2. A DOUTRINA DO DIREITO EM EMMANUEL KANT
2.1. RACIONALISMO E ESCLARECIMENTO EM EMMANUEL KANT
Entre os problemas propostos pela gnoseologia está a origem do conhecimento, do qual trataremos sob viés da doutrina de Kant. Mister ressaltar o que Jerphagnon diz a respeito, como se segue:
Toda a filosofia alemã dos séculos XIX e XX será uma interpretação e um desenvolvimento do kantismo. Os grandes pós-kantianos trarão um aprofundamento e um enriquecimento do que Kant iniciara. [...] O neokantismo assumirá uma posição francamente aritmética e pretenderá reduzir o kantismo à crítica do conhecimento. 273
Entretanto, para tratar da teoria do conhecimento e do racionalismo em Kant, necessário se faz entender as correntes filosóficas do conhecimento que antecedem Kant. Três posições fundamentais tentaram resolver a questão da origem dos elementos que contribuem para formar o conhecimento, quais sejam, o empirismo, o racionalismo e o
criticismo.
Empirismo é toda corrente de pensamento que sustenta ser a origem única ou fundamental do conhecimento a dada pela experiência, ou ainda, pela experiência sensorial. 274 O conhecimento, para os empiristas derivaria da sensibilidade. Locke chega a afirmar que “[...] são as sensações o ponto de partida de tudo aquilo que se conhece. Todas as
271
BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no pensamento de Emmanuel Kant. Trad. Alfredo Fait. São Paulo: Editora Mandarim, 2000 p. 114.
272
Ibidem.
273
JERPHAGNON. História das grandes filosofias, 1992, p. 223.
274
idéias são elaborações de elementos que os sentidos recebem em contacto com a realidade”.
275
Os conhecimentos seriam a posteriori, ou seja, posteriores à experiência. Nas palavras de Reale:
Quaisquer que sejam as tendências do empirismo, o que o distingue e caracteriza é a tese de que todo e qualquer conhecimento sintético haure sua origem na experiência e só é válido quando verificado por fatos metodicamente observados, ou se rediz a verdades já fundadas no processo de pesquisa dos dados do real, embora sua validade lógica possa transceder o plano dos fatos observados. Daí a clara determinação de Bertrand Russelli: “empirismo pode ser definido como a
asserção de que todo conhecimento sintético é baseado na experiência”. 276
Assim para os empiristas, a observação sensível é a primeira fonte e o único juiz do conhecimento. E no campo do direito, sustentam que o direito é um fato que se liga a outros fatos através de nexos de causalidade, sendo que “[...] até mesmo os princípios mais gerais do direito seriam afinal redutíveis a fontes empíricas”. 277
A segunda tese que tenta explicar a origem do conhecimento é o
racionalismo. Os racionalistas se opunham a concepção dada à fonte do conhecimento dos
empiristas. De fato, não negam completamente que a observação é fonte de conhecimento, mas discordam da redução da verdade a uma pura ordem de fatos. 278 Distinguem eles as
verdades de fato e as verdades da razão.
As verdades de fato são contingentes e particulares, sempre suscetíveis à correção e geram resultados provisórios, sujeitos a retificações e verificações sucessivas. As verdades da razão, por outro lado, são inerentes ao próprio pensamento humano, tem atributos universais e são dotadas de certeza. As verdades da razão “[...] não se originam do fato, mas constituem condições do pensamento, para se conhecer até aquilo que está nos fatos, ou que pelos fatos se revela”. 279
Os racionalistas, no campo do direito, sustentam que, “[...] acima ou ao lado de um direito empírico, desenrolado na experiência, existe um Direito Ideal, um Direito Racional ou um Direito Natural”, 280 mediante o qual seria possível afirmar a validade ou a obrigatoriedade das regras jurídicas positivas.
275
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 9 ed., 1982. p. 87.
276
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 9 ed., 1982. p. 88.
