CAPITULO 3 – O racismo brasileiro e possibilidades de enfrentamento
3.1 Racismo no Brasil: características e impasses
Há que se atentarem às mudanças sofridas pela expressão do racismo, pois no período da colonização a norma vigente era de exploração e discriminação, época em que o racismo era aberto e flagrante. É importante destacar que essas manifestações existem ainda e precisam ser consideradas. No entanto, ao final da Segunda Guerra Mundial, Lima e Vala (2004) ressaltam a mudança no tratamento de questões relacionadas ao racismo, discriminação e exploração, principalmente, em decorrência das conseqüências do nazismo, que mobilizou a luta pelos direitos civis, culminando na Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 e, posteriormente, de maneira mais específica, vale mencionar a Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, em 2001.
É possível perceber, então, significativos progressos com relação à temática do racismo, principalmente com o surgimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para alguns, existe a sensação de que tais conflitos estão a ponto de se resolverem, no entanto, a realidade cotidiana nega essas expectativas (LIMA; VALA, 2004). Muitas pessoas acreditam que a questão do racismo tenha se resolvido no Brasil ou que está a caminho de uma resolução, principalmente quando nos deparamos com a Constituição brasileira, de 1988, que prevê a prática do racismo como um crime inafiançável com pena de reclusão. A participação do Brasil na Declaração de Direitos Humanos, em 1968, também colaborou com a falsa ideia de resolução do problema.
Embora algumas mudanças tenham ocorrido, Lima e Vala (2004) chamam atenção para a modificação nas formas de expressar o racismo, devido, em muitas situações, aos valores democráticos e também à pressão das leis antirracistas. Tal fato não é observado somente no Brasil, mas cada país apresenta uma peculiaridade diferente nessa manifestação. As novas maneiras de expressar o racismo da atualidade trazem em comum a forma indireta, disfarçada e sutil de se manifestar, pois, assim, a sensação que fica é de não haver a infração aos valores que constantemente são reafirmados na democracia.
A partir deste momento as formas de expressão do racismo e do preconceito mudaram tão significativamente que se poderia pensar que estes fenômenos estavam em extinção. Com efeito, uma série de pesquisas utilizando metodologias tradicionais de coleta de dados ou medidas diretas de atitudes raciais, feitas em épocas diferentes, demonstraram que as atitudes contra os Negros, em vários lugares do mundo, estavam mudando drasticamente (LIMA; VALA, 2004, p. 403).
Infelizmente, a temática do racismo ainda aparece no Brasil enquanto um conflito com o outro e, por isso, muitas vezes, as pessoas se negam a falar do assunto. Ferreira (2002) afirma que o fato do racismo no Brasil ser tratado como um problema do outro dificulta cada vez mais lidar com a questão, já que vivemos em um País em que falsamente acredita na convivência pacífica com as diferenças, e a ideologia da democracia racial está por trás dessa crença.
Dessa forma, atualmente, a sociedade brasileira apresenta uma dificuldade em assumir que ainda há racismo em nosso país. Essa é uma forma dissimulada de racismo, o que, para Julio Tavares – um dos profissionais entrevistados pela revista do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, é chamado de racismo cordial, considerado por ele ainda pior do que a discriminação aberta. De acordo com Julio, isso pode ser manifestado por um olhar ou por um gesto (CRP RJ-05, 2008). Lima e Vala (2004) ajudam a complementar a
ideia, mencionando que o racismo cordial ocorre por meio de uma civilidade superficial impregnada de discriminação e é evidenciado a partir de piadas ou brincadeiras ditas despretensiosas que envolvem a temática racial e se dirigem a um grupo específico de pessoas negras.
Também se deve referir que estas novas expressões de racismo, mais veladas e hipócritas, são tão ou mais danosas e nefastas do que as expressões mais abertas e flagrantes, uma vez que, por serem mais difíceis de ser identificadas, são também mais difíceis de ser combatidas (LIMA; VALA, 2004, p. 408).
Essa situação pode ser encontrada facilmente no cotidiano da população negra, como Djamila Ribeiro escreveu para o site Blogueiras Negras20. Por muito tempo, quando era adolescente, sentia-se receosa em passar perto de um grupo de garotos, pois ela quase sempre ouvia: “Olha, sua mina aí”, “E aí, não vai apresentar? ”. Em resposta, os rapazes, em geral, diziam: “Sai fora, está louco? ”, “Para de me zoar! ”. Quando se deparava com essa situação, preferia atravessar a rua antes de ouvir tais comentários que a machucavam. Constantemente, as pessoas diziam: “Deixa pra lá, é só uma brincadeira”. Djamila ainda comenta que os meios de comunicação circulam mensagens racistas ao associarem características como o cabelo de mulheres e homens negros, por exemplo, a algo ruim ou inferior. Grande parte das vezes, tais comentários são feitos como se fossem piadas, e Djamila menciona que os autores desses comentários passam a ser compreendidos por se tratar de “humor”. Mas ela questiona: “Por que se tem compreensão com quem está oprimindo e não com quem está sendo oprimido? ” e “Quem olhará pela menina negra que odiará seu cabelo por que fazem piadas sobre?”.
