Livro I, 1354a). Como explica Alexandre Júnior (2012, p. XXIX-XXX), a expres- são “outra face” é a tradução encontrada para antístrofe [άντίστροφος], que, como bem explica o autor, “é um termo tomado de empréstimo do movimento de um coro na execução das odes corais: a estrofe denota seu movimento numa direção; a antístrofe, seu contramovimento”. Portanto, nos termos de Alexandre Júnior (2012, p. XXIX), “a verdadeira retórica é uma forma de argumentação comparável à dialética”, visão esta que é corroborada por Segurado e Campos (2007, p. 81-82), ao esclarecer que a retórica e a dialética:
• compartilham o mesmo objetivo de obter um efeito de persuasão (sobre o auditório, no caso da retórica; sobre o oponente no debate, no caso da dialética) e o mesmo ponto de partida (proposições não necessariamente verdadeiras, mas verossímeis);
• mas se distinguem na apresentação formal da argumen- tação (o discurso longo no caso da retórica; o método de indagação por pergunta e resposta no caso da dialética) e no método que empregam para persuadir (na retórica, o entimema e o exemplo; na dialética, o raciocínio dedutivo).
Para situar as raízes da racionalidade demonstrativa e sua oposição à racionalidade argumentativa, é necessário compreender que, conforme Segurado e Campos (2007, p. 82-83), a dialética, embora se assemelhe à analítica “na apresentação e na estrutura formal, dado que tanto uma como a outra praticam o método de pergunta e resposta” e se estruturam por meio do silogismo (dialético e apodítico, respectivamente), essas duas artes não compartilham a mesma finalidade (a persuasão, na dialética, e a demonstração, na analítica) nem o mesmo ponto de partida (o verossímil, na primeira, e o verdadeiro, na segunda), ao passo que “a retórica e a analítica divergem por completo uma da outra”. Para uma visualização bem mais precisa dessas distinções e aproximações, vale a pena reproduzir o quadro-síntese de Segurado e Campos (2007, p. 82):
Quadro 1 – Aproximações e distinções entre Retórica, Dialética e Analítica
Retórica Dialética Analítica Finalidade
a atingir Persuasão Persuasão Demonstração Ponto de
partida Verossímil Verossímil Verdadeira Apresentação
formal Discurso longo Pergunta Resposta Pergunta Resposta Estrutura
formal Entimema Exemplo (dialético)Silogismo (apodítico)Silogismo Fonte: Segurado e Campos (2007, p. 82)
Considerando essas relações entre as três artes antigas, Kennedy (1994, p. 52) afirma que Aristóteles, em seus Analíticos, “foi a primeira pessoa na história a desenvolver uma exposição da lógica formal, incluindo a teoria do silogismo”. Kennedy recapitula que a dialética, além de “uma forma de exercício
que treinava os alunos no método, exigindo argumentos dos dois lados de uma questão”, é também a “aplicação da lógica a questões filosóficas”, tal como descrita por Aristóteles em seu tratado intitulado Tópicos, em que as tópicas “são as estratégias lógicas empregadas na dialética e úteis na retórica também”, uma vez que descreve vinte e oito tópicas em sua Retórica. Nesse sentido, Alexandre Júnior (p. 29) diz que “esta mudança de sentido entre o valor da retórica em Platão e o valor da retórica em Aristóteles foi de algum modo assumida por C. Perelman”, pois, “ao reescrever Aristóteles, ele abre caminho a uma nova retórica, fundindo por assim dizer a Retórica e os Tópicos”.
Essas distinções fundamentais entre as três artes anti- gas – a analítica, a dialética e a retórica – são um ponto de partida muito valioso para compreender, nesse debate milenar que opôs a filosofia à retórica, o posicionamento de Perelman (1992, p. 25)3 em subordinar a lógica filosófica à nova retórica, defendendo aí a argumentação retórica. Assim, é com base nessas distinções que Perelman parte da lógica da razão, da verdade, para propor uma lógica do preferível, pois entende que, diferentemente da racionalidade demonstrativa da lógica, a retórica é uma disciplina prática, da qual não se pode exigir o falso e o verdadeiro, mas se argumenta sobre o razoável, sobre o opinável.