277
REALE, op. cit., p. 92.
278
“O racionalista reconhece que o fato, aquilo que é dado de maneira direta a intuitiva, é elemento indispensável como fonte do conhecer, mas sustenta também que os fatos não são fontes de todos os
conhecimentos e que, por si sós, não nos oferecem condições de certeza”. (REALE, op. cit. p. 93)
279
REALE, op. cit., p. 92.
280
Da conciliação das duas correntes acima citadas, embora temerário o termo usado, advêm o criticismo de Kant. 281 O criticismo possui um valor próprio e autêntico, apesar de aderir e recusar algumas afirmações das outras correntes, “[...] por ter revisto a colocação mesma dos problemas. Essa atitude [...] resulta de uma análise dos pressupostos do
conhecimento”. 282
Reale realça o criticismo de Kant e nos ensina:
O que marca e distingue o criticismo kantiano é a determinação a priori das condições lógicas das ciências. Declara, em primeiro lugar, que o conhecimento não pode prescindir da experiência, a qual fornece o material cognoscível, e nesse ponto coincide com o empirismo (não há conhecimento da realidade sem intuição sensível); por outro lado, sustenta que o conhecimento de base empírica não pode prescindir de elementos racionais, tanto assim que só adquire validade universal quando os dados sensoriais são ordenados pela razão: - “os conceitos, diz Kant, sem as intuições (sensíveis), são vazios; as intuições sem os conceitos são cegas”.
283
Essa ideia central, de que nosso espírito condiciona nossa experiência, como se depreende do excerto acima, constitui a transcendentalidade de Kant, embora advirta Reale que a transcendentalidade não pode ser vista como modalidade de transcendência. 284 Conhecer, para Kant, é unir um elemento material de ordem empírica e intuitiva aos elementos formais de ordem intelectual. 285
Kant, em oposição ao racionalismo tradicional, conseguiu demonstrar que o “sujeito” também constitui o conhecimento, até mesmo no momento fundamental da “sensação” e isso se dá porque a sensação está condicionada ao espaço e ao tempo. Logo, conhecer é sempre submeter algo à nossa subjetividade, à medida que “[...] envolve sempre uma contribuição positiva e construtora por parte do sujeito cognoscente em razão de algo que está no espírito, anteriormente à experiência do ponto de vista gnoseológico”. 286 Portanto, no criticismo kantista, o conhecimento é sempre uma subordinação do real à medida do humano.
Kant conclui que o espírito é legislador da natureza e explica que “há formas e categorias a priori em nosso espírito, na sensibilidade e na inteligência, com uma
281
“Daqui o cepticismo de Hume, que sacudiu Kant (como ele próprio confessou) do seu sono dogmático e o estimulou a fazer investigações e a elaborar um sistema, cujo objetivo era a superação crítica do dogmatismo tradicional e do empirismo céptico” (DEL VECCHIO, Lições de filosofia do direito, 1979, p. 129).
282
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 9 ed., 1982 p. 100.
283
Ibidem
284
Ibidem. Reale continua explicando: “O transcendente põe-se lógica e ontologicamente além da experiência; o
transcendental é algo cuja anterioridade lógica em relação à experiência só se revela no decorrer da observação
dos fatos, ou seja, por ocasião da experiência mesma”.
285
Ibidem.
286
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 9 ed., 1982. p. 102. Exemplifica Reale: “[...] nós não podemos apanhar um bloco de neve, sem lhe imprimir a forma de nossos dedos. O que é conhecido conserva sempre os sinais das garras apreensoras de nossa subjetividade.”
função legisladora da realidade”. 287 Para o filósofo germânico, como para os demais criticistas, “não existem idéias inatas; não há na razão idéias inatas, mas certas formas ou categorias puras que coincidam a experiência, revelando-se em função dela.” 288
Esta é a revolucionária concepção da teoria do conhecimento em Kant, que deposita muita importância no sujeito-do-conhecimento e não no objeto-do-conhecimento, inovação esta “que ficou conhecida e celebrizada pelas próprias palavras de Kant como a revolução copernicana [...] com relação ao que se vinha entendendo sobre a matéria”. 289
Outro aspecto inovador e fundamental da doutrina kantiana é o que ele denominou esclarecimento (Aufklãrung), cujo slogan é sapere aude, ou seja, ouse saber. Este período foi caracterizado pela apologia a uma postura/atitude crítica. Mas afinal De contas, em que constitui o esclarecimento? Kant responde.