Para outra entrevistada pela revista do CRP RJ-05 (2008) – Maria Conceição Nascimento – existe também no Brasil o racismo institucional, que faz com que os negros passem a freqüentar somente certos tipos de lugares. De acordo com o documento de referência produzido pelo CREPOP (2013), o termo racismo institucional foi criado e difundido pelos ativistas integrantes do grupo Panteras Negras Stokely Carmichael e Charles Hamilton, em 1967 nos Estados Unidos. No racismo institucional é evidenciada a falha do Estado em promover a igualdade social devido à origem étnica, cor e cultura de determinados grupos. Isso os mantém em condições desfavoráveis de vida e não proporciona acesso a serviços e bens. A prática do racismo institucional, seja em estruturas públicas ou privadas, é a principal responsável pela violação de direitos da população negra no Brasil.
20 Dísponivel em: http://blogueirasnegras.org/2014/03/28/o-verdadeiro-humor-e-aquele-que-da-um-soco-no-
Entre seus desdobramentos, há o tratamento diferenciado e desigual no que diz respeito a políticas de educação, trabalho, segurança pública e meios de comunicação. Obviamente, é negado que o tratamento diferenciado ocorra por conta da cor da pele, mas a maneira que as situações ocorrem e a ausência de argumentos que busquem justificar a situação de desigualdade nos ajudam a constatar a existência do racismo institucional. Muitas vezes, as pessoas deixam de frequentar os lugares, por exemplo, escolas e centros de saúde, como uma reação à violência sofrida, ainda que não percebam o racismo presente na situação vivida (CREPOP, 2013).
É necessário fazer uma reflexão, considerar as pessoas brancas que são atendidas/trabalham no mesmo serviço e perceber como o processo se desenvolve com elas, se as mesmas atitudes e tratamentos diferenciados também ocorrem, se a percepção negativa também está presente. Dada a não verbalização, a expressão do RI [Racismo Institucional] na dimensão pessoal nem sempre é fácil de perceber, até mesmo pela vítima, mas, em maior ou menor grau, tem impacto negativo sobre o sujeito que é vítima da violência, que pode se sentir diminuído, constantemente desafiado e humilhado (CREPOP, 2013, p. 32 e 33).
No racismo institucional, as instituições, tanto públicas como privadas, reproduzem o que está posto nas relações sociais. A exemplo disso, a revista do CRP SP-06 (2014) cita o genocídio da juventude negra que é marginalizada e criminalizada pela Polícia Militar de São Paulo. Os entrevistados dessa edição – Márcio Farias e Marisa Feffermann – refletem como a Polícia Militar tem um histórico relacionado ao combate do elemento africano escravizado, tanto nas manifestações de samba, candomblé e capoeira, quanto, atualmente, no genocídio, legitimado pela lógica da população descartável: por conta do desemprego, os jovens negros não consomem e nem produzem, o encarceramento aumenta, com isso, as mortes se “justificam”. No exemplo citado, a ideia do negro estar associado à criminalidade é, mais uma vez, legitimada institucionalmente.
Novamente, recorro a outra notícia publicada no site do CEERT21 (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade), em maio de 2014, que explicita mais uma vez os lugares e papéis fixados que a população negra não deve exercer, principalmente quando se pensa em atividade intelectual. Mônica Gonçalves, uma estudante negra da faculdade Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), foi impedida pelos seguranças de entrar no campus de Medicina da USP (FMUSP) e os demais alunos (as) brancos (as), que também estavam no momento, puderam entrar. A estudante escreveu um texto para o site
Blogueiras Negras22, contando detalhadamente o que aconteceu. Desabafou sobre a falta de confiança demonstrada pelos seguranças com relação ao argumento dela e o constrangimento vivenciado desde a sua entrada negada até a escolta ao lugar onde ela precisava ir encontrar seus amigos, também estudantes, que a esperavam dentro do campus. Mônica afirma
É desse preconceito que queria falar, desse racismo que é institucional, pernicioso, estrutural, fundante das nossas relações, tão cristalizado dentro de nós que, para aquele guarda, me barrar estava justificado. Ele veio me lembrar que os pretos não podem entrar na universidade, que ali – no caso, aqui – não é nosso lugar23
No Brasil, pelo fato dos lugares sociais estarem demarcados, o problema do racismo se confunde com a questão da pobreza, parecendo não haver uma compreensão de que a pobreza é o resultado de toda essa estrutura. Ainda hoje a população negra vive em condições de existência desiguais quando comparada aos brancos brasileiros (FERREIRA, 2002). De fato, a exclusão sofrida pela população negra no Brasil, desde a escravidão, impediu a ascensão social e econômica dela.
Isso se torna mais evidente no depoimento de psicólogas negras entrevistadas pela revista “Psicologia, ciência e profissão”, quando Neli, uma das entrevistadas, afirma
O que eu vejo, o que existe mesmo de determinante, de desagregação é esse circulo vicioso — é negro e é pobre, sendo pobre não ascende e porque não ascende tem dificuldades aumentadas. Então, não é aceito, não tem acesso às coisas e é discriminado. (MOURA e cols, 1984, p. 13).
