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negação de direitos civis e pela não reparação dos prejuízos históricos impostos à população negra, o que manteve os negros marginalizados e relegados a uma categoria identificada como sub-humana.
A discriminação, segundo Almeida (2019, p. 22), pode ser direta ou indireta. Ela é direta quando ocorre algum tipo de “repúdio ostensivo a indivíduos ou grupos, motivado pela condição racial” como, por exemplo, proibir o acesso de determinados grupos a certos locais ou recusar atendimento a clientes de determinada raça. A discriminação indireta, por outro lado, é mais difícil de ser identificada por não apresentar uma intencionalidade explícita. Ela se caracteriza em situações nas quais as condições específicas de determinados grupos são ignoradas ou quando são impostas regras que desconsideram a existência de diferenças sociais significativas em relação aos diferentes grupos raciais. Quando, por exemplo, durante a pandemia de Covid-19, foram estabelecidas medidas de restrição de circulação da população para controle sanitário, observou-se, como impacto adverso que, enquanto a população branca, em condições de maior estabilidade e com funções profissionais gerenciais, administrativas, informatizadas e/ou intelectuais pôde ficar mais em casa, a população negra, majoritariamente atuante em trabalhos informais, braçais e operacionais sem possibilidades de execução remota, acabou ficando mais exposta aos riscos de infecção, o que se refletiu em maiores taxas de mortalidade (E. L. S. S. Santos & França, 2020; L. I. da C. Silva et al., 2020).
Ainda segundo Almeida (2018), o racismo pode ser classificado como um fenômeno individualista e institucional, mas deve ser entendido, especialmente, como um fenômeno estrutural e complexo. Na concepção individualista, o racismo “é concebido como uma espécie de ‘patologia’ ou anormalidade” e seria um “fenômeno ético ou psicológico de caráter individual ou coletivo” a ser combatido juridicamente por meio de sanções civis aos grupos ou indivíduos praticantes (S. L. de Almeida, 2018, p. 24). “Sob este ângulo, não haveria sociedades ou instituições racistas, mas indivíduos racistas, que agem isoladamente ou em grupo” (S. L. de Almeida, 2018, p. 24).
A concepção institucional, por sua vez, considera que as instituições são “a materialização das determinações formais da vida social”, ou “o somatório de normas, padrões e técnicas de controle que condicionam o comportamento dos indivíduos” (S. L. de Almeida, 2019, p. 26), mas também como sistemas heterogêneos que, como parte da sociedade, carregam em si os conflitos sociais existentes.
Por essa perspectiva, a desigualdade racial não é causada, apenas, pela ação isolada de grupos ou de indivíduos racistas, “mas fundamentalmente porque as instituições são hegemonizadas por determinados grupos raciais que utilizam mecanismos institucionais para impor seus interesses políticos e econômicos” (S. L. de Almeida, 2019, p. 26). Deste modo, o poder fica restrito aos grupos
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que exercem domínio sobre as organizações políticas e econômicas da sociedade, e “a manutenção desse poder adquirido depende da capacidade do grupo dominante de institucionalizar seus interesses, impondo a toda sociedade regras, padrões de condutas e modos de racionalidade que tornem ‘normal’
e ‘natural’ o seu domínio” (S. L. de Almeida, 2019, p. 26).
Assim, o domínio de homens brancos em instituições públicas – o legislativo, o judiciário, o ministério público, reitorias de universidades etc. – e instituições privadas – por exemplo, diretoria de empresas – depende, em primeiro lugar, da existência de regras e padrões que direta ou indiretamente dificultem a ascensão de negros e/ou mulheres, e, em segundo lugar, da inexistência de espaços em que se discuta a desigualdade racial e de gênero, naturalizando, assim, o domínio do grupo formado por homens brancos (S. L. de Almeida, 2019, pp. 26–27).
Consequentemente, a partir da concepção institucional, entende-se que não bastam medidas de repressão sobre grupos ou indivíduos que praticam atos diretos de discriminação racial para que o racismo seja superado. Entende-se, outrossim, que o racismo pode ser alterado pela ação ou pela omissão dos poderes institucionais, os quais podem reforçar, manter ou modificar os mecanismos discriminatórios, inclusive estabelecendo medidas compensatórias ou “atribuindo certas vantagens sociais a membros de grupos raciais historicamente discriminados”, a exemplo das cotas para estudantes negros e de baixa renda nas universidades (S. L. de Almeida, 2019, p. 27).
Segundo Hamilton e Ture (citados em S. L. de Almeida, 2019, p. 28), primeiros autores a teorizar sobre racismo institucional, o racismo individual corresponde à ação de indivíduos brancos contra negros, enquanto o racismo institucional se refere a “atos de toda a comunidade branca contra a comunidade negra”. Além disso, os autores alertam que o racismo institucional é menos evidente, mais sutil e dissimulado, mas nem por isso menos destrutivo. Ademais, por se originar na operação de forças estabelecidas e respeitadas na sociedade, o racismo institucional recebe muito menos atenção e condenação pública que o racismo individual.