Esclarecimento [...] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de esclarecimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento.
290
Kant elícita aos homens para não se acomodem com o conhecimento que possuíam e propõe que saiam e busquem o conhecimento. Na concepção do filósofo alemão é muito comodismo dispor do ato de pagar pelo saber, ao invés de investigá-lo. Assim, tem-se que as causas do homem estar em estágio de minoridade intelectual, além de ser por vontade própria, Kant culpa o comodismo, a preguiça e a covardia. E essa situação de comodidade impede, pela facilidade que é receber as coisas nas mãos, que o homem saia desse estado turvo do conhecimento. 291
É por isso que os homens, para o filósofo alemão, não sabem fazer uso da liberdade que tem, pois de tão enraizado, o comodismo se torna natural para eles. Kant ainda realça a característica proposta pelo Esclarecimento:
As luzes do século XVIII revestem-se de particularidades que as distinguem da metáfora da luz utilizada em outras épocas. Elas trazem consigo um poder crítico e polêmico, podendo ser descrito como uma espécie de coragem, uma audácia contra
287
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 9 ed., 1982. p. 102.
288
REALE, op. cit., p. 109.
289
BITTAR, Eduardo Carlos; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de filosofia do direito. São Paulo: Atlas, 2 ed., 2002. p. 269.
290
KANT, Emmanuel. Textos seletos. Centro de investigação e divulgação CID, Textos clássicos do pensamento humano/2, Petrópolis: Vozes, 1974. p. 100.
291
Kant inclusive enumera alguns exemplos de comodismo: 1. ter um livro que faz as vezes de nosso entendimento; 2. um diretor espiritual que tem consciência em nosso lugar e 3. um método que decida nossa dieta. KANT, Emmanuel. Textos seletos, 1974, p. 115.
a perseguição (de não querer ver) e a covardia, mantenedora dos homens sob o julgo do obscurantismo. O tempo é que mostra a noite na qual peregrinaram os covardes, como algo pesado e que traz para a humanidade os seus piores males, a saber, a superstição, o argumento da autoridade, a estupidez dogmática, a intolerância e o despotismo, fiéis companheiros das instituições e das fórmulas intelectuais anteriores. 292
Importante lembrar, como anteriormente dito, que Kant é um dos principais representantes do iluminismo, e nesse trecho propõe-se a esclarecer o homem moderno com as luzes da razão.
Por derradeiro, Kant, como representante do Esclarecimento, propõe com isto que o homem se torne mais crítico, e ser crítico é ter posições independentes e refletidas, e ser capaz de pensar por si próprio e não aceitar como verdadeiro o simples estabelecimento por outros como tal, mas só após o examinar livremente e fundamentar de acordo com suas convicções.
Poderíamos responder se já estamos, em pleno século XXI, em status de “esclarecidos”? Posso responder a essa indagação o que Kant propõe (sua doutrina é também, de certa forma, contemporânea). Se uma época esclarecida é aquela em que os homens atingem sua maioridade pela capacidade não só de pensarem autonomamente, mas também de não se deixarem manipular, respondo negativamente a pergunta. O status de esclarecido é estágio alcançável com dificuldade. Não estamos em uma época esclarecida, estamos, nas palavras de Kant, em “via de esclarecimento”. 293
2.2. A TEORIA JURÍDICA NA OBRA DE EMMANUEL KANT: A PROPRIEDADE E