Nessa mesma linha, Olga, outra entrevistada, afirma que se percebe em uma condição diferente sendo negra, pois até pouco tempo o negro foi escravizado e sair dessa condição para chegar, por exemplo, a um curso de nível superior, é um caminho muito difícil. Mas, quando isso acontece, ela cita
Me parece que o negro, depois que ele chega a um determinado nível de formação, ele é aceito pela posição que tem e não pela própria pessoa que ele é. Quando sou apresentada a alguém, ao invés da pessoa dizer — Esta é Olga, minha amiga —, diz assim: — Esta é Olga, professora de Uberlândia, mestra ... aí vem todos os títulos. E isto numa situação social, onde não haveria necessidade desse tipo de apresentação (MOURA e cols.,1984, p. 10).
A fala de Neli, a partir de sua vivência, complementa tal discussão
Eu tinha primas brancas, louras e minha tia não me apresentava como membro da família. Quando terminei o curso normal, passei a ser a sobrinha professora, depois a
22 Dísponível em: http://blogueirasnegras.org/2014/05/05/que-cor-entra-na-usp 23 Idem 21.
sobrinha doutora, e as coisas mudaram. Então, se você tem acesso a uma formação, e principalmente, se de nível superior, a discriminação fica mais amainada. Mas, algo que sempre questiono, é como se dá essa aceitação. Se é pelo que eu sou enquanto pessoa, por mim mesma, ou pelo potencial que tenho a dar (MOURA e cols, 1984, p. 13).
Não precisamos, inicialmente, recorrer à literatura especializada para saber da ausência dos negros (as) nas instituições de ensino superior. Quando se pensa em faculdades particulares, basta recorrer às nossas experiências como estudantes de Psicologia e lembrar com quantas estudantes e docentes negras pudemos conviver ao longo do curso.
Interessante mencionar como tal exclusão hoje tende a ser justificada com estratégias de manutenção dos privilégios da população branca, que ajudam a perpetuar o racismo por meio do culto à meritocracia. Essa situação pode ser constatada principalmente quando se fala na inserção do negro no ensino superior. Com o neoliberalismo, a competitividade acirrou ainda mais os processos de exclusão social, e a luta para não sermos excluídos ajuda a fomentar significativamente a disputa. Segundo Guareschi (2001), competir no contexto da desigualdade pode ser, para uma minoria que ainda explora e domina, ganhar de antemão.
O valor neoliberal do individualismo24 é usado para legitimar a exclusão no
discurso do fracasso individual e para culpabilizar o sujeito que não consegue se inserir em certos contextos sociais. A exemplo disso, cito as Políticas de Ações Afirmativas, em especial, a existência de cotas para estudantes negros (as) em certas universidade Públicas no Brasil. É muito comum ouvir de pessoas que não são a favor das cotas o discurso de que todos devem entrar na universidade com as mesmas condições, pois as pessoas esforçadas são merecedoras. Por isso, não conseguir ingressar na universidade significa não ter se esforçado suficientemente. Essas reflexões não consideram o contexto sócio-histórico em que vivemos e construímos ao longo de tantos anos. As pessoas que pensam a situação do negro no País como uma questão econômica não se preocupam em compreender quais maneiras as práticas racistas impedem o negro de ascender economicamente (MUNANGA, 2012b).
Debater a temática do racismo pelo viés da classe social é uma estratégia usada com freqüência, mas, segundo Bento (2012), evita trazer à tona a discussão das diferentes dimensões de privilégios e benefícios do branco. Esse silenciamento permite, então, a não
24 O ser humano no projeto neoliberal é pensado como indivíduo, descolado de suas relações e de seu contexto
prestação de contas ou mesmo a não indenização/compensação por parte das elites brancas de todo processo opressivo e discriminatório vivido pelos negros no Brasil desde a escravidão. É preciso considerar que
A pobreza tem cor, qualquer brasileiro minimamente informado foi exposto a essa afirmação, mas não é conveniente considerá-la. Assim o jargão repetitivo é que o problema limita-se à classe social. Com certeza esse dado é importante, mas não é só isso (BENTO, 2012, p. 27).
Ao abordar a questão da exclusão e discriminação por meio do viés da classe social, mais uma vez é diluída a discussão sobre racismo, ou seja, não avançamos quanto ao combate e enfrentamento desse tipo de violência. Muitas vezes, em discussões sobre racismo, as pessoas se negam a falar por acreditarem que o próprio debate provoca o racismo. Há aqueles que até mencionam conhecerem muitos negros preconceituosos contra eles mesmos, transformando as vítimas em algozes e, mais uma vez, reiterando que o problema do racismo é do próprio negro.
As considerações que apresentei em relação ao racismo Brasil não se esgotam nos questionamentos levantados, já que, constantemente, novos elementos surgem para modificar o cenário da discussão. Isso também vale dizer quando pensamos na velocidade de informação dos meios de comunicação que tendem a se manter na superficialidade das notícias ou mesmo ajudam a difundir ideias, que chegam a muitas pessoas e que tendem a perpetuar o racismo ao naturalizar as relações raciais.