A concepção estrutural de racismo, finalmente, busca ir além da concepção institucional ao compreender que as instituições não criam, mas sim reproduzem e materializam o racismo que é inerente à estrutura social. “Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista” (S. L. de Almeida, 2019, p. 30). Assim, as relações cotidianas no interior das instituições tendem a reproduzir práticas sociais corriqueiras, inclusive o racismo, de modo explícito ou não, e, se nada for feito, “toda instituição irá se tornar uma correia de transmissão de privilégios e violências racistas e sexistas” (S. L. de Almeida, 2019, p. 31). Por esta perspectiva, o racismo transcende tanto o âmbito da ação individual quanto a questão da intencionalidade, uma vez que se entende que
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culposamente, isto é, mesmo quando não há intenção, quaisquer ações praticadas na esfera social tendem a ser racistas em função do caráter estrutural, o que torna indispensável, portanto, a intencionalidade objetiva de não ser racista para que esse processo seja interrompido.
Isso significa que, mesmo que não se tenham normas que forcem o negro a permanecer em posições desvantajosas, isso é indiferente porque as próprias estruturas econômicas, históricas e sociais operam contra os interesses dos negros, do que se depreende que o racismo só pode ser contornado por meio da implementação de práticas efetivamente antirracistas envolvendo múltiplas estratégias. Ademais, entende-se que ainda que indivíduos que cometam atos racistas devam ser responsabilizados (combate ao racismo individual) e que as instituições devam estabelecer medidas corretivas (combate ao racismo institucional), apenas punições jurídicas31 ou ações normativas circunstanciais, como cotas de representatividade, não são suficientes para evitar que a sociedade continue sendo “uma máquina produtora de desigualdade racial” (S. L. de Almeida, 2019, p. 33). Nesse sentido, a superação do racismo passa, necessariamente, por uma mudança de mentalidade e pela discussão sobre formas alternativas de organização social que compreendam a discriminação racial como parte essencial dos processos de exploração e opressão estabelecidos. Segundo Domingues (2022, para. 9), a perspectiva estrutural ressalta que
o racismo não se restringe a comportamentos preconceituosos ou atos discriminatórios de indivíduos ou grupos. Antes, diz respeito a uma estrutura social (relações políticas, econômicas, jurídicas, institucionais e até familiares) fundada em uma dinâmica que confere desvantagens e privilégios com base na ideia de raça.
Essa concepção, apesar de só ter ganhado força no Brasil mais recentemente, remete a um pensamento que já vinha se construindo em outros países várias décadas atrás. Nos anos de 1950, por exemplo, o psiquiatra Franz Fanon (2020), natural de Martinica, colônia francesa situada na América Central, já teorizava que a alienação do negro não se resume apenas a uma questão individual e é, outrossim, um fenômeno socialmente construído a serviço do sistema político capitalista, o que faz do racismo “um mecanismo de distribuição de privilégios em sociedades marcadas pela desigualdade”
(G. dos S. Rocha, 2015, p. 113).
Para Almeida (2019, p. 39), é pelo fato de ser estrutural, e, também, um processo político e histórico, que o racismo nos leva a “’naturalizar’ a ausência de pessoas negras em escritórios de advocacia, tribunais, parlamentos, cursos de medicina e bancadas de telejornais”. É também por isso que o
31 No Brasil, a Lei nº 7.716 de 1989 estabelece definições e penalidades para os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.
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racismo nos leva a “’normalizar’ que pessoas negras sejam a grande maioria em trabalhos precários e insalubres, presídios e morando sob marquises e em calçadas”. Ou o motivo pelo qual costuma causar estranhamento um médico negro ou um mendigo loiro de olhos azuis, dando a impressão de que as coisas estão “fora de lugar” ou “invertidas”. Na mesma linha, Ribeiro (2019, p. 21), para quem o racismo é um sistema de opressão que historicamente privilegia pessoas brancas e nega direitos a pessoas negras, ressalta que é justamente por causa do caráter estrutural do racismo que a população negra tem menos condições de acesso à educação de qualidade.
Geralmente, quem passa em vestibulares concorridos para os principais cursos nas melhores universidades públicas são pessoas que estudaram em escolas particulares de elite, falam outros idiomas e fizeram intercâmbio. E é justamente o racismo estrutural que facilita o acesso desse grupo. Esse debate não é sobre capacidade, mas sobre oportunidades — e essa é a distinção que os defensores da meritocracia parecem não fazer.
Para Sovik (2019, n.p.), o pensamento sobre a educação superior precisa ser racializado no sentido de se reconhecer a cultura universitária, de modo geral, como uma cultura institucional eurocêntrica baseada nos rituais e restrições. “Racializar, aqui, significa reconhecer a associação entre ser branco e o conhecimento universitário. Significa tirar de nosso caminho a fictícia universalidade desse conhecimento e desmistificar sua neutralidade política”, afirma a autora, destacando que este trabalho vem sendo realizado há décadas e que, no estágio atual, tem como cerne a ideia de descolonização.
Assim, tanto a perspectiva institucional, mas, especialmente a perspectiva estrutural ajudam a explicar como mesmo as instituições educacionais podem estar implicadas nos processos de discriminação e contribuir para a manutenção das desigualdades sob a lógica racista.